RESENHAS
O que é História Cultural?
  
   


 

Peter Burke
O que é História Cultural?
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 2005, 192p.
Resenha elaborada por Francisco Sodero Toledo

A Obra

Peter Burke procura neste livro explicar a emergência, a partir da década de 70, de um modo peculiar de compreender a História, tomando os aspectos culturais do comportamento humano como centro privilegiado do conhecimento histórico.
Esta emergência vincula, segundo ele, ao que chama de "virada cultural": uma guinada sofrida pelos estudos históricos, abandonando um esquema teórico generalizante e movendo-se em direção aos valores de grupos particulares, em locais e períodos específicos.
Dessa forma, antigos conceitos, como luta de classes e civilização são abandonados em prol de categorias explicativas de caráter regionalizado, em que as distinções culturais assumem importância maior que os elementos políticos e econômicos. A dimensão simbólica e suas interpretações passam a constituir o terreno comum se voltam os historiadores multiplicando os métodos e os objetos investigados.

O Autor

Peter Burke é professor aposentado de História da Cultura da Universidade de Cambridge, da Inglaterra. Tem vários livros publicados no Brasil.

Resenha

Na "introdução" (p.7-13) o autor chama atenção para o propósito do livro: o de explicar o que é história cultural e o que os historiadores culturais fazem. Enfatiza que, no mundo de hoje, as distinções culturais são mais importantes que as políticas econômicas, afirmando que desde o fim da Guerra Fria, " o que vemos não é tanto um conflito internacional de interesses, mas um choque de civilizações".
Descreve em seguida o lugar comum dessa corrente historiográfica: a preocupação com o simbólico e suas interpretações.

O primeiro dos seis capítulos em que é dividido a obra versa sobre " A grande tradição". (p.15-31) Nele Peter Burke afirma que a hc. não é uma descoberta ou invenção nova. Já era produzida na Alemanha com esse nome há mais de 200 anos. Em seguida esboça a sua história, dividida em quatro fases:
1ª - a clássica, entre 1800 a 1950;
2ª- história social da arte, que começou na década de 30;
3ª- história da cultura popular, na década de 60;
4ª- nova história cultural, a partir da década de 80.
A "grande tradição" inclui clássicos como A Cultura do Renascimento na Itália, do historiador suiço Jacob Burckhardt, publicado pela primeira vez em 1860, e Outono da Idade Média , de 1919, do historiador holandês Johan Huizinga. Este último perguntava: " Que tipo de idéia podemos formar de uma época... se não vemos pessoa alguma nela? Se só pudermos fazer relatos generalizados, vamos apresentar apenas um deserto a que chamamos de história."
Uma das expressões do período seguinte é a obra de Arnold Hauser que escreveu História Social da Arte, em 1951. Nele o autor vincula a cultura aos conflitos e mudanças sociais e econômicas.
A idéia da "cultura popular" se originou no mesmo lugar e momento da história cultural.: na Alemanha do final do século XVIII. No entanto, somente na década de 60 que um grupo de historiadores acadêmicos passou a estudá-la. Aponta como exemplo as obras de Eric Hobsbawn, A História Social do Jazz, de 1959 e a Formação da Classe Operária Inglesa, de Edward Thompson, de 1963. Nesse livro ele analisa o lugar da cultura popular no processo de mudanças econômicas e políticas na formação da classe. A influência de Thompson sobre historiadores mais jovens foi muito grande.

No capítulo II (p.32 a 43) o autor trata dos "problemas da história cultural".
Para ele os clássicos mostraram de modo muito claro suas fraquezas e assim, as fontes, os métodos e as suposições desses estudos precisam ser questionados.
Relaciona a seguir alguns exêmplos:
- em Outono da Idade Média, Huizinga utiliza poucas fontes literárias;
- o não tratamento de textos e imagens de um certo período como reflexos problemáticos de seu tempo;
- a necessidade de praticar a crítica das fontes;
- busca de alternativas para impedir a história cultrural ser impressionista;
- a crítica marxista de que a abordagem clássica fica no ar, faltando-lhe qualquer base econômica ou social e de superestimar a homogeneidade cultural, ignorando os conflitos;
- os paradoxos da tradição, pois uma aparente inovação pode mascarar a persistência da tradição e, inversamente, os signos externos da tradição podem mascarar a inovação;
- a distinção entre a cultura erudita e popular em uma dada sociedade, salientando ser preciso pensar as culturas populares no plural;
- a caracterização do termo cultura.

No capítulo III ( p. 44- 67) Peter Burke analisa " A vez da Antropologia histórica".
Para ele, a virada em direção à antropologia, foi um dos aspectos mais
característicos da prática da história cultural. entre as década de 1960 a 1990. Nesse tempo, aprenderam acerca da importância dos valores para explicar a produção, a acumulação e o consumo de riqueza, a usar o termo cultura no sentido mais amplo, e, chegou a hora da antropologia histórica.
A partir dos anos 60 o aumento do interesse pela cultura popular tornou a antropologia ainda mais relevante para os historiadores. Por outro lado, os historiadores reagiram às mudanças do mundo como um todo, como à perda de fé no progresso e à ascensão do anticolonialismo e do feminismo. Surgiram os "estudos pós-coloniais" e estudos preocupados tanto em desmascarar os preconceitos masculinos com em enfatizar a contribuição feminina para a cultura, praticamente invisível na grande narrativa tradicional.
A década de 1970 testemunhou a ascensão, ou pelo menos a definição, de um novo gênero histórico, a "micro-história", associado a um pequeno grupo de historiadores italianos, como Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Edoardo Grendi, que apontavam uma reação:
- contra um certo estilo de história social que seguia o modelo da historiografia econômica;
- ao encontro com a antropologia;
- à crescente desilusão com a chamada "narrativa grandiosa" do progresso, da ascensão da moderna civilização ocidental, da história triunfalista que passava por cima das realizações e contribuições de muitas outras culturas.
Cita as contribuições de dois livros publicados em meados da década de 70:
Montaillou, de Emanuel Le Roy Ladurie (1975) , e O Queijo e os Vermes (1976) de Ginzburg, ambos combinando sucesso acadêmico e apelo a um público mais amplo, valorizando as culturas regionais e conhecimentos locais. O grande problema enfrentado por Ginzburg, mas não por todos os seus imitadores, foi o de analisar a relação entre a comunidade e o mundo externo a ela. A ênfase na relação entre o local e o global.

"Um novo paradigma?" é a problemática tratada pelo autor no capítulo 4 (p.68-98)
A expressão "nova história cultural" entrou em uso no final da década de 1980 e se transformou na forma dominante de história praticada hoje. Ela segue um novo paradima, ou seja, um modelo para a prática "normal" da qual decorre uma tradição de pesquisa.
O novo estilo deve ser visto como uma resposta aos desafios já descritos à expansão do domínio da cultura e a à ascensão do que passou a ser conhecido como teoria cultural. Ela dá ênfase às mentalidades, suposições e sentimentos. Apresenta também grande preocupação com a teoria. Dentre os teóricos importantes para os praticantes da NHC, cita: Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Michel Foucault e Pierre Bourdieu.
"Práticas" é um dos paradigmas da NHC. A história das práticas religiosas e não da teologia, a história da fala e não da linguística, a história do experimento e não da teria científica.
Outro aspecto importante na NHC é reservado para o estudo das representações. Pela nova preocupação com o papel ativo da imaginação, enfatizando as combinações criativas de elementos oriundos de pinturas, contos populares e rituais. O resultado é de que muitas formas de representação, sejam elas literárias, visuais ou mentais, foram estudadas nas últimas duas ou três décadas.
Outra forma de NHC que atualmente passa por um surto de expansão é a história da memória, algumas vezes descrita como memória social ou memória cultural.
Na década de 1980 e 1990 alguns historiadores culturais voltaram-se para o estudo da cultura material. A maioria dos estudos sobre cultura material enfatiza o clássico trio de temas: alimentos, vestuário e habitação.
Outro domínio da NHC que hoje é muito próspero é a história do corpo. No início da década de 1980 em diante, uma corrente cada vez maior de estudos concentrou-se nos corpos masculino e feminino, no corpo como experiência e como símbolo.
O que se depreende neste capítulo é a idéia da variedade de abordagens praticadas sob a rubrica da NHC. Se ocorreram poucas inovações de método, no sentido estrito do termo, muitos novos temas foram descobertos e explorados com a ajuda de novos conceitos.

Uma teoria ainda mais controversa, segundo o autor, é a teoria da construção cultural da realidade, apresentada no capítulo 5 (p.99- 130) denominado " Da representação à construção".
O autor menciona, de início, que as soluções para os problemas às vezes geram novos problemas. Tome-se a idéia de representação, por exêmplo, um conceito central da NHC. Ela parece significar que imagens e textos simplesmente refletem ou imitam a realidade social. O que gerou certo desconforto em muitos historiadores, levando-os a pensar e falar em construção ou produção da realidade.
Roger Chartier falou sobre o deslocamento da história social da cultura para a história cultural da sociedade, especialmente a partir da década de 1980. Resultado da influência do construtivo na filosofia e nas demais ciências.
Uma formulação de bastante efeito foi apresentada por Michel Foucault em Arqueologia do Saber. (1969), quando definiu os discursos como práticas que sistematicamente constroem os objetos de que falam. Outra contribuição importante é dada por Michel de Certau em seu livro A Invenção do Cotidiano. Ao identificar um tipo particular de invenção escreveu sobre os usos, a apropriação e especialmente a utilização. Em outras palavras, nos termos em que ele pensava, as pessoas comuns faziam seleções a partir de um repertório, criando novas combinações entre os que selecionavam e, igualmente importante, colocando em novos contextos aquilo que haviam se apropriado.
Se Foucault e Certau estão corretos acerca da importância da construção cultural, então toda história e história cultural.
A idéia de construção é central para Hobsbawn e Ranger no livro A Invenção da Tradição. Livro que ajudou a renovar uma das mais tradicionais formas de história cultural, a história da própria tradição. Provocou grande impacto ao afirmar na introdução que as tradições " que parecem ou se apresentam como antigas são muitas vezes bastante recentes em suas origens, e algumas vezes são inventadas."
A construção de identidades individuais é uma das características importantes da NHC. Há um interesse cada vez maior em documentos pessoais ou como dizem os holandeses, em "documentos-ego".

O que virá "Além da virada cultural"? É o assunto desenvolvido pelo autor no capítulo 6. ( p, 131-162 )
A expressão NHC parecia uma boa idéia quando foi cunhada no final da década de 1980. Infelizmente a novidade é um trunfo que se esgota rapidamente. Chegou o tempo de uma fase ainda mais nova? Ou, essa fase já começou? Neste ponto Burke considera que o mais útil a fazer é discutir cenários alternativos. Uma das possibilidades é o renascer da história cultural tradicional, uma segunda possibilidade é a expansão contínua da nova história cultural. para outros domínios e a terceira é a da reação a redução construtivista da sociedade em termos de cultura.

Na conclusão Peter Burke demonstra como a história cultural foi a arena em que se desenvolveram algumas das discussões mais estimulantes e esclarecedoras sobre o método histórico. Permitiu ainda ampliar o território da profissão, além de tornar o assunto mais acessível para um público mais amplo.
E conclui, não acredito que ela seja a melhor forma de história. É simplesmente uma parte necessária do empreendimento histórico coletivo e que dá uma contribuição indispensável à nossa visão da história como um todo, história total, como dizem os franceses.

Esta é uma obra fundamental para todos aqueles que se interessam pela renovação dos estudos e da pesquisa em História. De leitura agradável, prende o leitor do início ao fim. Uma obra imperdível.


Francisco Sodero Toledo.

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