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Nos
três casos, a forma ficcional
do romance parece ser a que mais
se adapta à fazenda de café
literária, com a sua organização
que exclui os homens livres e pobres,
para os quais tanto a fazenda como
sua representação
romanesca parecem não ter
lugar.
A
fazenda de café escravagista,
na metade do século XIX é
um universo em plena expansão,
no qual reina e governa o fazendeiro
com poderes absolutos sobre tudo
o que vive em suas terras. Este
grande proprietário, ao enriquecer,
deseja também tornar-se nobre
e compra seus títulos do
poder imperial, tornando-se assim
essa figura ambígua, ao mesmo
tempo respeitada e ironizada, do
Barão do café do período
imperial brasileiro. Freqüentemente
evocado pela literatura nas suas
mansões citadinas, esses
novos aristocratas criados por D.
Pedro II, não chamam tanto
a atenção na época
da construção de seus
personagens e de sua fortuna nesses
mundos reduzidos que são
as fazendas polarizadas entre Casa
Grande e Senzala. Nesse universo,
as relações intensamente
vividas entre mestres e escravos,
constitutivos da vida nacional,
compõem o nódulo de
trocas quotidianas que invadem um
quadro rural e senhorial. Três
romances se interessaram por esse
modo de vida que, na época
de sua escritura, dizia respeito
à maior parte da população
brasileira (no que se refere ao
aspecto de ruralidade), instalando
sua ação numa rica
casa de senhor de escravos no meio
de uma imensa propriedade na qual
as relações entre
dominantes e dominados vão
evoluir de uma enganosa harmonia
à explosão de uma
violência tardia mais tanto
mais mortífera.
Desses
romances que constituem o corpus
principal de nossa tese, o primeiro
é O tronco do ipê,
escrito por José de Alencar
em 1871, onde aparece pela primeira
vez a designação da
sede da propriedade como Casa Grande,
em seguida adotada pela sociologia
e pela linguagem corrente durante
o século XX. Esse termo,
mais conhecido por sua aplicação
à realidade do Nordeste dos
engenhos de açúcar,
aparece assim como originário
da literatura relativa a esse vale
cafeeiro, que esteve no centro das
discussões econômicas
e políticas do Brasil imperial,
e cuja ficção romanesca
mostra a ascensão fulgurante,
seguida de seu desaparecimento ainda
mais rápido e surpreendente,
da memória nacional. O segundo
romance é A escrava Isaura,
de 1875, no qual Bernardo Guimarães
criou o ícone mais célebre
da luta pela abolição
da escravidão no Brasil,
numa obra cujo sucesso popular nunca
desmentido é proporcional
ao desprezo que lhe votam os meios
acadêmicos. Sua inserção
neste corpus, ao lado dos outros
dois romances que tratam do mesmo
tema, permite esclarecer a profunda
implicação dessa intriga
folhetinesca e sedutora na problemática
de seu tempo, bem a como a hábil
desconstrução dos
clichês usuais nesse gênero
de narrativa. Os dois primeiros
romances foram escritos num momento
em que o romantismo ainda não
tinha abandonado o centro da cena
literária brasileira, mas
em que ele já era alvo dos
ataques furiosos de um regionalismo
mais preocupado com o realismo e
mais significativo das aspirações
que tomavam corpo numa sociedade
que não se satisfazia mais
sob a unidade imperial e escravocrata
do país. Finalmente, o terceiro
romance a tratar das fazendas do
vale é uma obra taxada de
anacronismo pois, escrita em 1914,
prenhe de todas tendências
que se cruzam nesse contexto do
Pré-modernismo brasileiro,
põe em discussão os
problemas da escravidão abolida
desde 1888 e que não interessa
mais ninguém. O país
tem pressa de esquecer tanto o antigo
regime escravagista quanto os escravos
libertados para fazer parte dos
homens livres e pobres que continuam
excluídos da nova organização
social do país. Para tanto,
Coelho Neto cria em Rei Negro um
herói romântico e parnasiano,
uma figura olímpica e plenamente
negra, características essas
associadas pela primeira vez num
romance brasileiro, o que permite
duvidar do anacronismo atribuído
a uma obra que vem preencher um
vazio que a ficção
romântica brasileira não
pudera ou não ousara ocupar,
pelo menos enquanto contemporânea
da escravidão: o direito
ao centro do palco para um protagonista
escravo, o direito à beleza
associado a uma pele negra como
o ébano, o direito à
revolta conduzida e assumida pelo
negro, sem que nenhum protagonista
branco venha lhe roubar sua função
de herói romântico,
tingido aqui pelo naturalismo, pelo
simbolismo e pelo regionalismo presentes
na expressão literária
do país nesse momento.
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