| João
Carlos de Faria
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- O acervo cultural valeparaibano
A análise que se faz do perfil
do meio rural valeparaibano, além
da constatação de
uma atividade agrícola marcadamente
familiar, deve incluir também
uma avaliação do acervo
histórico e cultural que
os ciclos agrários legaram
para as gerações atuais.
O Vale do Paraíba, de acordo
com Toledo (2001, p.86) guarda monumentos
arquitetônicos muito significativos
e características do fazer
e do viver de outras épocas.
É uma região, segundo
ele, rica em tradições,
entendidas como o apego aos usos
e costumes antigos de uma comunidade
ou de um povo, que se constituem
de conhecimentos e práticas
resultantes de fonte oral, de hábitos
ou de recordações
reveladoras da sabedoria popular.
O autor ressalta as festas religiosas,
o rico e variado artesanato e a
culinária regional como expressões
vivas das tradições
valeparaibanas.
Ele também reconhece a importância
do legado do ciclo cafeeiro que,
a partir do século XIX, gerou
um conjunto de monumentos arquitetônicos
que se destacam na região,
principalmente no chamado Vale Histórico,
região formada pelos municípios
de Silveiras, Areias, São
José do Barreiro, Arapeí
e Bananal, estendendo-se do meio
rural para as cidades, em conjuntos
de valor imensurável, como
fazendas, igrejas, sobrados, solares,
estações ferroviárias,
pontes, cemitérios, jardins
públicos, etc.
Garcia (2003, p.53) afirma que a
modernização das cidades
do Vale do Paraíba não
representou a morte das tradições,
que convivem com a modernidade presente
na música, na linguagem,
nos costumes, nas escolas, no fazer
política, nos meios de comunicação.
O autor sustenta sua afirmativa
com a menção aos casarões
urbanos que são ocupados
de alguma forma, assim como as fazendas
antigas, que têm se transformado
em hotéis; à moda
de viola, que pode ser apreciada
em vários lugares e ocasiões;
aos carros de bois, que ainda circulam
etc. São características
que indicam que o Vale é
diferente da metrópole, tornando-se
por isso uma região alternativa.
De outra forma, as festas religiosas,
muito relacionadas ao meio rural
valeparaibano, ainda são
preservadas como importantes manifestações
culturais, que representam a relação
entre o caipira e a religiosidade,
expressa na mistura do profano e
do divino, movimentando cidades
como São Luiz do Paraitinga
e Cunha, localizadas nas encostas
da serra do Mar, onde se destacam
as festas do Divino e dos respectivos
padroeiros, São de Toloza
e Nossa Senhora da Conceição.
Nestas festas, grupos de cavalhadas,
moçambique, congadas e outros
folguedos se misturam à manifestações
de fé, em ritos seculares
mantidos pela comunidade local.
De um modo geral, todas as cidades
do Vale do Paraíba, inclusive
as mais urbanizadas como Pindamonhangaba,
Taubaté e São José
dos Campos, homenageiam seus santos
padroeiros com festas tradicionais,
além de festas como a de
São Benedito, em Aparecida,
de Santo Antonio, em Guaratinguetá
e Paraibuna, Nossa Senhora da Piedade,
em Lorena e São João
Batista, em Queluz.
Há ainda outras manifestações
importantes como a culinária
regional, influenciada por índios,
negros e brancos e claramente focada
na cozinha das fazendas e sítios,
com variedade de elementos e temperos
e, apesar da simplicidade, muito
atraente ao gosto e o paladar de
consumidores oriundos dos grandes
centros urbanos. Destacam-se pratos
tradicionais como o "afogado",
comida à base de carne bovina,
servido graciosamente nas festas
de padroeiros das cidades do Alto
Paraíba ou a "Carne
à Moda da Bocaina",
criado improvisadamente para servir
aos soldados revolucionários
paulistas de 1932, numa fazenda
de Cachoeira Paulista, além
da cachaça e demais produtos
derivados da cana-de-açúcar,
que teve breve ciclo na região,
ocorrido na transição
dos ciclos do ouro e do café.
Outro aspecto a ser observado é
a existência de núcleos
rurais e de pequenos municípios,
nos quais se mantém o modo
de vida característico do
meio, reunindo por vezes personagens
significativos da cultura local
como cantadores, bordadeiras, doceiras,
contadores de causos, artesãos
de um modo geral e outros talentos,
que se ocupam de atividades rotineiras
do campo, mas que, nos momentos
de lazer e de convivência
da comunidade, demonstram suas habilidades.
Esse conjunto de experiências
constituem um patrimônio valioso,
que ajuda a perpetuar costumes e
manifestações da cultura
regional,
como uma marca do povo valeparaibano
e atrai a atenção
de um público qualificado,
vindo das grandes cidades.
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