Estudos
Economia Cafeeira e Aspectos Urbanos
(1850 - 1875)
  
   



Franscico Sodero Toledo

Conclusão: Valorização dos Grupos Sociais e Urbanos
 

Como era constituída a população urbana do Vale do Paraíba no período aúreo do café, antes de sofrer as grandes mudanças trazidas pela estrada de ferro? Qual o processo que determinou a estratificação social, o aparecimento e função dos grupos urbanos?

Eis algumas das questões que poderiam ser propostas para análise. Esta pesquisa proporciona uma visão da evolução do processo de estratificação social condicionada e duas forças determinantes.

A primeira grande forca responsável está ligada ao processo de apropriação econômica. A riqueza, na época, era representada pela produção e comercialização de café. Para produzir café, era necessário terra, mão de obra e capital. A riqueza do fazendeiro era medida pela quantidade de terras e de escravos que ele possuía. Quando de fazendeiro, passava a comerciar o produto, suas chances de enriquecer aumentavam. Mas, sentia-se desde o início ocupado no trabalho diário em suas unidades produtoras, isoladas e distantes. Necessário se tornou utilizar intermediários para a comercialização do produto, os quais recebem o nome de comissário.

Estes intermediários são elos de ligação entre unidades produtoras do Vale do Paraíba e os mercados mundiais. Retêm em suas mãos duas importantes funções: levar o café para a comercialização e trazer para o Vale os recursos resultantes da venda do produto e distribuição pelo interior. Passam de simples representantes de fazendeiros para posições mais amplas, aumentaram em número e em importância. Acabam por invadir as fazendas de café, participando da montagem e custeio; invadindo a área de produção, financiando-a.

Esta foi outra forma de apropriação de bens econômicos. Muitas fortunas adquiridas durante o ciclo do café foram ligadas à sua comercialização: tropas, casas de comércio, uso de práticas comerciais e até mesmo com o tráfico de escravos. Executaram transações aproveitando ao máximo do dinheiro para aumentar a fortuna. Acionaram a exploração mercantil de vulto. Comprometiam, isto é forçoso dizer, a vitalidade do setor agrícola, concorrendo para a sua descapitalização. Menos prejudicial era sua atuação nas cidades onde, muitas vezes, construíam suntuosas residências. Na cidade, realizavam grandes partes de seus negócios, distraíam-se e gastavam nas festas e recepções.

A segunda força determinante do processo de estratificação social está ligada às formas de dominação política. Os quadros políticos passaram a ser preenchidos pelas disputas eleitorais na cidade. A política centralizadora adotada no período, vitalizou o setor urbano, transformando-o em palco de disputa pelo poder nas câmaras municipais pelos grupos em oposição. Requer a participação mais ativa de homens residentes na cidade para fortalecer as condições de exercício do poder pela elite agrária. Fez crescer em número e importância a camada urbana.

0 resultado imediato da atuação dessas forças foi o aparecimento de diferentes grupos nas cidades. Determina a tendência da formação de uma camada média urbana e uma crescente diferenciação social.

A partir da compreensão deste elemento, pode-se a priori observar no conjunto da sociedade Vale-Paraibana Paulista, no 3.0 quartel do século XIX, a existência de diversos grupos sociais urbanos.

Entre eles, o do homem rico (grandes cafeicultores, comerciantes nobilitados ligados à produção e a comercialização do café); homens ligados à atividades predominantemente urbanas: profissionais liberais, comerciantes, professores, burocratas e o clero. Os grupos pertencentes às camadas mais pobres: trabalhadoras urbanos, profissionais remunerados por dia, "jornada" ou semana, como: artesão, oficial de ofícios, funileiros, marceneiros, alfaiates, ourives, sapateiros, pedreiros, seleiros, relojoeiros, chapeleiros, fogueteiros, etc. Destacam-se ainda, entre os pobres, uma camada de homens marginalizados no contexto social econômico: entre eles muitos negros libertos, prostitutas, esmoleiros, índios, etc.

Outro grupo distinto era formado pelos escravos residentes nas cidades e ocupados em diversos serviços que não o da lavoura.

Em síntese, para concluirmos esta abordagem sobre a economia cafeeira e alguns aspectos urbanos no Vale do Paraíba Paulista, no terceiro quartel do século XIX, temos a ressaltar a existência do fenômeno do ruralísmo e do urbanismo nestes centros urbanos.

O ciclo cafeeiro, através das organizações sócio-econômicas de suas unidades produtoras: as fazendas de café, mantiveram a sociedade tradicional, provinda dos tempos coloniais. Condicionou o desenvolvimento dos núcleos urbanos, subordinados a estrutura agrária de produção. Elementos peculiares da sociedade tradicional estavam presentes na vida das cidades e na própria organização do espaço urbano.

No entanto, a partir do 3.1 quartel do século XIX, os núcleos urbanos seriam melhor valorizados, evidenciados pelos melhoramentos que pudemos constatar. Maiores e mais completas alterações adviriam no período posterior a partir de 1875, com o advento da Estrada de Ferro, a abolição da escravatura e a entrada de imigrantes. Fenômenos estes que não cabe aqui serem analisados, mas sabemos foram eles responsáveis pela predominância do setor urbano sobre o rural, invertendo a posição até então existente, alterando as fisionomias das cidades onde puderam ser constatados.

Numa visão ampla da sociedade Vale Paraibana neste período, torna-se imprescindível como elementos de análise para o conhecimento de realidade histórica, ter presentes estes aspectos significativos:

1º - A manutenção da sociedade tradicional representada especificamente pelas fazendas de café.
2º - 0 íntimo relacionamento do binômio rural-urbano e a predominância do primeiro sobre o segundo.
3º - 0 processo de apropriação econômica alicerçada na produção e comercialização do café.
4º - As formas de dominação política baseada no mandonismo local, dirigindo-se aos centros urbanos onde preenchiam seus quadros e exerciam seu poder.


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