Como
era constituída a
população
urbana do Vale do Paraíba
no período aúreo
do café, antes de
sofrer as grandes mudanças
trazidas pela estrada de
ferro? Qual o processo que
determinou a estratificação
social, o aparecimento e
função dos
grupos urbanos?
Eis algumas das questões
que poderiam ser propostas
para análise. Esta
pesquisa proporciona uma
visão da evolução
do processo de estratificação
social condicionada e duas
forças determinantes.
A primeira grande forca
responsável está
ligada ao processo de apropriação
econômica. A riqueza,
na época, era representada
pela produção
e comercialização
de café. Para produzir
café, era necessário
terra, mão de obra
e capital. A riqueza do
fazendeiro era medida pela
quantidade de terras e de
escravos que ele possuía.
Quando de fazendeiro, passava
a comerciar o produto, suas
chances de enriquecer aumentavam.
Mas, sentia-se desde o início
ocupado no trabalho diário
em suas unidades produtoras,
isoladas e distantes. Necessário
se tornou utilizar intermediários
para a comercialização
do produto, os quais recebem
o nome de comissário.
Estes intermediários
são elos de ligação
entre unidades produtoras
do Vale do Paraíba
e os mercados mundiais.
Retêm em suas mãos
duas importantes funções:
levar o café para
a comercialização
e trazer para o Vale os
recursos resultantes da
venda do produto e distribuição
pelo interior. Passam de
simples representantes de
fazendeiros para posições
mais amplas, aumentaram
em número e em importância.
Acabam por invadir as fazendas
de café, participando
da montagem e custeio; invadindo
a área de produção,
financiando-a.
Esta foi outra forma de
apropriação
de bens econômicos.
Muitas fortunas adquiridas
durante o ciclo do café
foram ligadas à sua
comercialização:
tropas, casas de comércio,
uso de práticas comerciais
e até mesmo com o
tráfico de escravos.
Executaram transações
aproveitando ao máximo
do dinheiro para aumentar
a fortuna. Acionaram a exploração
mercantil de vulto. Comprometiam,
isto é forçoso
dizer, a vitalidade do setor
agrícola, concorrendo
para a sua descapitalização.
Menos prejudicial era sua
atuação nas
cidades onde, muitas vezes,
construíam suntuosas
residências. Na cidade,
realizavam grandes partes
de seus negócios,
distraíam-se e gastavam
nas festas e recepções.
A segunda força determinante
do processo de estratificação
social está ligada
às formas de dominação
política. Os quadros
políticos passaram
a ser preenchidos pelas
disputas eleitorais na cidade.
A política centralizadora
adotada no período,
vitalizou o setor urbano,
transformando-o em palco
de disputa pelo poder nas
câmaras municipais
pelos grupos em oposição.
Requer a participação
mais ativa de homens residentes
na cidade para fortalecer
as condições
de exercício do poder
pela elite agrária.
Fez crescer em número
e importância a camada
urbana.
0 resultado imediato da
atuação dessas
forças foi o aparecimento
de diferentes grupos nas
cidades. Determina a tendência
da formação
de uma camada média
urbana e uma crescente diferenciação
social.
A partir da compreensão
deste elemento, pode-se
a priori observar no conjunto
da sociedade Vale-Paraibana
Paulista, no 3.0 quartel
do século XIX, a
existência de diversos
grupos sociais urbanos.
Entre eles, o do homem rico
(grandes cafeicultores,
comerciantes nobilitados
ligados à produção
e a comercialização
do café); homens
ligados à atividades
predominantemente urbanas:
profissionais liberais,
comerciantes, professores,
burocratas e o clero. Os
grupos pertencentes às
camadas mais pobres: trabalhadoras
urbanos, profissionais remunerados
por dia, "jornada"
ou semana, como: artesão,
oficial de ofícios,
funileiros, marceneiros,
alfaiates, ourives, sapateiros,
pedreiros, seleiros, relojoeiros,
chapeleiros, fogueteiros,
etc. Destacam-se ainda,
entre os pobres, uma camada
de homens marginalizados
no contexto social econômico:
entre eles muitos negros
libertos, prostitutas, esmoleiros,
índios, etc.
Outro grupo distinto era
formado pelos escravos residentes
nas cidades e ocupados em
diversos serviços
que não o da lavoura.
Em síntese, para
concluirmos esta abordagem
sobre a economia cafeeira
e alguns aspectos urbanos
no Vale do Paraíba
Paulista, no terceiro quartel
do século XIX, temos
a ressaltar a existência
do fenômeno do ruralísmo
e do urbanismo nestes centros
urbanos.
O ciclo cafeeiro, através
das organizações
sócio-econômicas
de suas unidades produtoras:
as fazendas de café,
mantiveram a sociedade tradicional,
provinda dos tempos coloniais.
Condicionou o desenvolvimento
dos núcleos urbanos,
subordinados a estrutura
agrária de produção.
Elementos peculiares da
sociedade tradicional estavam
presentes na vida das cidades
e na própria organização
do espaço urbano.
No entanto, a partir do
3.1 quartel do século
XIX, os núcleos urbanos
seriam melhor valorizados,
evidenciados pelos melhoramentos
que pudemos constatar. Maiores
e mais completas alterações
adviriam no período
posterior a partir de 1875,
com o advento da Estrada
de Ferro, a abolição
da escravatura e a entrada
de imigrantes. Fenômenos
estes que não cabe
aqui serem analisados, mas
sabemos foram eles responsáveis
pela predominância
do setor urbano sobre o
rural, invertendo a posição
até então
existente, alterando as
fisionomias das cidades
onde puderam ser constatados.
Numa visão ampla
da sociedade Vale Paraibana
neste período, torna-se
imprescindível como
elementos de análise
para o conhecimento de realidade
histórica, ter presentes
estes aspectos significativos:
1º - A manutenção
da sociedade tradicional
representada especificamente
pelas fazendas de café.
2º - 0 íntimo
relacionamento do binômio
rural-urbano e a predominância
do primeiro sobre o segundo.
3º - 0 processo de
apropriação
econômica alicerçada
na produção
e comercialização
do café.
4º - As formas de dominação
política baseada
no mandonismo local, dirigindo-se
aos centros urbanos onde
preenchiam seus quadros
e exerciam seu poder.