POESIAS
Poesias de autores da região
  
   


José Luiz de Miranda Alves

Nasceu em Silveiras, São Paulo, no fim da noite de 30 de março de 1949, do âmago de Dona Alice, nas mãos da avó materna, Dona Maria Francisca, na Rua da Independência, entre paredes de pau a pique abertas por grandes janelas de molduras de candeia, voltadas para as pedras das calçadas seculares.

Em Lorena, onde chegou em 1959, concluiu o primário no Grupo Gabriel Prestes, o ginásio no Colégio São Joaquim, o Curso Normal para Professores no Colégio Patrocínio de São José. Em 1972, graduou-se em Letras pelas Faculdades Salesianas de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, onde, também, formou-se em Pedagogia (1981), e cursou pós-graduação em Moderna Literatura Brasileira (1973), Lingüística Aplicada ao Ensino do Português (1974). Na Universidade de Mogi das Cruzes, fez pós-graduação em Estrutura do Inglês Moderno (1975). Em 1996, completa o curso de pós-graduação em Linguística, pelas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila, e, em 2005, concluiu o mestrado em Educação pelo Centro Universitário Salesiano .

Entre os anos de 1960 e 1990 publicou nos jornais de Lorena, Guaypacaré, Loreninha, Presença, Frente e Verso, e na Folha de Piquete crônicas de política, de costumes e culturais, além de poesias.

Já no final da adolescência, participava de eventos culturais da cidade, como membro do histórico Centro Estudantil de Lorena, realizando exposições e debates sobre cinema. Em 1973, com um grupo de amigos culturalmente inquietos produziram o que foi chamado de “Lorenália: o dia do açúcar marrom”, exposição performática de 48 horas ininterruptas, na sede da antiga Prefeitura Municipal de Lorena, no Largo do Rosário. Foi membro do Diretório Acadêmico, Diretor da Casa de Cultura Péricles Eugênio da Silva Ramos (1975 a 1977), Professor da rede particular e pública do Estado de São Paulo, Diretor de Escola e Supervisor de Ensino (1972 a 2009). Atua, desde 1995, como Coordenador Pedagógica nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila - FATEA, em Lorena.

Suas poesias e artigos foram publicados na Revista Ângulo da FATEA. Há poemas seus no livro editado pela Casa de Cultura de Lorena, “Lorena: Poemas e Poetas” (1976), e a publicação individual “Jovens Poemas Antigos” (2004), pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José dos Campos.

José Luiz, poeta por inquietação, poeta por prazer, gosta de cavoucar sentido na casca das palavras e escrever miudinho. É casado com Henecy, tem três filhos: Raphael, Rachel e Clara, e um neto: Miguel.



POEMAS DO TEMPO E DO PRESENTE

não ver
não ouvir
sentir nada
estar no mundo
estando sendo

abandono indiferente

ser nada
para existir
nem existir
para ser
estando sendo
não estando
sendo
permanecendo
2009

é o pão que enforma
a mão
que trabalha o trigo
a seiva que saliva
a fome
o espírito de sopro
aroma e pó

é o corpo que semelha
o pão
cria passo
e postura
é o corpo que umedece
a massa
cala o fermento
expande a vida
2008

a cidade não há mais
não há a clara manhã
que anuncia o outono

as esquinas enquizilam
não ser homem da órbis
nem estar por ruas
de terra e barro

o mundo é vasto
o sem-rumo

o que sabia da rua
correu na enxurrada
a areia fina
ao meio-fio

o que buscar à frente
nada recusou a correnteza
este é o jeito das coisas sãs
1998

densa macia cinza
borralho manso sobre-cobre
palavra-brasa tosca muda
o sabugo curioso
grená
cutuca cavouca

espera
sanguinolenta
o sopro fofo

qual onça rubra
colhida no fundo da toca
no sono espanto
num sem aviso qualquer
espicha cá pra fora
toda colcha de retalhos
e maracas caribocas
1994

trôpego tropel
das pernas meninas
guizos cadência e trote
dedos nervosos de pêlo
tateiam o ar

a tropa traça a trilha
tropeça
trastes tristeza e pó

madrugada muda
vultos na neblina
baila o balaio
range a cangalha nos arreios

subida
gargalham cascos nos cascalhos
casquinam cascatas no lajeado
o balanço gingado das crioulinhas
finge dolência e descaso
a abrir nos morros enfunados
a poeira do passado
os sempre-caminhos
1992

curvada sob
o branco dos cabelos
nas manhãs
retoma o rito
a rotina

tratar dos passarinhos
gaiolas alinhadas no alpendre
descer as plácidas mãos
pelo úmido recente dos cabelos
abrir o vacilante jornal
sobre o branco crochê da mesa
na remota varanda

samambaias curvam-se
à passagem do corpo consagrado
o olhar na pupila líquida
alonga-se na clara manhã

a rede balança
o corpo ausente
1990

brilha a noite
chuva morta
passos úmidos
ladrilhos

trilam metais
nos matagais

brancas asas
sobre-surgem
das copas imperiais

latidos bifurcam
nas esquinas

granitos azuis
do nunca-mais

só a memória resiste
sob lajes lápides
e nos quintais
1988

os olhos da menina
e mulher
são tristes
atados
à linha do horizonte

o horizonte deslisa
os cabelos
a boca espreita
a fome de amanhã

corpo tão frágil
a prenunciar
a ousadia
tanta
para o inevitável vôo
1982

muito escuro
minha poesia escura
minha vida – o breu
escura escura escura
minha visão

partir palavras
romper sons
parir sentido – a vida
como se parte um ovo

óvulo
exala
pulsa
explode
salta na palma da minha mão
mãe
1980

visita súbita
à paulistania
marginal marginal marginais
supra-realidade
dúvida possível
meus cotovelos
intermináveis olhos a piscar
soluços submersos
aqui apenas a paz do trianon
ali o trânsito atropelado
do outro lado o riso do museu
eu cá com medo de romper a rua
apenas a paz do trianon
um sabiá engasgado
goteja o meu banco verde
buzinas aflitas socorrem os passantes
desisto do museu
1979

o homem apenas peso
sai à porta
não há mais rua
então segue até o porto
em demanda do mar
mas já não sopram os ventos
navios atados em calmaria

o homem com seu peso
volta do porto
da porta
e parte corrimão acima
vivendo a própria rua
rasgando o próprio mar
1978

rosna e late
late e rosna
meu ouvido noturno
silêncio

passa alguém
o cão
late e rosna
rosna e late
silencio

lá fora homem e cão
e eu homem-cão
nem rosno
nem passo
só o meu ouvido
na noite
a escutar
a escutar
1977

hoje queria escrever
um poema
como nos tempos-menino
soltar-me no branco
do papel
como uma criança
satisfeita de ter-se perdido

como uma coisa qualquer
que não muda nada
se existir ou não

estar simplesmente

com um silêncio satisfeito
com uma quietude tranqüila
eis como me quero
não me empurrem
1976

o novo elo
me perpetua
na tua pele

o novo elo
no novelo
tecido eterno

o novo elo
arrasta impulsivo
minha loucura

o novo elo
explode infinito
do calor de teu ventre
1975

receios
dos seios seus
recreios
criei-os meus
rodeios
você os teceu
ponteios
cantei-os eu

E no meio
Dos meneios
Do corpo seu
A impossibilidade
Da vontade
Do meu
Eu
1970

Que importa que os dentes
Te firam os lábios, se o que
Estais recebendo é um beijo

Que importa que o grito da multidão
Sufoque minha súplica, se buscamos
A mesma dimensão

O importante não é possuir
Mas ter tudo no momento pleno
E depois recordar com a mente
E os lábios inteiros
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