| Francisco
Sodero Toledo
A
religiosidade popular católica
tem existência a partir da
colonização portuguesa
no Brasil, desde 1500. O Vale do
Paraíba, por ser uma região
das mais antigas de po-voamento,
constitui um exemplo da presença
forte da religiosidade popular católica.
Com a ocupação da
região pelos colonizadores
portugueses, no início do
século XVII, até o
final do século XVIII, a
população pequena
e pobre, constituída em sua
maioria de brancos portugueses,
índios e mestiços,
viveu isolada e dispersa por este
vasto território. Uma população
que se entendeu católica
e passou a viver um catolicismo
rústico, fruto do ardor missionário
português, uma religião
de obrigação. Por
ela, as pessoas, pobres ou ricas,
foram colocados à serviço
da Igreja e do Estado. No entanto,
a fragilidade de seu controle no
ambiente colonial e no Vale do Paraíba,
em especial, permitiram que ela
criasse feições próprias.
No espaço deixado pela Igreja,
com seus quadros insuficientes para
acompanhar a população,
o catolicismo desenvolveu-se de
forma espontânea, por intermédio
da expressão de fé
e devoção de seus
moradores.
O encontro da imagem de N. S. Aparecida
nas águas do Rio Paraíba,
em outu-bro de 1717, ocorreu num
tempo de dificuldades e de apreensão.
Os habitantes da região,
após terem experimentado
um momento de euforia econômica
que se estendeu de 1694, com o achado
do ouro em Minas Gerais, pelos bandeirantes
de Taubaté, até 1711,
com a abertura do Caminho Novo de
Garcia Paes, ligando diretamente
a área mineradora com a cidade
do Rio de Janeiro, passaram a viver
um grande período de isolamento
e de miséria generalizada.
A economia de subsistência,
o comércio de beira de estrada
e a fé e devoção
desenvolvida em torno de seus santos
padroeiros e dos centros de peregrinação
levavam o alívio aos moradores
da região.
A chegada do novo Governador da
Capitania de São Paulo e
Minas Gerais, Dom Pedro de Almeida
Portugal, em outubro de 1717, provocara
uma agitação entre
“os homens bons” e apreensão
nos povoadores. Era preciso redobrar
os esforços para receber
e alimentar tão importante
comitiva. Naquela época,
mais do que hoje, as autoridades
representavam os interesses de centros
de poderes distantes e capazes de
exercer seu mando sob muitas maneiras,
criando situações
de ameaças para a popu-lação.
O encontro da imagem, acompanhado
da farta pescaria, conforme relatos
histó-ricos e a tradição
local, viera de encontro ao atendimento
das necessidades dos mora-dores
e alívio aos pescadores.
No momento de dificuldade ela se
manifesta e ampara seu povo. Em
sinal de agradecimento iniciam-se
as orações e o culto,
que não cessa de crescer.
Este culto mariano, ao passar de
geração a geração,
por meio de capelães, benzedores,
rezadores e grupos familiares, tornou-se
uma das mais ricas e mar-cantes
expressões de fé,
de devoção e de cultura
regional. Continuou no século
XIX, período da expansão
da produção cafeeira,
quando a região se destacou
no cenário do Império
e desenvolveu um novo tipo de catolicismo,
o catolicismo popular.
O catolicismo popular é aquele
vivido pelos pobres em geral. Tem
origens no mundo rural. O homens
do campo cultivavam uma mística
da natureza, sentindo a presença
de forças cósmicas.
Procuravam então o sagrado,
o santo, o divino para se proteger
das doenças, dos infortúnios
e das intempéries do tempo.
Para tanto, reservavam tempo para
as festas. Para saudar, agradecer,
pedir proteção, revigorar
a crença no “seu santo”.
Daí o caráter festivo
do catecismo popular. As festas
dos santos padroeiros eram ajustadas
ao ciclo litúrgico e, ao
mesmo tempo, ao ciclo da vida natural.
Durante o século XIX o catolicismo
popular desloca-se, gradativamente,
para os centros urbanos, sem apresentar
modificações em suas
características básicas.
O Catolicismo Popular Católico
representa para o povo a esperança,
a participação e a
proteção especial
de Deus, dos santos e da Virgem
Maria. Faz parte do catolicismo
tradicional, pois sua segurança
está no passado. Além
da garantia da proteção
pessoal e coletiva, funcionou como
instrumento de coesão social
e de participação
na vida de cada comunidade. Este
tipo de catolicismo desenvolvido
no Vale do Paraíba , consequentemente
em territórios da antiga
Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá,
apresenta algumas características
bem nítidas:
o caráter de homogeneidade,
pois que todos se colocam à
serviço da Igreja Católica;
o caráter de heterogeneidade,
na medida em que atinge diferentes
níveis sociais; mantém
o caráter rural; desenvolve
o misticismo, a procura do sagrado,
de proteção; é
marcado pela alegria dos cultos
dos santos familiares e dos padroeiros,
com festas, ladainhas, procissões;
se opõe ao catolicismo oficial,
pois corresponde ao catolicismo
dos leigos, dos oprimidos, em oposição
ao catolicismo clerical, instruído,
erudito; é humano, espontâneo,
unindo o sagrado e o profano, com
todas as suas conseqüências;
é moralista; e, sobretudo,
desenvolve uma forma de viver a
religião, uma prática,
assinalada pelo calendário,
determinando o ritmo da vida das
comunidades locais.
A devoção secular
à Nossa Senhora Aparecida
pelos moradores da região
e de peregrinos de tantos outros
lugares do país, os milagres
e as graças recebidas constituíram-se
em fatores determinantes deste acontecimento
histórico. Como afirmaram
o Sr. Arcebispo do Rio de Janeiro
e Bispos da Província Meridional
do Brasil:
“Desde 1717 é celebêrrimo
o Santuário de N. S. Aparecida,
pois daquele tempo até agora,
os fiéis de todas as partes
do Brasil que para lá se
dirigem para rezar à Sagrada
imagem da bondosa Mãe, nunca
se têm afastado daquele sagrado
lugar sem verem atendidas suas preces;
pelo que é impossível
dizer com que liberalidade e profusão
de graças se digna a S.S.
Virgem ouvir e cumular a todos.(6)
.
A mesma justificativa encontra-se
na Licença Pontifícia,
ao afirmar que a Igreja concede
a coroação de sagradas
imagens de Nossa senhora: “
celebres não menos pela idade
que pelo concurso do povo e por
numerosos milagres... julgamos certo
que aquela sagrada imagem chamada
de Nossa Senhora da Imaculada Conceição
Aparecida, reune todas a condições
requeridas para a sua sole-ne coroação.”
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