Estudos
Taubaté como palco, o Vale do Paraíba como cenário
  
   



Francisco Sodero Toledo

Cenário de transição: a caminho da modernização

Com a lavoura cafeeira em plena expansão pela região, durante o século XIX, houve a necessidade de melhorar os meios de transporte. A solução veio com a construção de uma ferrovia ligando a região às cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, a antiga D. Pedro II, inaugurada em 7 de julho de 1877. Este acontecimento mudou a fisionomia da sociedade valeparaibana. A ferrovia serviu de alavanca para o desenvolvimento das cidades por onde passava. Foi usada como meio de transporte e comunicação com as três mais importantes capitais do país, cujo governadores dela se utilizaram para estar, com facilidade na época, na cidade de Taubaté em 1906, para a assinatura do convênio que assinalava a adoção da política de defesa e valorização do café. Incentivou o aparecimento de novas atividades econômicas, expandiu o comércio, gerou novas ocupações urbanas, tornando-se novo referencial para o desenvolvimento das cidades e de sua malha urbana.
Aos poucos, as cidades cortadas pela estrada de ferro, “iam-se modernizando....perdendo seus característicos de cidades coloniais e adquirindo aspectos de cidades evoluídas, do século XX” (Müller, 1969,67-109). Elas foram sofrendo modificações. Iniciaram a “era do automóvel”. “Os primeiros automóveis começaram a surgir na segunda década do século: em 1910, Lorena conta com seu primeiro automóvel de aluguel, um Ford modesto, que causou sucesso... Em 1924, Guaratinguetá contava com agência Ford, em 1926, com outra, da Chevrolet. Começaram a surgir os cinemas, já na primeira década do século....na segunda década, surgirão os clubs esportivos, hipódromos e clubes de foot-bool.” (Müller,1969,111-113). Foram sendo realizados melhoramentos urbanos, tomando-se mais cuidado com a higiene pública, com a limpeza e organização destes centros urbanos.
O cenário regional passou a ser caracterizado pelas “cidades mortas” e pelas cidades que prosseguiram seu ritmo de desenvolvimento, apesar da crise cafeeira. Como demonstra a tabela VIII apenas Bananal figura na lista dos mais populosos, no ano de 1890, ocupando o terceiro lugar. Após o século XX, as cidades cortadas pela ferrovia vão se afirmando como as mais populosas da região. Mantiveram nas primeiras décadas a produção de café associada ao crescimento das atividades comerciais e industriais. As cidades de Guaratinguetá, Taubaté e Pindamonhangaba, que se revezam nas primeiras colocações, acompanhadas de cidades sedes de municípios de grande extensão territorial, como Cunha, Paraibuna e São Luiz do Paraitinga que diversificam suas produções para atender a demanda do mercado regional em crescimento.

Tabela VIII – Relação dos Municípios mais populosos (1890 – 1920)

Colocação
1890
1900
1920
Guaratinguetá: 30 690 Guarátinguetá: 38 263 Taubaté : 45 445
Taubaté : 20 773 Taubaté : 36 723 Guaratinguetá: 43 101
Bananal : 15 435 S.J. dos Campos: 18 884 Pindamonhangaba: 21 871
S. J. Campos: 15 154 Pindamonhangaba: 17 542 Cunha: 20 171
Pindamonhangaba:14 636 Paraibuna 16 700 S.Luiz do Paraitinga: 19 917
Sub-total      
Total região
281 959
339 674
399 046

Fonte: www.valedoparaiba.com/bancodedados

O ritmo de desenvolvimento das cidades servidas pela ferrovia apresentam indícios de terem sido atingidas pela crise cafeeira do início do século XX. É significativo “o fechamento de bancos, a redução de impostos”, enfim com os problemas derivados da crise do setor cafeeiro. ( Müller, 1969,113)
Passados os problemas provocados pela geada, em 1918, os reveses da crise econômica de 1929 e da crise política vivido com a Revolução Constitucionalista de 1932, houve ainda uma ligeira tendência de aumento de produção de café na década de 30. A produção regional, embora sendo menor em relação à produção do conjunto do Estado de São Paulo, aumentou de767 069 arrobas, em 1920, para 898 332 arrobas em 1935. (tabela III) Nem todos os municípios seguiram esta tendência. Apenas os apontados na tabela IX. A produção verificada em 1935, para o conjunto dos municípios que apresentaram este crescimento, foi um pouco mais que o dobro. Passam de 263 127 para uma produção de 566 690 arrobas em 1935. Destacando-se, nesta retomada na produção, os municípios de Taubaté, com 187 636, e, São José dos Campos com a produção de 134 254 arrobas de café.
Inaugura-se uma nova fase da cafeeicultura regional, com base nos princípios comerciais, financeiros e administrativos presentes no oeste de São Paulo, com emprego da mão-de-obra livre e com maiores cuidados no trato do solo. Aumentou assim a produção e os ganhos. Parte dos lucros poderia, como acontecia em outras áreas mais novas, ser aplicada em negócios e atividades fora do setor cafeeiro. Forneciam as bases que justificavam o rápido crescimento e a liderança que Taubaté e São José dos Campos começaram a assumir no âmbito regional.

Tabela IX - Aumento de produção de café na década de 30

Municípios
1920
1935
1 - Silveiras 21 607 32 760
2 - Cachoeira Paulista 11 927 14 500
3 - Taubaté 78 980 187 636
4 - Caçapava 65 813 89 275
5 - São José dos Campos 51 173 134 254
6 - Paraibuna 8 807 61 420
7 - Natividade da Serra 2 940 7 305
8 - Jacareí 16 727 33 310
9 - Santa Branca 5 153 6 230
Sub-total da produção 263 127 566 690

Fonte: Sergio Milliet, Roteiro do Café e Outros Ensaios. (p. 40/41)


Diante das dificuldades enfrentadas no setor cafeeiro passou a haver a procura por novas oportunidades e possibilidades econômicas. Nas áreas rurais houve a substituição dos cafezais pelas pastagens. Fenômeno generalizado que transformaria a região em uma grande bacia leiteira abastecedora da cidade de São Paulo. Alguns municípios serranos como Cunha, São Luiz, Redenção da Serra e Paraibuna ampliaram a produção de produtos agrícolas, vivendo da policultura, abastecendo os núcleos urbanos mais próximos, de maior porte. Paralelamente, “ os núcleos urbanos, centros de áreas rurais empobrecidas, descobriram como ocorreu em todo país, que havia uma nova possibilidade, a industrialização.” (Müller, 1969, 80)
As primeiras indústrias surgiram na região nas últimas décadas do século XIX. Nice Lecoq Müller considera terem ocorrido três fases distintas neste processo. A primeira vai de 1891 a 1914, com lenta progressão e com predominância da indústria de alimentos e têxteis; a segunda de 1914 a 1943, com maior progressão com maior diversificação com a abertura de estabelecimentos de transformação de minerais não metálicos, de beneficiamento de produtos agropecuários e indústria de madeira; uma terceira fase quando apareceu a indústria moderna, metalúrgica e mecânica, criando, ao lado da obtenção de bens de consumo, a bens de produção. (Müller,1969, 82-83). Pode-se acrescentar a esta divisão o período mais recente, com o desenvolvimento das indústrias de ponta, de projeção nacional.
O processo industrial em Taubaté retrata esta mudança e a busca de novas atividades econômicas. A industrialização passou a ser um dos sustentáculos de sua economia a partir do início do século XX. Em 1891 se instalou a Companhia Taubaté Industrial (CTI), seguida pelas Indústrias Reunidas Vera Cruz, em 1923, a Companhia Fabril de Juta, em 1929, e a Companhia Predial de Taubaté, em 1932. Este surto industrial foi favorecido pela presença de capitais locais e advindos de outras regiões cafeeiras; pela mão-de-obra farta e barata acumulada com a abolição e decadência das fazendas de café; pelo aproveitamento de imigrantes, principalmente os italianos, alguns dos quais possuíam formação profissional qualificada; pelas facilidades de comunicação com São Paulo e Rio de Janeiro, pelas vias construídas para o café; e, pela vantajosa posição geográfica da cidade no conjunto da região.


Parte VI - Balanço Final





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