Estudos
III - O Ciclo do Café: Origens e Desenvolvimento
  
   


Franscico Sodero Toledo

O ciclo do café no Vale do Paraíba iniciou-se, como dissemos, na zona das "garupas". Já em 1798, a produção era de 60 arrobas, o que demonstra a existência de cafeeiros, pelo menos, no ano de 1795. A produção, desde então, não cessa de crescer. Em 1802, toda a área produzia café, embora em pequena escala. Em 1814, a produção elevara-se a 3515 arrobas, para atingir 4973 em 1816, e 6725 em 1817. Em 1822, conseguia a enorme soma de 36802 arrobas. A evolu-ção do ciclo se fazia de maneira contínua.

Uma série de possibilidades favoreceram neste acontecimento, antes do restante da região do Vale do Paraíba.

O fator geográfico apresentou aspectos positivos e negativos. Na área das "garupas", encontramos os mares de morros que no início permitiram o sucesso das plantações, pois com a derrubada das matas virgens ficavam o húmus propício aos cafeeiros. Com o passar do tempo, por serem as plantações realizadas em linhas retas, nas chamadas "ruas de café", a erosão atuou decididamente, retirando paulatinamente o húmus e empobrecendo o solo, provocando, em prazo não muito longo, a decadência do ciclo.

O clima quente, amenizado pela presença das Serras do Mar e da Mantiqueira, constituiu fator favorável. Mas, de maneira geral, em comparação com outras regiões paulistas, os aspectos geográficos foram negativos. Enquanto, na região de Campinas, por exemplo, mil pés produziam 55 arrobas em média, aqui, em média, 1000 cafeeiros produziam apenas 24 arrobas.

Do ponto de vista social, encontramos os homens, em sua grande maioria, voltados para as atividades rurais. Muito mais na área de desbravamento, a das "garupas", onde os agricultores procuravam produto que fosse capaz de substituir, ao mesmo tempo, as atividades auríferas e a plantação de cana-de-açúcar. Encontraram o café, que atendeu simultaneamente os agricultores e pequena classe comercial comprometida com o sistema mercantil exportador.

No restante do Vale do Paraíba, os agricultores, especialmente os senhores de engenho, continuavam empregando seus serviços escravos e capital na produção da cana de açúcar e deri-vados, demorando, por esta razão, a aceitar nova atividade.

A mão-de-obra exigida no cultivo do café provinha da Região das Minas Gerais, da Zona Fluminense e da Capitania de São Paulo. No restante do Vale do Paraíba, fez-se posteriormente o aproveitamento da mão-de-obra antes empregada nos engenhos de açúcar.

O capital para acionar a lavoura teve as seguintes origens:
a) Das Gerais, dos antigos mineradores;
b) Da cidade do Rio de Janeiro, dos comerciantes enriquecidos com a chegada da Corte, abertura de bancos, etc;
c) Da baixada fluminense, com o declínio das exportações para as Minas Gerias;
d) Do Planalto Paulista, derivado da acumulação verificada durante os pequenos ciclos do açúcar e do mar.

O problema do transporte atuou inicialmente favorecendo a área das "garupas". Como o transporte terrestre onerava na época cada tonelada do produto em 146 réis, por Km, concluía-se que quanto mais perto do centro consumidor estivesse o produto, mais lucro renderia, ao passo que em determinados locais, muito distantes, o café passaria a dar prejuízo, onerado pelo alto custo do transporte. Por esta razão Bananal e Areias conseguiram obter índices mais altos na pro-dução de café até a metade do século XIX, no Vale do Paraíba Paulista. Além de estarem mais perto do centro consumidor, a cidade do Rio de Janeiro, conseguiram em pouco tempo desenvol-ver um sistema de ligação com o litoral. Construíram a estrada denominada Cesárea, em grande parte calçada, que em onze léguas ligava Areias e Bananal a Mambucaba.

Outras cidades vale-paraibanas, para conseguirem a ligação com o litoral, só o fizeram com percursos muito maiores. Fato que provocou também a expansão mais lenta do ciclo do café. Esta situação se inverteu quando, na década de setenta, se concluía a estrada de ferro D. Pedro II, cujo trajeto não passava pelas cidades da área das "garupas", ocasionando a diminuição da produção e o seu declínio econômico.

Outro fator, talvez o mais importante, determinante da produção, o consumo, conseguiu, de certo modo, auxiliar o desenvolvimento natural do ciclo cafeeiro. Nos seus primórdios, o centro consumidor foi o Rio de Janeiro. Quer para o próprio consumo interno, quer para a exportação para o grande centro consumidor, o mercado urbano europeu, que adquiria os produtos tropicais e matérias primas em troca dos produtos manufaturados que para nós exportavam. A partir de 1817, aumentou o consumo europeu e conseqüentemente houve alta nos preços. A Europa, ao sair do período das guerras napoleônicas, conhecia um aumento demográfico considerável, aumento da industrialização e, conseqüentemente, aumento do processo de urbanização e a exigência de mai-or importação de matérias-primas e produtos agrícolas de continente americano para atender as necessidades do seu mercado em crescimento. O movimento seria ampliado a partir de 1848, quando EE UU passaram a ser o segundo grande consumidor brasileiro.

Em virtude dos fenômenos apresentados, é fácil verificar a formação de uma economia a-grária policultora, que na área das "garupas" evolui da produção de produtos de subsistência para o sistema de exploração: o café. Aí os efeitos da penetração do café foram mais sentidos, com a criação do regime policultor na produção e monocultor na exportação, pelo advento rápido deste ciclo: processo que apresenta diferenciação marcante no restante do Vale da Paraíba, onde os efeitos da penetração do café foram menos sentidos, pois os núcleos haviam adquirido certa esta-bilidade econômica com bases no sistema policultor com predominância do cultivo da cana de açúcar, ocorrendo por esta razão uma lenta ascenção do ciclo do café, em substituição ao do açúcar.

Evolução da produção do café na região das "Garupas"
1798 a 1822

Ano ................................................ Produção
1798 .................................................60 arrobas
1814 ............................................. 3515 arrobas
1816 ............................................. 4973 arrobas
1817 ............................................. 6725 arrobas
1822 ............................................ 46802 arrobas

Não é de se admirar, portanto, que em 1822, a área tivesse alcançado prosperidade eco-nômica. Saint-Hilaire, ao percorrer o Vale do Paraíba, em sua viagem de volta de São Paulo para a cidade do Rio de Janeiro, verificou a difícil situação financeira da região. No entanto, ouvia-se co-mumente dizer: "É para lá de Lorena que se começa a encontrar os homens ricos. Devem todos a fortuna à cultura do café". Razão pela qual escreveu: "começam também os lavradores a entregar-se a ela nas cercanias de Jacareí, Taubaté e Guaratinguetá, mas até agora as pessoas abastadas só se ocuparam da cana de açúcar e os pobres do algodão com o qual fabricavam tecidos grosseiros". E, ao constatar em Areias a enorme produção de toda a área, concluiu "que pelo preço do gênero devem estes fazendeiros ganhar somas enormes". Onde empregavam seu dinheiro? Foi o que perguntou a um patrício seu, residente nas proximidades de Areias", obtendo dele esta resposta: - "O Sr. Ode ver, respondeu (me), que não é construindo boas casas e mobiliando-as. Comem arroz e feijão. Vestuário também lhes custa pouco, nada gastam também com a educação dos filhos que se entorpecem de ignorância, são inteiramente alheios aos prazeres da convivência, mas é o café que lhes traz o dinheiro. Não se pode colher café senão com os negros; é, pois, com negro que gastam todas as rendas e o aumento da fortuna se presta muito mais para satisfazer a vaidade do que para aumentar o conforto... É possível que não se saiba na zona quantos negros possuem e pés de café. Impertigam-se, satisfazem-se às instigações íntimas e vivem contentes, enquanto não difiram realmente senão pela vanglória da fama dos obres que vegetam a pequena distância de suas casas". Era a mentalidade surgida na área, em função do sistema de produção. A vida se resumia em hábitos simples e a economia era forçada para conseguir "superávit", a fim de poder aumentar e manter suas terras e o número de escravos, medida de grandeza dos ho-mens da época.



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