Estudos
Taubaté como palco, o Vale do Paraíba como cenário
  
   



Francisco Sodero Toledo

Cenário de decadência: “As Cidades Mortas”

“Estamos em cheio na zona morta, que o café desbravou,
povoou, enriqueceu e abandonou antes que criasse raízes o progresso”

Sergio Milliet


No início do século a parte mais atingida pela crise cafeeira, as cidades da área das garupas, encontravam-se “empobrecidas pela decadência do café e marginalizadas pelo deslocamento do eixo de circulação pelo traçado da E. F. Central do Brasil, passando por Cruzeiro, “bruxoleavam” nas primeiras décadas do século. São as “cidades mortas” de Monteiro Lobato.” (Müller, 1969,107)
O cenário de decadência tinha como base a diminuição da produção de café. Como se pode observar na tabela VI, entre os anos de 1886 a 1920 houve uma queda da produção da ordem de 75,66%. O auge verificado no final do século XIX, atingindo o patamar de quase trezentas mil arrobas, caiu vertiginosamente para menos de setenta mil arrobas em 1920. Esta situação foi decorrente do quadro adverso vivido pela cafeeicultura no período, aprofundado pelos efeitos negativos da grande geada ocorrida no ano de 1918 que dizimou cerca de 40% dos cafezais. Fatores que resultaram na diminuição da participação da área no conjunto da produção regional em 34,23%.

Tabela VI – Municípios da Região das Garupas: evolução da produção de café

Municípios
1886
1920
Areias
100 000
21 920
São José do Barreiro
120 000
26 273
Silveiras
66 667
21 607
Total
286 667
69 800
Total do Vale do Paraíba
2 074 267
767 069
% em relação ao Vale do Paraíba
13,82
9,09

Fonte: Sergio Milliet, Roteiro do Café e Outros Ensaios. (p. 40/41)

A redução da produção, como confirmam os dados da tabela VI, foi acompanhada da estagnação e diminuição da população. Os habitantes da área estudada, em 1920, correspondiam a 71,89% do contingente existente em 1900. Um decréscimo da ordem de 28,11%. Se comparado com o restante da região do Vale do Paraíba estes números tornam-se mais expressivos. A participação no conjunto populacional da região a sua participação passou de 12,23 para 7,48, ou seja, diminuiu em 38,84%.

Tabela VII - Região das Garupas – Vale Histórico: evolução da população

Municípios
1872
1890
1900
1920
Bananal 15 606 15 435 15 473 11 507
São José do Barreiro 5 699 6 141 5 844 4 879
Areias 5 717 7 105 8 858 6 100
Silveiras 11 973 9 137 11 391 7 398
Total 38 995 37 818 41 566 29 884
Total do Vale do Paraíba 196 305 281 059 339 674 399 046
% em relação à região 19,86 13,45 12,23 7,48

Fonte: Sergio Milliet, Roteiro do Café e Outros Ensaios. (p. 40/41)

As cidades entraram em processo de estagnação, paradas no tempo. Itaoca, cidade morta descrita por Monteiro Lobato era “ uma grande família, com presunção de cidade.” O motivo, explica Lobato, é dado pela sua localização: “distava duas léguas da via férrea e quarenta da capital” (Monteiro Lobato, 1951,6-7)
A imagem traçada pelos dois grandes literatos que conviveram com esta realidade nos primeiros anos do século XX, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha, confirmam a situação de declínio vivido por seus habitantes.
A terra foi apresentada por ambos como empobrecida, decadente, melancólica, abandonada pelos seus filhos mais ilustres e empreendedores. O homem identificado como preguiçoso, hospitaleiro, místico, mesmeiro, ingênuo, triste, ligado ao caráter rural, fatalista e conservador.
Euclides da Cunha, em Contrastes e Confrontos, assim descreve a terra e a gente de então:
As estradas são ermas. De longe um caminhante. Mas também um decaído. Não é daqueles caboclos rijos e mateiros que abriram neste Vale as picadas atrevidas das bandeiras. O caipira desfigurado, sem o desempenho dos titãs bronzeados que lhe formam a linguagem obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante, esboçando o momo de um sorriso deplorável, deixa-nos mais apreensivo como se vívessemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra.” (In Sodero Toledo, 2001, 109)
Monteiro Lobato, que tão bem as conheceu e por ali viveu, com sagacidade escreveu em Cidades Mortas:
Ali tudo foi, nada é.
...Erguem-se nelas soberbos casarões apalaçados, de um ou dois andares, sólidos como fortalezas, tudo pedra, cal e cabiúna; casarões que lembram ossaturas de megatérios, d’onde as carnes, o sangue, a vida para sempre desertaram... São os palácios mortos da cidade morta.
Atraídos pelas terras novas, de feracidade sedutora, abandonaram-na seus filhos; só permaneceram os de vontade anemiada, débeis, faquirianos. Mesmeiros, que todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam-pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo.
” ( Monteiro Lobato, 1951,10-11)
Um pouco de alento chegará até esses centros com a abertura ao tráfego, em 1924, da primeira estrada de rodagem Rio-São Paulo que por eles passavam”. (Müller, 1969,107) No entanto, sofrerá novos reveses como palco dos combates na Revolução Constitucionalista em 1932 e com a abertura da Rodovia Presidente Dutra, em 1951.

Parte V - Cenário de transição: a caminho da modernização





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