| Gislene
Alves
(Resumo
de dissertação de mestrado)
“Nas sendas do progresso:
cidade, educação
e mulheres (Pindamonhangaba- segunda
metade do século XIX)” tem
como base o cenário urbano,
local em que as ações
sofrem exposições
e imposições, e onde
foi possível vislumbrar
os meios utilizados para a construção
dos modelos femininos.
A Imprensa foi o principal veículo
de divulgação das
ações civilizadoras,
para a sociedade em geral e para
as mulheres em particular, nela
se podia denunciar os ‘desvios’ morais
femininos, ao mesmo tempo em que
apresentavam modelos de mulheres,
mães, esposas virtuosas,
dedicadas e dispostas a tudo para
manterem o bem-estar e a felicidade
de seus filhos e marido.
Conciliando com as ‘funções’ maternas,
as mulheres empreenderam várias
outras atividades, que permitiram
expandir sua autonomia e ampliaram
suas ações e poderes.
Nos jornais, e em documentos oficiais-
como Cartas de Liberdade-, encontram-se
mulheres angariando fundos pela
cidade em beneficio da seca nordestina,
gerenciando escolas, casas comerciais,
fazendas, organizando e participando
de festas religiosas, fazendo doações
para as Igrejas, alforriando seus
escravos, o que as colocavam como
agentes de experiências múltiplas
no cotidiano pindamonhangabense.
Apresentação:
A história das mulheres,
que se desenvolveu muito nos últimos
25 anos, empenhou-se primeiro em
descrever seus papéis privados,
tomando-as ali onde elas estavam,
o que pode ter como efeito encerrá-las
neles, pela repetição
do mesmo. Daí o desejo atual
de segui-las pela cidade, pela
nação, às
voltas com uma cidadania social
e política que lhes é proibida,
que se furta, mas que elas vão
progressivamente conquistando.
Pindamonhangaba é uma cidade
do Médio Vale do Paraíba,
que na segunda metade do século
XIX, tinha como atividade central
a produção cafeeira
e outras paralelas a esta, como
outras cidades, encontrava-se à procura
de um modelo de sociedade, nesse
processo se apropriou do discurso
do ‘moderno ’ como
meta, assim, aspirava à modernidade.
Procurando compreender este processo
e as representações
aí construídas, focou-se
a construção do ideal
de mulher para Pindamonhangaba.
A pesquisa destaca os múltiplos
mecanismos utilizados para a construção
desse ideal feminino e como as
mulheres corresponderam e/ou reagiram
a ele.
Para tanto, a pesquisa envolveu
uma trajetória árdua.
Compilando escrituras de compra
e venda de escravos no 1º e
2o Cartórios de Notas de
Pindamonhangaba para um curso de
Demografia Histórica , as
alforrias passadas por proprietárias
me despertaram atenção.
Passei a querer conhecer mais estas
mulheres que estavam concedendo
Cartas de Liberdades, saber sobre
seu cotidiano, suas experiências
e para isto documentos outros se
fizeram pertinentes. Ainda no 1o
e 2o Cartórios arrolei algumas
Escrituras de compra e venda de
imóveis e Procurações,
no intuito de ‘reencontrar’ as
mulheres dando andamento em seus
negócios.
E procurei acompanhar as mudanças
pela imprensa. Neste momento, a
Imprensa pindamonhangabense passava
por uma fase de expansão,
tendo cerca de 16 periódicos,
que foram em grande parte aqui
analisados, sem a pretensão
de esgotar a documentação,
a compilação buscou
atingir um corpo amplo para exemplificar
as motivações e tensões
de uma sociedade que se queria
moderna e as representações
femininas presentes.
Os periódicos selecionados
foram: Tribuna do Norte, de caráter
liberal, encontrado encadernado
em ordem cronológica desde
sua 1a edição (1882)
no Arquivo Municipal de Pindamonhangaba
e alguns números avulsos
na Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro. Pindamonhangabense se
colocava com o caráter de
imparcial, em números avulsos
micro-filmados na Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, alguns números
avulsos em estado precário
no Museu Histórico e Pedagógico
D. Pedro I e Dna Leopoldina, de
Pindamonhangaba. Vale lembrar que
o próprio museu não
está aberto ao público,
o mesmo passa por uma restauração,
o que prejudicou um arrolamento
mais minucioso. O Bem Público,
de caráter imparcial, em
números avulsos micro-filmados
na Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro. O Diário do Norte,
encadernado na Biblioteca Municipal
Mário de Andrade – São
Paulo/Capital. A Imprensa de Taubaté,
de caráter liberal, em um único
número na Biblioteca Municipal
de Taubaté (cidade vizinha
de Pindamonhangaba). O Taubateense
- Jornal Liberal de Taubaté,
números avulsos, Biblioteca
Municipal de Taubaté.
Através da Imprensa foi
possível perceber os discursos
sobre a cidade, seus problemas,
a educação feminina,
as mulheres que se queria e as
que não, foi a documentação
mais utilizada ao longo do trabalho.
Além das condutas e normatizações
informais contidas nos jornais,
foram analisadas as oficiais do
Código de Posturas do ano
de 1876, localizado no Arquivo
Municipal de Pindamonhangaba. Junto às
fontes oficiais, Atestados de Óbitos
e Atas da Câmara foram pesquisadas,
estes se encontram no Arquivo Municipal
de Pindamonhangaba, os óbitos
estão em livros não
organizados, já as Atas
estão organizadas por ano.
Os relatos de viajantes, a muito
têm contribuído para
o enriquecimento da produção
historiográfica brasileira,
formando uma discussão intrigante,
afinal “a percepção
do visitante estranho está mais
aguçada por suas experiências
anteriores ”. Neste sentido,
foi outra fonte utilizada a viagem
de Zaluar por Pindamonhangaba.
Também, foram utilizados
os escritos de uma memorialista
Maria Paes de Barros, que teve
sua obra recentemente reeditava,
trata-se de uma narração “da
vida cotidiana..., da filha de
um dos grandes nomes da aristocracia
imperial paulistana de meados do
século XIX ”.
A Biblioteca Municipal de Pindamonhangaba
foi transferida inúmeras
vezes de prédio, o que levou
a uma perda de documentação
dos séculos XVIII e XIX,
entretanto, A História de
Pindamonhangaba de 1800-1899-um
manuscrito de Newton Lacerda César,
foi de grande valia, trata-se de
uma tentativa de recuperar algumas
notas sobre o município.
Os capítulos da dissertação
foram organizados em torno de três
eixos, são eles:
O primeiro capítulo A cidade
e o Progresso: Pindamonhangaba
expõe-se a sociedade de
Pindamonhangaba que se queria moderna,
como esta criou normas, condutas,
limitou lugares e ‘cobrou’ das
autoridades competentes as responsabilidades
para que pudesse corresponder às
representações de
civilidade que se almejava.
O objetivo da análise foi
rastrear como foram pensadas as
pessoas, suas ações,
as normas de conduta, a estrutura
e articulação dos
diversos grupos sociais no espaço
urbano e como os sujeitos sociais
construíam suas estratégias.
Conhecer como se criaram os limites às
ações, as mudanças
e permanências, auxiliam
a pensar o poder não como
um objeto que se possui, mas algo
em constante disputa e exercício.
No segundo capítulo, Educação
feminina: desafio civilizador?
Centrou-se na questão educacional
como um meio para se chegar na
almejada ‘sociedade moderna’,
procurou-se refletir sobre como
a educação era vista
e colocada para a sociedade.
O modelo de progresso encontrava-se
centrado na educação,
por sua vez, esta era tema de discussões
cotidianas, que colocaram em pauta
os trabalhos pedagógicos
desenvolvidos nas escolas pindamonhangabenses,
bem como as dificuldades ocasionadas
pela falta de acesso deste ‘benefício’ social.
Considerava-se que o maior mal
de uma sociedade era a falta de
instrução gratuita
e bem dirigida.
A falta de instrução
tornou-se para Pindamonhangaba
um problema social, pois era a
partir dela que se dava a construção
de uma proposta moral. Além
disto, havia a diferenciação
dada no processo de socialização/educação
de meninos e meninas, em que as
construções do masculino
e feminino foram nitidamente realçadas,
no desejo de estabelecer padrões
e funções sociais.
À
mulher cabia perceber o seu lugar ‘por
natureza’: o lar, onde exercia
seus ‘dons natos’:
virtuosa esposa, boa mãe,
dedicada a família e amplamente
companheira, disposta a ceder seu
prazer para o bem-estar dos seus.
Os ‘caminhos da família’ e
da nação dependiam
da ‘esmerada educação’ dada às
mulheres.
Alguns viam na educação
feminina superior uma ‘oportunidade’ de ‘emancipação’ o
que reforça que as mulheres
estariam em ‘desvantagens’ em
relação aos homens,
aceitavam a idéia de que
uma educação deveria
ser dentro dos ‘limites da
honrosa missão’: zeladora
do lar. Neste sentido, a educação
foi o mecanismo utilizado para
interpretações que
colocavam as mulheres afastadas
dos assuntos políticos e
públicos e forçosamente
ligando-as ao ambiente familiar.
Salientava-se que as mulheres eram
imprescindíveis na formação
do caráter e na solidez
moral das crianças, futuros
cidadãos.
No terceiro capítulo: Ultrapassando
os limites da honrosa missão,
preocupou-se em identificar como
as mulheres estavam ‘respondendo’ ao
modelo desejado. Delegadas como
agentes de ordenação
moral, as que não correspondessem
a essas expectativas eram colocadas
como “offensoras da moral
e dos bons costumes ”.
Utilizando-se do discurso que a
associava como mantenedora da ordem,
superioridade de sentimentos, capazes
de possuírem amor aos demais,
paciência com crianças,
abnegação e delicadeza,
as mulheres encontraram em determinadas
atividades uma ‘brecha’ para
saírem do seu ‘posto’ doméstico.
Consciente ou não, conquistaram ‘espaços’ e
notoriedade sem que isto fosse
visto como ‘abandono’do
lar.
Gerenciando colégios, casas
comerciais, fazendas, alforriando
seus escravos, angariando fundos
para as festas religiosas e obras
de caridade, as mulheres ‘souberam’ forjar
uma identidade que lhes garantiu
atuarem no espaço público
sem significar a ruína da
sociedade, incorporando, mas também
e resistindo às representações
de ‘sexo frágil e
delicado’.
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