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Os
romances reunidos em torno do tema
da fazenda recriam em sua diversidade
um mesmo aspecto da evolução
histórica do Brasil, a vida
e os valores que se desenvolvem
à margem da cidade até
essa metade do século XIX
que constitui o momento escolhido
pelos três autores. É
então que a ordem tradicional
se vê contestada por valores
novos que se amplificam numa população
que começa a pesar do lado
urbano, a trocar idéias com
uma Europa em plena mutação,
enquanto tenta consolidar sua independência
política e reduzir sua dependência
econômica herdada da época
colonial. 1850 é o ano em
que a cessação do
tráfico de escravos africanos
libera enormes quantidades de divisas
e fornece aos fazendeiros os créditos
que vão mudar um modo de
vida até então austero
e isolado. É também
nesse ano que é inaugurada
uma linha de navios a vapor entre
Liverpool e o Rio de Janeiro, pondo
em consonância o tempo brasileiro,
imperial e escravocrata, com o tempo
industrial e urbanizado da Europa.
Esses fatores reunidos e refletidos
num espaço simbólico
de um vale outrora selvagem, rapidamente
conquistado por uma cultura que
o enriquece e o destrói num
ciclo extraordinariamente curto,
fornecem as características
comuns que vão se acentuar
na passagem do primeiro ao último
romance.
Tanto
quanto o período, o cenário
desses três romances fornece
traços determinantes para
sua construção e para
a representação da
realidade que eles trazem. O rio
Paraíba, poderoso e mítico
até a chegada do café
e à profunda alteração
do meio-ambiente sobrevinda então,
já não é mais
capaz das inundações
legendárias recriadas por
Alencar num romance precedente,
O Guarani. Nesse romance que o próprio
autor situava num período
colonial mitificado, em que a linguagem
e os costumes do invasor se modificavam
sob o influxo da natureza americana,
o Paraíba era o fator determinante
do desenlace, pois é ele
que provoca a catastrófica
inundação criadora
da nova humanidade que vai ocupar
o espaço geográfico
nacional a partir desse vale nascido
ao mesmo tempo que o país
independente. O rio permanece o
espaço dos mitos no O tronco
do ipê, mas como um espelho
do passado, das lendas e da imagem
da morte que se esconde doravante
em todos os elementos da narrativa
e da paisagem. Em A escrava Isaura,
ele ocupa o fundo do cenário,
as margens da fazenda, faz parte
da natureza bruta, domada e afastada
pelo homem do centro do quadro e
da ação. Seu curso
é evocado para traçar
os limites do imenso pomar que ia
se perder nas suas margens escarpadas
e imponentes, “nas barrancas
do grande rio”. Ainda majestoso
nesse segundo romance, se bem que
descartado pelo olhar de um narrador
que só se interessa pelas
interações humanas
refletidas nos discursos dos personagens,
o Paraíba desaparece do cenário
em Rei Negro. Nesse último
romance do corpus, escrito às
vésperas da Primeira Guerra
Mundial, a paisagem torna-se simbólica
e vaporosa, as terras são
cobertas de culturas vistas de bem
longe, enquanto a água se
torna um elemento sombrio e sinistro,
trazendo a morte e refletindo-a.
Esta paisagem completamente ocupada
pelo homem só é evocada
em visões polarizadas entre
olhares de mestres e olhares de
escravos, simbolizando um direito
de apropriação ou
a transgressão desse mesmo
direito. Num conto (“Banzo”)
contemporâneo de seu romance,
Coelho Neto compara o rio ressecado
e abandonado pelo homem ao escravo
jogado nas estradas após
a abolição, os dois
vivendo da esmola de uma chuva ou
de um resto de comida.
Continuação
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