Estudos
I - Origens
  
   


Franscico Sodero Toledo

O processo de desbravamento e povoamento no Vale do Paraíba Paulista teve seqüência no final do século XVIII, com a conquista da área hoje compreendida entre as cidades de Lorena a Bananal.

As suas origens remontam ao final do século XVII quando os paulistas, em busca de índios e de ouro, se dirigiram às Minas Gerais, através do Vale do Paraíba, que funcionou como corredor facilitando a penetração humana. Cercado pelas serras do Mar e da Mantiqueira, contém o Vale em seu interior o Rio Paraíba do Sul que desce vagarosamente no trecho compreendido entre Jacareí e Cachoeira Paulista. Trecho denominado pelos geógrafos de bacia terciária de Taubaté. Estende-se ao longo de 149 km de comprimento, alcançando em certos trechos 25 km de largura. Sua formação ocorreu devido à acumulação de uma fossa tectônica, graças a movimentos relativos entre a soleira, região que se estende de Cachoeira Paulista a Queluz e o fundo da bacia. Nesta bacia localiza-se, entre outras Cidades, a de Lorena, primeiro núcleo da região que passamos a enfocar.

Afirma Taunay, referindo-se ao povoamento seiscentista do território vicentino: "Além de Guaratinguetá, à margem do Paraíba, não havia em fins do século XVII, senão moradores perdidos aqui e acolá na vastidão das terras ermas".

No Vale do Paraíba, por esta época, uma região isolada e paupérrima. Não possuía agricultura desenvolvida e nem produção que lhe desse ânimo comercial e movimento populacional. Era separada do Litoral pela Serra do Mar e impedida de exportar devido às dificuldades dos meios de transporte e comunicações.

Esta situação seria afetada pela descoberta do ouro nas Minas Gerais em 1693 por Antonio Rodrigues Arzão. Daria mais ânimo à região. Minas Gerais surgia como um centro consumidor dos produtos agrários aqui produzidos. Em função do centro aurífero, desenvolve-se a agricultura e são melhorados os meios de comunicação. O caminho conhecido inicialmente pela denominação de "Caminho dos Guaianases" tomou o nome Caminho Velho.

Ligava o Rio de Janeiro às Minas Gerais. Do Rio de Janeiro a Parati a viagem era feita por mar. De Parati, subindo-se a serra, seguia em direção do Vale até chegar a Taubaté. De Taubaté ia-se a Guaratinguetá. Posteriormente o trajeto foi reduzido, indo-se diretamente de Parati a Guaratinguetá e daí até as Minas Gerais através da Garganta do Embaú.

Outro caminho, dos "Paulistas", ligava a Vila de São Paulo às Minas Gerais. Iniciava-se na cidade de São Paulo, percorrendo o Vale do Paraíba até atingir Guaratinguetá, onde se encontrava com o "Caminho Velho". De Guaratinguetá ia em direção do "Porto de Guaypacaré", onde ficavam as roças de Bento Rodrigues Caldeira.

Neste local, já em 1702, "o capitão General Artur de Sá e Menezes concedia provisão de mercê da passagem de Gaypacaré, no Rio Parahyba, a João de Castilho Tinoco, que vivia em terras suas e se obrigava a mudar a passagem do Rio sobredito para ponto mais conveniente para os passageiros das com uma economia comercial para abastecimento da região e porto de "Guaypacaré, Ipacaré ou ainda Hepacaré, situado antes do Rio Paraíba encachoeirando-se, era o último ponto da escala no vale, para as bandeiras que buscavam ouro mineiro".

Funcionando como ponto de "passagem", com uma economia de subsistência para o abastecimento das bandeiras e com uma economia povoamento e desenvolvimento. Por volta de 1705, alguns de seus povoadores, como consta no Livro do Tombo de Lorena, Bento Rodrigues Caldeira, João de Almeida Pereira, seu vizinho, e mais Pedro da Costa Colaço e Domingos Machado Jacome, levantaram uma pequena Capela sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade. Era filial da Igreja Matriz de Santo Antônio da Vila de Guaratinguetá, de onde eles eram fregue-ses. Doaram à dita Capela, para seu patrimônio, duzentos mil réis a juros. O povoado de Guaypacaré foi dotado de uma igreja, com um patrimônio religioso. Em torno dela começaram a agrupar-se algumas casas e desenvolve-se este núcleo inicial.

A partir dos meados do século XVII a evolução do povoado será lenta, porém constante.
Já em 1718 era elevado à categoria de "Freguesia de Nossa Senhora da Piedade", formada de poucas dezenas de casas. Localiza-se em frente ao rio, em torno da igreja.
Interessante é notar por este tempo a importância da "Milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Piedade". Assim a ela se refere Frei Agostinho de Santa Maria, em sua obra "Santuário Mariano", escrita em 1714 e publicada em Lisboa em 1723. Estando ele em Guaratinguetá, em sua viagem pouco se demora, pois "fique-se em boa hora com suas garças, que em tal Vila como esta, me não quero deter nada, pois não tem em si a perfeição das terras, que são os Santuários da May de Deos, e o bem e remédio dos pecadores, e assim passo o Rio Paraíba a outra parte a buscar o Santuário em huma aldeã, ou povoação que é o porto onde desembarcão as canoas e se chama Guaypacaré, ponto muito freqüentado de todos os que passão às Minas e vem das Minas. Com esta misericordiosa Senhora te todos aqueles moradores daquele porto muito grande devoção e também todos os que por ali passão para as Minas. É esta Casa da Senhora a Paróquia da-quele lugar e assim se vê colocada no seu Altar Mór, como senhora e Patrona que é daquele Santuário. Todos os moradores daquele lugar a servem com fervorosa devoção e lhe solemnisão a sua festa, o que fazem com muita perfeição e grandeza. Todos os que vão para as Minas, chegão à vila das Garças, Guaratinguetá, e assim os que vêem da costa do mar, do porto da Vila de Pa-raty, como os que vêem de São Paulo e mais Vilas da terra dentro, todos passão este grande Rio Paraíba e desembarcão pero terra para as Minas Geraes e vão primeiramente a buscar o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, e pedir-lhe que elas os acompanhe e favoreça e os livre de todos os perigos que se encontrão naquelas suas ambiciosas Jornadas".

Graças à devoção do povo à imagem, o papa Benedito XIV concedeu indulgência plenária e mercês especiais tal como se encontra registrada no livro do Tombo: "no dia de Nossa Senhora da Piedade há nesta freguesia indulgência plenária de todos os pecados que concedeu o Nosso Santo Papa Benedito décimo quarto, aos fiéis, que verdadeiramente contritos e confessados e refeitos com a Sagrada Comunhão, visitarem a Igreja aos quinze de agosto, desde as primeiras vésperas até o acaso do sol do dia seguinte, rogando devotamente a Deus pela paz e concórdia dos príncipes cristãos, extirpação das heresias e a exaltação da Santa Madre Igreja, cuja graça concedeu por dez anos e foi o breve aprovado pelo ordinário e publicado nesta Igreja aos vinte e nove dias dos Mez de Maio de mil setecentos e quarenta e seis anos".

Evidenciava-se uma forte devoção até nossos dias. Serviu ainda como praça de atração aos peregrinos e pessoas que iam e vinham das Gerais. Valorizou, sem dúvida, o núcleo nascente.

Elevado o núcleo a Freguesia, procurou-se demarcar-lhe as divisas. Ao sul os limites com Guaratinguetá começavam na Ponte de S. Patrício, no aterrado. Ao norte, até o alto da Mantiqueira, confrontava com Pouso Alto, a 8 léguas mais ou menos. E as "outras demais partes não se sabe com que freguesia se divide por ser sertão incompreensível".

Em função do abastecimento das Gerais, ao longo do caminho, após a Freguesia de N. S. da Piedade, preso à sua influência, em direção às mesmas Gerais, o povoamento vai se estenden-do. O Livro do Tombo registra em 1747 que a freguesia possuía 240 fogos com mil e seiscentas pessoas de confissão. Seus habitantes moravam em distância de "meia, uma, duas e três léguas pelo caminho das Minas em direção à Mantiqueira". Nele estavam localizados os bairros: "Vu-au", quatro léguas da matriz; o "Quilombo" e a Capoeira Grande "distante da Matriz três ou mais léguas e meia para duas do "Vuau". Para o bairro do "Vuau" era solicitado erguer uma capela. Estes bairros teriam quarenta fogos com 370 pessoas, concluía p pároco: "são estáveis e prome-tem aumento".

Realizava-se, portanto, o desbravamento, o povoamento e o desenvolvimento da Freguesia da Piedade e das terras próximas à estrada em direção às Minas Gerais nesta metade do século XVIII.

No entanto é preciso não esquecer a precariedade com que vivia esta população de Guaypacaré. A freguesia da Piedade, como todo o Vale do Paraíba, tinha resumido suas atividades econômicas no abastecimento das Minas Gerais. Isto porque, com a abertura do "Caminho Novo" de Garcia Rodrigues Paes, em 1711, ligando a região aurífera ao Rio de Janeiro, estabeleceu a Coroa Portuguesa a obrigatoriedade das comunicações serem realizadas através dele. Centralizava sua atividade fiscalizadora. Todo o ouro, a arrecadação dos quintos e de outros impostos dos metais preciosos, seriam por ele enviados. Excluía-se o uso do "Caminho Velho" e do "Caminho dos Paulistas" desta importante função política e econômica. O "Caminho Velho" era por onde passavam o ouro e as pedras preciosas arrancadas do sertão. Foi abandonado pela "facilidade com que o ouro e diamantes eram desviados".

Do ouro restariam os vestígios. No inventário procedido em 1749 na matriz da Piedade, constavam dos bens da Igreja, entre outros, algumas imagens como a da "Sra. Da Piedade com a sua coroa e coração de ouro que pezão doze oitavas e um resplendor de prata que peza nove oitavas".

Essa situação é confirmada através de uma petição que os moradores da Freguesia da N.Sra. Da Piedade fizeram ao bispo Dom Frei Antônio da Madre de Deos, em 1752. Solicitaram "a piedade" de taxá-los em apenas oitenta réis por pessoa e não a "exurbitancia" que vinha sendo cobrada dos moradores para sustentar o pároco: 180 réis por cada pessoa de confissão, 200 réis por cada pessoa de comunhão, além de 240 réis por cada cabeça de casal. Alegavam, entre ou-tras razões, a da "pobreza, de que foi sempre abundante este lugar... do aumento da população - cujo livro de matrícula monta mil e oito centos e tantos coazes todos tam pobres que tem filhos que manter e não tem escravos para ajudar...". Lamentavam da "estrada das Minas que daria calor a Freguesia coaze deserta de tropas. A nova Lei da provisam do ouro em pó consterna o comércio, parece que num dá atençam a tantas necessidades e miséria pobreza da terra...".

Em seu despacho, o Bispo confirma a veracidade das alegações, deferindo o pedido. São suas palavras: "em verdade merecem toda atençam por quanto he moro grande a exurbitancia que pagam, e ainda havendo naquela Freguesia tantos pobres que certamente lhes causa pendor que regulhando-se pela contia de oitenta Réis que pagam nesta Freguesia, ficaria côngrua bastante para sustentaçam do Trabalho, por que conforme o Livro da Matrícula que registrou deste ano sam os moradores mil oitocentos e trinta e duas pessoas, que a oitenta Réis por cada huma, faz conveniência".



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