|
Francisco
Sodero Toledo
O
Cenário Regional
Quando
da assinatura do Convênio
de Taubaté o Vale do Paraíba
era uma região caracterizada
pela presença da cafeicultura.
Gozava do prestígio por ter
sido a pioneira, a primeira região
produtora de café em território
paulista.
As primeiras plantações
foram feitas ao final do século
XVIII, na região das “garupas”,
à beira do Caminho Novo da
Piedade, caracterizada pelos “mares
de morros”. Corresponde à
área onde estão localizados
os municípios de Bananal,
Arapeí, São José
do Barreiro, Areias e Silveiras,
denominada hoje de “Vale Histórico”.
As primeiras mudas entraram advindas
do Vale do Paraíba Fluminense.
Em 1798 a produção
foi de 60 arrobas, aumentando consideravelmente
por toda a primeira metade do século
seguinte, conforme se pode constatar
pelos dados de produção
apresentado na Tabela I. O auge
da produção se deu
nos anos 50, registrando um ponto
de inflexão a partir desta
década.
Tabela
I – Evolução
da produção de café
na “área das garupas”
(1814- 1854)
Ano |
Produção
em arrobas |
1 814
|
3
515 |
1
816 |
4
973 |
1
817 |
6
725 |
1
822 |
36
802 |
1
836 |
167 619 |
1
854 |
940
694 |
Fonte:
Sodero Toledo, 1974, 86
O caráter pioneiro da área
das “garupas” provocou
rápido povoamento e prosperidade
econômica. Saint Hilaire,
ao percorrer o Vale do Paraíba
em 1822, em sua viagem de volta
de São Paulo para a cidade
do Rio de Janeiro, assinalou que
“é para lá
de Lorena que começa a
encontrar os homens ricos. Devem
todos a fortuna à cultura
do café”. E, acrescenta,
“ começam também
os lavradores a entregar-se a
ela nas cercanias de Jacareí,
Taubaté e Guaratinguetá,
mas até agora as pessoas
abastadas só se ocuparam
da cana de açucar e os
pobres do algodão com o
qual fabricam tecidos grosseiros.”
( Saint Hilaire, 1954, 127)
Na metade do século a hegemonia
da produção regional
pertencia aos municípios
desta área pioneira. Em
1854 os municípios de Bananal
e Areias, com produção
respectiva de 554.600 arrobas
e 386.094 arrobas, eram os maiores
produtores de café. Os
demais municípios, conforme
tabela II, localizavam-se na nova
área produtora, a bacia
terciária de Taubaté,
que se estendia da cidade de Cachoeira
Paulista a cidade de Jacareí,
acompanhando o leito do Rio Paraíba
e posteriormente cortadas pela
ferrovia.
Tabela II - Vale do
Paraíba: principais produtores
de café
1836 – municípios
e produção em
arrobas
|
1854
– municípios
e produção em
arrobas |
| 1º
- Areias : 102.797 |
1º
- Bananal: 554.600 |
| 2º
- Bananal: 64 822 |
2º
- Areias : 386 094 |
| 3º
- Pindamonhangaba; 62 628 |
3o
–Taubaté 354.730 |
| 4º
- Jacareí: 54 004 |
4º
- Pindamonhangaba 350 000 |
| 5º
- Lorena: 33 649 |
5º
- Jacareí 240 010 |
As
condições favoráveis
à economia cafeeira verificadas
na segunda metade do século
XIX estimularam o aumento da produção.
Assim, verifica-se que na décadas
de
1870-1880 ocorreu um deslocamento
do centro geográfico das
plantações. A produção
de São Paulo ultrapassou
a produção do Rio
de Janeiro, e os planaltos paulistas
começaram a concorrer para
logo assumir a liderança
na produção. Situação
que se acentuou no período
republicano, como se pretende demonstrar
na tabela III.
Tabela
III – Produção
do Café e População
do Vale do Paraíba em relação
ao Estado
Vale
do Paraíba
|
1854
|
1886
|
1920 |
1935 |
| População |
146.055 |
338.533
|
490.660
|
483.834 |
| %
sobre pop. total |
38,00 |
32,66
|
13,43 |
9,79 |
| Produção
café |
2.737.639 |
2.074.267
|
767.069
|
898.332 |
| %
produção total |
77,46 |
19,99
|
3,47 |
1,71 |
Fonte:
Sergio Milliet, Roteiro do Café
e Outros Ensaios. (p. 40/41)
No ano de 1906, quando foi celebrado
o Convênio de Taubaté,
a produção da região
do Vale do Paraíba correspondia
a menos de 20% do total da produção
do Estado. Situação
resultante do avanço das
plantações por outras
regiões concorrentes, da
crise geral verificada nos quadros
da superprodução nacional
e de problemas enfrentados pelos
produtores da região. Tendência
que se confirma na década
seguinte, quando em 1935 o total
da produção da região
representava apenas 1,71% do total
da produção do Estado
de São Paulo.
O Vale do Paraíba não
podia competir com a expansão
cafeeira do oeste paulista. Os novos
solos ocupados com a expansão
cafeeira no Estado, como por exêmplo,
a Alta Mogiana, polarizada pela
cidade de Ribeirão Preto,
o chamado Oeste Novo, “oferecia
um tipo de solo extremamente favorável
ao café, capaz de permitir
a excepcional produtividade de 350
arrobas por 1 000 pés.”
(Amaral Lapa, 1986,41) Tampouco,
concorrer com a região de
Campinas, onde teve início
esta expansão para o oeste
do Estado, onde 1000 pés
produziam em média 55 arrobas
de café, pois, na região
do Vale do Paraíba a média
por 1000 pés produzindo era
de apenas 24 arrobas. Além
das diferenças de relevo
e de condições naturais
havia também grandes diferenças
sócio-econômicas entre
a tradicional região cafeeira
e do oeste paulista. Influenciavam
também outros fatores como
a utilização da mão
obra livre e a infra-estrutura de
transporte com a implantação
das ferrovias. A nova área
de expansão dos cafezais
foi organizada diferente da região
do Vale do Paraíba. Como
afirma Amaral Lapa, ela tinha suas
bases assentadas nas formas capitalistas
de ocupação e uso
da terra, na mentalidade empresarial
capitalista, no investimento produtivo
do lucro, na utilização
de ferramentas e tecnologia da agricultura
moderna, no senhorio empresarial,
desdobrando-se em iniciativas urbanas,
na formação das classes
médias por um movimento de
ascenso de segmentos inferiores,
no ativismo na prática política,
na incorporação da
mão de obra livre do imigrante
e em unidades de produção
capitalista. Sendo assim, em situações
diferentes “embora solidários
em muitas questões, os fazendeiros
chegaram a ter interesses conflitantes...”
(Amaral Lapa, 29)
Além da concorrência
das novas e mais produtivas zonas
produtoras, da superprodução
acompanhada da baixa de preços
no mercado internacional, a situação
cafeeira no Vale do Paraíba
enfrentava problemas específicos,
ampliando a crise no setor.
Sofria as consequências de
uma economia dependente, reprodutora
do modo de produção
colonial, com base no latifúndio,
na mão-de-obra escrava e
na dependência de capitais,
agravado com a atuação
dos comissários do café,
descapitalizando o setor.
Parte da região, principalmente
na área pioneira das “garupas”,
caracterizada pelos “mares
de morros”, enfrentava o problema
do esgotamento do solo. No início
as plantações foram
ali realizadas com sucesso. Derrubada
a mata virgem ficava o húmus
propício aos cafeeiros. As
plantações eram feitas
em linhas retas, nas chamadas “ruas
de café”. Com o passar
do tempo a erosão atuava
retirando o húmus, empobrecendo
o solo, provocando, em prazo, não
muito longo, a decadência
das plantações. “
O esgotamento do solo, provocado
pelo desmatamento e queimadas sem
qualquer preocupação
com a adubagem, sequer de aproveitamento
dos detritos vegetais, contribuindo
para extinguir a reserva de matéria
orgânica, levou em média
de meio século para região,
após o que a produtividade
foi acentuadamente caindo....O avanço
dos cafezais e o povoamento dirigiram-se
para os espigões, isto é,
as partes elevadas dos planaltos,
onde eram mais freqüentes as
manchas de terra roxa, ao mesmo
tempo que ficavam menos sujeitas
às geadas, que constituem
o grande inimigo natural do café...”
(Amaral Lapa, 1986, 40-41)
No final do século a economia
cafeeira regional ressentia-se do
duro golpe da abolição.
Ela significou o empobrecimento
dos fazendeiros que perderam parte
de seus capitais investidos e provocou
enormes dificuldades para a colheita
pela falta de mão-de-obra
que se seguiu. Situação
agravada com a emigração
para as novas regiões produtoras
e pela imigração tardia.
Quando as tentativas de colonização
européia, principalmente
italiana nos municípios de
Canas e Guaratinguetá vingaram,
a produção do café
estava em crise, expandindo-se para
outras regiões. Para elas
também se dirigiram numerosos
cafeeicultores levando consigo família,
agregados e trabalhadores rurais.
Membros de antigas e tradicionais
famílias do Vale do Paraíba
seguiram esta tendência, como
as famílias “Paula
Machado, Alves Pôrto, Martins
Siqueira, com fazendas de café
em Batatais, Pinhal, Cravinhos.
O coronel Virgílio Rodrigues
Alves, não se contentando
com a a grande fazenda das Três
Barras, em Guaratinguetá,
associou-se a parentes, para plantações
de café, no oeste paulista,
em São Manoel. Mais quatro
fazendas, nas proximidades de Baurú,
em Piratininga, também, com
2.000.000 de cafeeiros. “
(Motta Sobrinho, 1967,119)
“ O patrão corria atrás
do empregado”, como afirma
Motta Sobrinho. A falta de braços
se acentuava e os jornais passam
a estampar anúncios, como
na Gazetinha, da cidade de Guaratinguetá,
em 1896, dizendo: “ Precisa-se
de muitos empreiteiros para a limpa
de cafezais com mato de menos de
um mês.... A colheita de café
será começada depois
da Semana Santa... Os pagamentos
serão feitos aos sábados.
“ ( Motta Sobrinho, 1967,112)
A crise pela qual passava a cafeeicultura
na região provocou a diminuição
da produção e um forte
declínio do faturamento com
a venda do café. Principalmente
tomando-se como base os últimos
anos do século XIX (1886)
e as duas primeiras décadas
do século XX, (1920), utilizando-se
os dados disponíveis na literatura,
conforme pode se constatar nas tabelas
IV e V.
Tabela
IV - Diminuição da
Produção de Café
em diferentes municípios
do Vale do
Paraíba ( 1886- 1920)
|
MUNICÍPIOS |
1886 |
1920 |
| 1-
São José do Barreiro |
173
333 |
7
880 |
| 2
– Areias |
100
000 |
21
920 |
| 3
- Queluz |
120
000 |
26
273 |
| 4
- Silveiras |
66
667 |
21
607 |
| 5
- Cruzeiro |
60
000 |
41
087 |
| 6
- Lorena |
50
000 |
45
213 |
| 7
- Guaratinguetá |
350
000 |
97
687 |
| 8
- Pindamonhagaba |
200
000 |
82
047 |
| 9
- Taubaté |
300
000 |
78
980 |
| 10-
São José dos Campos |
250
000 |
51173 |
| 11-
Jacareí |
56
000 |
16
727 |
| 12-
Santa Branca |
30
000 |
5
153 |
| Total
dos 12 municípios |
1 756 000 |
495
747 |
Fonte:
Sergio Milliet, Roteiro do Café
e Outros Ensaios. (p. 40/41)
Como
se pode observar na tabela IV, a
produção no conjunto
dos municípios apontados,
em pouco mais de três décadas
chegou a apenas 28,23% do total
da produção alcançada
ao final do século XIX.
Tabela V – Faturamento
com produção de café
da região do Vale do Paraíba
em
Dólares.
|
Ano |
Faturamento
em dólares |
| 1
836 |
7.974.212 |
| 1
886 |
6.879.859 |
| 1
920 |
4.748.735 |
| 1935 |
2.210.100 |
Fonte:
Fábio Ricci, Origens e Desenvolvimento
da Industria Textil no Vale do Paraíba
Paulista, p. 6
A queda do faturamento com o café,
entre os anos de 1886 a 1920 foi
da ordem de 31%. Com este dado,
associados `a queda da produção
da ordem de 71,77% (tabela IV) ou
da ordem 63,02%, considerando a
produção total da
região ( tabela III) e a
diminuição na participação
da produção em relação
ao restante do Estado da ordem de
82,65 (tabela III), pode-se concluir
que a região do Vale do Paraíba
encontrava-se diante de um cenário
de decadência da produção
de café e de incertezas quanto
ao rumo de sua economia. O Convênio
de Taubaté, como se depreende,
não conseguiu debelar a crise
cafeeira na região. Em nível
regional, constituiu um remédio
inútil para a combalida economia
cafeeira.
Parte
IV - Cenário de decadência:
“As Cidades Mortas”
|