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Quanto
às terras, elas se transformam
tão depressa quanto o rio;
a floresta desaparece em alguns
anos, dando lugar ao ouro verde
dos cafezais famintos de terras
virgens e de escravos cada vez mais
numerosos, ambos engolidos na construção
da riqueza dos fazendeiros. Em suas
mansões que se transformam
em verdadeiros castelos, esses proprietários
refinados não se contentam
mais com o espaço da fazenda,
talvez duplamente marcado pela lembrança
longínqua de um trabalho
demasiado penoso, ou pela violência
necessária à sua aquisição.
Nos romances, a propriedade da terra
aparece sempre ligada à traição
e à usurpação,
e a lembrança desses crimes
assombra todas as paisagens. Abandonadas
por seus proprietários que
partem para a capital ou ainda mais
longe, casa e plantações
ficam arruinadas, o que é
um outro tema obsedante para esta
ficção. Sintomaticamente,
a representação do
vale e de suas fazendas no segundo
tempo de escritura dos romances,
encaixa-se numa espécie de
elipse que, associada à historiografia,
torna evidente a rapidez e a paradoxal
fragilidade desse processo. À
medida que se aproximam a Abolição
e a República, e que se percebem
os progressos reais então
conquistados, os escritores são
obrigados a constatar a grande decepção
que esses dois acontecimentos representaram
para aqueles que ainda acreditavam
em mudanças profundas, quando
foram escritos os dois primeiros
romances. Para os três autores,
como para Balzac, sua escritura
é uma “história
do coração humano”
ou “história social”,
na qual o termo história
indica, não um exame cientifico
de acontecimentos passados, mas
uma invenção relativamente
livre; o que eles fazem é
fiction e não history, para
usar termos ingleses particularmente
precisos, como bem notou Erich Auerbach.
Para esses escritores posteriores
a Balzac, não se trata de
passado, mas de uma época
que lhes é contemporânea.
Assim, o conhecimento do referente
histórico é indispensável
à compreensão de suas
obras, como acentua esse mesmo crítico
na sua análise da representação
da realidade na literatura ocidental,
ao evocar, após a obra de
Balzac, a íntima relação
entre a construção
do romance de Stendhal, Le rouge
et le noir, e os anos 1830 na França.
A
rapidez das transformações
ocorridas no Brasil por volta da
metade do século XIX não
podia deixar de chamar a atenção
de nossos três romancistas.
A representação construída
por eles reflete o momento fugaz
de flutuação entre
o mundo antigo, rural, fechado,
isolado, e a abertura aos valores
novos que atrairão para a
cidade, para a Europa, para o mundo
citadino os donos das terras com
suas riquezas. O vale, desertado
por senhores que não criaram
raízes, bem como pelo café
que o esgotou, empobrece, seca,
para ser abandonado em proveito
de uma corrida para as terras vermelhas
do Oeste paulista, que atraem a
partir de então novos senhores
e novos trabalhadores, os colonos
europeus imigrados, que vêm
substituir o negro africano. Apoiada
na sua economia baseada na força
escrava, que ela quer conservar
a qualquer preço, e absorvida
pela necessidade de renovação
constante dessas “máquinas
humanas” facilmente descartáveis
até 1850, a riqueza do vale
se cria e se destrói em menos
de um século, num tempo que
se acelera para precipitá-lo
numa modernidade que ele não
vê ou não quer ver
chegar. A repercussão de
todas essas mudanças na fazenda
oferece aos três romances
um quadro circunscrito para dramatizar
e condensar esses acontecimentos
que nossos autores sentem como decisivos
para os destinos de sua época.
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