Estudos
REGIONALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
  
   


Identidade Cultural Latino-Americana

A questão da identidade cultural ressurge, neste final de século, como um discurso de resistência à globalização, revelando possilidades da afirmação da força dos grupos locais. Ganha nova e importante dimensão. O seu reconhecimento pode vir a servir como instrumento de coesão entre as pessoas, permitindo que os membros de uma mesma comunidade possam desenvolver a auto-estima, a crença na possibilidade de construir uma sociedade equilibrada, onde se possa garantir o desenvolvimento auto-sutentado, tomando por base os valores locais, voltados para princípios universais.
Na atual conjuntura, marcada pelo alvorecer de uma nova civilização, estimulada pelo processo de globalização, a questão da identidade cultural passa a ser vista e analisada num novo contexto, o de um mundo sem fronteiras, o da aldeia global. Ao mesmo tempo que a globalização vem diminuindo as distâncias entre os povos. Porém, ela provoca, por meio da mídia, uma massificação de hábitos e costumes. Os meios de comunicação de massa veiculam modos de pensar e de se comportar, criam modismos, desejos, impondo novos hábitos, costumes e valores, com desprezo pela memória coletiva e pelo passado histórico dos grupos humanos. A força dos diferentes meios de comunicação, entre eles a televisão e a literatura, é muito grande. Criam modelos, reforçam traços de identidade e anulam-se outros. Como resultado, vem ocorrendo a perda de identidade cultural dos povos. Com isto emerge a crise de identidade para os indivíduos, em particular, e, para o mundo em geral, que não conseguem saber para onde caminhar, provocando uma incerteza generalizada.
A identidade cultural em termos de América Latina, desde 1492, tem sido determinada pelo modelo exterior. Sob os escombros das identidades autóctones, da massificação e alienação de negros e de toda a sorte de pessoas colocadas na marginalidade social se ergueu o projeto civilizatório europeu. Sua evolução esteve sempre atrelada e adequada ao projeto da modernidade. Foi apenas no século XX, nas suas primeiras décadas que este processo sofreu certo rompimento com o desenvolvimento do populismo e do crescimento de idéias nacionalistas. Foi uma época de integração de uma maneira vigorosa de todos os projetos anteriores, unindo elementos populares e nacionais no processo evolutivo das identidades na América Latina.
Esta tendência é contida a partir dos anos 50 face a penetração das corporações multinacionais que começaram a reorganizar o processo de acumulação capitalista segundo novos modelos. Com isto, acelerou-se novamente a modernização dependente. Movimento que se amplia a partir dos anos 80, com a implantação da última etapa do sistema capitalista, sob a hegemonia do Programa Neo-Liberal. Programa este que endeusa a estabilidade do mercado, submete milhões de seres humanos à marginalidade e a exclusão social. E que, ao final, continua impondo o modelo hegemônico a nível internacional em detrimento da afirmação das identidades nacionais e regionais.
Para nós, brasileiros, a questão da identidade tem sido objeto de preocupação constante de intelectuais de várias áreas do saber humano, que se traduz em inúmeras obras e intermináveis debates. No Vale do Paraíba, já foi tema da Campanha Anual do Instituto de Estudos Valeparaibanos, na década de 80 ( 1983-1984), cujos resultados foram apresentados no livro : “Em Busca das Raízes”. O motivo de tal interesse reside em dois pontos importantes.
Primeiro, porque nossa formação ocorreu durante o período colonial, envolvendo o cruzamento de povos de raças e de origens diferentes, decorrentes do processo de expansão marítima e comercial européia. Esta construção do Brasil, via colonização, gerou o processo de europeização, ou seja, a imposição da cultura européia em nosso meio. A partir de então , a questão da internacionalização esteve sempre na raiz da nossa busca intelectual. Impôs-se o modelo europeu a ser seguido e mais recentemente, o norte-americano. O pensar o país, seu povo e tudo o mais, a partir de uma visão própria e mais adequada a nossa realidade, passou a ser considerado irrelevante. Em decorrência, passamos a imitar, a copiar modelos exógenos, a girar na órbita de uma história que já havia sido feita por outros, como se a nossa história fosse mera repetição ou herança obrigatória do passado alheio. Assim também outras formas de pensar e fazer foram excluídas, juntamente com os seus protagonistas. O prolongamento desta tensão entre o nacional e o internacional fizeram com que surgisse a necessidade de legitimar a cultura brasileira.
Em segundo lugar, por ter colocado dois desafios aos pensadores brasileiros. O primeiro, do ponto de vista externo, viram-se obrigados a contrapor-se ao estrangeiro; o segundo , a de ter que explicar, pelo lado interno, a diversidade e a complexidade da nossa formação.
Ao longo da história do pensamento brasileiro, notadamente neste século XX, os intelectuais, enfrentando os problemas que lhes foram colocados pelo contexto de seu tempo, dedicaram-se à tarefa de compreender e explicar o país e os seus habitantes. Vários foram os enfoques utilizados tais como: raças formadoras, miscigenação, mimetismo cultural, arquipélago cultural, diferenças regionais, conciliação entre o atraso dos meios mais afastados e o progresso dos meios urbano-industriais, alienação cultural, conservadorismo, modernização, entre outros.
O caminho percorrido foi o de se fazer referência ao estrangeiro, por oposição ao dominante, ao colonizador. Um jornada penosa, na medida em que se expressa um dilema dos “criollos” ( filhos de europeus nascidos na América) e para nós, um dilema brasileiro. Pois vivemos esta ambigüidade, que parece permanecer como substrato da mentalidade nacional. Por esta razão, em dado momento invejamos o modelo das sociedades centrais e negamos, rejeitamos ou desvalorizamos os elementos da nossa formação histórica. Em outro momento, valorizamos algumas de nossas características, as vezes até exageradamente, como algo original , que nos enche de orgulho.
Porém, não basta afirmar que somos diferentes, é preciso mostrar em que nos identificamos, para esboçar a pretensa identidade cultural. Enfim, buscar no contexto cultural o lugar próprio para se enfrentar o desafio de nos diferenciarmos do outro histórico, e assim assinalarmos a nossa identidade diante das diversidades internas.





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