A
primeira região grande
produtora de café,
em território paulista,
localizava-se onde estão
as cidades de Silveiras
e Areias, São José
do Barreiro e Bananal.
Região geologicamente
pouco conhecida, com características
assim descritas pela insigne
prof.ª Nice Lecocq
Muller: "A margem
dos rios, as elevações
terminam em pequenas plataformas
de talude abrupto, cujo
perfil sugeriu a denominação
para o conjunto das "áreas
das garupas". Trata-se
de estreitos terraços
rochosos, muito recortados,
dominando os vales encaixados
e as raras pequenas planícies
alveolares... As cidades
desta área são
caracteristicamente anichadas
entre as colinas cristalinas
ocupando fundo de vale como
S. José do Barreiro
ou planícies terrace-adas
como Silveiras e Areias".
A fase de seu desbravamento,
formação e
organização
se situa entre os anos de
1765 a 1817.
Prende-se o início
da formação
histórica à
cidade de Lorena. Em 1720,
quando foram demarcadas
as divisas da "Freguesia
de Nossa Senhora da Piedade",
atual Lorena, criada em
1718, a região das
"garupas" não
passava de "sertão
incompreensível".
A partir da abertura do
Caminho Novo da freguesia
de Nossa Senhora da Piedade,
iniciado em 1725 e concluído
em 1778, segundo o Prof.
Paulo Pereira dos Reis,
a região sentiu seus
efeitos, prosperando. Desbravava-se,
conquistava-se a nova área,
provocando a imigração
e formação
da hierarquia urbana. Era
a demonstração
da política centralizadora
adotada pelo Coroa Portugue-sa
desde o início do
século XVIII; fazer
evoluir o processo da colonização
do interior e esforçar-se
para controlar a dinâmica
das relações
correspondentes, de dispersão
e centralização.
Procurar, enfim, reunir
a "população
dispersa pelos campos para
submete-la ao seu controle
político-administrativo".
O processo de urbanização
e o desenvolvimento sócio-econômico
da área das "garupas"
ocorreria em três
fases distintas, com feições
próprias.
A primeira fase vai de 1765
a 1788, destacando-se como
um período de desbravamento
e ocupação
da área, presa a
influência direta
da freguesia de Nossa Senhora
da Piedade. Em 1780, quando
do primeira recenseamento
dos "Habitantes do
Caminho Novo", encontramos
300 pessoas distribuídas
em 43 "fogos"
a ocupação
do território ia
se processando através
da presença de "sesmeiros",
aqueles que tinham recebido
sesmarias; dos posseiros",
aqueles que ocupavam as
terras, tomando posse das
mesmas, integrando a classe
dos homens possuidores de
terra, no total de 69 pessoas
naquele ano. Além
deles, encontramos: "jornaleiros",
"camaradas", vivem
"a favor", "agregados",
vivem em terras alheias",
"possuem nada".
Todos, ligados as atividade
agrícolas (produção
de arroz, fumo, feijão,
cana-de-açúcar)
e atividade pastoris. Implantou-se
um sistema agrário,
policultor, de subsistência,
com base na mãe-de-obra
diferenciada, demarcando
as bases da organização
econômica.
Em
fase deste povoamento, "Sant'Ana
das Areias" é
elevada à categoria
de Freguesia em 26-1 de
1784 e novos núcleos
se desenvolveram, criando
os seguintes Patrimônios
Religiosos, ligados a Lorena:
Embaú (1781); Bananal
(1783), e Cachoeira Paulista
em 1784.
A segunda fase tem seu início
no ano de 1788, com a elevação
de Lorena à categoria
de vila, em seis de setembro,
tornando-se sede administrativa
da região, antes
pertencentes a Guaratinguetá;
e se estende até
o ano de 1811. Por esta
razão, ocorre a anexação,
total da área das
"garupas". Surge
o "Rancho dos Silveiras"
por volta do início
do século XIX; São
José do Barreiro
é elevado a Patrimônio
Religioso em 1803, o aldeamento
indígena de São
João Batista de Queluz"
foi criado em 1800, elevado
a Freguesia em 1803, ligado
à freguesia de Areias.
As atividades econômicas
se desenvolveram ocasionando
os seguintes grupos humanos:
A - ligados
ao processo de urbanização
e a setores terciários
da economia, representados
pelo clero secular, corpo
militar, magistratura e
empregos civis, negociantes,
tropeiros, artistas, oficiais
de ofício, jornaleiros,
além de vadios e
mendigos em grande número;
B - classe
ligada à terra, ocupando-se
da atividade do setor primário
da economia: agricultura,
com jornaleiros e escravos.
Entretanto, dois fatos de
grande repercussão
aconteciam:
1.º)
o aparecimento da produção
do café. Em 1798,
já se colhiam 60
arrobas, as quais foram
exportadas para o Rio de
Janeiro.
Significava que, pelo menos,
a plantação
se teria iniciado em 1795,
dando origem a este importante
ciclo econômico de
que falaremos mais adiante.
2.º)
a fixação
da Família Real na
cidade do Rio de Janeiro,
1808, aumentou o mercado
consumidor para os produtos
obtidos nas colheitas.
Os incentivos governamentais
e atrações
oriundas do desenvolvimento
da área das "garupas"
provocaram grande afluxo
imigratório. Entre
os 22 anos desta segunda
fase, observamos um aumento
na população
da ordem de 229,8 habitantes
em média por ano.
A pluralidade de procedência
dos estoques humanos era
realmente notável.
Traziam consigo costumes
e influências diversas,
influenciando na organização
social. Segundo os maços
de população
do ano de 1802, era a seguinte
a contribuição
dos grupos humanos que para
a área emigraram:
a) Os indígenas
constituíram a população
autóctone. Perfaziam
0,52% do total geral de
habitantes. Descendiam principalmente
das tribos Puris e Guaianazes.
Com a invasão do
homem, sofreram processo
de acomodação;
e do cruzamento entre ambos,
resultou o tipo "caboclo",
característico desta
área.
b) Os brancos
vieram de diversas regiões
do país e do estrangeiro.
c) Os paulistas
constituíam 61,8%
da população
total. Procediam, em maior
número, das localidades
mais próximas, como
Lorena, Guaratinguetá,
Taubaté, Pinda e
Cunha. E, em me-nor número,
das localidades mais distantes,
como São Paulo, Mogi,
Itu, Sorocaba, etc. Estoque
heterogêneo, formado,
em sua maior parte, de 50%
de agricultores médios,
aqueles que "possuem
um pedaço de terra
onde colhe"...
Uma classe de pessoas possuidoras
de bens matérias,
escravos e agregados, ocupantes
de altos cargos civis e
religiosos, constituindo
aproximadamente 15%;
Outra classe, a de artesãos,
artífices, "negociantes",
artistas, jornaleiros, ferreiros,
cobrado-res de passagem,
fazedores de panelas, de
telhas, de louças,
condutores de tropa, arte
de cirurgia, 25% do estoque
paulista; por fim, a classe
dos mendigos, representados
pelos que viviam de esmolas,
de vadios, numa porcentagem
de 10% da população
oriunda de território
paulista.
Localizaram-se, em maior
número, entre as
cidades de Silveiras e Lorena.
Trouxeram características
próprias, influenciadoras
no aspecto geral da população:
o ar de nobreza, a busca
do trabalho agrícola
e a aceitação
da pequena propriedade.
Os mineiros vieram em busca
de novas riquezas, aproveitando
o intercâmbio comercial
e populacional existente
através da utilização
do Caminho Novo da Piedade.
Constituíam, em 1802,
6 do total de habitantes.
Procederam, por ordem numérica
decrescente, de Pouso Alegre
(103), Juruoca (42), Baependi
(40), Vila da Princesa (23)
etc. eram constituídos,
em maioria, 70%, por um
contingente de grandes e
médios agricultores.
Tropeiros, de fixação
incerta, atingiam uma porcen-tagem
de 20%. A terceira classe
de mineiros compunha-se
de vadios e mendigos, no
total de 10%. Os mineiros,
cansados com a decadência
da mineração,
traziam consigo a mentalidade
da busca de novas atividades
econômicas estavam
voltados para a busca das
"verdadeiras riquezas
da agricultura".
Espalharam-se por toda a
área, especialmente
por entre Areias e bananal.
Outro contingente de homens
brancos de significativa
influência neste movimento
imigratório, os fluminenses.
A proximidade dos territórios
vale-paraibanos paulistas
e fluminenses, a comunicação
pelo Caminho Novo, favoreceram
a emigração
para o Vale-paraiba Paulista
totalizavam 4% da população,
em 1802. Vieram de Resende
(74), Vila de São
João Marcos (64),
cidade do Rio de Janeiro
(46), Parati (23), Ilha
Grande (23), etc. De agricultores
grandes e médios,
75%; 25% eram de comerciantes,
artífices, profissionais
liberais. Localizaram-se,
de preferência, entre
as cidades de Bananal e
Areias, sendo os responsáveis
diretos pelas primeiras
plantações
de café. Seria, aliás,
esta influência marcante,
observada pelo viajante
ª Emílio Zaluar,
em 1866, quando escreveu:
"quem visite as
povoações
de São Paulo, desde
Bananal até Silveiras,
não encontra em seus
usos e costumes diferença
alguma da Província
do Rio de Janeiro, na qual
estão encravadas
estas treze léguas
de território. Os
hábitos de vida,
as relações
e a natureza do comércio,
o gênero da cultura,
são os mesmos; é
só de Silveiras em
diante que se começam
a observar algumas ligeiras
modificações,
tanto nos usos do povo,
como na variedade e no cultivo".
Dos estrangeiros, destacavam-se,
com significativo contingente,
os portugueses. Em 1802,
correspondiam a 0,4% da
população
total. Vieram principalmente
de Braga (10), Lisboa (6),
Porto (9), Guimarães
(2), etc., alastrando-se
por toda a área.
Deles ocupando altos cargos
administrati-vos, 30%; médios
agricultores, 30%; e comerciantes,
10%.
Fez-se numerosa a vinda
de elementos de cor. Encontramos,
no entanto pretos que haviam
conseguido sua libertação
no total de 0,9% da população
total de 0,9% da população
total, exercendo diversas
profissões como:
"agricultores próprios",
"em terras alheios",
"ferreiros", "fiado-res
de algodão",
"jornaleiros",
etc. Fato Marcante na formação
social, criando um espírito
mais liberal no relacionamento
com a raça negra,
o que se verifica até
nossos dias. Os pretos escravos,
a classe servil, executora
dos trabalhos, no sistema
de produção
agrária, constituíam
25,8% da população.
Vieram da Bengala, costa,
Angola, Congo, Guiné,
etc. Juntamente com os mineiros
e fluminenses, localizaram-se,
em maior número,
entre as cidades de Areias
e Bananal.
Estes contingentes se caldearam
e se desenvolveram, dando
origem à formação
social, com aspectos bem
definidos.
A terceira fase do processo
de formação
da área das "garupas"
estende-se de 1811 a 1817.
Nela verificamos aumento
populacional sensível,
em média, 533,8 h/a,
e a crescente taxa de produção
e exportação
de produtos agrícolas
para o Rio de Janeiro. Como
conseqüência,
desenvolve-se o processo
de hierarquização.
Bananal é elevado
a freguesia em 26 de janeiro
de 1811, com o nome de S.
Bom Jesus do Livramento
de Bananal. Areias eleva-se
a Vila em 28 de novem-bro
de 1816, com o nome São
Miguel das Areias, tornando-se
sede da região dos
atuais municí-pios
de Areias, São José
do Barreiro e Queluz. Excluía-se
apenas parte do Município
de Silveiras, que permaneceria
ligada administrativamente
a Lorena, até 1842.
Já em 1817, a área
de influência de Areias
apresentava índices
populacionais e econômicos
superiores aos de Lorena.
A população
era de 6562 habitantes,
sendo 3578 brancos, 1683
pretos e 1301 mulatos, enquanto
que a área de Lorena
apresentava 6250 habitantes,
sendo 3673 brancos, 1422
negros e 115 mulatos. No
setor econômico o
fato se repete. Areias produziu
(em cruzados) 122.577, exportou
30204 e importou 9486, obtendo
"superávit",
em seu movimento mercantil,
de ordem de 20.718 cruzados.
Enquanto que a Vila de Lorena,
em cruzados, produziu 60170,
exportou 6172 e importou
10579, movimento que apresenta
"déficit"
da ordem de 4397 cruzados.
A supremacia populacional
e econômica da área
de Areias é justificada
pelo aumento da produção
do café, que neste
ano ascendera a 6725 arrobas,
das quais se tinham exportado
4844.
Formara-se a área,
com características
sócio-econômicas
bem delineadas em seu conjunto,
tendo o cultivo do café
acompanhado, e, depois,
determinado sua evolução
histórica.