Desenvolvia-se
o cultivo do café,
assim como o processo da
Independência brasileira.
Em 1820, a Revolução
Liberal do Porto exigira
o retorno de D. João
VI a Portugal, ficando em
seu lugar, no cargo de Regente,
seu filho, D. Pedro. Assumiu
o impetuoso e inexperiente
Príncipe a Regência
do Brasil, encontrando sérios
problemas de ordem política
e sócio-econômica.
Tomou a responsabilidade
de reger os destinos do
reino em formação...
um vasto império
embrionário, onde
a classe dominante se apoiava
na terra, na monocultura
e no braço escravo.
Viu-se obrigado a manter
uma atuação
de equilíbrio entre
os diversos grupos políticos
que haviam sido formados.
Diante do agitado quadro
político encontrado,
procurou manter a coesão
das Províncias do
Sul: São Paulo, Rio
de Janeiro, Minas Gerais
e Rio Grande do Sul, pois
as Províncias do
Norte se declaravam fiéis
às Cortes de Lisboa,
negando-se a acatar a ordem
do Regente.
Aconteceu, porém,
complicar-se a situação
política em São
Paulo. No dia 23 de maio
de 1822, irrompeu a conspiração
contra o governo paulista,
em especial, contra Martin
Francisco Ribeiro de Andrade
que ocupava o cargo de Secretário
do Interior e Fazenda do
Governo. Os conspiradores,
chefiados pelo Coronel Francisco
Inácio, depuseram
Martin Francisco e mantiveram
como Presidente o General
João Carlos Augusto
de Oeynhausen, que não
escondia as suas simpatias
pelas Cortes Portuguesas.
Em face destes acontecimentos,
o Príncipe ordenou
a dissolução
do governo de São
Paulo, nomeando o Marechal
Cândido Xavier de
Almeida e Souza governador
da Praça de Santos,
para restabelecer a ordem
e a autoridade. "Preocupado
com os acontecimentos políticos
e militares que se desenvolveram
em São Paulo e aconselhado
por José Bonifácio,
deliberou D. Pedro empreender
uma viagem à Província
de São Paulo, a fim
de impor sua autoridade,
apaziguar os ânimos
e conseguir a união
dos paulistas em torno da
causa separatista".
A viagem, cuidadosamente
planejada, foi iniciada
no dia 4 de agosto de 1822,
na cidade do Rio de Janeiro,
e teve papel decisivo no
processo final da independência.
Partiu a comitiva do Príncipe,
composta de seu Secretário
Luís Saldanha da
Gama, do Tenente Francisco
Gomes da Silva, Major Francisco
de Castro Canto e Melo,
e dos criados do Paço,
João Carlota e João
Carvalho.
Até atingir o Vale
do Paraíba Paulista
passaram pelo local denominado
Venda Grande, onde se juntaram
à comitiva o Tenente
Coronel Joaquim Aranha Barreto
de Camargo e o Padre Belchior
Pinheiro. No dia 15, hospedou-se
o Príncipe em São
João Marcos, na Fazenda
Olaria, de propriedade do
Capitão Hilário
Gomes Nogueira; aí
integraram-se na comitiva
os jovens Luís e
Cassiano Nogueira.
No dia 16, hospedou-se Dom
Pedro na Fazenda Três
Barras, em Bananal, também
de propriedade do Capitão
Hilário Gomes Nogueira.
Entrava a comitiva no Vale
do Paraíba Paulista.
A Freguesia do Senhor Bom
Jesus do Bananal foi assim
descrita em 1 822 por Saint-Hilaire:
"fica situada num
vale bem largo, entre morros
cobertos de mata, e compõem-se
de uma única rua.
Pareceu-me de fundação
inteiramente nova, mas é
provável que adquira
logo importância,
pois se acha no meio de
uma região onde se
cultiva muito café
e cujos habitantes, por
conseguinte, possuem rendas
consideráveis".
Compunham-na diversos bairros,
como o de Santo António,
Retiro, Três Barras.
Neste último, verificava-se
a pujança econômica
apontada por Saint-Hilaire,
através da posição
de seus habitantes, entre
eles: Brás de Oliveira
Arruda (54 anos, sargento-mor
de Milícias, casado
com Aurora Maria Nogueira,
ambos naturais do Rio de
Janeiro, com 13 filhos,
todos naturais de Bananal),
o qual havia colhido 3.000
(três mil) arrobas
de café, conseguira
2.000 de açúcar,
500 caixas de aguardante,
1000 alqueires de feijão,
1.500 de arroz e 400 de
toucinho; possuía
45 escravos. Outro grande
cafeicultor deste bairro
era Luís Gonçalves
de Lima (54 anos, casado
com Joana Maria, de 60 anos,
ambos naturais do Rio de
Janeiro, com 2 filhos naturais
de Bananal), dono de 158
escravos; colhera 2.800
arrobas de café;
fizera 400 de açúcar,
200 de toucinho, 200 caixas
de aguardente; colhera 900
alqueires de feijão
e 1.000 de arroz. Bananal
já se apresentava
como grande centro produtor
de café.
Neste ano, produziu e exportou
22 472 arrobas de café
e 22.200 arrobas de açúcar.
Continuando a viagem, o
Príncipe passou dia
17 pela Fazenda de Pau D'Alho,
onde foi recebido pelo proprietário,
Coronel João Ferreira
de Souza, e por sua mulher,
dona Maria Rosa de Jesus.
Após o jantar na
Fazenda, a comitiva foi
pernoitar na Vila de Areias,
na casa do Capitão-Mor
Domingues da Silva Leme.
A Vila de Areias foi assim
descrita por Saint-Hilaire
em 1822: "pareceu-me
inteiramente nova e compõem-se
de duas ruas paralelas,
sendo que a principal é
atravessada pela estrada
em todo o cumprimento. A
igreja é bem construída
de taipa e não caiada".
Observou ainda que no lugar
chamado Pau D'Alho fica
(va) a única casa
de fazendeiro que apresenta
(va) sobrado. Reafirmava
as observações
feitas anteriormente por
Spix e Martius a respeito
das habitações
da área: "As
casas são baixas,
construídas de ripas,
amarradas com tranças
de cipós e barreadas...
são de feição
muito efêmera, de
sorte que essas habitações
parecem construídas
para pouco tempo apenas,
como refúgio dos
viajantes". Como
sede administrativa de extensa
área, apresentava
índices que revelavam
seu desenvolvimento: 8427
habitantes, dos quais 40%
ou seja, 3394, eram escravos;
e produção
orçada em 620 528
cruzados.
Seus principais produtos
de exportação
foram o café com
46 802 arrobas e o açúcar
com 2 200 arrobas, que renderam
357 017 cruzados.
No dia 18 foi reiniciada
a viagem, com a companhia
do Coronel João Ferreira
de Souza e de seu filho
Francisco Ferreira de Souza.
Entre Areias e Lorena, a
comitiva passou pela Estiva,
Itagaçaba, Melado
e Silveiras, onde Spix e
Martius em 1 817 haviam
encontrado um "pouso
para tropas, um pasto fechado
para mulas e um rancho espaçoso
onde penduramos nossas redes".
Passaram ainda Pelo Rancho
do Sapé, onde até
então observara Saint-Hilaire
em suas viagens: "a
alternativa de cafezais
e matas virgens, roças
de milho, capoeira, vale
e montanhas, esses ranchos,
essas vendas, essas pequenas
habitações
rodeadas das choças
dos negros e as caravanas
que vão e vêm,
dão aos aspectos
da região grande
variedade". Chegaram
depois ao Porto da Cachoeira,
onde a comitiva jantou.
"Constituída
à beira do Paraíba,
sobre o declive de uma colina
no alto da qual fica (va)
a Igreja... compõe-se
de apenas uma dezena de
casas... ali se encontram
algumas lojas e vários
ranchos".
Prosseguindo, trocaram-se
os cavalos no rancho do
Moreira, indo o Príncipe
pernoitar na Vila de Lorena.
Aí, no dia 19, expediu
duas portarias: uma dirigida
à Câmara de
Sorocaba agradecendo o apoio
manifestado pela mesma,
e outra dispensando uma
guarda-de-honra destinada
a acompanhá-lo, sob
o fundamento de não
haver precedido licença
para a sua criação.
"A Vila de Lorena
(fica (va) situada à
margem do Paraíba,
pouco avultada, mas tem
posição risonha.
As ruas que a compõem
são muito menos largas
do que as das cidades e
aldeias da Capitania de
Minas; ficam-lhes as casas
apertadas umas às
outras. Em geral não
caiadas, pequenas, apenas
têm um pavimento,
mas são bem tratadas
e o seu exterior apresenta
um ar de asseio que agrada...
vêem-se várias
lojas bem sortidas... A
igreja paroquial forma um
dos lados da pequena praça
quadrada. Em outra praça
irregular e ainda menor
que a primeira fica a segunda
igreja, dedicada à
Nossa Senhora do Rosário...
Em frente à igreja
do Rosário fica o
Paço Municipal, pequena
construção
de um só andar, mas
muito limpa, cujo rés-do-chão
é, segundo o costume
do Brasil, ocupado pela
cadeia". Contava
em todo o seu termo, distribuídos
em 1.014 fogos, 6.595 habitantes,
dos quais 29°/a, isto
é, 1 953 eram escravos.
Havia produzido 3.505 arrobas
de café, das quais
exportara 3.177, além
de 600 arrobas de açúcar,
40 de fumo e 740 barris
de aguardante.
No dia 19 de agosto, deixando
Lorena, o Príncipe
Regente e sua comitiva chegavam
a Guaratinguetá,
sendo recebidos e hospedados
pelo Capitão-Mor
Manoel José de Mello.
A Vila de Guaratinguetá
ficava situada a algumas
centenas de passos do rio,
numa colina de pequena altura,
dominada por outras... As
casas, pequenas na maioria,
não são caiadas
e só ao rés-do-chão
tem rótulas muito
apertadas que, segundo o
hábito antigo, se
levantam de alto a baixo,
guarnecendo janelas e portas...
A igreja paroquial é
grande e nela se vêem
três altares bem ornamentados,
mas conta apenas uma torre,
não é forrada
e a nave não tem
janelas, sendo, por conseguinte,
escura... Contam-se em Guaratinguetá
duas outras igrejas, a de
S. Gonçalo e a do
Rosário... A Casa
da Câmara, que ainda
não está acabada,
ocupa um dos lados de pequena
praça quadrada situada
na parte mais baixa da cidade...
aqui o rio é pouco
menos largo... canoas descem
de Mogi das Cruzes até
aqui trazendo tábuas,
toucinho e diversas mercadorias".
No dia 20 de agosto, Dom
Pedro seguiu viagem rumo
à Vila de Pindamonhangaba.
De Guaratinguetá
seguiram com o Príncipe
o Capitão-Mor Manoel
José de Mello e os
jovem. José Monteiro
dos Santos e Custódio
Leme Barbosa, os quais integrariam
a Guarda-de-Honra do Príncipe
na Vila de Pindamonhangaba.
Passaram pela capela de
Nossa Senhora d, Conceição
Aparecida "onde
ia gente de "Minas
Gerais" Goiás,
e Bahia cumprir promessas
feitas... A igreja está,
construída no alto
de uma colina à extremidade
de grande praça quadrada
e rodeada de casas. Tem
duas torres que fazem de
campanário, mas seu
interior nada apresenta
de notável".
Na Vila de Pindamonhangaba
pernoitou o Príncipe
no sobrado de Monsenhor
Ignácio Marcondes
de Oliveira Cabral. Organizou-se
a Guarda-de Honra que acompanhou
Dor, Pedro em toda a jornada
e foi testemunha direta
dos episódios que
culminaram com a Independência
na colina do Ipiranga. Integraram-na
o Coronel Manoel Marcondes
de Oliveira Mello, Sargento-Mor
Domingos Marcondes de Andrade,
Tenente Francisco Bueno
Garcia Leme, Miguel e Manuel
de Godoy Moreira, Adriano
Gomes Vieira de Almeida
Manoel Ribeiro do Amaral,
Antonio Marcondes Homem
de Mello e Benedito Correa
Salgado, ao todo, nove pessoas
Nesse ano de 1822, Saint-Hilaire
confirmaria Spix e Martiu.,
que descreveram Pindamonhangaba
como sendo de "pouca,
importância",
não se registrando
a presença da plantação
de café, o que demonstra
ter sido ali de pouca monta.
Constava de "uma
rua... As casas são
(eram) baixas, muito pequenas
mas cobertas de telhas,
bastante limpas e geralmente(
bem conservadas". Existem
três igrejas muito
pequenas".
No dia 21, prosseguindo
a viagem, foi o Príncipe
festiva mente recebido pela
população
da Vila de Taubaté,
hospedando-se na casa do
Cônego Antônio
Moreira da Costa.
A Vila de Taubaté,
segundo Saint-Hilaire, era
"a mais importante
de quantas atravessei, desde
que entrei na Capitania
de São Paulo."
Ficava "situada
em terreno plano e em forma
de um paralelogramo alongado.
Consta de cinco ruas lontitudinais,
todas pouco largas, mas
muito limpas e cortadas
por várias outras.
As casas, próximas
umas das outras são
pequenas, baixas, cobertas
de telhas e só tem
o rés-do-chão.
Apresenta a maioria a fachada
caiada e tem um quinta plantado
de bananeiras e cafeeiros.
A igreja paroquial ostenta
duas torres, é bem
grande e consta de cinco
altares, fora o altar mor.
.. além desta...
existem... três outras
que quando muito merecem
o nome de capela".
Ao se chegar do Rio de Janeiro,
passa-se diante de um convento,
muito grande, pertencente
à Ordem dos Franciscanos".
Observara a presença
do cultivo do café
se espalhando pelas terras
da Vila. "Antigamente,
escrevia, era a cana que
mais se plantava, mas depois
que o café teve alta
consideração,
os cultivadores só
querem tratar dos cafezais".
De Taubaté seguiram
com a comitiva os jovens
Francisco Xavier de Almeida,
Vicente da Costa Braga.
Fernando Gomes Nogueira,
João Lopes, Rodrigo
Gomes Vieira e Bento Vieira
de Moura e mais o jovem
Flavio Antonio de Mello,
da Vila de Paraibuna.
Na Vila de Jacarei foi Dom
Pedro fidalgamente recepcionado.
Ficava esta cidade situada
à "margem
do Paraíba, entre
este rio e uns pântanos",
possuindo "algumas
casas térreas, mas
também um grande
número de prédios
muito pequenos que só
demonstram (vam) miséria.
A igreja paroquial construída
de taipa era bem grande,
havendo ainda outras pequenas.
Ali também o café
já havia penetrado,
"substituindo"
a plantação
de algodão e a criação
de porcos, fazendo-se as
exportações,
"ou diretamente
pela estrada do Rio de Janeiro
ou, muito mais freqüentemente,
via Santos".
No dia 23 de agosto, o Príncipe
e sua comitiva pousaram
em Mogi das Cruzes. Aí
recusou-se a receber a delegação
paulista por representar
o governo deposto.
Finalmente, no dia 24 de
agosto, décimo da
jornada, passou o Príncipe
e sua comitiva na povoação
da Penha, preparando-se
para entrar na Capital da
Província, a fim
de restabelecer a ordem
e a legalidade. No dia 25,
era oficialmente recebido.
Após estada em São
Paulo, D. Pedro dirigiu-se
a Santos, de onde ao voltar,
recebeu os decretos da Corte,
que exigiam sua volta imediata
a Lisboa. Depois da leitura
das cartas, às margens
do Riacho Ipiranga, D. Pedro
proclamou "o Brasil
para sempre separado de
Portugal". Isto
se deu a 7 de setembro de
1822. 0 Vale do Paraíba
lá estava representado
por seus ilustres filhos
na Guarda-de-Honra do Príncipe,
depois, Imperador Perpétuo
do Brasil.