|
José
Luiz Pasin
A agricultura e a ocupação das várzeas
Historicamente, a economia valeparaibana
sempre esteve baseada na agricultura
e nas atividades ligadas à terra:
açúcar, café, algodão, fumo, milho,
feijão e outros produtos secundários.
No início do seu povoamento, a economia
era de subsistência, sendo modificada
com o declínio da produção aurífera,
aparecendo a monocultura açucareira
e, posteriormente, o grande ciclo
produtor de café.
Uma das regiões agrícolas mais importantes
de São Paulo, suas terras ainda
hoje constituem um sério desafio
para o aumento de uma produção racional
de cereais, capaz de garantir o
seu abastecimento. A ocupação e
utilização das várzeas do Rio Paraíba
teve início na segunda metade do
século passado, com a implantação
de colônias agrícolas pelo governo
provincial, a partir de 1850, em
Lorena, Pindamonhangaba, Taubaté
e Paraibuna.
No final do Império, foram criadas
mais cinco colônias agrícolas no
Vale do Paraíba: Canas, em Lorena
(1885); Boa Vista, em Jacareí (1888);
Quiririm, em Taubaté (1890); Piagui,
em Guaratinguetá (1892); e a de
São José do Barreiro. A implatação
destas colônias agrícolas resultava
da necessidade de se ocupar as várzeas
do Paraíba e as áreas livres dos
municípios, tendo em vista o domínio
absoluto do café e as crises periódicas
de abastecimento de cereais e legumes
na região.
Estas colônias eram integradas por
italianos, alemães, portugueses,
espanhóis, suíços, austríacos e
outras nacionalidades, predominantemente
as famílias de origem italiana.
A introdução e o cultivo racional
do arroz, como atividade agrícola
básica da região, foi iniciada pelos
monges trapistas, em terras localizadas
no município de Tremembé. O arroz
é o principal produto agrícola cultivado
no Vale do Paraíba, destacando-se
as áreas de São José dos Campos,
Caçapava, Pindamonhangaba, Roseira,
Guaratinguetá e Lorena. Além do
arroz, a produção agrária da região
se caracteriza pelo cultivo do milho,
tomate, batata e feijão.
Sendo uma região dotada de clima
temperado e terras férteis, o Vale
se presta ao cultivo de todos os
cereais, frutas e leguminosas, tais
como: trigo, aveia, sorgo, centeio,
cevada, tâmara, uva, oliva, coco,
maçã, pêra, abacaxi e todas as frutas
de clima quente ou tropical.
Nos municípios localizados nos contrafortes
da Serra do Quebra Cangalha (Cunha,
Lagoinha, São Luís do Paraitinga)
a população vive basicamente das
suas roças de milho e feijão, e
da criação de porcos e galinhas.
A utilização racional das várzeas,
a mecanização das propriedades,
a construção e melhoria das estradas
rurais, as obras de contenção das
enchentes do Rio Paraíba, a construção
dos “polders”, a assistência efetiva
dos vários órgãos oficiais, asseguram
a propriedade agrícola na região
valeparaibana, pólo gerador de empregos
e divisas para os municípios.
A industrialização
Com a decadência do café, o Vale
do Paraíba buscou novas atividades
econômicas. Nas áreas rurais, a
substituição dos cafezais pelas
pastagens e, nas cidades, o início
de um lento processo de industrialização.
As primeiras indústrias surgiram
na região nas últimas décadas do
século passado, exatamente quando
se colocava o desafio de buscar
novas opções, refletindo a realidade
sócio-econômica da época: abolição
da escravatura, disponibilidade
de capital, melhoria do nível de
consumo da população.
Além disso, a situação geográfica
da região, localizada entre os dois
maiores centros produtores e consumidores
– São Paulo e Rio de Janeiro – e
as facilidades de comunicação, ampliadas
com a construção da Estrada de Ferro
Central do Brasil (antiga Dom Pedro
II), foram fatores decisivos para
o início da industrialização do
Vale do Paraíba, que se faria em
proporção crescente.
Baseando-se na data de fundação
das principais indústrias hoje existentes,
podemos concluir que o processo
de industrialização da região valeparaibana
desenvolveu-se em três fases distintas:
a primeira iniciada nas duas últimas
décadas do século passado; a segunda,
abrangendo o período compreendido
entre as duas grandes guerras, tendo
como pólos principais: Jacareí,
São José dos Campos, Taubaté e Guaratinguetá;
e a fase atual, a mais dinâmica,
iniciada com a construção da Usina
Siderúrgica de Volta Redonda e com
a inauguração da Rodovia Presidente
Dutra, criando novos centros de
desenvolvimento e tecnologia: São
José dos Campos, Jacareí, Caçapava,
Cruzeiro, Lorena, Pindamonhangaba.
Esta última fase assinala o aparecimento
das indústrias de grande porte,
mecânicas, modernas: Johnson, Ford,
General Motors, Volkswagen, Nestlé,
Ericsson, Kodak, Villares, Fuji,
Basf, Avibrás, Mafersa, Liebherr,
Monsanto, destacando-se ainda as
indústrias químicas, metalúrgicas,
de papel e celulose, têxteis e alimentícias.
São José dos Campos constitui hoje
o maior centro de tecnologia avançada
na América do Sul (Embraer, INPE,
CTA, etc.).
O patrimônio ambiental
Localizado entre a Serra da Mantiqueira
e os contrafortes da Serra do Mar,
o Vale do Paraíba possui uma paisagem
botânica e animal das mais exuberantes
na fauna e na flora do Brasil. Por
outro lado, o Rio Paraíba do Sul,
formado pela junção dos rios Paraitinga
e Paraibuna, com sua vasta rede
de afluentes, espraiando-se pelos
Estados do Rio de Janeiro e Minas
Gerais, possui uma das grandes bacias
hidrográficas da América do Sul,
com uma variedade de peixes e abundância
de águas, responsável pelo abastecimento
de numerosas cidades por ele banhadas,
e , do Rio de Janeiro, através do
Reservatório de Lajes.
Nos últimos anos, o crescimento
acelerado e desordenado das cidades,
a multiplicidade de atividades industriais,
a excessiva valorização das terras,
vêm produzindo efeitos negativos
sobre o espaço ambiental na região
valeparaibana.
Associações civis, movimentos ecológicos
e iniciativas governamentais procuram
por caminhos diversos preservar
o que restou da cobertura vegetal
original nas serras que margeiam
o Vale. O Governo Federal criou,
em 1937, o Parque Nacional de Itatiaia,
o mais antigo do Brasil, e o Parque
Nacional da Serra da Bocaina, abrangendo
a região de Bananal e de São Luís
do Paraitinga. O Governo de São
Paulo mantém os parques estaduais
de Cunha, São Luís do Paraitinga,
Campos do Jordão e Caraguatatuba-Ubatuba.
Também forma criadas Áreas de Proteção
Ambiental nos municípios de Silveiras
, Campos do Jordão, Jambeiro e Roseira.
Alguns proprietários rurais protegem
o que restou da fauna silvestre,
impedindo a caça e o desmatamento
em suas propriedades. No município
de Roseira, a Fazenda Boa Vista
foi transformada em reserva ecológica
e, com apoio do Instituto Brasileiro
de Desenvolvimento Florestal, em
refúgio para animais nativos da
região. Nesta propriedade rural,
a paisagem botânica está sendo recomposta
com exemplares da flora primitiva
e o equilíbrio ecológico restabelecido
com a volta dos pássaros, insetos,
borboletas, pequenos animas e a
preservação das espécies nativas,
aliado a um programa de educação
ambiental, com o apoio e a participação
das escolas e colégios da região.
O patrimônio cultural
Localizado entre os dois maiores
centros culturais do país, o Vale
do Paraíba tem condições para desenvolver
um programa de integração cultural
voltado para a realidade social
da região, absorvendo as iniciativas
e criando novas estruturas de lazer
e cultura. Os municípios localizados
ao longo da Rodovia Dutra apresentam
os maiores índices de urbanização,
em função do grande número de indústrias
e dos sistemas de comunicações.
Nestes municípios, o processo rápido
e intenso de urbanização trouxe
como conseqüência imediata o êxodo
rural, a desintegração da cultura
tradicional e a modificação dos
hábitos e costumes da população:
habitação, transportes, emprego,
educação, saúde, cultura e lazer.
Os municípios polarizadores de atividades
sócio-culturais na região são os
mais densamente povoados e industrializados:
São José dos Campos, Jacareí, Taubaté,
Guaratinguetá, Pindamonhangaba,
Lorena, Cruzeiro. Dotados de uma
infra-estrutura mais dinâmica, possuem
museus, arquivos, bibliotecas, teatros,
cinemas, grupos de dança, artistas
plásticos, escritores, poetas, galerias
de arte. Existem no Vale do Paraíba
três academias literárias, dez arquivos
históricos, inúmeras bibliotecas,
destacando-se a “Biblioteca Conde
de Moreira Lima”, das Faculdades
Integradas “Teresa D’Ávila”, de
Lorena, com um valioso acervo de
obras raras brasileiras e estrangeiras,
e a Biblioteca de Assuntos Valeparaibanos
do Instituto de Estudos Valeparaibanos,
em Guaratinguetá, especializada
em temas e autores valeparaibanos.
As artes plásticas constituem um
dos setores mais ativos da cultura
valeparaibana. Nas principais cidades
da região, ocorrem exposições e
salões de arte, destacando-se Guaratinguetá,
Lorena, Taubaté e São José dos Campos,
reunindo artistas da região e de
outras cidades, como São Paulo e
Rio de Janeiro. Em Taubaté e Lorena,
encontra-se em organização um Museu
de Artes Plásticas, e em São José
dos Campos, por iniciativa e patrocínio
da Monsanto, será instalado um Museu
de Arte do Vale do Paraíba. Rara
a comunidade que não tenha cadastrado
os seus artesãos. Em Bananal, Silveiras,
São Luís do Paraitinga, Guaratinguetá,
Pindamonhangaba, Taubaté e São José
dos Campos, promovem-se exposições
e feiras de artesanato.
As “Figureiras”de Pindamonhangaba,
Taubaté e São José dos Campos são
conhecidas em todo o Brasil e exterior,
e o “galinho do céu” é o símbolo
do artesanato figurativo da região
valeparaibana, sendo disputado por
museus e colecionadores.
As Bandas de Música constituem um
dos elementos mis importantes nas
festas tradicionais da região. A
mais antiga das bandas de música
do Vale do Paraíba é a “Euterpe”,
de Pindamonhangaba, fundada em 1825.
Outras bandas tradicionais da região
são a Corporação Musical “Mamede
de Campos”, de Lorena, e a “Aurora
Aparecidense”, de Aparecida, ambas
centenárias. Algumas bandas possuem
arquivos preciosos, com partituras
de autores e compositores valeparaibanos.
Resistindo ao progresso e modernização
dos costumes, sobrevivem em toda
a região, em especial nos municípios
fora da Rodovia Dutra, os grupos
folclóricos de Moçambique, congadas,
catiras, cana verde, jongo, folia
de Reis, folia do Divino, cavalhadas,
quadrilhas e outras manifestações
populares. Encontram-se na zona
rural dos municípios e nos bairros
periféricos das cidades industrializadas,
apresentando-se por ocasião das
festas religiosas e de eventos especiais.
Numerosas instituições culturais
se distribuem pela região, abrangendo
clubes, centros culturais, grupos
cívicos, entidades dedicadas à pesquisa
histórica, folclórica e literária,
sendo a mais importante delas o
Instituto de Estudos Valeparaibanos,
sediado em Guaratinguetá.
O café gerou um conjunto de monumentos
arquitetônicos dos mais expressivos
na região valeparaibana: sede de
fazendas, igrejas, capelas , sobrados,
solares, estações ferroviárias,
pontes, cemitérios. O Governo Federal,
através do SPHAN, tombou os seguintes
monumentos no Vale do Paraíba: fazenda
Resgate (Bananal), Fazenda do Pau
D’Alho (São José do Barreiro), casa
do Conselheiro Rodrigues Alves (Guaratinguetá),
Chácara do Visconde (Taubaté), Capela
de Nossa Senhora do Pilar (Taubaté),
a casa de Oswaldo Cruz (São Luís
do Paraitinga).
Entre os monumentos tombados pelo
CONDEPHAAT estão os sobrados da
Praça Pedro ramos Nogueira, em Bananal;
o Hotel Sant’Ana, em Areias; antiga
residência do capitão-mor Domingos
da Silva Moreira, que hospedou o
Príncipe Regente Dom Pedro, quando
da viagem histórica da Independência;
o Solar do Conde Moreira Lima, em
Lorena; o Solar do Major Novaes,
em Cruzeiro; a Casa dos Camargos,
em Guaratinguetá, marca da arquitetura
urbana do Vale do século passado;
a Basílica Velha de Aparecida; o
Solar dos Barões de Lessa, em Pindamonhangaba,
reproduzindo a fachada do Palácio
do Catete; o Solar do Comendador
João da Costa Gomes Leitão, em Jacareí,
sede do Museu de Antropologia do
vale do Paraíba.
As festas religiosas assinalam o
calendário dos eventos populares
valeparaibanos. São famosas as festas
do Divino Espírito Santo, em Cunha
e São Luís do Paraitinga; a festa
de São Benedito, em Guaratinguetá
e Aparecida, com o desfile dos cavaleiros,
os imperadores e reis, a casa dos
doces, as procissões e as quermesses,
com figuras típicas, anjos, andores
e grupos folclóricos. Ao lado das
festas, estão as comidas, bebidas
e doces típicos, característicos
de cada festa e evento religioso.
O “afogado”, ensopado de carne de
vaca, servido com farinha de mandioca;
a “canjiquinha’, quirera de milho
cozida com costela de porco ou de
frango; a paçoca de amendoim torrado,
socado no pilão, com farinha de
mandioca ou de milho e comida com
banana ouro ou banana maçã. A doçaria
é representada pelo “furrundum”,
doce de cidra ou de mamão ralado
com rapadura ou açúcar mascavo;
os doces de batata roxa, abóbora,
mamão, laranja, figo, goiaba, banana.
O Vale do Paraíba também é um celeiro
de escritores, poetas, cientistas,
destacando-se, entre outros, Monteiro
Lobato, Waldomiro Silveira, Plínio
Salgado, Cassiano Ricardo, Almeida
Nogueira, Barão Homem de Mello,
Malba Tahan, Brito Broca, Aroldo
de Azevedo, Alves Motta Sobrinho,
Francisco de Assis Barbosa, Ruth
Guimarães, Péricles Eugênio da Silva
Ramos, Eugênia Sereno, César Salgado,
Maria de Lourdes Borges Ribeiro,
José Geraldo Nogueira Moutinho.
Cientistas como Oswaldo Cruz, Emílio
Ribas, Miguel Pereira. Médicos como
Euryclides de Jesus Zerbini, José
Cembranelli, Carlos da Silva Lacaz.
Artistas plásticos: Quissak Júnior,
Ismênia Faro, Antônio Valentim de
Oliveira Lino, Justino, Herculano
Cortez, Tom Maia, Paulo Pires do
Rio, Gilberto Gomes. Artistas populares,
santeiros, ceramistas: Chico Santeiro,
Teixeira Machado, Dito Pituba, Eugenia,
Maria Froés, Benedito e Maria Gomes,
as irmãs Edith, Luíza e Cândida
Santos, Teresa Migoto Justen, Maria
Benedita Vieira (Mudinha), e tantos
outros anônimos que fizeram e fazem
a delícia dos olhos, com seus presépios,
bichos, pavões. Os escultores Boanerges
e Demétrio.
Cumpre, assim, o Vale do Paraíba
o seu papel histórico e cultural.
Região de passagem e ligação, desde
dos tempos coloniais, caminho para
as Minas Gerais, caminho para os
portos do litoral, caminho para
o planalto de São Paulo, caminho
para a cidade do Rio de Janeiro,
desbravou sertões, povoou capitanias
distantes, fundou vilas e cidades,
participou do movimento da Independência,
sustentou economicamente o Império
Brasileiro, participou ativamente
da vida política e social do Brasil
e, hoje, se apresenta como a região
mais importante no processo de industrialização
e urbanização do Brasil e da América
do Sul.
|