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A
visão dos escritores
“
Pardo” , “ ignorante”,
“doente”, eram adjetivos
qualitativos dos seres impossíveis
do progresso. Os Jecas junto com
as Cidades Mortas, formavam o binômio
inerente ao destino do fracasso.
Seriam, também o avessso
do novo, em continuidade às
urbes do Vale, indilicamente falidas,
em que nunca tiveram pujança
nenhuma, depois de uma hipotética
fase de esplendor seriam mostra
de um fim que clamava por soluções.
Os demais personagens daquele mundo
( o padre, a beata, a prostituta,
o fazendeiro, o ex-escravo) compunham
um complexo ideológico em
que se movia a coletividade atemporânea,
deslocada do espaço da modernidade
desejada. Traçando um corte
entre o passado exemplificado pela
noção de um tempo
colonial, cabia a Lobato, ainda
na fase valeparaibana, semear propostas
da saída do Brasil: voltar-se
para fora: para o imigrante, para
a industrialização,
para o mundo das máquinas.”
Gabriel Chalita ( 1993,p.103)
A criação de uma literatura
regional desempenhou papel singular
na formação da imagem
do homem e da terrra, influenciando
na formação das consciências
das pessoas e nas práticas
sociais.
Ao se considerar a literatura no
Vale do Paraíba, automaticamente
lembramos Monteiro Lobato ( 1882-1948),
que juntamente com Euclides da Cunha
( 1886-1909), escreveram sobre esta
terra e seus habitantes. Lobato
e Euclides, este embora não
tenha nascido no Vale, residiu por
dois anos na cidade de Lorena e
observou e escreveu sobre o assunto,
tiveram a mesma visão e se
expressaram quase que com a mesma
linguagem, os mesmos adjetivos.
Euclides já havia descoberto
o interior e a força da mestiçagem
no interior da Bahia. Lobato descobriu
o Brasil no Vale do Paraíba,
em sua infância e adolescência,
residindo nas fazendas de sua família.
Mais tarde, formado em direito,
exerceu a função de
promotor público na cidade
de Areias. Como fazendeiro, conviveu
com a gente da terra, quando tentou
adiministrar patrimônio rural
que recebera de herança.
Eles, em síntese, propõem
a necessidade de se resgatar setores
marginalizados da sociedade, sempre
julgados em função
da visão externa, contribuindo
assim para a redefinição
inovadora da questão da identidade
regional.
A imagem da terra e do homem deixada
por ambos acaba se consolidando
no contexto da cultura rergional.
A terra era vista como empobrecida,
decadente, melancólica, abandonada
pelos seus filhos mais ilustres
e empreendedores. O homem, identificado
por atributos oriundos da fase anterior
da história regional e do
momento da decadência da economia
cafeeira, era assim caracterizado:
preguiçoso, hospitaliero,
místico, mesmeiro, ingênuo,
triste, ligado ao caráter
rural e ao fatalismo. Destacam a
tradição religiosa
católica como elemento forte
da cultura regional, manifestada
no cotidiano da vida urbana e rural.
Euclides assim descreve a terra
e a gente da região:
“ As estradas são ermas.
De longe um caminhante. Mas também
um decaído. Não é
daqueles caboclos rijos e mateiros
que abriram neste Vale as picadas
atrevidas das bandeiras. O caipira
desfigurado, sem o desempenho dos
titãs bronzeados que lhe
formam a linguagem obscura e heróica,
saúda-nos com uma humildade
revoltante, esboçando o momo
de um sorriso deplorável,
deixa-nos mais apreensivos como
se víssemos uma ruína
maior por cima daquela enorme ruinaria
da terra “ (Euclides da Cunha,
1913, p. 164)
Monteiro Lobato, com sagacidade,
registrou o caráter da população
destas cidades. Escreve em “
Cidades Mortas”:
“ Atraídos pelas terras
novas, de feracidade sedutora, abandonaram-na
seus filhos; só permaneceram
os de vontade anemiada, debeis,
faquirianos. “Mesmeiros”,
que todos os dias fazem as mesmas
coisas, dormem o mesmo sono, sonham
os mesmos sonhos, comem as mesmas
comidas, comentam os mesmos assuntos,
esperam o mesmo correio, gabam a
passada prosperidade, lamuriam do
presente e pitam-pitam longos cigarrões
de palha, matadores do tempo"
( Monteiro Lobato, Cidades Mortas,
p. 10)
A imagem do valeparaibano é
construída sob o signo da
mestiçagem e da marginalidade.
Uma dupla condição
de inferioridade. Na visão
deixada pela literatura, o caboclo
valeparaibano tornou-se responsável
por todos os fracassos da sociedade.
Lobato e a remissão
do Jeca
Em suas primeiras obras, Cidades
Mortas e Urupês, Monteiro
Lobato apresenta o homem valeparaibano
como símbolo da espécie
cabocla. Da sua experiência
na Fazenda Buquira, escreve que
:” o homem que lavra as terras
da Buquira é um depredador
inconsciente, sem iniciativas, espécie
de homem-baldio, semi –nômade,
inadaptável à civilização.
De um fatalismo suicida, resume
toda a sua filosofia de vida na
melancolia negativa: não
vale a pena” ( ML., Urupês,
p.210 ) O caboclo é apresentado
por Lobato como o responsável
pelos atrasos da região e
do país. “ O ato mais
imoportante da sua vida é
sem dúvida votar no governo.
Tira nesse dia da arca a roupa do
casamento, sarjão furadinho
de traça e todo vincado de
dobras, entala os pés num
alentado sapatão bezerro,
ata ao pescoço um colarinho
de bico e, sem gravata, ringindo
e mancando, vai pegar o diploma
às mãos do chefe coisada,
que lh’o retém para
maior garantia da felicidade partidária.
Vota. Não sabe em quem, mas
vota. Esfrega a pena no livro eleitoral,
araberscando em cinco bons minutos
o aranhol de gatunos tremidos a
que se chama a sua graça”
( M.L. , 1920, p. 211)
Lobato, no início de sua
carreira literária foi duro
com o Jeca. Estava influenciado,
como todos os intelectuais da época,
pelos modelos externos. Mas teve
tempo de rever sua opinião.
Pode perceber que este homem era
o resultado de séculos de
dominação econômica
e de exploração social.
Era um homem ingênuo, simples,
assustado com as novidades vindas
do meio urbano, com as mudanças
que marcavam a região rumo
à modernidade. Amplia sua
crítica para o conjunto da
sociedade, apontando os erros e
defeitos daqueles que ocupavam as
melhores posições
sociais, econômicas e mantinham
o poder político. A elite
valeparaibana. Passa a ver o homem
valeparaibano, como um homem a ser
recuperado. Ele mesmo se penitencia:
“ Perdoa, pois, pobre opilado
e crê no que te digo ao ouvido:
tens no sangue e nas tripas todo
um jardim zoológico... és
tudo isso sem tirar uma virgula,
mais ainda és a melhor coisa
dessa terra. Os outros, os que falam
francês e, senhores de tudo,
te mantêm nessa geena infernal
para que possam, a seu salvo, viver
vida folgada à custa de teu
dolorido trabalho, seus, meu caro
Jeca Tatu, esses tem na alma todas
as verminoses que tu tem no corpo.
Doente por doente, antes tu, doente
só de corpo” (M.Lobato,
1920, p. 213)
Comédia e drama
Monteiro Lobato viu o homem valeparaibano
como o homem a ser recuperado. Mais
tarde, o cineasta Mazzaropi, segindo
a mesma temática, “o
envolveu em situações
de comédia e drama. “
( Nelson Pesciotta, in Em Busca
das Raízes, 1988, p. 87))
O caipira do Vale do Paraíba
se imortaliza nas obras de Mazzaropi.
O sucesso de seus filmes, que arrastaram
multidões, baseia-se na ingenuidade
do matuto, que é uma mistura
de graça e astúcia,
além de ser o símbolo,
talvez, de nossa alma perdida nos
desencontros de nossa nacionalidade.
Coloca, em suas produções
cinematográficas, o homem
do interior frente a frente com
o meio urbano-industrial. Faz constratar
os valores e o universo mental do
mundo do matuto, simples, ingênuo,
com os valores do homem urbano e
das cidades em progresso.
Tanto Lobato como Mazzaropi adotam
como tema o homem do interior, o
valeparaibano. Consequem apontar,
com certa nitidez, seus traços
característicos: a ingenuidade,
o misticismo, as origens rurais
de sua cultura, o sentido de dependência
e de crença em si mesmo e
na sua incapacidade de iniciativa
e de realização, fruto
de séculos de exploração,
de dependência dos detentores
do poder sócio-econômico
e político.
A mentalidade coletiva
Duas contribuições
não poderiam deixar de serem
registradas: a da escritora e folclorista
Ruth Guimarães, de Cachoeira
Paulista e de Eugênia Sereno”,
de São Bento do Sapucaí.
Seus romances revelam aspectos do
coletivo, do imaginário valeparaibano.
A escritora Ruth Guimarães
veio enriquecer a compreensão
do homem valelparaibano com suas
obras; “ Água Funda”,
( 1946) e “ Os Filhos do Medo”
( 1949).
Neste último trata do medo
da morte. Seu cenário é
repleto de crendices que vieram
das fazendas, dos arraiais, de arredores
das cidades do interior e de bairros
fora do perímetro urbano.
O cabloclo guarda, segundo seus
escritos, muito do culto lunar.
Relaciona toda as fases da vida
e todos os acontecimentos à
lua. Assim recupera parte da cultura
popular descrevendo “ os causos”
de assombração, de
mula sem cabeça, diabos e
demônios envolvidos nas mais
diversas e arrepiantes situações
passado de geração
a geração, por meio
da tradição oral.
Eugência Sereno depois de
estudar na cidade de São
Paulo, onde fez o curso Normal do
Brás e na cidade do Rio de
Janeiro, onde fez o curso de educadora
sanitária, transferiru-se
para São Bento do Sapucaí,
onde nascera. Alí passou
a lecionar em escola rural e a conviver
com gente do lugar, conhecendo de
perto seus costumes e formas de
viver. Desta convivência pode
fazer suas observações
e colher material que reproduziu
em sua obra máxima “
O Pássaro da Escuridão”.
O livro trata da vida em Mororó
– Mirim , nome fictício
dado à São Bento do
Sapucaí. É uma história
sentimental de um burgo parado no
tempo, esquecido, como outros do
Vale. Nele, o cotidiano é
marcado pelas baladas do sino da
igreja, pela presença noturna
da coruja, pelos mexericos.
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