Estudos
Zaluar - a construção de um Brasil ideal
(1860-1861)

  
   


Antonio Tadeu de Miranda Alves

1-) - RAÍZES CAIPIRAS

Sabemos que as palavras sofrem, ao longo do tempo, transformações, senão quanto ao seu significado, pelo menos quanto a sua utilização. Um exemplo que de imediato vem à lembrança é a palavra "bárbaro" - se entre gregos e romanos da antiguidade, era o estrangeiro, sujeito inculto e sem civilização, e, portanto, desqualificado, entre a juventude brasileira dos anos 1960, "bárbaro" é a pessoa ou a coisa interessante, de valor e qualidade. É o uso vulgar das palavras que as transformam segundo as necessidades de expressão que o cotidiano apresenta e, com o passar do tempo, novos sentidos vão ganhando espaço a ponto de deixarem para trás, num contexto distante, o significado original.
Quero retomar, recorrendo ao auxílio da etimologia, o sentido radical da palavra caipira para configurar como que num desenho preliminar este sujeito que será objeto involuntário de reflexões e estudos. Involuntário porque, ainda desta vez, os caipiras que me vêm à memória enquanto vou tecendo estas considerações não sabem que estão sendo observados, analisados ou considerados sujeitos históricos.
Sendo assim, selecionei duas definições da palavra caipira, e outras correlatas, que me parecem suficientes para a introdução deste sujeito na análise que pretendo desenvolver.

Caipira - s.m. Etimologia desconhecida; Georg Friederich, Amerikanistisches Wörterbuch, s.v., liga este voc. a caipora. Séc. XIX, durante as lutas liberais (1828-1834), usava-se como designação dos constitucionais. O sentido brasileiro aparece registrado em Morais.

Caboclo - adj. Mestiço de índio e branco. Moreno, valente. Tupi caab + oca: ao pé da letra: casa do mato, que habita no mato. Houve epêntese do 1 inexplicavelmente. Von Martius explica: caboca, pelar; cabóculo, pelado, sem barba e poucos pelos. De cabóculo com síncope do u: caboclo. Deriv.: caboclada, acaboclado, acaboclar-se.

1 MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, com a mais antiga documentação escrita e conhecida de muitos dos vocábulos estudados. Editorial Confluência, 1a. ed., 1952.

Caipira - s.f. Matuto, roceiro, pessoa acanhada. Tupi caa, mato; pir, que corta, cortador de mato. Derivs.: caipirada, caipirismo, acaipirar, encaipirar.

Caipora - s.m. Infeliz, sem sorte, azarento. Tupi caa, mato; porá, de poré, habitante. Era um duende dos nossos indígenas, o homem do mato, que dava má sorte, provocava desgraças. Derivs.: caiporismo, encaiporar, encaiporador, etc 2.

2 BUENO, Francisco da Silveira. Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa. Vocábulos, expressões da Língua Geral e Científica - Sinônimos Contribuições do Tupi-Guarani. Ed. Saraiva, São Paulo, 1964.

Podemos compreender então o caipira como aquele que tem suas raízes ligadas ao mato, à natureza. Homem do mato, que habita no mato, e, por essa razão, pelo fato de habitar no mato, com ele se relaciona e dele tira seu sustento. Homem do mato, cortador de mato, que se ocupa de carpir, cortar, trabalhar o mato.
A história conta que o caipira e a cultura caipira têm suas origens nos portugueses do início da colonização. Náufragos, degredados, criminosos, fugitivos de toda espécie, encontraram porto seguro na capitania de São Vicente, onde fincaram pé, para restabelecer suas vidas, quem sabe não muito estáveis na Metrópole portuguesa. Do contato com os nativos, cada incógnito João Ramalho, desafiando a excomunhão eclesial e consumindo considerável parte das preocupações jesuíticas, deixou descendência numerosa e duradoura que, num processo de permeabilidade cultural, conseguiu sobreviver às intempéries do Mundo Novo e criar uma cultura própria, modificada, específica - a cultura caipira, cabocla, mameluca. Ao final do século XVII, com o movimento bandeirante que substituía gradualmente a abominável preação de escravos nativos pela cata de metais e pedras preciosas, as fronteiras dessa cultura se expandem particularmente para os sertões do oeste da capitania de São Paulo, atingindo o Mato Grosso e as terras dos Goiás, assinalando uma histórica ocupação de inóspitas regiões, reservada aos mais rudes e corajosos aventureiros. Posteriormente, exaurindo os veios auríferos, os vastos e longínquos territórios passam a ser ocupados pelas tímidas plantações de açúcar e pela criação de gado vacum e muar. Neste processo desenvolve-se uma cultura de camponeses volantes, homens semi-nômades, cujo vigor era condição fundamental para a superação das condições naturais agrestes.
Além do vigor físico, continua a desenvolver-se, na miscigenação com os naturais da região, um caráter igualmente vigoroso, taciturno, pouco sociável, marcado pela desconfiança e especialmente pela irreverência diante da lei ou do rei. Uma proposta de vida simples, baseada no mínimo vital 3, adaptada ao trabalho em harmonia com o meio ambiente, caracterizada por uma moradia modesta, de pau-a-pique, chão de barro pisado, móveis grosseiros e utensílios poucos e elementares. Uma cultura que Antônio Cândido resume como ligada a formas de sociabilidade e de subsistência que se apoiavam, por assim dizer, em soluções mínimas, apenas suficientes para manter a vida dos indivíduos e a coesão (CÂNDIDO, 2001). Ao mesmo tempo, uma cultura com suas características específicas e suas riquezas particulares, expressas na comida, nas maneiras de vestir, danças, músicas, religiosidade, sincretismos, lendas e "causos". Expressa também nos modos que aquele homem do mato, filho de branco europeu e bugre nativo, mameluco, mestiço, caipira, enfim, tem para tratar a terra e trabalhar numa produção de soluções mínimas, mas suficientes.

3 CANDIDO, Antonio. Os Parceiros do Rio Bonito. Coleção Espírito Crítico, Duas Cidades, Editora 34, São Paulo, 2001, 9a. edição.

 

2-) - DIÁRIO DE UM PEREGRINO

Historicamente, um dos primeiros retratos feitos deste homem do mato, deste habitante do mato, encontra-se nos relatos de Emílio Zaluar, na sua obra mais famosa - Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861), que veio a público pela primeira vez em 1863 4. Meu interesse em considerar esta obra com uma reflexão mais detalhada deve-se ao entendimento de que os relatos de Zaluar são prenunciadores da representação que vai sendo construída sobre o caipira e a ruralidade brasileira 5, já nos meados do século XIX, e têm um caráter de evidente detração, que, com outras expressões posteriores, irão estigmatizar o caipira como sujeito social desqualificado e excluído do processo de desenvolvimento do Brasil.

4 Deve-se considerar também a obra de Augusto Saint-Hillaire, que data de 1822, onde são feitas referências ao caipira. Optei por considerar a obra de Zaluar por esta situar-se na segunda metade do século XIX, quando se acentuavam as considerações pelo progresso industrial, baliza temporal da pesquisa que venho desenvolvendo.

5 SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo, Companhia das Letras, 1986. Sobre a questão da edenização da natureza e da detração do humano este livro é fundamental.

Augusto Emílio Zaluar encontrava-se no Brasil no início de 1850, ano em que constam os primeiros registros sobre sua pessoa. Nascido em 1825, em Lisboa, veio a falecer no Rio de Janeiro, com 57 anos, em 1882, tendo se naturalizado cidadão brasileiro em 1856. Viveu na capital do Império e, por algum tempo, nas cidades de Petrópolis e Vassouras, durante o próspero período em que a economia brasileira era o café e o café era essencialmente o Vale do Paraíba - tanto fluminense quanto paulista. A modesta biografia de Zaluar mostra que este português, depois de ter freqüentado o curso de medicina por um curto período na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e optado por seguir carreira literária, migrando-se para o Brasil exerceu a profissão de jornalista, tendo trabalhado na redação do Correio Mercantil e do Diário do Rio de Janeiro. Foi um escritor sem grande expressão embora tenha publicado trabalhos em romances, contos, versos, traduções de novelas francesas, biografias e peças de teatro.
No entanto, entendo que Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861) é uma obra especialmente significativa pelo seu caráter documental, representando um precioso registro histórico relativo às terras por onde Zaluar andou - do Rio de Janeiro, pelas serras fluminenses das grandes fazendas de café, passando pelas vilas e cidades do Vale do Paraíba, até São Paulo, a capital da província, e dali indo conhecer, no Oeste Paulista, Piracicaba, Itu e Sorocaba, onde tem a oportunidade de presenciar a tão famosa feira de muares desta cidade, objetivo principal de sua "peregrinação". Ao mesmo tempo, respeitando a obra por sua notória e reconhecida importância dentro da literatura brasileira, sobretudo da literatura paulista, quero debruçar sobre ela um olhar mais atento, procurando situar o contexto social em que foi escrita e considerar alguns detalhes relativos ao quadro que o autor desenha do caipira, revelado em suas próprias palavras. Não tentarei, nem tenho competência para tanto, fazer aqui, no escopo deste artigo, uma análise literária de Peregrinações, nem é meu interesse uma reflexão tão extensa que possa esgotar o pensamento do autor. Estou recorrendo aos relatos deste peregrino português como a um conjunto de vestígios relativos a determinada estrutura societária, balizando o campo de investigação para o resgate dos nexos constitutivos que devem orientar a análise sobre as representações construídas dentro do imaginário social de uma época. Tal imaginário tem suas características evidentes no período em que Zaluar coloca seu olhar sobre a cultura que descreve, especialmente no tocante a um ideário relativo às noções de trabalho e progresso, revelando os conflitos e as tensões do tecido social que vai se constituindo na história da sociedade brasileira em formação no século XIX.
Por outro lado, meu interesse por este registro de peregrino volta-se especialmente para as considerações que fazem referência ao caipira e a algumas manifestações culturais que, mesmo nos casos em que não há indicação explicita como sendo da cultura caipira, são bastante óbvias na aproximação a esta.
A leitura sistemática desta espécie de diário de viagens, revelou dois aspectos salientes da sua estrutura, que se constituem numa tônica que perpassa todo o texto e revelam muito do olhar do português viajante. O texto de Zaluar evidencia, na descrição da paisagem que vai vislumbrando, uma edenização da natureza, que foi traduzida por Laura de Mello e Souza, na obra que é marco referencial na historiografia brasileira , como uma característica marcante do olhar europeu sobre as terras brasileiras. No mesmo sentido, aparecem descrições sobre as gentes que vai encontrando pelo caminho e que recebem, em várias passagens, também como percebido pela historiadora do imaginário na mesma obra, um olhar constante de detração e menosprezo, particularmente quando se trata do caipira paulista. Por outro lado, quando se trata de comentar a respeito das amabilidades dos grandes senhores fazendeiros do café, comendadores do Império, que o receberam em seus pomposos casarões, sedes das fazendas produtoras do "ouro verde", fundamento da economia imperial, os elogios não são poupados.
Quero destacar então alguns trechos da Peregrinação que, embora possam formar um conjunto um pouco extenso de citações, considero pertinentes para o estudo das representações que vão se constituindo a respeito da brasilidade no século XIX, imagens formadas pelo olhar europeu que assenta um foco particular sobre o caipira paulista.
Impressionado com a natureza, Zaluar recorre a uma descrição que beira ao superlativo, com expressões de êxtase: caminha de maravilha em maravilha, aspecto sempre majestoso, curso assoberbado, espetáculo magnífico, soberana grandeza, águas em lençóis de prata... Não é possível negar seu espírito sensível, tocado diante da beleza natural de um cenário que o deixa emocionado, fazendo-o clamar também para a sensibilidade de artistas e filósofos.


O viajor que se embrenha por estas paragens caminha de maravilha em maravilha. Não há um acidente do solo, a forma caprichosa de um morro atrevido, como em sua pitoresca linguagem lhe chamam os caipiras, o aspecto sempre majestoso e sempre variado de uma floresta, o curso mais ou menos assoberbado de um ribeirão ou de um rio, e o espetáculo magnífico das cachoeiras que de tempos a tempos se oferecem à nossa vista, despenhando suas águas em lençóis de prata, que não tenha um cunho de soberana grandeza, de curiosa originalidade, enleando a mente em contemplações filosóficas, ou inspirando a imaginação e despertando o sentimento nas almas artísticas, cismadoras e poéticas! Ó, natureza, tu és o degrau por onde a humanidade se aproxima do Criador! (ZALUAR, 1863:111).


Na descrição do que é possível perceber como sendo um trecho de Mata Atlântica, por conta da localização do percurso de sua viagem, Zaluar manifesta outro momento de êxtase diante da exuberante paisagem. Entretanto, é possível verificar que os elementos recorrentes de linguagem utilizados para compor a descrição agregam mitos e figuras lendárias do imaginário europeu. Nem poderia ser de outra forma uma vez que estabelecer associações entre o novo e elementos culturais de origem arraigados no próprio espírito constitui-se numa prática natural que emprega critérios de analogia nos processos mentais de explicação do mundo real 6. Assim o europeu peregrino descreve a mata:

Do seio deste oceano confuso e impenetrável de luz e de trevas, de ramos e vergônteas, de essências e flores, ouve-se como um rumor vago e indefinível, mas real e distinto, formulando-se em notas fugitivas, trinados melodiosos, anélitos desfalecidos, que são escalas harmônicas dessa linguagem fecunda e inspiradora que se estende na solidão.
Quem decifrará, espectro dos primeiros povoadores do mundo infante, quando ainda a terra palpitava ao sair do caos, o sentido sublime de teus cantos selváticos?
Nestes recônditos do mundo, o gemer da folhagem, o grito da ave e o murmúrio das águas, tudo fala de Deus e nos conta as maravilhas do seu poder!
(...) Outrora diríeis ver passar por esse imenso labirinto de troncos e folhas uma sombra vaporosa, uma Coréia de fadas aéreas, uma legião de fantasmas, como os que apareciam a Macbeth nas florestas de Bingam, quando as

6 Quanto à questão da analogia, Sérgio Buarque de Holanda, descrevendo sobre a utilização de medicamentos desenvolvidos pelo gentio brasileiro e utilizados pelo europeu, comenta: "(...) são dignos de interesse, por outro lado, os processos de racionalização e assimilação a que o europeu sujeitou muitos de tais elementos, dando-lhes novos significados e novo encadeamento lógico, mais em harmonia com seus sentimentos e seus padrões de conduta tradicional". HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 3a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 79-80 feiticeiras, ao som dos coros infernais, o aclamavam rei da Escócia! (ZALUAR, 1863:146)

Se na descrição da natureza a linguagem se aproxima da comoção, por sua vez os elogios tecidos aos seus hospedeiros: comendadores, juízes de direito, tenentes-coronéis - senhores de grandes latifúndios, produtores de café no Vale do Paraíba, também beiram o superlativo. Não é meu interesse questionar sobre os sentimentos de gratidão do português peregrino, honestos e pertinentes, mas procurar perceber, na forma como são expressos, o contexto onde estão sendo manifestados, procurando estabelecer aqueles nexos subjetivos necessários à análise que pretendo construir. Destaco assim, dois trechos que me parecem reveladores:

O prestígio legítimo, porque justificado, de que goza o Sr. Comendador Joaquim Ferraz é realçado pelas virtudes que adornam sua esposa; afabilidade, franqueza e os mais elevados dotes do coração a designam como mãe dos necessitados, amparo dos enfermos e protetora constante dos órfãos desvalidos, muitos dos quais já tem mandado criar e educar à sua custa. (ZALUAR,1863: 32)
O Sr. Barão da Bela Vista é moço, inteligente, rico, e viajou a Europa; que mais é preciso saber para fazer-se um juízo da amabilidade do seu trato e do agradável conforto de sua convivência? Aí me demorei alguns dias, que voaram rápidos entre a conversação deleitosa, os passeios campestres, e os sons harmoniosos dum piano tocado pelo distinto pianista, o Sr. Teodoro Reinik. (ZALUAR,1863: 42-43)


Os parâmetros que indicam as mais elevadas qualidades pessoais passam, portanto, primeiro pelo assistencialismo, expresso nas virtudes maternais da esposa, ocupada com a criação (aspectos físicos) e educação (aspectos intelectuais, morais e culturais): mãe dos necessitados, amparo dos enfermos, protetora dos órfãos desvalidos, muitos dos quais já tem mandado criar e educar a sua custa; num segundo momento, pela indispensável viagem à Europa, centro do mundo, referência inconteste de civilização, onde se adquire amabilidade no trato. E também da Europa são importados alguns costumes, entre os quais o hábito da audição de um piano, possivelmente trazido direto da Europa para a fazenda de café, no interior do Brasil. Este outro trecho seguinte colabora para uma idéia mais precisa:

Acrescente-se a isto um magnífico piano harmônico dos mais modernos de Debain, destros e delicados dedos para nele interpretarem algumas das mais difíceis composições dos grandes mestres, a conversa amena e espirituosa do salão, e terás feito uma idéia dos agradáveis momentos que passamos na fazenda. (ZALUAR,1863: 29).

Importação de cultura e padrões de civilização e progresso. Na verdade, todo o texto de Zaluar é permeado por referências ao progresso, especificamente o progresso industrial sustentado pelo desenvolvimento científico, em franca expansão na Europa no período em que o viajante escreve suas observações sobre o mundo vale-paraibano. São inúmeros os trechos em que a crença no progresso material promovido e sustentado pela razão científica, expresso no desenvolvimento da indústria, no aparelhamento e na racionalização do trabalho agrícola, é exteriorizada sob a forma de um culto a um irreversível processo civilizador, cujo centro irradiador é a Europa. Bastam duas ou três citações para evidenciar esse pensamento.

Sobre o futuro da agricultura centrada em processos científicos, conduzida por uma administração racional e pela aplicação de estudos sobre os recursos, Zaluar é incisivo e determinado:

Estamos cada vez mais convencidos de que o futuro dos agricultores, e, por conseqüência, o do país, depende absolutamente do tino da administração e da estabilidade de um governo que possa identificar-se praticamente com o estudo de seus recursos e de suas necessidades. ZALUAR,1863: 20).

Descrevendo sobre o processo industrial executado numa fazenda de café, assim se expressa, enfatizando a força do progresso como um processo irreversível:

Acima de toda esta orquestra confusa, o engenho prossegue a sua veloz rotação, erguendo a voz sobranceira, como a pêndula de um relógio, e marcando cada segundo com uma larga retribuição de trabalho; tudo isto, distinto em sua órbita de ação, mas conglobando em um eco uniforme, confunde-se no ar, respira-se, sente-se, ouve-se como se fosse o arquejar desse gigante, cujo peito é um imenso laboratório; a vida, o movimento, o progresso, recebem a cada instante mais uma nova confirmação traduzida nos resultados evidentes da indústria. (ZALUAR,1863: 30)

A inteligência, a racionalização científica e o pensamento positivo, constantes, infatigáveis, são a mola propulsora do progresso e solução para os problemas:


Num certo aspecto, as preocupações que afligem o espírito do peregrino português são com a geração do progresso e a participação no processo civilizador, promovidos pela racionalização do trabalho e aproveitamento otimizado das terras por meio de uma indústria agrícola. Neste sentido Zaluar não foge à regra do pensamento de seu tempo. Entretanto, numa tentativa de explicar a lentidão em que o Brasil caminha nesta vereda progressista, incomoda-se com o fato de o progresso não se desenvolver como poderia e deveria. Peregrinando por esse caminho de reflexões, o português passa a acrescentar às tintas que vêm despejando nas telas das imagens que pinta do mundo vale-paraibano, pigmentos mais densos. Tons fortes, mais carregados de apreensão e indignação, longe das tênues e luminosas matizes aplicadas às águas das cachoeiras. Passa então a atribuir às gentes, aos colonos, aos habitantes dos caminhos, ao caipira, portanto, as responsabilidades pelo atraso no desenvolvimento econômico e pelo abandono das grandes riquezas que o solo e a natureza estão a oferecer e não são aproveitados para o progresso. Indolência, vícios e costumes eivados de antigos prejuízos estão na raiz dos problemas.

É portanto este município um fecundo manancial de riquezas naturais que a mão da indústria poderia explorar com facilidade, e conseguiria benéficos resultados, não só em favor do desenvolvimento local como da fortuna particular; mas a reconhecida indolência da maior parte de seus habitantes, e os vícios e costumes eivados de antigos prejuízos, conservam na esterilidade um torrão que parece regorgitar de seiva e pedir aos homens que o façam produzir e lhe inoculem pelo trabalho os germens da riqueza industrial. (ZALUAR,1863: 108)

 

Novamente vêm à tona, nos escritos de Zaluar, aqueles elementos do olhar estrangeiro habilmente revelado por Laura de Mello e Souza: a terra é excelente e promete uma produção agrícola de grandes resultados, porém, o homem que, a cada parágrafo, ou a cada légua percorrida, é construído pelas reflexões do peregrino e se traduz pela pessoa do caipira, é o responsável pela baixa produção, pela demora, pelo atraso.

À exceção das pessoas mais ilustradas, dos fazendeiros e comerciantes, o resto da população é naturalmente indolente, preguiçosa e alheia a todos os regalos da civilização, contentando-se apenas com qualquer meio de subsistência, sem se importar qual será a sua sorte no dia seguinte nem donde lhe virão recursos. (ZALUAR,1863: 108)

Identificada a exceção, sinalizada pelos que têm o conhecimento científico (pessoas mais ilustradas - observar que o autor não se refere às pessoas mais ilustres, eminentes) e pelos que controlam os processos de produção e meios econômicos (fazendeiros e comerciantes), ao restante da população, essencialmente caipira, é atribuída a responsabilidade pelo atraso diante do mundo do progresso e pelo não aproveitamento dos regalos da civilização.
Com essas categorias diferenciadas o peregrino desenha, então, com pinceladas depreciativas, o caipira e os seus modos de ser, de fazer e de viver, apresentando-os ao leitor por meio de uma linguagem que utiliza a comparação de elementos prejulgados e cujo sentido subliminar é a detração baseada em pressupostos ditos científicos. Assim se refere ao caipira:

Esta alteração topográfica explica-nos também a modificação da cultura. Se bem que a de Resende para cima já se encontre uma ou outra choupana dessa espécie de Boêmios americanos a quem na província de S. Paulo se chama Caipiras, só de Silveiras em diante é que se vê crescer esta população quase nômade, e se encontram de espaço a espaço os seus toscos e mesquinhos albergues.
A casa do Caipira é semelhante à tenda do Árabe. No repartimento da frente, que algumas vezes é formado apenas por uma espécie de alpendre sustentado por duas vigas, à maneira de colunas, vêem-se pendurados o lombilho e as rédeas, as esporas, a garrucha, e ao lado a viola, instrumento inseparável dos povos indolentes.
Os compartimentos inteiros compõem-se habitualmente de uma cozinha e um quarto, separados por uma cortina de chita servindo de porta, e onde vivem a companheira destes novos Samaritas, e os filhos, se os têm. O Caipira, se não anda nas suas aventurosas excursões, encontra-lo-eis sentado à porta do lar, fumando o seu cigarro de fumo mineiro, e olhando o seu cavalo, que rumina, tão preguiçoso como ele, a grama da estrada.
Esta gente, mais guerreira do que agricultora, não trabalha, lida; e a sua atividade não produz, consome-se. Filhos das raças ardentes do meio-dia, grande parte deles mestiços, trazem estampado no rosto varonil, na cor requeimada pelo sol americano, e nos olhos negros e chamejantes, a impetuosidade das paixões, o ódio à sujeição e a intrepidez na luta. Mal dirigidos, serão talvez criminosos; aproveitados, serão heróis.
É quase uma tribo de Beduínos, que vive de caça e da pesca, e ama sobretudo a independência e o sol! Há raças que são como certas plantas: recebem do solo os elementos de sua nutrição, e definham e morrem quando transplantadas do torrão natal para a atmosfera de outro clima. Assim os Caipiras, tipo que não se reproduz em nenhuma outra parte do Império. (ZALUAR,1863: 73)

Chamam a atenção, neste trecho, alguns outros vestígios indicadores do pensamento da época. A princípio, parece claro que em seu discurso Zaluar se aproxima a um certo determinismo geográfico, como que estabelecendo a cultura atrelada pela geografia: esta alteração topográfica explica-nos também a modificação da cultura. Por outro lado, os adjetivos encontrados no parágrafo e aplicados ao caipira e à cultura caipira revelam um caráter paradoxal, contemplando extremos, ora depreciativos e detratores - toscos; mesquinhos; indolentes; preguiçoso - ora românticos, carregados de idealismo, quando, por exemplo, Zaluar refere-se aos caipiras como guerreiros, filhos das raças ardentes. Acentua-se assim um olhar diluído por preconceitos idealistas, relacionados a trabalho, progresso industrial e processo civilizador, de uma cultura que procura se firmar neste momento histórico. Neste sentido, para Zaluar, o caipira não trabalha, lida - e lida significa luta, esforço incomum, conseqüência da não racionalização do trabalho 7. As atividades do caipira, que Zaluar entende como condicionadas à caça e à pesca, são classificadas como práticas desprezíveis, limitando-se ao consumo imediato, e, como não estão relacionadas aos modos produção que se desenvolvem nos padrões das linhas industriais, não são geradoras de progresso. O pensamento positivo que vai reconhecer na ordem um fundamento gerador do progresso, não considera a lida, a caça e a pesca como trabalhos regulares, sendo antes impeditivos de uma agricultura racional e ordenada. Há também que se considerar os aspectos psicológicos mencionados: a impetuosidade das paixões e o ódio à sujeição são elementos antagônicos à ordem e à submissão exigidas pelos processos de produção industrial racionalizados em pleno desenvolvimento neste século XIX.
É interessante observar as outras comparações que Zaluar constrói caracterizando diferenças entre duas culturas cujo embate se insinua no processo histórico: de um lado a viola, associada à indolência; de outro, o piano, instrumento da harmonia (civilização?), aperfeiçoado pela modernidade (progresso?), com o que são interpretadas as mais difíceis composições de grandes mestres (europeus?), nas agradáveis horas de amena e espirituosa conversa nos salões das fazendas de café (momento ordenado de descanso do trabalho?).
Parece então que para Zaluar foi possível definir aquele contexto social pela disparidade entre as riquezas que a terra oferece, e que deveriam ser aproveitadas para o desenvolvimento, para o progresso, para o gozo dentro dos padrões de civilização estabelecidos, e o abandono em que são deixadas, por uma cultura que não sabe se utilizar racionalmente dos meios que a cercam. As reflexões do peregrino se assentam, então, numa concepção dicotômica: natureza rica e homem indolente, constituindo os pólos que seriam harmonizados pela racionalidade do trabalho. Esse quadro pode ser verificado também nos trechos seguintes. O primeiro refere-se à natureza e seu aproveitamento racional:

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

O aspecto destes campos é realmente das vistas mais agradáveis que se pode imaginar! É um ar calmo de verdura luxuriante, entremeado de mil arbustos e bosques pitorescos, onde os caçadores encontram abundantes perdizes, a ciência muitas ervas medicinais, o naturalista peçonhentas cascavéis e outros répteis, bem como o viajante observador o tema eloqüente para revestir com a imaginação as mais poéticas e curiosas descrições da opulenta e original natureza americana. (ZALUAR,1863: 107)

Logo em seguida, em outro parágrafo, expõe os modos caipiras, permeados de indolência, preguiça, imprevidência:

Como a terra é aqui abundante e toca a todos, esses homens, a quem se chama no lugar caipiras, cultivam a ferro e fogo o torrão que possuem, e plantam-lhe milho, feijão e arroz. Colhido o seu produto, que sem muito trabalho podem haver, levam-no ao mercado, onde o vendem para comprar a roupa que lhes é necessária durante o ano, e regressam à casa, entregando-se outra vez aos seus hábitos de ociosidade, confinados na fertilidade do solo, que lhe fornece abóboras, aipim, batatas e outros gêneros, bem como das matas, que lhes oferecem palmitos, aves e outras muitas qualidades de caça, assim como nos rios, que os alimentam com muitos, variados e gostosos peixes. (ZALUAR,1863: 108)

E continua na página seguinte, agregando observações feitas por um morador da região, demonstrando que este modo de pensar, em favor do progresso e responsabilizando as gentes da terra pelo atraso, não era exclusivamente seu, mas já permeava o imaginário social nos meados do século XIX:

Nesta vida, quase completamente improdutiva, vão passando os anos e o tempo sem que se tire partido das grandes vantagens que promete o município, nem se desenvolva nenhum dos elementos de progresso que a natureza tão generosamente lhes confiou, "estando condenados, como observa um morador da vila que nos forneceu estas notas, a ver esvaecerem-se as nossas mais fundadas esperanças, deixando estéril o nosso solo tão fértil, e sem útil aproveitamento os nossos campos tão amenos, os nossos climas tão saudáveis, os nossos rios tão serenos, os nossos sertões tão opulentos e majestosos, tudo por falta de ação, de trabalho e de energia!" (ZALUAR,1863: 109)

Repetem-se as classificações distintas entre natureza e homem: a vida do caipira é levada sem muito trabalho, calcada em hábitos de ociosidade e atividades completamente improdutivas, enquanto que ao mesmo tempo a natureza, ornada de adjetivos - solo fértil, campos amenos, climas saudáveis, rios serenos, sertões opulentos e majestosos - submissa e generosa, confia ao progresso sua generosidade. E novamente, ao longo do trajeto no Vale do Paraíba, nas considerações sobre as povoações do norte de São Paulo repetem-se os estigmas: terra fecunda e gente indolente tratadas nas categorias trabalho, ciência (conhecimento) e civilização:

Os elementos naturais de riqueza e de prosperidade abundam por toda a parte. A terra, vigorosa e fecunda, convida os homens à atividade e ao trabalho.
Estes, porém, nem sempre lhe correspondem com a energia e a confiança que ela lhes requer. A indolência natural das raças semi-nômades, a falta absoluta dos conhecimentos mais rudimentares, o estéril afã dos mesquinhos interesses e das paixões ativadas pelo ócio e pela geral indiferença com que se encara o futuro desta terra, tudo isto concorre para o esperdício de forças que, aproveitadas utilmente, seriam de grande alcance na obra da civilização, mas que, desviadas deste caminho pela inércia, fraqueza e algumas vezes ignorância dos que poderiam imprimir-lhe um movimento salutar, se perdem, esgotam e inutilizam, sem consciência do seu