| Francisco
Sodero Toledo
A
solene coroação de
N.S. Aparecida realizada no dia
8 de setembro de 1904 por iniciativa
do episcopado brasileiro tem grande
significado histórico. Apresenta
a vitória dos devotos, do
projeto do episcopado brasileiro
e da Igreja Católica nos
primeiros tempos da República.
Sendo assim, repercute até
hoje no seio da Igreja, nas relações
entre Igreja e Estado e por toda
a região valeparaibana.
O ato oficial e solene significou
a aprovação do culto
e da veneração à
imagem de N. S. Aparecida por parte
da Igreja Católica. Sua efetivação
teve como símbolo o ato de
coroar com uma coroa de ouro, de
24 quilates, pesando 300 gramas,
com 24 diamantes que fora ofertada
pela princesa D. Isabel, considerada,
na época, a futura rainha
do Brasil, quando de sua primeira
visita a Aparecida, em 8 de dezembro
de 1868. A partir de então
o culto e a devoção
popular deixariam de ser considerados
como parte do folclore regional.
Desde então ocorre o crescimento
das romarias organizadas e espontâneas
ao Santuário, estimulando
o aumento da religiosidade. Isto
devido ao apoio da Igreja, à
facilidade dos meios de transporte
por ser o Vale do Paraíba
historicamente uma região
de passagem, pelo atendimento pastoral
organizado pelos redentoristas e
propagação dos fatos,
festas e devoção pelos
meios de comunicação
social. Exemplo marcante foi a grande
romaria promovida durante o mês
de agosto de 2003, sob a coordenação
do arcebispo do Rio de Janeiro e
sacerdotes, que contou com a participação
de aproximadamente 40000 pessoas.
O efeito maior da Coroação
está no fato do aumento da
religiosidade, das manifestações
de fé, de busca de esperança
na imagem e na Santa, Rainha e Padroeira
do Brasil. Hoje, são milhares
os peregrinos sintonizados com a
Igreja neste tempo de globalização.
É a manifestação
da fé, “o grito dos
excluídos” que ecoa
no interior do templo e para todo
o Brasil. É um povo que se
emociona e canta a música
do devoto lorenense Dr. José
Vicente de Azevedo: “Viva
a Mãe de Deus e Nossa...”
, reunidos e unidos numa só
fé, no reconforto de seu
cotidiano sob o manto azul da N.
S. Aparecida.
O episcopado brasileiro logrou êxito
com a iniciativa da Coroação
oficial, tendo o apoio do Papa e
a participação entusiasta
dos devotos. Conseguiram unir a
Igreja em torno desta devoção
e comemorar o cinqüentenário
e reafirmar a proclamação
do dogma da Imaculada Conceição.
A Igreja saiu da solenidade fortalecida.
Pôde dar uma demonstração
de unidade e capacidade de organização
e de reunir o povo em torno da devoção
da imagem, direcionando força
da fé católica em
Maria e os sentimentos de religiosidade.
Como escreveu o Pe. Júlio
Brustoloni: “ demonstrar ao
regime republicano, que havia banido
da Constituição e
da vida pública o nome de
Deus e da Senhora da Conceição,
a força da fé católica
e os sentimentos religiosos do povo.”
(15) Dava um passo importante no
sentido de delimitar um espaço
de influência da administração
religiosa católica encravada
no eixo RioSão Paulo, no
coração econômicofinanceiro
do país. Se as primitivas
capelas dos séculos iniciais
de povoamento e colonização
do Vale apontavam para a união
entre Igreja e Estado, o Santuário
de Aparecida, localizado na antiga
Basílica e com maior clareza
a partir dos anos 80, com o novo
Santuário, estabelece um
território delimitado, eclesiástico,
sob o domínio da Igreja Católica.
A
Coroação assinalou
também uma nova época
para a cidade de Aparecida e para
toda a região. Em 1908 o
Santuário recebe o título
de Basílica Menor, em 1917
celebrase o bicentenário
do encontro da imagem com evangelização,
preces e romarias. Cresce em importância
o Santuário e o movimento
na cidade, estimulando o comércio,
a abertura de hotéis e restaurantes.
Como conseqüência, o
município de Aparecida conquista
sua emancipação política
de Guaratinguetá em 17 de
dezembro de 1928. A presença
constante e crescente de romeiros
e o prestígio religioso de
toda a região, apontam hoje
para a possibilidade de incrementar
o turismo religioso como suporte
para alavancar projetos de desenvolvimento
sustentável de caráter
local e regional.
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