| José
Eduardo de Oliveira Bruno
Antes
de falar da caravana, é necessário
e mister que se faça uma
introdução a respeito
de Luiz Pereira Barretto que foi
o mais ilustre membro de uma tradicional
família de cafeicultores
no século XIX.
Seria interessante inicialmente
esclarecer o leitor, para que se
tenha “a priori” uma
noção sumária,de
quem foi este personagem,atualmente
tão esquecido pelos seus
patrícios e conterrâneos.
Se você gosta de café,
guaraná, cerveja e vinho,
com certeza vai se deliciar com
a história dele!
Dr.Luiz Pereira Barretto,é
uma das mais significativas figuras
do pensamento nacional.Viveu oitenta
e três anos,nascendo em Resende-RJ
à 11 de janeiro de 1840 e
falecendo em São Paulo à
11 de janeiro de 1923.Desde 1864,
quando retornou ao Brasil, após
graduar-se, começou a desempenhar
um importante papel na vida científica
e intelectual brasileira.
Filho do Com. Fabiano Pereira Barretto,
resendense e figura de maior projeção
no cenário político
e social do município, alcançando
todos os mais importantes postos
da representação política
local. Seu pai foi uma personalidade
com um espírito dos mais
adiantados e operosos da época,
fazendo de sua fazenda “Monte
Alegre”(1) na então
freguesia da Vargem Grande, um campo
de demonstração prática
da adaptação das terras
resendenses às novas culturas,
como a exploração
do plantio de chá,a experimenta-
ção da cultura do
café,tipo Bourbon, até
então desconhecida no Brasil,
a plantação de tabaco,
...etc.
Sua
mãe chamava-se Francisca
de Salles Barretto, prima de seu
pai, e de tradicional família
de Guaratinguetá –
SP.
Em Resende, aprendeu as primeiras
letras,fazendo ainda parte de seus
preparatórios no Colégio
Brasil, de Joaquim Pinto Brasil,depois
concluindo seus estudos no Colégio
João Carlos em São
Paulo. Posterior mente seguiu para
Bélgica com o objetivo de
estudar medicina,porém não
pôde ingressar imediatamente
na Universidade de Bruxelas,pois
era exigido dos estudandes um conhecimento
mínimo de grego, que Barretto
não tivera oportunidade de
estudar no Brasil. À vista
de tal exigência,passou um
ano a estudar o grego, e no ano
seguinte iniciou seus estudos superiores
em ciências naturais e medicina.
Em 1864 doutorou-se com “grande
distinção”,
tendo recebido um convite de seus
mestres para “agrégé”
da uni-versidade, continuando como
professor,a brilhante carreira que
principiou como aluno.Entretanto,
saudoso de sua pátria,que
não visitava há muito
tempo, Barretto, mesmo pensando
em continuar na Bélgica,
quis vir antes ao Brasil, onde seus
planos seriam modificados e sua
vida tomaria outros rumos.
Em 1865,revalidou seu diploma na
Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro defendendo a tese de suficiência:
“Teoria das Gastralgias e
das Neuroses em Geral”, clinicando
em Resende até 1869, quando
transferiu-se para Jacareí,
onde se casou com Carolina Peixoto(2),
aos 28 anos de idade.
Positivista ortodoxo,inicialmente,pois
durante sua permanência na
Bélgica,o jovem estudante
transfor-mar-se-ia em um discípulo
apaixonado das doutrinas de Augusto
Comte, tornando-se um positivista
integral.Chegou a publicar algumas
importantes obras de cunho positivista,tais
como: As Três Filosofilosofias;
Soluções Positivas
da Política Brasileira; Positivismo
e Teologia, que muito influenciaram
a intelectualidade da época.O
Positivismo no final do século
passado e início do XX, exerceu
forte influência não
só na intelectualidade, mas
também entre a classe política
e militar,pois o lema de nossa bandeira“Ordem
e Progresso”, foi fundamentado
no preceito positivista “Amor
como princípio, Ordem como
base e Progresso como fim”.
Durante sua formação
na Europa, com os amigos brasileiros
Joaquim Alberto Ribeiro de Mendonça
e Francisco Antônio Brandão
Junior, Luiz Barreto dedicou-se
ao estudo de filosofia, principalmente
do positivismo. Tornou-se amigo
de Pierre Laffitte, discípulo
de Auguste Comte, o fundador da
doutrina positivista. O positivismo
é uma filosofia materialista,
mas empírica , que propõe
respeitar os passos do homem como
inventor e herdeiro da história.
Essa filosofia está intimamente
ligada à moral cristã
ortodoxa. E isso marcou a formação
de Luiz Barreto. Tanto que, de volta
ao Brasil em 1864, escreveu a Laffitte,
em 14 de dezembro suas impressões
da terra natal: “a doutrina
regeneradora não encontrará
aqui muita oposição.
As câmaras legislativas estão
no auge do descrédito e o
clero, em desordem, só continua
a subsistir pela tolerância
da população que não
encontra coisa melhor. Os padres
são ignorantes e de sórdida
falta de vergonha. Só fazem
destruir os bons resultados da influência
dos Jesuítas”.
Em 1876, Pereira Barretto pressentindo
que o café no Vale do Paraíba
estava com os seus dias contados,devido
a exaustão das terras,pois
o café era tratado quase
como riqueza extrativa,cobrava caro
o desleixo empírico com que
era cultivado.Começou publicar
uma série de artigos na imprensa
de São Paulo sobre a “terra
roxa” do “Oeste”
paulista (3) que com sua fertilidade
maravilhosa seria o novo campo de
ação da cafeicultura
brasileira.
Considerado o primeiro agrônomo
do Brasil, ele escreveu uma série
de artigos sobre as causas do declínio
da cultura do café em terras
fluminenses – na sua opinião,
principalmente pela falta de adubação
– e sobre as vantagens da
“terra roxa” , publicados
no jornal “A Província
de S. Paulo”, nos dias 2,
3, 5, 6, 7, 8 e 10 de dezembro de
1876, que,sem sombra de dúvidas,
podemos afirmar, que foi de fato,
a Certidão de Nascimento
de Ribeirão Preto.
Os textos duros,porém realistas
com sua terra natal fluminense (“não
se precisa ser profeta para avançar,
sem receio de errar, que os seus
dias estão contados e que
o mais sombrio prospecto de futuro
já ameaça e a domina
efetivamente”) e generosos
com a “terra roxa” (“...Não
é possível deixar
de ao menos assinalar a espessura
da camada do terreno roxo. É
esta espessura que torna as terras
do Oeste sem rivais no mundo e que
distância a perder de vista
a sua lavoura da do resto do império”).
Foi o começo do êxodo
por parte dos cafeicultores do Vale
do Paraíba, sobretudo de
Resende(4), pois ecoava a voz do
ilustre patrício como grande
era o prestígio junto a sua
originária grei.
Verdadeira
expedição conquistadora
se desloca de Resende em direção
ao“Oeste”paulista em
busca de um novo campo de ação.
Inicialmente, são os “Barrettos”,homens
de recursos, ativos, sertanistas
e inteligentes que lançaram
diversas lavouras naquela região,disseminando
princípios racionais de agricultura
num meio até então
considerado inóspito. Introduziram
o café Bourbon que se espalhou
vertiginosamente por todo o “Oeste”paulista,
desta forma trazendo a riqueza e
a prosperidade que tomariam conta
da economia da região e fariam
Ribeirão Preto se tornar
o novo “Eldorado do Café”.
Ribeirão Preto no início
do século tinha sua população
constituida de 2/3 de fluminenses,
sendo Resende o ponto em que a migração
se revelou em maior amplitude (5).
“Vamos
para São Simão que
os cafés daqui não
dão”(6) - era a crítica
manifestada numa marchinha de Carnaval
em Resende na década de 70
do século XIX, que refletia
a decadência da produção
cafeeira fluminense como um todo,
especialmente a resendense,pelo
cansaço das terras e principalmente
pela falta de mão-de-obra
escrava,consequência da proibição
do tráfico de escravos e
das leis do Ventre Livre
e dos Sexagenários.
Assim, em janeiro de 1876,o coronel
José Pereira Barretto,irmão
de Luiz,seu filho Fabiano, o‘Bizinho’,
seu sobrinho Antônio de Paulo
Barreto Ramos e seus irmãos
Miguel Pedroso Barretto e Francisco
Pereira Barretto,saíram em
expedição para conhecer
as terras do então, “Oeste”
paulista. Da Estrada de Ferro Pedro
II, hoje Central do Brasil, seguindo
até Cachoeira Paulista, ponto
então terminal dessa via
férrea. Ali chegados, em
janeiro de1876, acompanhados de
escravos pagens, transportando enormes
cargueiros, que haviam partido antes
pela estrada de rodagem, margeando
a várzea do Paraíba,
prosseguiram até Jacareí,onde
os aguardava o Dr.Luiz Pereira Barretto,pronto
para acompanhá-los às
plagas tão faladas do “Oeste
paulista”. Depois de uma demora
de alguns dias em Jacareí,
para descanso das fadigas que lhes
trouxera a grande caminhada ao longo
do Vale do Paraíba, os ilustres
Barrettos, seguros no feliz êxito
da aventura a que iam entregar-se,
puseram-se de novo a caminho do
“Oeste paulista”,através
da expedição que integravam,depois
conhecida como a : “Caravana
Pereira Barretto”(7).
Partindo de Jacareí, os Barrettos
passaram por Camanducaia e Ouro
Fino, em Minas Gerais e Espírito
Santo do Pinhal, já na província
de São Paulo. Depois chegaram
a Casa Branca. A partir daí,
foram guiados pelo coronel Hipólito
de Carvalho, que conheceram naquela
cidade. O entusiasmo para com as
terras paulistas era tão
notório que o Dr.Luiz disse
ao guia Hipólito, enquanto
descansavam num hotel: “Estamos
maravilhados... São Paulo
dentro de poucos anos será
o maior empório cafeeiro
do mundo. Para isso, só lhe
faltam fáceis meios de transporte.
Felizmente o paulista é inteligente
e empreendedor e, em breve, fará
com que estradas de ferro rasguem
todos os seus sertões. Assim,
a imigração virá!”.
De
Casa Branca, os Pereira Barretto
chegaram à Fazenda Cravinhos,
de 800 alqueires,que foi comprada
de Antônio Caetano por Luiz
Pereira Barreto, por 36:000$000
(trinta e seis mil contos de réis),
algo entre R$ 300 mil e R$ 400 mil
atualmente (em torno de 150 ou 200
mil dólares). Nesse período,
embora existissem outras propriedades
na região, inicia-se a formação
da cidade de Cravinhos. O local
onde hoje se encontra a cidade foi
a Fazenda Cantagallo, de 80 alqueires,
também comprada por Luiz
Pereira Barreto, de Domingos Borges,
ao valor de 600$000 (seiscentos
mil réis).
Com a compra da ‘Cravinhos’
(hoje pertencente ao empresário
Luís Biagi), os Barrettos
retornaram a Resende, para prepararem
a mudança definitiva para
a região de Ribeirão
Preto naquele mesmo ano, em novembro
1876. Voltaram com as famílias
completas, equipamentos agrícolas
e cerca de 60 escravos para iniciar
o plantio do café. E o café
não era mais o Typica,o comum
nacional, mas o Bourbon,trazido
por Luiz Barretto da Fazenda Vargem
Grande, em Resende, onde ele, com
seus conhecimentos agronômicos,
fizera multiplicar sementes trazidas
da Europa.
Derrubaram,ceifaram e queimaram
matas virgens. Foi um ceifar sem
piedade, naquele “oceano”
verde.
Derrubadas as matas, vieram as queimadas
gigantescas, cobrindo toda a terra
de cinzas, para que estas, qual
novo Fênix, surgisse a grande
lavoura cafeeira, que foi durante
muito tempo, o esteio daquela região.
Ao fim de três anos,os Barrettos
possuiam as mais famosas lavouras
da região do excelente café
Bourbon, com as sementes trazidas
da Fazenda Monte Alegre na Vargem
Grande em Resende-RJ.
A geada de 1870,parecia uma advertência
contra a tentativa do aproveitamento
do “Oeste paulista para a
lavoura cafeeira em grandes extensões...
Qual nada – sentenciava confiante,
certo do bom êxito, o Dr.Luiz
Pereira Barretto aos irmãos.
– “Não tenhamos
medo; plantemos café aos
milhões, que a sua defesa
contra a geada é uma simples
questão de enxada...A imigração
européia ai está às
portas..”.
- Perfeitamente, Lulu – replicou
o seu irmão Miguel. –
“Não devemos ter medo
do futuro... Ribeirão Preto
é uma terra abençoada...!
Deus o fez e perdeu a receita...!”
Contudo,os Barrettos não
esmoreceram, plantaram o cafezal
na região,em sua maioria,
o excelente ’Bourbon’,garantidor
da primazia cafeeira paulista,das
sementes trazidas cuidadosamente
de Resende, como ‘pepitas
de ouro’,quando da mudança
deles para a região das terras
roxas “encaracoladas”,
também vulgarmente conhecidas
por “sangue de tatú”.
O café ‘Bourbon’,
nasceu por experiência de
fecundação por hibridação
do café Libéria com
o café Comum, realizada pelo
Dr.Luiz Pereira Barretto,na Fazenda
Monte Alegre na Vargem Grande em
Resende.O seu irmão Francisco
Pereira Barretto,encontrando-se
no Rio de Janeiro, na residência
de um amigo,conheceu o comandante
de um navio cargueiro, que trouxera
da África, embalagens de
bambú com mudas de café
Libéria,que tinha uma qualidade
diferente do café vulgarmente
conhecido no Brasil,que era o denominado
como café Comum.
Comprou várias mudas por
um alto preço na ocasião
e levou para Resende, plantando-as
na horta da Fazenda Monte Alegre
e algum tempo depois, principiam
a nascer ao redor das mudas do Libéria,umas
quarenta ‘orelhas-de-onça’,denominação
dada ao café quando nasce.
Desenvolvendo-se as ‘orelhas-de-onça’,observaram
os Barrettos,uma diferença
entre elas e as plantas do “Libéria”,
bem como, com o café “Comum”.
Tempos depois, foram as plantinhas
separadas e cuida-dosamente transplantadas
para covas definitivas. Na primeira
floração do “Libéria”,
Dr. Luiz Pereira Barretto verificou
tratar-se de café inferior,selvagem,pois
era exagerado o tamanho das flores.
Perdida essa florada,na segunda
resolveu o grande cientista provocar
a fecundação artificial
das flores do Libé-
ria” com as do café
resultante das sementes nascidas
nas embalagens e com as do café
Comum.
Portanto, feita a delicada operação,assinalou
as flores fecundadas e algumas dessas
flores vingaram, e os frutos,quando
maduros, foram colhidos, plantados
e convenientemente tratados. Contudo,
vingaram cinco pés , apenas.
Eram plantas lindas, com as características
de excelente qualidade, e completamente
diferentes do Libéria e dos
demais. Com o produto desses cinco
pés,ao cabo de quatro anos,
os Barrettos iniciaram a plantação
de regular cafezal de Bourbon, nome
com que foi batizado pelo Dr. Luiz
Pereira Barretto, o novo café
obtido, apesar de aconselhado por
amigos, para que lhe fosse dado
a denominação de café
“Barretto”.A preferência
foi por se lembrar o Dr.Barretto,
ter conhecido nas estufas da Universidade
de Bruxelas, uma qualidade de café
muito semelhante aquele, conhecido
pelo nome de “Bourbon”.
Daí a história da
famosa variedade conhecida pelo
nome de café “Bourbon”que
se destacou pela grande produção
de seus arbustos de 2 a 3 mts de
altura,de forma mais ou menos cilíndrica
com folhas verde-claras e quando
maduras ficam verde escuras, elípticas,
levemente coriáceas, com
lâmina e margem mais ondulada
do que a variação
typica.
Em 1876, quando de sua mudança
para Cravinhos, no “Oeste”
paulista, os Barrettos levaram nos
cargueiros transportadores da bagagem,
cuidadosamente, como pepitas de
ouro, sementes do ‘bourbon’
resendense,daquele cafezal abençoado,resultante
da feliz fecundação
feita pelo sábio Dr.Luiz
Barretto, as quais foram plantadas
na Fazenda Cravinhos.
Luiz Pereira Barretto, vibrante
de fé e entusiasmo, inoculou
em todos, em memorável campanha
de propaganda, a confiança
necessária para o prosseguimento
e consolidação desta
nova grande lavoura cafeeira e foi
assim que Ribeirão Preto
depois de poucos anos,trabalhados
e lavrados inicialmente pelo braço
escravo e caboclo,e posteriormente
pelos braços dos imigrantes,
tornou-se o maior centro cafeeiro
do mundo.
Entretanto em 1885, Pereira Barretto
abandona a lavoura cafeeira, tornando-se
viticultor,pois achava que seríamos
capazes de produzir,não só
café e borracha, como país
tropical ,mas também poderíamos
produzir o vinho que seria a única
forma de atrair o colono europeu
em emigraçãovoluntária.
Dizia: “A vinha é vista
pelo europeu,não como um
arbusto qualquer,mas como uma verdadeira
pessoa, um membro da família,
uma segunda companheira que sempre
amou e adorou”.Dispôs-se
a cultivar a “Vitis vinifera”em
Pirituba,nos arredores de São
Paulo,em uma verdadeira estação
experimental agrícola,onde
chegou a reunir mais de 400 variedades
de uvas vindas da França,
Portugal, Itália, Egito,
Síria...etc. No entanto,
apenas a uva nascia e crescia,já
era vítima de doenças
produzidas por fungos que atacam
principalmente as folhas. Apoiando-se
na doutrina de Pasteur, estudou,
correspondeu-se com os mestres da
viticultura européia e após
vários anos de trabalho,de
esforços,de despesas e de
incertezas, enviou ao Professor
M.Victor Pulliat,grande ampelógrafo,
Diretor da Escola de Viticultura
de Lyon, seu relatório “A
Viticulture à Saint Paul”
em 1888, sobre o cultivo de uvas
no nosso clima tropical, com muito
calor, umidade e bastante chuvoso
durante o verão.Pulliat,
assombrado, pois não era
médico e não conhecia
ainda a doutrina microbiana de Pasteur,foi
tomado de espanto diante da carta
de Barretto,passando dias a lê-la
e relê-la, sem saber se ela
procedia de um lunático ou
de um homem extraordinariamente
inteligente.
Não obstante, já que
a carta não continha nenhum
absurdo,apesar de suas opiniões
insólitas no domínio
da ampelografia,resolveu responder
favoravelmente,porém com
certo ceticismo. Algum tempo depois,
Barretto enviava-lhe belos exemplares
de uvas européias, nascidas
no Brasil. Entusiasticamente, Pulliat
exclamava que “Se o Brasil
tivesse meia dúzia de homens
como o Dr. Barretto, a viticultura
européia estaria vencida!”.
Nosso patrono colaborou durante
12 anos na imprensa européia,e
em especial na francesa, dando lições
aos viticultores europeus.
O
sucesso das videiras do Dr. Barreto
foi publicamente apresentado à
sociedade paulistana em de 1897,
na “Exposição
das Uvas”. O evento foi patrocinado
pela veneranda e de tradicional
família paulistana D.Veridiana
Prado. Nessa festa aconteceu um
interessante encontro de sábios.
O poeta Olavo Bilac,de passagem
pela cidade, escreveu uma ode espirituosa
sobre o evento:
“Já
não há mais vinho
que nos envergonhe;
Não beberemos Verde, nem
Colares,
Nem Bordeaux, nem Marsala, nem Bourgogne,
Vindos de além dos mares!
(...)
E em prantos de ventura me derreto,
Vendo-te, oh Baco, naturalizado,
Graças ao Gênio do
Dr. Barreto,
Graças à Dona Veridiana
Prado!”
Dizia Barretto: “O caminho
que o presente nos aponta e que
o futuro exigirá de nós
é o da policultura.É
preciso que se abandone o velho
lema ‘o café dá
para tudo’; é preciso
compreender que a ciência
permite fazer deste país
uma maravilha; todas as culturas
são aqui possíveis;
podemos exportar tudo”.
Pereira
Barretto,como grande cientista que
era, se lançara na grande
campanha contra a febre amarela,pois
achava que o saneamento não
era só um dever de humanidade
para a medicina, mas também
uma medida de extrema importância
política, pois a obtenção
de uvas européias no Brasil,provava
a fertilidade de nosso solo e a
excelência de nosso clima.
Portanto a extinção
das moléstias epidêmicas
que nos assolavam,provaria sua salubridade
e seria um estímulo e consequentemente
um convite aos imigrantes europeus.
Barretto, mais uma vez dá
uma grande contribuição
para a ciência,causando uma
enorme polêmica quando afirma
que a febre amarela não era
contagiosa e sim um problema de
saúde pública devido
a contaminação das
águas.
Então publica uma série
de artigos na imprensa em defesa
de sua tese, que acabou prevalecendo.
Num desses artigos, ele cita o exemplo
de Resende: “Em Resende,sobretudo,o
problema se apresenta em sua maior
simplificação. A cidade
está dividida em duas partes
pelo rio Paraíba,achando-se
uma em colina e abastecida de excelente
água canalizada, e a outra
em planície não dispondo
senão de água de poço.
Ora, ao passo que esta última
está sendo flagelada pela
febre amarela,a outra permanece
completamente indene”.
Posteriormente em Havana foi descoberto
o transmissor, que era um mosquito
denominado na ocasião de
“stegomya”, e hoje conhecido
como ”aedes aegypti”.
Logo após, começou-se
a combater o mosquito através
da pulverização com
inseticidas, por iniciativa e campanhas
coordenadas pelo Dr. Oswaldo Cruz
no Rio de Janeiro.
Pereira
Barretto foi também o introdutor
da cerveja em nosso país.
Em 1885, foi organizada em São
Paulo a Cia.Antárctica com
a finalidade de produzir presuntos
e outros artigos congêneres.Os
cálculos falharam, pois logo
após a instalação
da grande fábrica, a matéria
prima começou a escassear,
devido ao avassalamento da lavoura
de café que se espalhava
por todo o interior.A cultura do
café extinguindo a fonte
de produção de porcos,desfechou
um golpe mortal sobre a nova indústria
nascente.As custosas e magníficas
instalações, não
tinham mais razão de ser;
não restava à utilíssima
empresa, outro recurso senão
fechar as suas portas.Entretando,Pereira
Barretto mais uma vez entra em ação,propondo
aos diretores e acionistas que aproveitassem
os excelentes aparelhos de fabricação
de gelo de que dispunha a Antártica,
passando a companhia a fabricar
cerveja. Portanto,no dia da assembléia
geral que seria para extinção
da empresa, Pereira Barretto faz
uma explanação da
viabilidade de se transformar aquelas
magníficas instalações
em uma fábrica de cerveja.
Até então ninguém
acreditava na possibilidade de se
fabricar cerveja no Brasil, pois
o nosso clima parecia a todos um
obstáculo insuperável.
Contudo, uma grande indústria
constituiu-se, os acionistas se
enriqueceram,a empresa tornou-se
milionária e a cerveja pioneira
da Antárctica derramou-se
por todo o país,desta forma
cessando a importação
desta bebida, afirmando-se a nossa
emancipação em um
domínio que até então
fôramos inteiramente tributários.
Como se não bastasse, este
cientista,foi também o descobridor
dos benefícios que o guaraná
traz a vida do homem.Foi o pioneiro
nos estudos científicos e
na realização de experiências
com o propósito de produzir
uma bebida refrigerante industrializável,com
base no guaraná, criando
um método de processamento
desse fruto, que deu origem ao xarope
do guaraná,utilizado até
hoje na fabricação
do refrigerante.
Contudo,é uma árdua
tarefa poder sintetizar a vida de
Pereira Barretto, pois ele cuidou
de tudo, ou quase tudo:medicina,
filosofia, educação,
imprensa, cafeicultura, pecuária,
sociologia, viticultura, política,geologia,etc.No
entanto,de tudo que tratou, sempre
fez com muito discernimento,segurança
e sabedoria,conquistando as credenciais
de sábio,com que passou para
história.E, é como
sábio, como um cidadão
onisciente, que dominou com lucidez
todos os problemas do homem, que
podemos, sem nenhuma sombra de dúvida,
dizer em uma só palavra ,desta
forma sintetizando todas as suas
qualidades, que ele foi acima de
tudo ,um Humanista.
Roque Spencer Maciel de Barros em
seu livro : “A Evolução
do Pensamento de Pereira Barretto”
diz: “Chamaram-no de o médico
do Vale do Paraíba, muitas
vezes , ‘o sábio dr.Barretto’.
Parece-nos mais exato – e
mais nobre mesmo – chamá-lo
‘o educador Pereira Barretto’.Por
que, que é, senão
educador, o homem que anela despertar
o seu país, erquê-lo
e dar-lhe consciência de si
próprio, para que este cumpra
o papel histórico reservado
a todos no estado positivo da mentalidade
humana?
José Eduardo
de Oliveira Bruno, São Paulo,
20/04/2002
Notas
:
(1) Fazenda Santa Terezinha do Monte
Alegre, existe ainda hoje(2002),apesar
de encontrar-se em péssimo
estado de conservação.Fica
situada nas margens da estrada da
Resende-Fumaça, na Vargem
Grande.
Na propriedade de 80 alqueires ainda
estão instalados uma escola
e uma igreja, além das casas
de colonos, um armazém,três
currais e vários silos.Também
existem ruínas de casas antigas,senzalas
da época do império.
Ao lado da sede ou ‘Casa Grande’
como ainda hoje é chamada
por muitos, o interessado que desejar
conhecer um pouco de sua história
vai notar um velho pé de
café. O único e, talvez,
último Bourbon da Vargem
Grande que lembra ao futuro a época
de ouro da economia resendense...
(2)
Carolina Peixoto, filha do português
Antônio da Silveira Peixoto
e de Ana Leopoldina Peixoto. Com
ela, Luiz Barreto teve quatro filhos:
Clotilde Augusta Pereira Barreto
que foi casada com o Dr. Jesuino
Ubaldo Cardoso de Mello; Luiz Pereira
Barreto Filho que faleceu na primeira
infância; José Pereira
Barreto Neto, nascido em 1874 e
foi um grande fazendeiro em Matão
e Paulo Pereira Barreto, nascido
em 1884 e falecido em 1955 em Tatuí
onde se encontrava em tratamento
de saúde. Morreu solteiro.
(3)
A região de Ribeirão
Preto era chamada de “Oeste”
porque referiam-se a ela, a partir
da Capital. A atual geografia, porém,
situa os pontos cardeais em relação
ao epicentro da área mencionada,
ou seja, em relação
ao centro Estado de São Paulo,
a região de Ribeirão
Preto está a “Noroeste”.
(4)
Resende, foi a região pioneira
da grande cultura do cafeeira em
nosso país. Foi o primeiro
pedaço de terra brasileira
onde o café encontrou acolhida
com os elementos que foram propícios
para o seu desenvolvimento.
Todas as memórias confiáveis,
que tratam da propagação
do café na Província
do Rio de Janeiro, são uniformes
em atribuí-la a pouco depois
de 1770, isto é, logo que
a espécie já cultivada
nesse tempo nas terras do convento
dos padres Barbadinhos e na chácara
do holandês Hoopman, na rua
São Cristóvão
no Rio de Janeiro. Este, forneceu
as sementes que se propagaram pelo
interior da província.Foi
dali que os padres Couto e João
Lopes, receberam as plantas que
foram distribuidas no caminho de
Resende pelo primeiro e através
do distrito de São Gonçalo
seguindo em direção
ao noroeste fluminense,pelo segundo,onforme
mencionou João de Azevedo
Carneiro Maia em seu livro referencial
sobre a história de Resende:“Notícias
Históricas e Estatísticas
do Município de Resende,
desde a fundação”de
1891 e também a “Seleta
Brasiliense”de J.M.P.Vasconcellos,pag.222,
impressão de 1868. Por outro
lado é sabido que neste mesmo
tempo, muito se esforçara
o Marquês do Lavradio, então
Vice-Rei do Brasil, no empenho de
disseminar a cultura do café,
desta forma distribuindo grande
quantidade de sementes pelos distritos
de São Marcos(atual Piraí)
e do Campo Alegre(atual Resende),apelando
a um poderoso incentivo empregado,
que era isentar do serviço
milícias a todo o lavrador
que provasse ter plantado certa
quantidade de pés de café.
Conclui-se do exposto que feita
a sementeira em 1775,antes de 1785
já deviam existir alguns
cafezais em efetiva produção.
Consta
que os primeiros cafezais de Resende
se formaram em torno da sede da
frequesia, e nos sítios próximos,
de onde foram sendo transportadas
muitas mudas para os municípios
vizinhos(fluminenses e paulistas).
Resende até 1801,chamava-se
frequesia de‘Nossa Senhora
da Conceição do Campo
Alegre da Paraiba Nova’. Posteriormente,
foi elevada a categoria de vila
por ato do Vice-Rei, Conde de Resende
(D.José Luiz de Castro),
desta forma passando-se a denominar-se
Resende em homenagem ao conde.
(5)
Veja livro do Dr. Antônio
de Almeida Prado : “Crônica
de Outrora”,(Ed.Brasiliense/1963;
pag. 79).
(6) São Simão era
o maior município do “Oeste
paulista”,na ocasião,
e ponto terminal da Mogiana. Posteriormente
foi desmenbra do em vários
outros municípios, que deram
origem a: Ribeirão Preto,
Cravinhos, Sertãozinho...etc
Veja no livro de Beatriz Garcia
; “O Romance do Café”-
(Ed.Alfa-Omega – SP/1999)pag.143.
(7)
Caravana Pereira Barretto - Veja
livros :“Cravinhos –
Histórico, Geográfico,
Comercial e Agrícola”-
(Prof.Francisco Gomes; Tipografia
Selles - Ribeirão Preto /
1922)
- “O Ribeirão Preto,
Histórico e para História”
(Prof.Plinio Travassos dos Santos,
Ribeirão Preto-1938)
Obs:
A ‘Caravana’ ou ‘Expedição
Conquistadora’, conforme menciona
Rubem Cione em seu livro: ‘A
História de Ribeirão
Preto’,foi quem fez a transmutação
da cafeicultura valeparaibana ,com
marcante hegemonia fluminense,devido
ao seu declínio e exaustão
de suas terras, para criação
de um novo ciclo cafeeiro em nosso
país, no ‘Oeste’paulista.
É importante também
não olvidar de que o café
no Vale do Paraíba Fluminense
foi quem sustentou economicamente
o Império. No auge da cafeicultura
no Vale do Paraíba (1860),a
produção cafeeira
fluminense alcançava 78%
da produção nacional.
O vale paulista representava 12%,
e Minas Gerais mais o restante do
país, 10%.
Posteriormente a ida do café
foi para o "Oeste paulista",
aí sim, São Paulo
passou a ter uma produção
avassaladora, que foi o início
do grande desenvolvimente paulista.
Referências Bibliográficas
:
- “Reminiscências de
Resende, Estado do Rio, às
plagas paulistas de São Simão,Bata-
tais, Altinópolis e Ribeirão
Preto”. (RenatoJardim,Ed.José
Olympio-São Paulo/1946)
-
“O Ribeirão Preto,
Histórico e para História”
(Prof.Plinio Travassos dos Santos,
Ribeirão Preto - 1938) Obs:
O Museu do Café de Ribeirão
Preto foi organizado e
fundado pelo Prof.Plinio Travassos
dos Santos e tem o seu nome em homenagem
à memória deste ilustre
historiador.
- “Cravinhos – Histórico,
Geográfico, Comercial e Agrícola”-
(Prof.Francisco Gomes;
Tipografia Selles - Ribeirão
Preto / 1922)
-
“O Município e a Cidade
de Ribeirão Preto”-
(1822 - 1922) na Comemoração
do Pri-
meiro Centenário da Independência
Nacional.
-
“Família Pereira Barretto”
- Notas Genealógicas (Itamar
Bopp/São Paulo-1983)
- “ Luiz Pereira Barretto
e o Café Bourbon” (“O
Estado de São Paulo”-15/10/1937)
autor : C.A.Krug / Instituto Agronômico
de Campinas
-
“A arte de fabricar o vinho
- Manual do Vinicultor” -
Luiz Pereira Barreto - Editora Red.
da Revista Agrícola - 1900
-
“A História de Ribeirão
Preto” vol.III (Prof. Rubem
Cione- RP/1958)
-
“Crônica de Outrora”
de A.de Almeida Prado – Ed.Brasiliense
– São Paulo/1963
-
“A Evolução
do Pensamento de Pereira Barretto”
de Roque Spenser Maciel de Barros
Ed. da USP / Ed.Grijalbo (SP/1967)
-
“Café e Ferrovias”
de Odilon Nogueira de Matos( Ed.
Alfa & Omega-São Paulo/1974)
Obs: Atualmente editado pela Editora
Pontes – Campinas-SP
-
“O Café – no
segundo centenário de sua
introdução no Brasil”,Departamento
Nacional
do Café – Rio de Janeiro/1934
-
“O Café em São
Paulo”- Secretaria da Agricultura,
Indústria e Comércio
de SP/ 1927
-
“Obras Filosóficas
de Luiz Pereira Barretto”
(Vol.I) org. por Roque Spencer Maciel
de Barros . Editorial Grijalbo –
SP/1967
-
“Obras Filosóficas
de Pereira Barretto”(Vol.II)
org. por Roque Spenser Maciel de
Bar-
ros. Editora da Unv. Estadual de
Londrina-PR / 2001
-
“História do Positivismo
no Brasil - Ivan Lins (Cia. Editora
Nacional/ SP-1967)
-
“Notícias Históricas
e Estatísticas do Município
de Resende, desde a fundação”
de João de Azevedo Carneiro
Maia (Typographia da Gazeta de Notícias
– RJ/1891)
-
“O Café em Resende
no século XIX” de Maria
Celina Whately (José Olympio
Editora,
Rio de Janeiro / 1987)
-
“Romance do Café”
de Beatriz Garcia (Ed.Alfa- Omega
– São Paulo/1999)
Principais
obras de Pereira Barretto:
-
“As Três Filosofias
: Filosofia Teológica”.
Rio de Janeiro – Ed. Laemmert/1884
-
“As Três Filosofias
: Filosofia Metafísica”.
Jacareí – Tipografia
Comercial / 1876
-
“Positivismo e Teologia :
uma polêmica”. São
Paulo-Livraria Popular/1880
-
“Soluções Positivas
da Política Brasileira”.
São Paulo – Livraria
Popular/1880
-
“O Século XX sob o
Ponto de Vista Brasileiro”
. São Paulo – Tipografia
do Estado
de São Paulo/1901
-
“A Arte de Fabricar o Vinho
- Manual do Vinicultor” -
Luiz Pereira Barreto (Editora
da Revista Agrícola –
São Paulo/1900)
Dados
sobre o autor:
-
O autor é Engenheiro e Administrador
- Membro da Associação
Brasileira de Pesquisadores de História
e Genealogia/SP
- Titular da cadeira 21(Dr.Luiz
Pereira Barretto)da Academia Itatiaiense
de História
- Sócio efetivo da Academia
Resendense de História
- Sócio efetivo do Instituto
de História e Tradições
do Rio Grande do Sul
- Sócio efetivo do Instituto
de Estudos Valeparaibanos –
Lorena/SP
- Sócio - correspondente
do Instituto Histórico de
Ilhéus – BA
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