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Assim,
situados entre uma ordem conservadora
e uma aspiração à
modernidade que cada um deles vê
refletida sob um aspecto diferente
na vida da fazenda, os três
romancistas recorrem a algumas constantes
na construção de suas
narrativas. As constelações
de personagens e o jogo de seus
desejos em torno da propriedade
da terra, condição
indispensável para fazer
parte dos “homens bons”
e respeitáveis desde os primeiros
tempos da colonização;
a educação do herdeiro
que deve se cultivar na Europa para
depois voltar à ordem a mais
retrógrada; as personagens
femininas da sinhá livre
e da mucama escrava que interagem
no interior da Casa Grande são
alguns dos temas que percorrem todo
o corpus. As representações
de escravos, idealizadas mas não
simplificadas por Alencar, trazem
para o primeiro romance as vozes
do mito, das lendas e da memória
do passado. Bernardo Guimarães
elabora um personagem de escrava
branca, perfeitamente representativa
das mudanças sofridas pela
sociedade brasileira na metade do
século XIX, encarregada de
comentar e retornar os argumentos
de seus mestres, cuja hipocrisia,
hoje patente, estava perfeitamente
em conformidade com a doxa praticada
por seus contemporâneos e
leitores menos prevenidos. Finalmente,
o escravo de Coelho Neto, enfim
plenamente negro, é o instrumento
da vingança épica
contra todo um período em
que sua representação
o condenava à farsa ou à
sombra dos fundos do quadro romanesco,
como provam aliás os romances
precedentes: o escravo negro de
José de Alencar, para se
tornar personagem literário,
deve ocupar espaços mitificados
e legendários, e o escravo
de Bernardo Guimarães, para
vir debater nos salões, é
primeiro despojado de sua cor. Por
outro lado, para falar de valores
que importam a seus leitores sem
desestabilizá-los, os narradores
desses romances são todos
muito prudentes, irônicos,
dissimulados em seus comentários
e sugestões. Os discursos
mais incisivos ficam geralmente
por conta de personagens planos,
capazes de atrair a simpatia ou
a aversão desses leitores
ao mesmo tempo ilustrados e dependentes
dos escravos para o menor gesto,
até mesmo para lhes trazer
o romance abolicionista que eles
se preparam para ler.
Os
espaços de vida na fazenda
se acham representados nos três
romances de diferentes maneiras.
A Casa Grande é o lugar do
discurso civilizado, dos ecos do
mundo referencial e histórico
contemporâneo, das artes da
moda e das idéias esclarecidas
ou conformistas que dividem as opiniões.
É também um espaço
de leitura, atividade que aliás
passa progressivamente dos mestres
aos escravos, que em todos os relatos
são os únicos personagens
encarregados do ato de contar. Assim,
desde o primeiro romance, a tradição
oral revive na cabana do escravo,
onde as lendas são ressuscitadas
e a memória do passado é
piedosamente conservada; no segundo,
a voz que conta (e canta) retorna
ao salão, espaço agora
inteiramente ocupado por uma figura
de escrava excepcional. Ela não
cede jamais o centro do palco a
seus sinhôs ou sinhás,
cujo discurso ela refuta ponto por
ponto, sem jamais abandonar sua
humildade; sempre modesta, é
ela que ocupa o piano para cantar
sua própria epopéia
(a musa que a inspira, segundo a
narração, é
a musa épica Calíope)
e emocionar o público mais
tradicional do país. No terceiro
romance, o rei negro tem seu próprio
oráculo negro para recriar
um passado de glória que
torna insuportável a humilhação
da escravidão, mas aqui os
discursos mais significativos dos
personagens não têm
mais por cenário uma casa
senhorial, cujo espaço encolheu
e não pode mais dar conta
da progressão da intriga.
Do lado oposto à casa grande,
na polarização inerente
a essa organização,
os romances da fazenda dão
inicialmente a impressão
de ter deixado um vazio inexplicável,
pois a senzala, o lugar de moradia
dos escravos, não aparece
praticamente nunca, menos ainda
aquilo que faz viver, que possibilita
a existência da fazenda, ou
seja, o trabalho da terra. E, no
entanto, tudo está presente.
Por alusões, por histórias
contadas em digressões oportunas,
por peripécias provocadas
fora do primeiro plano do relato.
Tudo o que a narrativa não
diz claramente age sobre ela; tudo
que as intrigas deixam na sombra
as esclarece com uma luz comum,
e todas essas fazendas constituem
assim um universo ficcional coerente
e problematizado pela estrutura
romanesca. Esses romances oferecem
possibilidades de leitura inéditas,
mas deve-se lê-los “pelo
avesso”, como nota Heloísa
Toller Gomes a propósito
do O tronco do ipê. Projetando
nosso olhar além das personagens
brancas e concentrando nossa atenção
sobre a comunidade negra, sobretudo
observando como uns e outros interagem,
descobrimos a diversidade dos meios
empregados por esses textos para
nos fornecer um painel vivo e ilustrativo
do Brasil escravocrata do século
XIX. Aliás, os contornos
mal delimitados do espaço
dos escravos, que desde o início
tinha atraído nossa atenção,
não ficam mais claros na
historiografia, pois se a senzala
existe até o final da escravidão,
as cabanas dos escravos, com suas
pequenas roças ou jardins,
também fazem parte de uma
paisagem referencial absorvida e
utilizada como material literário.
É
nesse quadro que a luta entre passadismo
e modernidade pode se travar em
intrigas às vezes quase pedagógicas
graças à concentração
possibilitada pela delimitação
restrita do quadro, ao número
relativamente reduzido de personagens,
e ao diálogo forçado
e constante entre essas duas classes
de personagens, os senhores e os
escravos. A introdução
dessas duas linguagens diversas
na intriga romanesca, bem como a
imbricação dramática
entre tempo e espaço que
predominam na construção
de nossos romances, foram explicitados
graças aos conceitos de “polifonia”
e de “cronótopo”
desenvolvidos por Mikhaïl Bakhtine.
Torna-se claro que os romancistas
do corpus queriam construir uma
ficção complexa, capaz
de sensibilizar um público
ambivalente, pouco numeroso mas
leitor ávido, ilustrado e
escravagista ao mesmo tempo, conservador
mas curioso das novidades que lhe
chegam em número cada vez
maior da Europa, um público
que começa a mudar seus hábitos
de vestuário, de moradia,
de sociabilidade e de leitura.
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IV
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