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Francisco
Sodero Toledo
O
Café e a economia brasileira
Na
segunda metade do século
XIX a economia cafeeira vivia em
situação bem favorável,
com a expansão das plantações,
aumento da produção
e de preços no mercado internacional.
A partir dos anos 70 a produção
do Estado de São Paulo ultrapassou
a do Estado do Rio de Janeiro e
os planaltos paulistas, aos poucos,
a partir de Campinas, começaram
a expandir suas plantações.
O surgimento e proliferação
dos navios a vapor também
representaram um novo impulso ao
comércio de longas distâncias
e em particular favoreceram as relações
comerciais entre o Brasil, a Europa
e os Estados Unidos.
Como conseqüência desta
conjuntura favorável ocorreu
rápido crescimento da produção
brasileira de café, ocasionando
a superprodução. Este
problema manifestou-se desde o final
do século XIX. Em 1882, a
produção ultrapassou
o consumo mundial. A partir de então
os cafeeicultores e empresários
ligados ao setor do comércio
do café começaram
a articular uma política
de defesa do setor cafeeiro. Pois
o café havia se tornado o
maior produto de exportação
e o Brasil controlava quase que
a totalidade da produção
mundial.
Os fundamentos desta política
de defesa do café foram então
definidos pelo Convênio de
Taubaté. O Estado passaria
a intervir no setor, garantindo
o preço mínimo nos
mercados nacionais; daria garantia
para se obter os empréstimos
internos e externos e adquiria o
excedente da produção.
O Convênio previa também
conter a expansão da área
cafeeira, incentivar a produção
de cafés de melhor qualidade
e regularizar o comércio
do produto.
O projeto relativo ao Convênio
foi elaborado no decorrer do governo
paulista de Rodrigues Alves (1902-1906),
incentivado pelos seus opositores
políticos. Não contava,
porém, em muitos pontos com
sua aprovação e, de
fato, após ser aprovado pelo
Senado em 31 de julho de 1906, só
foi posto em execução
no governo do político mineiro
Afonso Pena (1906-1909), apoiado
pelos fazendeiros e exportadores
de café. Dessa forma, a oligarquia
cafeeira dominante no período
impôs indiretamente ao conjunto
do país a política
de valorização do
café por eles definida em
1906, capturando posteriormente
o governo central que acabou chamando
para si a valorização
do produto, para atender aos interesses
e as pressões advindas dos
grupos dominantes e para não
perder o controle sobre a política
econômica nacional.
O Presidente Rodrigues Alves, nascido
em Guaratinguetá, era de
família de cafeeicultores
e representava a oligarquia cafeeira
dominante durante a Primeira República.
Participou da produção
no Vale do Paraíba e do deslocamento
das lavouras para o oeste paulista,
durante a sua mocidade, como lavrador,
e depois como político e
governante. Conheceu os cafezais
na sua Guaratinguetá e com
o irmão Virgílio abriu
fazendas em outras localidades no
oeste do Estado. As pretensões
dos signatários do Convênio
“chocava-se com as suas convicções
e com os seus compromissos de candidato”
( Afonso Arinos, vol.II, 1973,452).
Razão pela qual o presidente
não apoiou o acordo e ofereceu
uma “resistência passiva”.
Na mensagem de abertura do Congresso,
em 1906, declarou: “Seria
um erro recuar, como será
obra de patriotismo afastar de vossas
deliberações a idéia
de quebra de padrão monetário
e a de fixação do
câmbio, que contrariam profundamente
aqueles planos, com tanto êxito
experimentados”. (In Afonso
Arinos, Vol.II, 1973, 459). Para
Afonso Arinos, Rodrigues Alves “comportava-se
no episódio com suas habituais
qualidades de firmeza e moderação.
Como presidente, não se submetia
a pressões que contrariassem
suas idéias e programas,
ainda que viessem do próprio
Estado. Não convocou o Congresso,
não tomou qualquer iniciativa
sobre a projetada Caixa de Conversão
e manifestou-se claramente contra
as teses do convênio. Mas
não podia assumir a responsabilidade
de frustá-lo, nos pontos
que não colidiam com a sua
competência. Por isso remeteu
ao Congresso, e, mais tarde, depois
de aprovado, chegou a defendê-lo”.
(Afonso Arinos, Vol. II, 1973, 459)
Fato ocorrido em 1912, quando era
Presidente de São Paulo.
Foi quando assumiu uma postura em
defesa da política de contrair
empréstimo para garantir
o plano de valorização.
Medida com a qual não concordava
anteriormente, como Presidente da
República.
Na prática e no seu desenvolvimento
as diretrizes emanadas do Convênio
foram sendo implantadas, nem sempre
alcançando os resultados
esperados. A “política
de preços sofreu na sua execução
dificuldades a nível federal
e estadual, ficando São Paulo
praticamente isolado nesses objetivos.
Entretanto, algumas orientações
tomadas em Taubaté tiveram
consequências para o setor
cafeeiro e o seu comércio,
a nível mundial.” (
Amaral Lapa, 1986, 107)
Um dos equívocos dos dirigentes
do setor foi o de se colocarem em
defesa do setor cafeeiro, desde
a primeiras crises de superprodução
ao final do século XIX, quando
praticamente detinham o controle
de quase todo o café produzido
no mundo, sem levar em consideração
as possíveis alterações
no cenário interno e externo.
Naquela situação,
bastava a obtenção
de recursos financeiros para reter
parte da produção
fora do mercado, isto é,
contrair artificialmente a oferta
e colocá-los `a venda somente
em condições e preços
favoráveis. Foi um erro não
levar em conta a possibilidade,
como veio a ocorrer, do constante
crescimento da produção
em países que passaram a
ser concorrentes no mercado internacional
do produto.
O excedente era comprado e estocado
a fim de manter o preço a
nível internacional. Em 1917,
diante da ameaça de uma super
safra, o governo central apoiou
a realização de uma
segunda valorização,
com a compra de 3 milhões
de sacas. Para alívio do
setor, em 1918 uma forte geada atingiu
áreas de plantação
de café, destruindo 40% dos
cafezais. Nesse mesmo ano, com o
fim da Primeira Guerra Mundial,
o comércio internacional
se normalizou, elevando o preço
do café, para a euforia dos
setor. Mas, em 1921 foi novamente
colocada em prática a terceira
valorização do café,
com a compra efetuada pelo banco
central. A cada valorização,
ao invés de conter a plantação
de novos cafezais, na prática,
estimulava-se o aparecimento de
novas plantações.
O problema continuou até
a grande depressão ocorrida
com a queda da Bolsa de Nova York,
em 1929, com violenta depressão
em nível mundial que fez
ruir as bases artificiais em que
vinha se mantendo a política
de valorização do
café.
Por outro lado, a intervenção
do governo nas taxas de câmbio
para favorecer o setor, corrigir
os desequilíbrios, resolver
a crise do setor cafeeiro trouxe
consequências diretas para
o conjunto da sociedade. Ao desvalorizar
a moeda nacional, o café
tinha seu preço barateado
internacionalmente, aliviando o
prejuízo do setor exportador
que recebia pelo café exportado
em moeda estrangeira. Conseguia-se
assim, por este mecanismo corrigir
o desequilíbrio da balança
comercial externa. Quando ocorria
uma alta cíclica no preço
do café, os ganhos ficavam
retidos pelos empresários,
ampliando a concentração
da renda nas etapas de prosperidade.
Em contrapartida, o prejuízo
provocado pela alteração
na taxa cambial era transferido
pela grande massa consumidora, para
aqueles que pagavam pelas importações,
isto é, pela coletividade
brasileira. Fenômeno denominado
por Celso Furtado de “socialização
das perdas”. A alta dos preços
e a instabilidade política
passaram a compor um cenário
de revoltas e insatisfações
que resultaram na eclosão
do movimento de 30, na ascensão
de Vargas e no fim da República
do Café com Leite.
Como observa, irônicamente
Lima Barreto, em “Os Bruzundangas”,
livro publicado em 1923, o sistema
político e econômico
montado durante a República
Velha foi utilizado para favorecer
os interesses econômicos oligárquicos.
Escreveu:
“
A manobra da “valorização”
consiste em fazer que o governo
compre o café por um preço
que seja vantajoso aos interessados
e o retenha em depósito;
mas, acontece que os interessados
são, em geral, governo ou
parentes dele, de modo que os interessados
fixam para eles mesmos os preços
da venda, preço que lhes
dê fartos lucros, sem se incomodar
que o “café”
venha a ser, senão a pobreza
da Bruzundanga, com os tais empréstimos
para as valorizações.
Além disto, o café
esgota as terras, torna-as maninhas,
de modo que regiões do país,
que foram opulentas pela sua cultura,
em menos de meio século ficaram
estéreis e sáfaras.”
(Lima Barreto, 1985, 47)
Em suma, os mecanismos criados em
defesa da economia cafeeira, pelo
Convênio de Taubaté,
tiveram efeitos apenas imediatos,
transferindo para o futuro a resolução
de um problema cada vez mais grave.
Reflexo de uma economia de base
agro-exportadora, comandada por
uma oligarquia agrária, associada
a setores ligados ao comércio
e ao financiamento do setor.
Parte
III - O Cenário Regional
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