Estudos
O acontecimento da Coroação de Nossa Senhora Aparecida - Território da Fé e da devoção Mariana
  
   


Francisco Sodero Toledo

Os romeiros que chegaram a Aparecida, vindos de trem, ao deixar a pequena estação ferroviária tomaram uma rua bastante larga e plana. Nela as casas eram simples, muitas de taipa, por onde se estendiam os trilhos do bonde puxado por muitas mulas. Depois dobravam à esquerda e chegavam ao começo da ladeira, a única rua do povoado calçada que levava diretamente à praça do santuário. Subiam a ladeira rezando e cantando, avistando de distância em distância um lampião de querosene, alguns cavalos amarrados às portas das casa de comércio e alguns outros animais. Já no alto da colina, do antigo morro dos coqueiros, uma vista deslumbrante: o Rio Paraíba, em curvas de puro capricho, cortando o vale; ao longe a serra da Mantiqueira, um enorme paredão, criando obstáculos para a saída dos homens para outros territórios, fazendo com que o olhar se voltasse para o alto, para o céus, morada dos santos e do Criador. Em frente da praça estava o altar devidamente ornamentado para a imagem que veio das águas deste rio cheio de mistérios e de lendas.
Ficaram diante de uma paisagem tipicamente valeparaibana. Marcada pelos acidentes naturais do Rio Paraíba e das serras do Mar e Mantiqueira, completada por outros elementos colocados pelo homem no processo de ocupação e colonização da região: os caminhos e as capelas. Os primeiros caminhos foram abertos seguindo as primitivas trilhas indígenas e serviram para estabelecer os primeiros núcleos de povoamento, bem como estreitar as ligações com o planalto de Piratininga, com o litoral , ao território mineiro e, posteriormente, com a cidade do Rio de Janeiro. As capelas que foram sendo construídas ao longo dos caminhos, a partir da Igreja de N. S. da Escada, em Guararema representou, como escreveu Eduardo Hoonaert, “a marca de conquista em dimensões nunca alcançadas na história anterior do cristianismo. A maioria das construções religiosas do período colonial não obedeceram principalmente a considerações de ordem pastoral, mas significaram padrões de posse em nome do Império e garantia de domínio sobre índios, franceses, holandeses, quilombolas...”(5)
O local onde fora construída a Igreja de N. S. Aparecida pertencia a então Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, criada em 1651. Tratava-se de um pequeno núcleo populacional abrigado no alto de uma colina, um lugar propício à vivência mística que com o passar do tempo foi se transformando em território da fé e da devoção mariana. Um lugar sagrado pela contemplação e pela devoção.
No início, esta área destacava-se pelo seu posicionamento estratégico. Assemelhava-se a um posto administrativo-militar avançado, para garantir a ocupação do território conquistado pelos colonizadores portugueses, assinalando as possibilidades de avanço por “sertões desconhecidos”. Ficava num entroncamento de caminhos que de-mandavam em direção ao litoral, à Vila de São Paulo de Piratininga, posteriormente às Minas Gerais e à Capitania do Rio de Janeiro. Sua localização corresponde à descrição dos lugares propícios à vivência com o sagrado, favorecendo o desenvolvimento da religiosidade. O local onde foi levantada a capela primitiva em louvor ao padroeiro, hoje catedral, é muito bonito. Dele podia-se vislumbrar a bela paisagem, avistar ao longe as serras aprisionando o rio, o céu azul, favorecendo o estado de contemplação.
A poucas léguas de Guaratinguetá, na busca de metais preciosos, os bandeirantes, procurando por um lugar para passar pelo Rio Paraíba do Sul, em terras de Guayparé, deram origem ao porto do mesmo nome. Em torno do porto e da capela erguida em homenagem à Nossa Senhora da Piedade surgiu a atual cidade de Lorena, sob forte influência do culto mariano, estimulado pela Igreja Católica nestes primeiros tempos de colonização. Elevada à freguesia em 1718, com o nome de Piedade, o local ganhou fama e progresso. As manifestações de fé e devoção à Santa resultaram nas celebrações das festas de 15 de agosto, que continuam sendo realizadas ano após ano, até os dias atuais . Frei Agostinho de Santa Maria, em sua obra “Santuário Mariano”, de 1714, apresenta um título referente à milagrosa imagem de Nossa Senhora da Piedade. Graças à constante presença e orações dos viajantes e fiéis, em 1746, o Papa Benedito XIV concedeu indulgência plenária e mercês especiais aos seus devotos. A freguesia da Piedade tornou-se o primeiro centro de peregrinação da região valeparaibana.
Esta posição de destaque somente foi suplantada pela mudança de rumos das peregrinações em direção à capela levantada em louvor de N. S. Aparecida, em 1745, cuja imagem havia sido encontrada nas águas do Rio Paraíba, em terras pertencentes a Guaratinguetá, no ano de 1717.
Por esta mesma época, em 1739, nascia o menino Antônio Galvão de França, filho de família devota de Santa Ana. Por essa razão, em 15 de abril de 1760 acrescen-tou ao nome que herdara do pai, o de Sant’ana. Assim que se tornou religioso, consa-grou-se como “servo e escravo” de N. Senhora. Por sua santidade, a 25 de outubro de 1998, o Papa João Paulo II realizou no Vaticano o ato solene de sua beatificação. É de Guaratinguetá, desta região, o primeiro beato brasileiro, o primeiro a receber da Igreja a honra dos altares.
Estes fatos ocorridos durante o século XVIII estão ligados à influência destes locais propícios ao desenvolvimento da religiosidade, à prática da religiosidade popular católica, do culto mariano e do misticismo sertanejo. São marcas da história regional que transformaram esta parte do território valeparaibano em lugares da fé, centros de peregrinação e de devoção popular, berço de marcantes tradições que assinalam as-pectos decisivos da História e da identidade cultural valeparaibana.



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