O
processo de desbravamento
e povoamento no Vale do
Paraíba Paulista
teve seqüência
no final do século
XVIII, com a conquista da
área hoje compreendida
entre as cidades de Lorena
a Bananal.
As suas origens remontam
ao final do século
XVII quando os paulistas,
em busca de índios
e de ouro, se dirigiram
às Minas Gerais,
através do Vale do
Paraíba, que funcionou
como corredor facilitando
a penetração
humana. Cercado pelas serras
do Mar e da Mantiqueira,
contém o Vale em
seu interior o Rio Paraíba
do Sul que desce vagarosamente
no trecho compreendido entre
Jacareí e Cachoeira
Paulista. Trecho denominado
pelos geógrafos de
bacia terciária de
Taubaté. Estende-se
ao longo de 149 km de comprimento,
alcançando em certos
trechos 25 km de largura.
Sua formação
ocorreu devido à
acumulação
de uma fossa tectônica,
graças a movimentos
relativos entre a soleira,
região que se estende
de Cachoeira Paulista a
Queluz e o fundo da bacia.
Nesta bacia localiza-se,
entre outras Cidades, a
de Lorena, primeiro núcleo
da região que passamos
a enfocar.
Afirma Taunay, referindo-se
ao povoamento seiscentista
do território vicentino:
"Além de
Guaratinguetá, à
margem do Paraíba,
não havia em fins
do século XVII, senão
moradores perdidos aqui
e acolá na vastidão
das terras ermas".
No Vale do Paraíba,
por esta época, uma
região isolada e
paupérrima. Não
possuía agricultura
desenvolvida e nem produção
que lhe desse ânimo
comercial e movimento populacional.
Era separada do Litoral
pela Serra do Mar e impedida
de exportar devido às
dificuldades dos meios de
transporte e comunicações.
Esta situação
seria afetada pela descoberta
do ouro nas Minas Gerais
em 1693 por Antonio Rodrigues
Arzão. Daria mais
ânimo à região.
Minas Gerais surgia como
um centro consumidor dos
produtos agrários
aqui produzidos. Em função
do centro aurífero,
desenvolve-se a agricultura
e são melhorados
os meios de comunicação.
O caminho conhecido inicialmente
pela denominação
de "Caminho dos
Guaianases" tomou
o nome Caminho Velho.
Ligava o Rio de Janeiro
às Minas Gerais.
Do Rio de Janeiro a Parati
a viagem era feita por mar.
De Parati, subindo-se a
serra, seguia em direção
do Vale até chegar
a Taubaté. De Taubaté
ia-se a Guaratinguetá.
Posteriormente o trajeto
foi reduzido, indo-se diretamente
de Parati a Guaratinguetá
e daí até
as Minas Gerais através
da Garganta do Embaú.
Outro caminho, dos "Paulistas",
ligava a Vila de São
Paulo às Minas Gerais.
Iniciava-se na cidade de
São Paulo, percorrendo
o Vale do Paraíba
até atingir Guaratinguetá,
onde se encontrava com o
"Caminho Velho".
De Guaratinguetá
ia em direção
do "Porto de Guaypacaré",
onde ficavam as roças
de Bento Rodrigues Caldeira.
Neste local, já em
1702, "o capitão
General Artur de Sá
e Menezes concedia provisão
de mercê da passagem
de Gaypacaré, no
Rio Parahyba, a João
de Castilho Tinoco, que
vivia em terras suas e se
obrigava a mudar a passagem
do Rio sobredito para ponto
mais conveniente para os
passageiros das com uma
economia comercial para
abastecimento da região
e porto de "Guaypacaré,
Ipacaré ou ainda
Hepacaré, situado
antes do Rio Paraíba
encachoeirando-se, era o
último ponto da escala
no vale, para as bandeiras
que buscavam ouro mineiro".
Funcionando como ponto de
"passagem", com
uma economia de subsistência
para o abastecimento das
bandeiras e com uma economia
povoamento e desenvolvimento.
Por volta de 1705, alguns
de seus povoadores, como
consta no Livro do Tombo
de Lorena, Bento Rodrigues
Caldeira, João de
Almeida Pereira, seu vizinho,
e mais Pedro da Costa Colaço
e Domingos Machado Jacome,
levantaram uma pequena Capela
sob a invocação
de Nossa Senhora da Piedade.
Era filial da Igreja Matriz
de Santo Antônio da
Vila de Guaratinguetá,
de onde eles eram fregue-ses.
Doaram à dita Capela,
para seu patrimônio,
duzentos mil réis
a juros. O povoado de Guaypacaré
foi dotado de uma igreja,
com um patrimônio
religioso. Em torno dela
começaram a agrupar-se
algumas casas e desenvolve-se
este núcleo inicial.
A partir dos meados do século
XVII a evolução
do povoado será lenta,
porém constante.
Já em 1718 era elevado
à categoria de "Freguesia
de Nossa Senhora da Piedade",
formada de poucas dezenas
de casas. Localiza-se em
frente ao rio, em torno
da igreja.
Interessante é notar
por este tempo a importância
da "Milagrosa Imagem
de Nossa Senhora da Piedade".
Assim a ela se refere Frei
Agostinho de Santa Maria,
em sua obra "Santuário
Mariano", escrita em
1714 e publicada em Lisboa
em 1723. Estando ele em
Guaratinguetá, em
sua viagem pouco se demora,
pois "fique-se
em boa hora com suas garças,
que em tal Vila como esta,
me não quero deter
nada, pois não tem
em si a perfeição
das terras, que são
os Santuários da
May de Deos, e o bem e remédio
dos pecadores, e assim passo
o Rio Paraíba a outra
parte a buscar o Santuário
em huma aldeã, ou
povoação que
é o porto onde desembarcão
as canoas e se chama Guaypacaré,
ponto muito freqüentado
de todos os que passão
às Minas e vem das
Minas. Com esta misericordiosa
Senhora te todos aqueles
moradores daquele porto
muito grande devoção
e também todos os
que por ali passão
para as Minas. É
esta Casa da Senhora a Paróquia
da-quele lugar e assim se
vê colocada no seu
Altar Mór, como senhora
e Patrona que é daquele
Santuário. Todos
os moradores daquele lugar
a servem com fervorosa devoção
e lhe solemnisão
a sua festa, o que fazem
com muita perfeição
e grandeza. Todos os que
vão para as Minas,
chegão à vila
das Garças, Guaratinguetá,
e assim os que vêem
da costa do mar, do porto
da Vila de Pa-raty, como
os que vêem de São
Paulo e mais Vilas da terra
dentro, todos passão
este grande Rio Paraíba
e desembarcão pero
terra para as Minas Geraes
e vão primeiramente
a buscar o Santuário
de Nossa Senhora da Piedade,
e pedir-lhe que elas os
acompanhe e favoreça
e os livre de todos os perigos
que se encontrão
naquelas suas ambiciosas
Jornadas".
Graças à devoção
do povo à imagem,
o papa Benedito XIV concedeu
indulgência plenária
e mercês especiais
tal como se encontra registrada
no livro do Tombo: "no
dia de Nossa Senhora da
Piedade há nesta
freguesia indulgência
plenária de todos
os pecados que concedeu
o Nosso Santo Papa Benedito
décimo quarto, aos
fiéis, que verdadeiramente
contritos e confessados
e refeitos com a Sagrada
Comunhão, visitarem
a Igreja aos quinze de agosto,
desde as primeiras vésperas
até o acaso do sol
do dia seguinte, rogando
devotamente a Deus pela
paz e concórdia dos
príncipes cristãos,
extirpação
das heresias e a exaltação
da Santa Madre Igreja, cuja
graça concedeu por
dez anos e foi o breve aprovado
pelo ordinário e
publicado nesta Igreja aos
vinte e nove dias dos Mez
de Maio de mil setecentos
e quarenta e seis anos".
Evidenciava-se uma forte
devoção até
nossos dias. Serviu ainda
como praça de atração
aos peregrinos e pessoas
que iam e vinham das Gerais.
Valorizou, sem dúvida,
o núcleo nascente.
Elevado o núcleo
a Freguesia, procurou-se
demarcar-lhe as divisas.
Ao sul os limites com Guaratinguetá
começavam na Ponte
de S. Patrício, no
aterrado. Ao norte, até
o alto da Mantiqueira, confrontava
com Pouso Alto, a 8 léguas
mais ou menos. E as "outras
demais partes não
se sabe com que freguesia
se divide por ser sertão
incompreensível".
Em função
do abastecimento das Gerais,
ao longo do caminho, após
a Freguesia de N. S. da
Piedade, preso à
sua influência, em
direção às
mesmas Gerais, o povoamento
vai se estenden-do. O Livro
do Tombo registra em 1747
que a freguesia possuía
240 fogos com mil e seiscentas
pessoas de confissão.
Seus habitantes moravam
em distância de "meia,
uma, duas e três léguas
pelo caminho das Minas em
direção à
Mantiqueira". Nele
estavam localizados os bairros:
"Vu-au", quatro
léguas da matriz;
o "Quilombo" e
a Capoeira Grande "distante
da Matriz três ou
mais léguas e meia
para duas do "Vuau".
Para o bairro do "Vuau"
era solicitado erguer uma
capela. Estes bairros teriam
quarenta fogos com 370 pessoas,
concluía p pároco:
"são estáveis
e prome-tem aumento".
Realizava-se, portanto,
o desbravamento, o povoamento
e o desenvolvimento da Freguesia
da Piedade e das terras
próximas à
estrada em direção
às Minas Gerais nesta
metade do século
XVIII.
No entanto é preciso
não esquecer a precariedade
com que vivia esta população
de Guaypacaré. A
freguesia da Piedade, como
todo o Vale do Paraíba,
tinha resumido suas atividades
econômicas no abastecimento
das Minas Gerais. Isto porque,
com a abertura do "Caminho
Novo" de Garcia Rodrigues
Paes, em 1711, ligando a
região aurífera
ao Rio de Janeiro, estabeleceu
a Coroa Portuguesa a obrigatoriedade
das comunicações
serem realizadas através
dele. Centralizava sua atividade
fiscalizadora. Todo o ouro,
a arrecadação
dos quintos e de outros
impostos dos metais preciosos,
seriam por ele enviados.
Excluía-se o uso
do "Caminho Velho"
e do "Caminho dos Paulistas"
desta importante função
política e econômica.
O "Caminho Velho"
era por onde passavam o
ouro e as pedras preciosas
arrancadas do sertão.
Foi abandonado pela "facilidade
com que o ouro e diamantes
eram desviados".
Do ouro restariam os vestígios.
No inventário procedido
em 1749 na matriz da Piedade,
constavam dos bens da Igreja,
entre outros, algumas imagens
como a da "Sra.
Da Piedade com a sua coroa
e coração
de ouro que pezão
doze oitavas e um resplendor
de prata que peza nove oitavas".
Essa situação
é confirmada através
de uma petição
que os moradores da Freguesia
da N.Sra. Da Piedade fizeram
ao bispo Dom Frei Antônio
da Madre de Deos, em 1752.
Solicitaram "a piedade"
de taxá-los em apenas
oitenta réis por
pessoa e não a "exurbitancia"
que vinha sendo cobrada
dos moradores para sustentar
o pároco: 180 réis
por cada pessoa de confissão,
200 réis por cada
pessoa de comunhão,
além de 240 réis
por cada cabeça de
casal. Alegavam, entre ou-tras
razões, a da
"pobreza, de que foi
sempre abundante este lugar...
do aumento da população
- cujo livro de matrícula
monta mil e oito centos
e tantos coazes todos tam
pobres que tem filhos que
manter e não tem
escravos para ajudar...".
Lamentavam da "estrada
das Minas que daria calor
a Freguesia coaze deserta
de tropas. A nova Lei da
provisam do ouro em pó
consterna o comércio,
parece que num dá
atençam a tantas
necessidades e miséria
pobreza da terra...".
Em seu despacho, o Bispo
confirma a veracidade das
alegações,
deferindo o pedido. São
suas palavras: "em
verdade merecem toda atençam
por quanto he moro grande
a exurbitancia que pagam,
e ainda havendo naquela
Freguesia tantos pobres
que certamente lhes causa
pendor que regulhando-se
pela contia de oitenta Réis
que pagam nesta Freguesia,
ficaria côngrua bastante
para sustentaçam
do Trabalho, por que conforme
o Livro da Matrícula
que registrou deste ano
sam os moradores mil oitocentos
e trinta e duas pessoas,
que a oitenta Réis
por cada huma, faz conveniência".