Caipira
- s.m. Etimologia desconhecida;
Georg Friederich, Amerikanistisches
Wörterbuch, s.v., liga
este voc. a caipora. Séc.
XIX, durante as lutas liberais
(1828-1834), usava-se como
designação
dos constitucionais. O sentido
brasileiro aparece registrado
em Morais.
Caboclo
- adj. Mestiço de
índio e branco. Moreno,
valente. Tupi caab + oca:
ao pé da letra: casa
do mato, que habita no mato.
Houve epêntese do
1 inexplicavelmente.
Von Martius explica: caboca,
pelar; cabóculo,
pelado, sem barba e poucos
pelos. De cabóculo
com síncope do u:
caboclo. Deriv.: caboclada,
acaboclado, acaboclar-se.
1
MACHADO, José Pedro.
Dicionário Etimológico
da Língua Portuguesa,
com a mais antiga documentação
escrita e conhecida de muitos
dos vocábulos estudados.
Editorial Confluência,
1a. ed., 1952.
Caipira
- s.f. Matuto, roceiro,
pessoa acanhada. Tupi caa,
mato; pir, que corta, cortador
de mato. Derivs.: caipirada,
caipirismo, acaipirar, encaipirar.
Caipora
- s.m. Infeliz, sem sorte,
azarento. Tupi caa, mato;
porá, de poré,
habitante. Era um duende
dos nossos indígenas,
o homem do mato, que dava
má sorte, provocava
desgraças. Derivs.:
caiporismo, encaiporar,
encaiporador, etc 2.
2
BUENO, Francisco da Silveira.
Grande Dicionário
Etimológico-Prosódico
da Língua Portuguesa.
Vocábulos, expressões
da Língua Geral e
Científica - Sinônimos
Contribuições
do Tupi-Guarani. Ed. Saraiva,
São Paulo, 1964.
Podemos
compreender então
o caipira como aquele que
tem suas raízes ligadas
ao mato, à natureza.
Homem do mato, que habita
no mato, e, por essa razão,
pelo fato de habitar no
mato, com ele se relaciona
e dele tira seu sustento.
Homem do mato, cortador
de mato, que se ocupa de
carpir, cortar, trabalhar
o mato.
A história conta
que o caipira e a cultura
caipira têm suas origens
nos portugueses do início
da colonização.
Náufragos, degredados,
criminosos, fugitivos de
toda espécie, encontraram
porto seguro na capitania
de São Vicente, onde
fincaram pé, para
restabelecer suas vidas,
quem sabe não muito
estáveis na Metrópole
portuguesa. Do contato com
os nativos, cada incógnito
João Ramalho, desafiando
a excomunhão eclesial
e consumindo considerável
parte das preocupações
jesuíticas, deixou
descendência numerosa
e duradoura que, num processo
de permeabilidade cultural,
conseguiu sobreviver às
intempéries do Mundo
Novo e criar uma cultura
própria, modificada,
específica - a cultura
caipira, cabocla, mameluca.
Ao final do século
XVII, com o movimento bandeirante
que substituía gradualmente
a abominável preação
de escravos nativos pela
cata de metais e pedras
preciosas, as fronteiras
dessa cultura se expandem
particularmente para os
sertões do oeste
da capitania de São
Paulo, atingindo o Mato
Grosso e as terras dos Goiás,
assinalando uma histórica
ocupação de
inóspitas regiões,
reservada aos mais rudes
e corajosos aventureiros.
Posteriormente, exaurindo
os veios auríferos,
os vastos e longínquos
territórios passam
a ser ocupados pelas tímidas
plantações
de açúcar
e pela criação
de gado vacum e muar. Neste
processo desenvolve-se uma
cultura de camponeses volantes,
homens semi-nômades,
cujo vigor era condição
fundamental para a superação
das condições
naturais agrestes.
Além do
vigor físico, continua
a desenvolver-se, na miscigenação
com os naturais da região,
um caráter igualmente
vigoroso, taciturno, pouco
sociável, marcado
pela desconfiança
e especialmente pela irreverência
diante da lei ou do rei.
Uma proposta de vida simples,
baseada no mínimo
vital 3,
adaptada ao trabalho em
harmonia com o meio ambiente,
caracterizada por uma moradia
modesta, de pau-a-pique,
chão de barro pisado,
móveis grosseiros
e utensílios poucos
e elementares. Uma cultura
que Antônio Cândido
resume como ligada
a formas de sociabilidade
e de subsistência
que se apoiavam, por assim
dizer, em soluções
mínimas, apenas suficientes
para manter a vida dos indivíduos
e a coesão (CÂNDIDO,
2001). Ao
mesmo tempo, uma cultura
com suas características
específicas e suas
riquezas particulares, expressas
na comida, nas maneiras
de vestir, danças,
músicas, religiosidade,
sincretismos, lendas e "causos".
Expressa também nos
modos que aquele homem do
mato, filho de branco europeu
e bugre nativo, mameluco,
mestiço, caipira,
enfim, tem para tratar a
terra e trabalhar numa produção
de soluções
mínimas, mas suficientes.
3
CANDIDO, Antonio. Os Parceiros
do Rio Bonito. Coleção
Espírito Crítico,
Duas Cidades, Editora 34,
São Paulo, 2001,
9a. edição.
2-)
- DIÁRIO DE UM PEREGRINO
Historicamente,
um dos primeiros retratos
feitos deste homem do mato,
deste habitante do mato,
encontra-se nos relatos
de Emílio Zaluar,
na sua obra mais famosa
- Peregrinação
pela Província de
São Paulo (1860-1861),
que veio a público
pela primeira vez em 1863
4.
Meu interesse em considerar
esta obra com uma reflexão
mais detalhada deve-se ao
entendimento de que os relatos
de Zaluar são prenunciadores
da representação
que vai sendo construída
sobre o caipira e a ruralidade
brasileira 5,
já nos meados do
século XIX, e têm
um caráter de evidente
detração,
que, com outras expressões
posteriores, irão
estigmatizar o caipira como
sujeito social desqualificado
e excluído do processo
de desenvolvimento do Brasil.
4
Deve-se considerar também
a obra de Augusto Saint-Hillaire,
que data de 1822, onde são
feitas referências
ao caipira. Optei por considerar
a obra de Zaluar por esta
situar-se na segunda metade
do século XIX, quando
se acentuavam as considerações
pelo progresso industrial,
baliza temporal da pesquisa
que venho desenvolvendo.
5
SOUZA, Laura de Mello e.
O Diabo e a Terra de Santa
Cruz. São Paulo,
Companhia das Letras, 1986.
Sobre a questão da
edenização
da natureza e da detração
do humano este livro é
fundamental.
Augusto
Emílio Zaluar encontrava-se
no Brasil no início
de 1850, ano em que constam
os primeiros registros sobre
sua pessoa. Nascido em 1825,
em Lisboa, veio a falecer
no Rio de Janeiro, com 57
anos, em 1882, tendo se
naturalizado cidadão
brasileiro em 1856. Viveu
na capital do Império
e, por algum tempo, nas
cidades de Petrópolis
e Vassouras, durante o próspero
período em que a
economia brasileira era
o café e o café
era essencialmente o Vale
do Paraíba - tanto
fluminense quanto paulista.
A modesta biografia de Zaluar
mostra que este português,
depois de ter freqüentado
o curso de medicina por
um curto período
na Escola Médico-Cirúrgica
de Lisboa e optado por seguir
carreira literária,
migrando-se para o Brasil
exerceu a profissão
de jornalista, tendo trabalhado
na redação
do Correio Mercantil e do
Diário do Rio de
Janeiro. Foi um escritor
sem grande expressão
embora tenha publicado trabalhos
em romances, contos, versos,
traduções
de novelas francesas, biografias
e peças de teatro.
No entanto, entendo que
Peregrinação
pela Província de
São Paulo (1860-1861)
é uma obra especialmente
significativa pelo seu caráter
documental, representando
um precioso registro histórico
relativo às terras
por onde Zaluar andou -
do Rio de Janeiro, pelas
serras fluminenses das grandes
fazendas de café,
passando pelas vilas e cidades
do Vale do Paraíba,
até São Paulo,
a capital da província,
e dali indo conhecer, no
Oeste Paulista, Piracicaba,
Itu e Sorocaba, onde tem
a oportunidade de presenciar
a tão famosa feira
de muares desta cidade,
objetivo principal de sua
"peregrinação".
Ao mesmo tempo, respeitando
a obra por sua notória
e reconhecida importância
dentro da literatura brasileira,
sobretudo da literatura
paulista, quero debruçar
sobre ela um olhar mais
atento, procurando situar
o contexto social em que
foi escrita e considerar
alguns detalhes relativos
ao quadro que o autor desenha
do caipira, revelado em
suas próprias palavras.
Não tentarei, nem
tenho competência
para tanto, fazer aqui,
no escopo deste artigo,
uma análise literária
de Peregrinações,
nem é meu interesse
uma reflexão tão
extensa que possa esgotar
o pensamento do autor. Estou
recorrendo aos relatos deste
peregrino português
como a um conjunto de vestígios
relativos a determinada
estrutura societária,
balizando o campo de investigação
para o resgate dos nexos
constitutivos que devem
orientar a análise
sobre as representações
construídas dentro
do imaginário social
de uma época. Tal
imaginário tem suas
características evidentes
no período em que
Zaluar coloca seu olhar
sobre a cultura que descreve,
especialmente no tocante
a um ideário relativo
às noções
de trabalho e progresso,
revelando os conflitos e
as tensões do tecido
social que vai se constituindo
na história da sociedade
brasileira em formação
no século XIX.
Por outro lado, meu interesse
por este registro de peregrino
volta-se especialmente para
as considerações
que fazem referência
ao caipira e a algumas manifestações
culturais que, mesmo nos
casos em que não
há indicação
explicita como sendo da
cultura caipira, são
bastante óbvias na
aproximação
a esta.
A leitura sistemática
desta espécie de
diário de viagens,
revelou dois aspectos salientes
da sua estrutura, que se
constituem numa tônica
que perpassa todo o texto
e revelam muito do olhar
do português viajante.
O texto de Zaluar evidencia,
na descrição
da paisagem que vai vislumbrando,
uma edenização
da natureza, que foi traduzida
por Laura de Mello e Souza,
na obra que é marco
referencial na historiografia
brasileira , como uma característica
marcante do olhar europeu
sobre as terras brasileiras.
No mesmo sentido, aparecem
descrições
sobre as gentes que vai
encontrando pelo caminho
e que recebem, em várias
passagens, também
como percebido pela historiadora
do imaginário na
mesma obra, um olhar constante
de detração
e menosprezo, particularmente
quando se trata do caipira
paulista. Por outro lado,
quando se trata de comentar
a respeito das amabilidades
dos grandes senhores fazendeiros
do café, comendadores
do Império, que o
receberam em seus pomposos
casarões, sedes das
fazendas produtoras do "ouro
verde", fundamento
da economia imperial, os
elogios não são
poupados.
Quero destacar então
alguns trechos da Peregrinação
que, embora possam formar
um conjunto um pouco extenso
de citações,
considero pertinentes para
o estudo das representações
que vão se constituindo
a respeito da brasilidade
no século XIX, imagens
formadas pelo olhar europeu
que assenta um foco particular
sobre o caipira paulista.
Impressionado com a natureza,
Zaluar recorre a uma descrição
que beira ao superlativo,
com expressões de
êxtase: caminha de
maravilha em maravilha,
aspecto sempre majestoso,
curso assoberbado, espetáculo
magnífico, soberana
grandeza, águas em
lençóis de
prata... Não é
possível negar seu
espírito sensível,
tocado diante da beleza
natural de um cenário
que o deixa emocionado,
fazendo-o clamar também
para a sensibilidade de
artistas e filósofos.
O viajor que
se embrenha por estas paragens
caminha de maravilha em
maravilha. Não há
um acidente do solo, a forma
caprichosa de um morro atrevido,
como em sua pitoresca linguagem
lhe chamam os caipiras,
o aspecto sempre majestoso
e sempre variado de uma
floresta, o curso mais ou
menos assoberbado de um
ribeirão ou de um
rio, e o espetáculo
magnífico das cachoeiras
que de tempos a tempos se
oferecem à nossa
vista, despenhando suas
águas em lençóis
de prata, que não
tenha um cunho de soberana
grandeza, de curiosa originalidade,
enleando a mente em contemplações
filosóficas, ou inspirando
a imaginação
e despertando o sentimento
nas almas artísticas,
cismadoras e poéticas!
Ó, natureza, tu és
o degrau por onde a humanidade
se aproxima do Criador!
(ZALUAR, 1863:111).
Na descrição
do que é possível
perceber como sendo um trecho
de Mata Atlântica,
por conta da localização
do percurso de sua viagem,
Zaluar manifesta outro momento
de êxtase diante da
exuberante paisagem. Entretanto,
é possível
verificar que os elementos
recorrentes de linguagem
utilizados para compor a
descrição
agregam mitos e figuras
lendárias do imaginário
europeu. Nem poderia ser
de outra forma uma vez que
estabelecer associações
entre o novo e elementos
culturais de origem arraigados
no próprio espírito
constitui-se numa prática
natural que emprega critérios
de analogia nos processos
mentais de explicação
do mundo real 6.
Assim o europeu peregrino
descreve a mata:
Do
seio deste oceano confuso
e impenetrável de
luz e de trevas, de ramos
e vergônteas, de essências
e flores, ouve-se como um
rumor vago e indefinível,
mas real e distinto, formulando-se
em notas fugitivas, trinados
melodiosos, anélitos
desfalecidos, que são
escalas harmônicas
dessa linguagem fecunda
e inspiradora que se estende
na solidão.
Quem decifrará, espectro
dos primeiros povoadores
do mundo infante, quando
ainda a terra palpitava
ao sair do caos, o sentido
sublime de teus cantos selváticos?
Nestes recônditos
do mundo, o gemer da folhagem,
o grito da ave e o murmúrio
das águas, tudo fala
de Deus e nos conta as maravilhas
do seu poder!
(...) Outrora diríeis
ver passar por esse imenso
labirinto de troncos e folhas
uma sombra vaporosa, uma
Coréia de fadas aéreas,
uma legião de fantasmas,
como os que apareciam a
Macbeth nas florestas de
Bingam, quando as
6
Quanto à questão
da analogia, Sérgio
Buarque de Holanda, descrevendo
sobre a utilização
de medicamentos desenvolvidos
pelo gentio brasileiro e
utilizados pelo europeu,
comenta: "(...) são
dignos de interesse, por
outro lado, os processos
de racionalização
e assimilação
a que o europeu sujeitou
muitos de tais elementos,
dando-lhes novos significados
e novo encadeamento lógico,
mais em harmonia com seus
sentimentos e seus padrões
de conduta tradicional".
HOLANDA, Sérgio Buarque
de. Caminhos e Fronteiras.
3a. ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994,
p. 79-80 feiticeiras, ao
som dos coros infernais,
o aclamavam rei da Escócia!
(ZALUAR, 1863:146)
Se na descrição
da natureza a linguagem
se aproxima da comoção,
por sua vez os elogios tecidos
aos seus hospedeiros: comendadores,
juízes de direito,
tenentes-coronéis
- senhores de grandes latifúndios,
produtores de café
no Vale do Paraíba,
também beiram o superlativo.
Não é meu
interesse questionar sobre
os sentimentos de gratidão
do português peregrino,
honestos e pertinentes,
mas procurar perceber, na
forma como são expressos,
o contexto onde estão
sendo manifestados, procurando
estabelecer aqueles nexos
subjetivos necessários
à análise
que pretendo construir.
Destaco assim, dois trechos
que me parecem reveladores:
O
prestígio legítimo,
porque justificado, de que
goza o Sr. Comendador Joaquim
Ferraz é realçado
pelas virtudes que adornam
sua esposa; afabilidade,
franqueza e os mais elevados
dotes do coração
a designam como mãe
dos necessitados, amparo
dos enfermos e protetora
constante dos órfãos
desvalidos, muitos dos quais
já tem mandado criar
e educar à sua custa.
(ZALUAR,1863: 32)
O Sr. Barão da Bela
Vista é moço,
inteligente, rico, e viajou
a Europa; que mais é
preciso saber para fazer-se
um juízo da amabilidade
do seu trato e do agradável
conforto de sua convivência?
Aí me demorei alguns
dias, que voaram rápidos
entre a conversação
deleitosa, os passeios campestres,
e os sons harmoniosos dum
piano tocado pelo distinto
pianista, o Sr. Teodoro
Reinik. (ZALUAR,1863: 42-43)
Os parâmetros que
indicam as mais elevadas
qualidades pessoais passam,
portanto, primeiro pelo
assistencialismo, expresso
nas virtudes maternais da
esposa, ocupada com a criação
(aspectos físicos)
e educação
(aspectos intelectuais,
morais e culturais): mãe
dos necessitados, amparo
dos enfermos, protetora
dos órfãos
desvalidos, muitos dos quais
já tem mandado criar
e educar a sua custa; num
segundo momento, pela indispensável
viagem à Europa,
centro do mundo, referência
inconteste de civilização,
onde se adquire amabilidade
no trato. E também
da Europa são importados
alguns costumes, entre os
quais o hábito da
audição de
um piano, possivelmente
trazido direto da Europa
para a fazenda de café,
no interior do Brasil. Este
outro trecho seguinte colabora
para uma idéia mais
precisa:
Acrescente-se
a isto um magnífico
piano harmônico dos
mais modernos de Debain,
destros e delicados dedos
para nele interpretarem
algumas das mais difíceis
composições
dos grandes mestres, a conversa
amena e espirituosa do salão,
e terás feito uma
idéia dos agradáveis
momentos que passamos na
fazenda. (ZALUAR,1863: 29).
Importação
de cultura e padrões
de civilização
e progresso. Na verdade,
todo o texto de Zaluar é
permeado por referências
ao progresso, especificamente
o progresso industrial sustentado
pelo desenvolvimento científico,
em franca expansão
na Europa no período
em que o viajante escreve
suas observações
sobre o mundo vale-paraibano.
São inúmeros
os trechos em que a crença
no progresso material promovido
e sustentado pela razão
científica, expresso
no desenvolvimento da indústria,
no aparelhamento e na racionalização
do trabalho agrícola,
é exteriorizada sob
a forma de um culto a um
irreversível processo
civilizador, cujo centro
irradiador é a Europa.
Bastam duas ou três
citações para
evidenciar esse pensamento.
Sobre o
futuro da agricultura centrada
em processos científicos,
conduzida por uma administração
racional e pela aplicação
de estudos sobre os recursos,
Zaluar é incisivo
e determinado:
Estamos
cada vez mais convencidos
de que o futuro dos agricultores,
e, por conseqüência,
o do país, depende
absolutamente do tino da
administração
e da estabilidade de um
governo que possa identificar-se
praticamente com o estudo
de seus recursos e de suas
necessidades. ZALUAR,1863:
20).
Descrevendo
sobre o processo industrial
executado numa fazenda de
café, assim se expressa,
enfatizando a força
do progresso como um processo
irreversível:
Acima
de toda esta orquestra confusa,
o engenho prossegue a sua
veloz rotação,
erguendo a voz sobranceira,
como a pêndula de
um relógio, e marcando
cada segundo com uma larga
retribuição
de trabalho; tudo isto,
distinto em sua órbita
de ação, mas
conglobando em um eco uniforme,
confunde-se no ar, respira-se,
sente-se, ouve-se como se
fosse o arquejar desse gigante,
cujo peito é um imenso
laboratório; a vida,
o movimento, o progresso,
recebem a cada instante
mais uma nova confirmação
traduzida nos resultados
evidentes da indústria.
(ZALUAR,1863: 30)
A inteligência,
a racionalização
científica e o pensamento
positivo, constantes, infatigáveis,
são a mola propulsora
do progresso e solução
para os problemas:
Num certo aspecto, as preocupações
que afligem o espírito
do peregrino português
são com a geração
do progresso e a participação
no processo civilizador,
promovidos pela racionalização
do trabalho e aproveitamento
otimizado das terras por
meio de uma indústria
agrícola. Neste sentido
Zaluar não foge à
regra do pensamento de seu
tempo. Entretanto, numa
tentativa de explicar a
lentidão em que o
Brasil caminha nesta vereda
progressista, incomoda-se
com o fato de o progresso
não se desenvolver
como poderia e deveria.
Peregrinando por esse caminho
de reflexões, o português
passa a acrescentar às
tintas que vêm despejando
nas telas das imagens que
pinta do mundo vale-paraibano,
pigmentos mais densos. Tons
fortes, mais carregados
de apreensão e indignação,
longe das tênues e
luminosas matizes aplicadas
às águas das
cachoeiras. Passa então
a atribuir às gentes,
aos colonos, aos habitantes
dos caminhos, ao caipira,
portanto, as responsabilidades
pelo atraso no desenvolvimento
econômico e pelo abandono
das grandes riquezas que
o solo e a natureza estão
a oferecer e não
são aproveitados
para o progresso. Indolência,
vícios e costumes
eivados de antigos prejuízos
estão na raiz dos
problemas.
É
portanto este município
um fecundo manancial de
riquezas naturais que a
mão da indústria
poderia explorar com facilidade,
e conseguiria benéficos
resultados, não só
em favor do desenvolvimento
local como da fortuna particular;
mas a reconhecida indolência
da maior parte de seus habitantes,
e os vícios e costumes
eivados de antigos prejuízos,
conservam na esterilidade
um torrão que parece
regorgitar de seiva e pedir
aos homens que o façam
produzir e lhe inoculem
pelo trabalho os germens
da riqueza industrial. (ZALUAR,1863:
108)
Novamente
vêm à tona,
nos escritos de Zaluar,
aqueles elementos do olhar
estrangeiro habilmente revelado
por Laura de Mello e Souza:
a terra é excelente
e promete uma produção
agrícola de grandes
resultados, porém,
o homem que, a cada parágrafo,
ou a cada légua percorrida,
é construído
pelas reflexões do
peregrino e se traduz pela
pessoa do caipira, é
o responsável pela
baixa produção,
pela demora, pelo atraso.
À
exceção das
pessoas mais ilustradas,
dos fazendeiros e comerciantes,
o resto da população
é naturalmente indolente,
preguiçosa e alheia
a todos os regalos da civilização,
contentando-se apenas com
qualquer meio de subsistência,
sem se importar qual será
a sua sorte no dia seguinte
nem donde lhe virão
recursos. (ZALUAR,1863:
108)
Identificada
a exceção,
sinalizada pelos que têm
o conhecimento científico
(pessoas mais ilustradas
- observar que o autor não
se refere às pessoas
mais ilustres, eminentes)
e pelos que controlam os
processos de produção
e meios econômicos
(fazendeiros e comerciantes),
ao restante da população,
essencialmente caipira,
é atribuída
a responsabilidade pelo
atraso diante do mundo do
progresso e pelo não
aproveitamento dos regalos
da civilização.
Com essas categorias diferenciadas
o peregrino desenha, então,
com pinceladas depreciativas,
o caipira e os seus modos
de ser, de fazer e de viver,
apresentando-os ao leitor
por meio de uma linguagem
que utiliza a comparação
de elementos prejulgados
e cujo sentido subliminar
é a detração
baseada em pressupostos
ditos científicos.
Assim se refere ao caipira:
Esta
alteração
topográfica explica-nos
também a modificação
da cultura. Se bem que a
de Resende para cima já
se encontre uma ou outra
choupana dessa espécie
de Boêmios americanos
a quem na província
de S. Paulo se chama Caipiras,
só de Silveiras em
diante é que se vê
crescer esta população
quase nômade, e se
encontram de espaço
a espaço os seus
toscos e mesquinhos albergues.
A casa do Caipira é
semelhante à tenda
do Árabe. No repartimento
da frente, que algumas vezes
é formado apenas
por uma espécie de
alpendre sustentado por
duas vigas, à maneira
de colunas, vêem-se
pendurados o lombilho e
as rédeas, as esporas,
a garrucha, e ao lado a
viola, instrumento inseparável
dos povos indolentes.
Os compartimentos inteiros
compõem-se habitualmente
de uma cozinha e um quarto,
separados por uma cortina
de chita servindo de porta,
e onde vivem a companheira
destes novos Samaritas,
e os filhos, se os têm.
O Caipira, se não
anda nas suas aventurosas
excursões, encontra-lo-eis
sentado à porta do
lar, fumando o seu cigarro
de fumo mineiro, e olhando
o seu cavalo, que rumina,
tão preguiçoso
como ele, a grama da estrada.
Esta gente, mais guerreira
do que agricultora, não
trabalha, lida; e a sua
atividade não produz,
consome-se. Filhos das raças
ardentes do meio-dia, grande
parte deles mestiços,
trazem estampado no rosto
varonil, na cor requeimada
pelo sol americano, e nos
olhos negros e chamejantes,
a impetuosidade das paixões,
o ódio à sujeição
e a intrepidez na luta.
Mal dirigidos, serão
talvez criminosos; aproveitados,
serão heróis.
É quase uma tribo
de Beduínos, que
vive de caça e da
pesca, e ama sobretudo a
independência e o
sol! Há raças
que são como certas
plantas: recebem do solo
os elementos de sua nutrição,
e definham e morrem quando
transplantadas do torrão
natal para a atmosfera de
outro clima. Assim os Caipiras,
tipo que não se reproduz
em nenhuma outra parte do
Império. (ZALUAR,1863:
73)
Chamam
a atenção,
neste trecho, alguns outros
vestígios indicadores
do pensamento da época.
A princípio, parece
claro que em seu discurso
Zaluar se aproxima a um
certo determinismo geográfico,
como que estabelecendo a
cultura atrelada pela geografia:
esta alteração
topográfica explica-nos
também a modificação
da cultura. Por outro lado,
os adjetivos encontrados
no parágrafo e aplicados
ao caipira e à cultura
caipira revelam um caráter
paradoxal, contemplando
extremos, ora depreciativos
e detratores - toscos; mesquinhos;
indolentes; preguiçoso
- ora românticos,
carregados de idealismo,
quando, por exemplo, Zaluar
refere-se aos caipiras como
guerreiros, filhos das raças
ardentes. Acentua-se assim
um olhar diluído
por preconceitos idealistas,
relacionados a trabalho,
progresso industrial e processo
civilizador, de uma cultura
que procura se firmar neste
momento histórico.
Neste sentido, para Zaluar,
o caipira não trabalha,
lida - e lida significa
luta, esforço incomum,
conseqüência
da não racionalização
do trabalho 7.
As atividades do caipira,
que Zaluar entende como
condicionadas à caça
e à pesca, são
classificadas como práticas
desprezíveis, limitando-se
ao consumo imediato, e,
como não estão
relacionadas aos modos produção
que se desenvolvem nos padrões
das linhas industriais,
não são geradoras
de progresso. O pensamento
positivo que vai reconhecer
na ordem um fundamento gerador
do progresso, não
considera a lida, a caça
e a pesca como trabalhos
regulares, sendo antes impeditivos
de uma agricultura racional
e ordenada. Há também
que se considerar os aspectos
psicológicos mencionados:
a impetuosidade das paixões
e o ódio à
sujeição são
elementos antagônicos
à ordem e à
submissão exigidas
pelos processos de produção
industrial racionalizados
em pleno desenvolvimento
neste século XIX.
É interessante observar
as outras comparações
que Zaluar constrói
caracterizando diferenças
entre duas culturas cujo
embate se insinua no processo
histórico: de um
lado a viola, associada
à indolência;
de outro, o piano, instrumento
da harmonia (civilização?),
aperfeiçoado pela
modernidade (progresso?),
com o que são interpretadas
as mais difíceis
composições
de grandes mestres (europeus?),
nas agradáveis horas
de amena e espirituosa conversa
nos salões das fazendas
de café (momento
ordenado de descanso do
trabalho?).
Parece então que
para Zaluar foi possível
definir aquele contexto
social pela disparidade
entre as riquezas que a
terra oferece, e que deveriam
ser aproveitadas para o
desenvolvimento, para o
progresso, para o gozo dentro
dos padrões de civilização
estabelecidos, e o abandono
em que são deixadas,
por uma cultura que não
sabe se utilizar racionalmente
dos meios que a cercam.
As reflexões do peregrino
se assentam, então,
numa concepção
dicotômica: natureza
rica e homem indolente,
constituindo os pólos
que seriam harmonizados
pela racionalidade do trabalho.
Esse quadro pode ser verificado
também nos trechos
seguintes. O primeiro refere-se
à natureza e seu
aproveitamento racional:
FERREIRA,
Aurélio Buarque de
Holanda. Novo Aurélio
Século XXI: o dicionário
da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1999.
O
aspecto destes campos é
realmente das vistas mais
agradáveis que se
pode imaginar! É
um ar calmo de verdura luxuriante,
entremeado de mil arbustos
e bosques pitorescos, onde
os caçadores encontram
abundantes perdizes, a ciência
muitas ervas medicinais,
o naturalista peçonhentas
cascavéis e outros
répteis, bem como
o viajante observador o
tema eloqüente para
revestir com a imaginação
as mais poéticas
e curiosas descrições
da opulenta e original natureza
americana. (ZALUAR,1863:
107)
Logo em
seguida, em outro parágrafo,
expõe os modos caipiras,
permeados de indolência,
preguiça, imprevidência:
Como
a terra é aqui abundante
e toca a todos, esses homens,
a quem se chama no lugar
caipiras, cultivam a ferro
e fogo o torrão que
possuem, e plantam-lhe milho,
feijão e arroz. Colhido
o seu produto, que sem muito
trabalho podem haver, levam-no
ao mercado, onde o vendem
para comprar a roupa que
lhes é necessária
durante o ano, e regressam
à casa, entregando-se
outra vez aos seus hábitos
de ociosidade, confinados
na fertilidade do solo,
que lhe fornece abóboras,
aipim, batatas e outros
gêneros, bem como
das matas, que lhes oferecem
palmitos, aves e outras
muitas qualidades de caça,
assim como nos rios, que
os alimentam com muitos,
variados e gostosos peixes.
(ZALUAR,1863: 108)
E continua
na página seguinte,
agregando observações
feitas por um morador da
região, demonstrando
que este modo de pensar,
em favor do progresso e
responsabilizando as gentes
da terra pelo atraso, não
era exclusivamente seu,
mas já permeava o
imaginário social
nos meados do século
XIX:
Nesta
vida, quase completamente
improdutiva, vão
passando os anos e o tempo
sem que se tire partido
das grandes vantagens que
promete o município,
nem se desenvolva nenhum
dos elementos de progresso
que a natureza tão
generosamente lhes confiou,
"estando condenados,
como observa um morador
da vila que nos forneceu
estas notas, a ver esvaecerem-se
as nossas mais fundadas
esperanças, deixando
estéril o nosso solo
tão fértil,
e sem útil aproveitamento
os nossos campos tão
amenos, os nossos climas
tão saudáveis,
os nossos rios tão
serenos, os nossos sertões
tão opulentos e majestosos,
tudo por falta de ação,
de trabalho e de energia!"
(ZALUAR,1863: 109)
Repetem-se
as classificações
distintas entre natureza
e homem: a vida do caipira
é levada sem muito
trabalho, calcada em hábitos
de ociosidade e atividades
completamente improdutivas,
enquanto que ao mesmo tempo
a natureza, ornada de adjetivos
- solo fértil, campos
amenos, climas saudáveis,
rios serenos, sertões
opulentos e majestosos -
submissa e generosa, confia
ao progresso sua generosidade.
E novamente, ao longo do
trajeto no Vale do Paraíba,
nas considerações
sobre as povoações
do norte de São Paulo
repetem-se os estigmas:
terra fecunda e gente indolente
tratadas nas categorias
trabalho, ciência
(conhecimento) e civilização:
Os
elementos naturais de riqueza
e de prosperidade abundam
por toda a parte. A terra,
vigorosa e fecunda, convida
os homens à atividade
e ao trabalho.
Estes, porém, nem
sempre lhe correspondem
com a energia e a confiança
que ela lhes requer. A indolência
natural das raças
semi-nômades, a falta
absoluta dos conhecimentos
mais rudimentares, o estéril
afã dos mesquinhos
interesses e das paixões
ativadas pelo ócio
e pela geral indiferença
com que se encara o futuro
desta terra, tudo isto concorre
para o esperdício
de forças que, aproveitadas
utilmente, seriam de grande
alcance na obra da civilização,
mas que, desviadas deste
caminho pela inércia,
fraqueza e algumas vezes
ignorância dos que
poderiam imprimir-lhe um
movimento salutar, se perdem,
esgotam e inutilizam, sem
consciência do seu