O
ciclo do café no
Vale do Paraíba iniciou-se,
como dissemos, na zona das
"garupas". Já
em 1798, a produção
era de 60 arrobas, o que
demonstra a existência
de cafeeiros, pelo menos,
no ano de 1795. A produção,
desde então, não
cessa de crescer. Em 1802,
toda a área produzia
café, embora em pequena
escala. Em 1814, a produção
elevara-se a 3515 arrobas,
para atingir 4973 em 1816,
e 6725 em 1817. Em 1822,
conseguia a enorme soma
de 36802 arrobas. A evolu-ção
do ciclo se fazia de maneira
contínua.
Uma série de possibilidades
favoreceram neste acontecimento,
antes do restante da região
do Vale do Paraíba.
O fator geográfico
apresentou aspectos positivos
e negativos. Na área
das "garupas",
encontramos os mares de
morros que no início
permitiram o sucesso das
plantações,
pois com a derrubada das
matas virgens ficavam o
húmus propício
aos cafeeiros. Com o passar
do tempo, por serem as plantações
realizadas em linhas retas,
nas chamadas "ruas
de café", a
erosão atuou decididamente,
retirando paulatinamente
o húmus e empobrecendo
o solo, provocando, em prazo
não muito longo,
a decadência do ciclo.
O
clima quente, amenizado
pela presença das
Serras do Mar e da Mantiqueira,
constituiu fator favorável.
Mas, de maneira geral, em
comparação
com outras regiões
paulistas, os aspectos geográficos
foram negativos. Enquanto,
na região de Campinas,
por exemplo, mil pés
produziam 55 arrobas em
média, aqui, em média,
1000 cafeeiros produziam
apenas 24 arrobas.
Do ponto de vista social,
encontramos os homens, em
sua grande maioria, voltados
para as atividades rurais.
Muito mais na área
de desbravamento, a das
"garupas", onde
os agricultores procuravam
produto que fosse capaz
de substituir, ao mesmo
tempo, as atividades auríferas
e a plantação
de cana-de-açúcar.
Encontraram o café,
que atendeu simultaneamente
os agricultores e pequena
classe comercial comprometida
com o sistema mercantil
exportador.
No restante do Vale do Paraíba,
os agricultores, especialmente
os senhores de engenho,
continuavam empregando seus
serviços escravos
e capital na produção
da cana de açúcar
e deri-vados, demorando,
por esta razão, a
aceitar nova atividade.
A mão-de-obra exigida
no cultivo do café
provinha da Região
das Minas Gerais, da Zona
Fluminense e da Capitania
de São Paulo. No
restante do Vale do Paraíba,
fez-se posteriormente o
aproveitamento da mão-de-obra
antes empregada nos engenhos
de açúcar.
O capital para acionar a
lavoura teve as seguintes
origens:
a) Das
Gerais, dos antigos mineradores;
b) Da cidade
do Rio de Janeiro, dos comerciantes
enriquecidos com a chegada
da Corte, abertura de bancos,
etc;
c) Da baixada
fluminense, com o declínio
das exportações
para as Minas Gerias;
d) Do Planalto
Paulista, derivado da acumulação
verificada durante os pequenos
ciclos do açúcar
e do mar.
O problema do transporte
atuou inicialmente favorecendo
a área das "garupas".
Como o transporte terrestre
onerava na época
cada tonelada do produto
em 146 réis, por
Km, concluía-se que
quanto mais perto do centro
consumidor estivesse o produto,
mais lucro renderia, ao
passo que em determinados
locais, muito distantes,
o café passaria a
dar prejuízo, onerado
pelo alto custo do transporte.
Por esta razão Bananal
e Areias conseguiram obter
índices mais altos
na pro-dução
de café até
a metade do século
XIX, no Vale do Paraíba
Paulista. Além de
estarem mais perto do centro
consumidor, a cidade do
Rio de Janeiro, conseguiram
em pouco tempo desenvol-ver
um sistema de ligação
com o litoral. Construíram
a estrada denominada Cesárea,
em grande parte calçada,
que em onze léguas
ligava Areias e Bananal
a Mambucaba.
Outras
cidades vale-paraibanas,
para conseguirem a ligação
com o litoral, só
o fizeram com percursos
muito maiores. Fato que
provocou também a
expansão mais lenta
do ciclo do café.
Esta situação
se inverteu quando, na década
de setenta, se concluía
a estrada de ferro D. Pedro
II, cujo trajeto não
passava pelas cidades da
área das "garupas",
ocasionando a diminuição
da produção
e o seu declínio
econômico.
Outro fator, talvez o mais
importante, determinante
da produção,
o consumo, conseguiu, de
certo modo, auxiliar o desenvolvimento
natural do ciclo cafeeiro.
Nos seus primórdios,
o centro consumidor foi
o Rio de Janeiro. Quer para
o próprio consumo
interno, quer para a exportação
para o grande centro consumidor,
o mercado urbano europeu,
que adquiria os produtos
tropicais e matérias
primas em troca dos produtos
manufaturados que para nós
exportavam. A partir de
1817, aumentou o consumo
europeu e conseqüentemente
houve alta nos preços.
A Europa, ao sair do período
das guerras napoleônicas,
conhecia um aumento demográfico
considerável, aumento
da industrialização
e, conseqüentemente,
aumento do processo de urbanização
e a exigência de mai-or
importação
de matérias-primas
e produtos agrícolas
de continente americano
para atender as necessidades
do seu mercado em crescimento.
O movimento seria ampliado
a partir de 1848, quando
EE UU passaram a ser o segundo
grande consumidor brasileiro.
Em virtude dos fenômenos
apresentados, é fácil
verificar a formação
de uma economia a-grária
policultora, que na área
das "garupas"
evolui da produção
de produtos de subsistência
para o sistema de exploração:
o café. Aí
os efeitos da penetração
do café foram mais
sentidos, com a criação
do regime policultor na
produção e
monocultor na exportação,
pelo advento rápido
deste ciclo: processo que
apresenta diferenciação
marcante no restante do
Vale da Paraíba,
onde os efeitos da penetração
do café foram menos
sentidos, pois os núcleos
haviam adquirido certa esta-bilidade
econômica com bases
no sistema policultor com
predominância do cultivo
da cana de açúcar,
ocorrendo por esta razão
uma lenta ascenção
do ciclo do café,
em substituição
ao do açúcar.