Estudos
Nas sendas do progresso. Cidade, educação e mulheres - Pindamonhangaba (1876-1888)
  
   


Gislene Alves

(Resumo de dissertação de mestrado)

“Nas sendas do progresso: cidade, educação e mulheres (Pindamonhangaba- segunda metade do século XIX)” tem como base o cenário urbano, local em que as ações sofrem exposições e imposições, e onde foi possível vislumbrar os meios utilizados para a construção dos modelos femininos.
A Imprensa foi o principal veículo de divulgação das ações civilizadoras, para a sociedade em geral e para as mulheres em particular, nela se podia denunciar os ‘desvios’ morais femininos, ao mesmo tempo em que apresentavam modelos de mulheres, mães, esposas virtuosas, dedicadas e dispostas a tudo para manterem o bem-estar e a felicidade de seus filhos e marido.
Conciliando com as ‘funções’ maternas, as mulheres empreenderam várias outras atividades, que permitiram expandir sua autonomia e ampliaram suas ações e poderes. Nos jornais, e em documentos oficiais- como Cartas de Liberdade-, encontram-se mulheres angariando fundos pela cidade em beneficio da seca nordestina, gerenciando escolas, casas comerciais, fazendas, organizando e participando de festas religiosas, fazendo doações para as Igrejas, alforriando seus escravos, o que as colocavam como agentes de experiências múltiplas no cotidiano pindamonhangabense.

Apresentação:
A história das mulheres, que se desenvolveu muito nos últimos 25 anos, empenhou-se primeiro em descrever seus papéis privados, tomando-as ali onde elas estavam, o que pode ter como efeito encerrá-las neles, pela repetição do mesmo. Daí o desejo atual de segui-las pela cidade, pela nação, às voltas com uma cidadania social e política que lhes é proibida, que se furta, mas que elas vão progressivamente conquistando.
Pindamonhangaba é uma cidade do Médio Vale do Paraíba, que na segunda metade do século XIX, tinha como atividade central a produção cafeeira e outras paralelas a esta, como outras cidades, encontrava-se à procura de um modelo de sociedade, nesse processo se apropriou do discurso do ‘moderno ’ como meta, assim, aspirava à modernidade.
Procurando compreender este processo e as representações aí construídas, focou-se a construção do ideal de mulher para Pindamonhangaba. A pesquisa destaca os múltiplos mecanismos utilizados para a construção desse ideal feminino e como as mulheres corresponderam e/ou reagiram a ele.
Para tanto, a pesquisa envolveu uma trajetória árdua. Compilando escrituras de compra e venda de escravos no 1º e 2o Cartórios de Notas de Pindamonhangaba para um curso de Demografia Histórica , as alforrias passadas por proprietárias me despertaram atenção. Passei a querer conhecer mais estas mulheres que estavam concedendo Cartas de Liberdades, saber sobre seu cotidiano, suas experiências e para isto documentos outros se fizeram pertinentes. Ainda no 1o e 2o Cartórios arrolei algumas Escrituras de compra e venda de imóveis e Procurações, no intuito de ‘reencontrar’ as mulheres dando andamento em seus negócios.
E procurei acompanhar as mudanças pela imprensa. Neste momento, a Imprensa pindamonhangabense passava por uma fase de expansão, tendo cerca de 16 periódicos, que foram em grande parte aqui analisados, sem a pretensão de esgotar a documentação, a compilação buscou atingir um corpo amplo para exemplificar as motivações e tensões de uma sociedade que se queria moderna e as representações femininas presentes.
Os periódicos selecionados foram: Tribuna do Norte, de caráter liberal, encontrado encadernado em ordem cronológica desde sua 1a edição (1882) no Arquivo Municipal de Pindamonhangaba e alguns números avulsos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pindamonhangabense se colocava com o caráter de imparcial, em números avulsos micro-filmados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, alguns números avulsos em estado precário no Museu Histórico e Pedagógico D. Pedro I e Dna Leopoldina, de Pindamonhangaba. Vale lembrar que o próprio museu não está aberto ao público, o mesmo passa por uma restauração, o que prejudicou um arrolamento mais minucioso. O Bem Público, de caráter imparcial, em números avulsos micro-filmados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O Diário do Norte, encadernado na Biblioteca Municipal Mário de Andrade – São Paulo/Capital. A Imprensa de Taubaté, de caráter liberal, em um único número na Biblioteca Municipal de Taubaté (cidade vizinha de Pindamonhangaba). O Taubateense - Jornal Liberal de Taubaté, números avulsos, Biblioteca Municipal de Taubaté.
Através da Imprensa foi possível perceber os discursos sobre a cidade, seus problemas, a educação feminina, as mulheres que se queria e as que não, foi a documentação mais utilizada ao longo do trabalho. Além das condutas e normatizações informais contidas nos jornais, foram analisadas as oficiais do Código de Posturas do ano de 1876, localizado no Arquivo Municipal de Pindamonhangaba. Junto às fontes oficiais, Atestados de Óbitos e Atas da Câmara foram pesquisadas, estes se encontram no Arquivo Municipal de Pindamonhangaba, os óbitos estão em livros não organizados, já as Atas estão organizadas por ano.
Os relatos de viajantes, a muito têm contribuído para o enriquecimento da produção historiográfica brasileira, formando uma discussão intrigante, afinal “a percepção do visitante estranho está mais aguçada por suas experiências anteriores ”. Neste sentido, foi outra fonte utilizada a viagem de Zaluar por Pindamonhangaba. Também, foram utilizados os escritos de uma memorialista Maria Paes de Barros, que teve sua obra recentemente reeditava, trata-se de uma narração “da vida cotidiana..., da filha de um dos grandes nomes da aristocracia imperial paulistana de meados do século XIX ”.
A Biblioteca Municipal de Pindamonhangaba foi transferida inúmeras vezes de prédio, o que levou a uma perda de documentação dos séculos XVIII e XIX, entretanto, A História de Pindamonhangaba de 1800-1899-um manuscrito de Newton Lacerda César, foi de grande valia, trata-se de uma tentativa de recuperar algumas notas sobre o município.
Os capítulos da dissertação foram organizados em torno de três eixos, são eles:
O primeiro capítulo A cidade e o Progresso: Pindamonhangaba expõe-se a sociedade de Pindamonhangaba que se queria moderna, como esta criou normas, condutas, limitou lugares e ‘cobrou’ das autoridades competentes as responsabilidades para que pudesse corresponder às representações de civilidade que se almejava.
O objetivo da análise foi rastrear como foram pensadas as pessoas, suas ações, as normas de conduta, a estrutura e articulação dos diversos grupos sociais no espaço urbano e como os sujeitos sociais construíam suas estratégias. Conhecer como se criaram os limites às ações, as mudanças e permanências, auxiliam a pensar o poder não como um objeto que se possui, mas algo em constante disputa e exercício.
No segundo capítulo, Educação feminina: desafio civilizador? Centrou-se na questão educacional como um meio para se chegar na almejada ‘sociedade moderna’, procurou-se refletir sobre como a educação era vista e colocada para a sociedade.
O modelo de progresso encontrava-se centrado na educação, por sua vez, esta era tema de discussões cotidianas, que colocaram em pauta os trabalhos pedagógicos desenvolvidos nas escolas pindamonhangabenses, bem como as dificuldades ocasionadas pela falta de acesso deste ‘benefício’ social. Considerava-se que o maior mal de uma sociedade era a falta de instrução gratuita e bem dirigida.
A falta de instrução tornou-se para Pindamonhangaba um problema social, pois era a partir dela que se dava a construção de uma proposta moral. Além disto, havia a diferenciação dada no processo de socialização/educação de meninos e meninas, em que as construções do masculino e feminino foram nitidamente realçadas, no desejo de estabelecer padrões e funções sociais.
À mulher cabia perceber o seu lugar ‘por natureza’: o lar, onde exercia seus ‘dons natos’: virtuosa esposa, boa mãe, dedicada a família e amplamente companheira, disposta a ceder seu prazer para o bem-estar dos seus. Os ‘caminhos da família’ e da nação dependiam da ‘esmerada educação’ dada às mulheres.
Alguns viam na educação feminina superior uma ‘oportunidade’ de ‘emancipação’ o que reforça que as mulheres estariam em ‘desvantagens’ em relação aos homens, aceitavam a idéia de que uma educação deveria ser dentro dos ‘limites da honrosa missão’: zeladora do lar. Neste sentido, a educação foi o mecanismo utilizado para interpretações que colocavam as mulheres afastadas dos assuntos políticos e públicos e forçosamente ligando-as ao ambiente familiar. Salientava-se que as mulheres eram imprescindíveis na formação do caráter e na solidez moral das crianças, futuros cidadãos.
No terceiro capítulo: Ultrapassando os limites da honrosa missão, preocupou-se em identificar como as mulheres estavam ‘respondendo’ ao modelo desejado. Delegadas como agentes de ordenação moral, as que não correspondessem a essas expectativas eram colocadas como “offensoras da moral e dos bons costumes ”.
Utilizando-se do discurso que a associava como mantenedora da ordem, superioridade de sentimentos, capazes de possuírem amor aos demais, paciência com crianças, abnegação e delicadeza, as mulheres encontraram em determinadas atividades uma ‘brecha’ para saírem do seu ‘posto’ doméstico. Consciente ou não, conquistaram ‘espaços’ e notoriedade sem que isto fosse visto como ‘abandono’do lar.
Gerenciando colégios, casas comerciais, fazendas, alforriando seus escravos, angariando fundos para as festas religiosas e obras de caridade, as mulheres ‘souberam’ forjar uma identidade que lhes garantiu atuarem no espaço público sem significar a ruína da sociedade, incorporando, mas também e resistindo às representações de ‘sexo frágil e delicado’.



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