Estudos
II - A Região das "Garupas": Formação Histórica
  
   


Franscico Sodero Toledo

A primeira região grande produtora de café, em território paulista, localizava-se onde estão as cidades de Silveiras e Areias, São José do Barreiro e Bananal.

Região geologicamente pouco conhecida, com características assim descritas pela insigne prof.ª Nice Lecocq Muller: "A margem dos rios, as elevações terminam em pequenas plataformas de talude abrupto, cujo perfil sugeriu a denominação para o conjunto das "áreas das garupas". Trata-se de estreitos terraços rochosos, muito recortados, dominando os vales encaixados e as raras pequenas planícies alveolares... As cidades desta área são caracteristicamente anichadas entre as colinas cristalinas ocupando fundo de vale como S. José do Barreiro ou planícies terrace-adas como Silveiras e Areias".

A fase de seu desbravamento, formação e organização se situa entre os anos de 1765 a 1817.

Prende-se o início da formação histórica à cidade de Lorena. Em 1720, quando foram demarcadas as divisas da "Freguesia de Nossa Senhora da Piedade", atual Lorena, criada em 1718, a região das "garupas" não passava de "sertão incompreensível".

A partir da abertura do Caminho Novo da freguesia de Nossa Senhora da Piedade, iniciado em 1725 e concluído em 1778, segundo o Prof. Paulo Pereira dos Reis, a região sentiu seus efeitos, prosperando. Desbravava-se, conquistava-se a nova área, provocando a imigração e formação da hierarquia urbana. Era a demonstração da política centralizadora adotada pelo Coroa Portugue-sa desde o início do século XVIII; fazer evoluir o processo da colonização do interior e esforçar-se para controlar a dinâmica das relações correspondentes, de dispersão e centralização. Procurar, enfim, reunir a "população dispersa pelos campos para submete-la ao seu controle político-administrativo". O processo de urbanização e o desenvolvimento sócio-econômico da área das "garupas" ocorreria em três fases distintas, com feições próprias.

A primeira fase vai de 1765 a 1788, destacando-se como um período de desbravamento e ocupação da área, presa a influência direta da freguesia de Nossa Senhora da Piedade. Em 1780, quando do primeira recenseamento dos "Habitantes do Caminho Novo", encontramos 300 pessoas distribuídas em 43 "fogos" a ocupação do território ia se processando através da presença de "sesmeiros", aqueles que tinham recebido sesmarias; dos posseiros", aqueles que ocupavam as terras, tomando posse das mesmas, integrando a classe dos homens possuidores de terra, no total de 69 pessoas naquele ano. Além deles, encontramos: "jornaleiros", "camaradas", vivem "a favor", "agregados", vivem em terras alheias", "possuem nada".

Todos, ligados as atividade agrícolas (produção de arroz, fumo, feijão, cana-de-açúcar) e atividade pastoris. Implantou-se um sistema agrário, policultor, de subsistência, com base na mãe-de-obra diferenciada, demarcando as bases da organização econômica.

Em fase deste povoamento, "Sant'Ana das Areias" é elevada à categoria de Freguesia em 26-1 de 1784 e novos núcleos se desenvolveram, criando os seguintes Patrimônios Religiosos, ligados a Lorena: Embaú (1781); Bananal (1783), e Cachoeira Paulista em 1784.

A segunda fase tem seu início no ano de 1788, com a elevação de Lorena à categoria de vila, em seis de setembro, tornando-se sede administrativa da região, antes pertencentes a Guaratinguetá; e se estende até o ano de 1811. Por esta razão, ocorre a anexação, total da área das "garupas". Surge o "Rancho dos Silveiras" por volta do início do século XIX; São José do Barreiro é elevado a Patrimônio Religioso em 1803, o aldeamento indígena de São João Batista de Queluz" foi criado em 1800, elevado a Freguesia em 1803, ligado à freguesia de Areias.

As atividades econômicas se desenvolveram ocasionando os seguintes grupos humanos:

A - ligados ao processo de urbanização e a setores terciários da economia, representados pelo clero secular, corpo militar, magistratura e empregos civis, negociantes, tropeiros, artistas, oficiais de ofício, jornaleiros, além de vadios e mendigos em grande número;
B - classe ligada à terra, ocupando-se da atividade do setor primário da economia: agricultura, com jornaleiros e escravos.

Entretanto, dois fatos de grande repercussão aconteciam:
1.º) o aparecimento da produção do café. Em 1798, já se colhiam 60 arrobas, as quais foram exportadas para o Rio de Janeiro.
Significava que, pelo menos, a plantação se teria iniciado em 1795, dando origem a este importante ciclo econômico de que falaremos mais adiante.
2.º) a fixação da Família Real na cidade do Rio de Janeiro, 1808, aumentou o mercado consumidor para os produtos obtidos nas colheitas.

Os incentivos governamentais e atrações oriundas do desenvolvimento da área das "garupas" provocaram grande afluxo imigratório. Entre os 22 anos desta segunda fase, observamos um aumento na população da ordem de 229,8 habitantes em média por ano. A pluralidade de procedência dos estoques humanos era realmente notável. Traziam consigo costumes e influências diversas, influenciando na organização social. Segundo os maços de população do ano de 1802, era a seguinte a contribuição dos grupos humanos que para a área emigraram:
a) Os indígenas constituíram a população autóctone. Perfaziam 0,52% do total geral de habitantes. Descendiam principalmente das tribos Puris e Guaianazes. Com a invasão do homem, sofreram processo de acomodação; e do cruzamento entre ambos, resultou o tipo "caboclo", característico desta área.
b) Os brancos vieram de diversas regiões do país e do estrangeiro.
c) Os paulistas constituíam 61,8% da população total. Procediam, em maior número, das localidades mais próximas, como Lorena, Guaratinguetá, Taubaté, Pinda e Cunha. E, em me-nor número, das localidades mais distantes, como São Paulo, Mogi, Itu, Sorocaba, etc. Estoque heterogêneo, formado, em sua maior parte, de 50% de agricultores médios, aqueles que "possuem um pedaço de terra onde colhe"...

Uma classe de pessoas possuidoras de bens matérias, escravos e agregados, ocupantes de altos cargos civis e religiosos, constituindo aproximadamente 15%;

Outra classe, a de artesãos, artífices, "negociantes", artistas, jornaleiros, ferreiros, cobrado-res de passagem, fazedores de panelas, de telhas, de louças, condutores de tropa, arte de cirurgia, 25% do estoque paulista; por fim, a classe dos mendigos, representados pelos que viviam de esmolas, de vadios, numa porcentagem de 10% da população oriunda de território paulista.
Localizaram-se, em maior número, entre as cidades de Silveiras e Lorena.

Trouxeram características próprias, influenciadoras no aspecto geral da população: o ar de nobreza, a busca do trabalho agrícola e a aceitação da pequena propriedade.

Os mineiros vieram em busca de novas riquezas, aproveitando o intercâmbio comercial e populacional existente através da utilização do Caminho Novo da Piedade. Constituíam, em 1802, 6 do total de habitantes. Procederam, por ordem numérica decrescente, de Pouso Alegre (103), Juruoca (42), Baependi (40), Vila da Princesa (23) etc. eram constituídos, em maioria, 70%, por um contingente de grandes e médios agricultores. Tropeiros, de fixação incerta, atingiam uma porcen-tagem de 20%. A terceira classe de mineiros compunha-se de vadios e mendigos, no total de 10%. Os mineiros, cansados com a decadência da mineração, traziam consigo a mentalidade da busca de novas atividades econômicas estavam voltados para a busca das "verdadeiras riquezas da agricultura". Espalharam-se por toda a área, especialmente por entre Areias e bananal.

Outro contingente de homens brancos de significativa influência neste movimento imigratório, os fluminenses. A proximidade dos territórios vale-paraibanos paulistas e fluminenses, a comunicação pelo Caminho Novo, favoreceram a emigração para o Vale-paraiba Paulista totalizavam 4% da população, em 1802. Vieram de Resende (74), Vila de São João Marcos (64), cidade do Rio de Janeiro (46), Parati (23), Ilha Grande (23), etc. De agricultores grandes e médios, 75%; 25% eram de comerciantes, artífices, profissionais liberais. Localizaram-se, de preferência, entre as cidades de Bananal e Areias, sendo os responsáveis diretos pelas primeiras plantações de café. Seria, aliás, esta influência marcante, observada pelo viajante ª Emílio Zaluar, em 1866, quando escreveu: "quem visite as povoações de São Paulo, desde Bananal até Silveiras, não encontra em seus usos e costumes diferença alguma da Província do Rio de Janeiro, na qual estão encravadas estas treze léguas de território. Os hábitos de vida, as relações e a natureza do comércio, o gênero da cultura, são os mesmos; é só de Silveiras em diante que se começam a observar algumas ligeiras modificações, tanto nos usos do povo, como na variedade e no cultivo".

Dos estrangeiros, destacavam-se, com significativo contingente, os portugueses. Em 1802, correspondiam a 0,4% da população total. Vieram principalmente de Braga (10), Lisboa (6), Porto (9), Guimarães (2), etc., alastrando-se por toda a área. Deles ocupando altos cargos administrati-vos, 30%; médios agricultores, 30%; e comerciantes, 10%.

Fez-se numerosa a vinda de elementos de cor. Encontramos, no entanto pretos que haviam conseguido sua libertação no total de 0,9% da população total de 0,9% da população total, exercendo diversas profissões como: "agricultores próprios", "em terras alheios", "ferreiros", "fiado-res de algodão", "jornaleiros", etc. Fato Marcante na formação social, criando um espírito mais liberal no relacionamento com a raça negra, o que se verifica até nossos dias. Os pretos escravos, a classe servil, executora dos trabalhos, no sistema de produção agrária, constituíam 25,8% da população. Vieram da Bengala, costa, Angola, Congo, Guiné, etc. Juntamente com os mineiros e fluminenses, localizaram-se, em maior número, entre as cidades de Areias e Bananal.

Estes contingentes se caldearam e se desenvolveram, dando origem à formação social, com aspectos bem definidos.

A terceira fase do processo de formação da área das "garupas" estende-se de 1811 a 1817. Nela verificamos aumento populacional sensível, em média, 533,8 h/a, e a crescente taxa de produção e exportação de produtos agrícolas para o Rio de Janeiro. Como conseqüência, desenvolve-se o processo de hierarquização. Bananal é elevado a freguesia em 26 de janeiro de 1811, com o nome de S. Bom Jesus do Livramento de Bananal. Areias eleva-se a Vila em 28 de novem-bro de 1816, com o nome São Miguel das Areias, tornando-se sede da região dos atuais municí-pios de Areias, São José do Barreiro e Queluz. Excluía-se apenas parte do Município de Silveiras, que permaneceria ligada administrativamente a Lorena, até 1842. Já em 1817, a área de influência de Areias apresentava índices populacionais e econômicos superiores aos de Lorena.

A população era de 6562 habitantes, sendo 3578 brancos, 1683 pretos e 1301 mulatos, enquanto que a área de Lorena apresentava 6250 habitantes, sendo 3673 brancos, 1422 negros e 115 mulatos. No setor econômico o fato se repete. Areias produziu (em cruzados) 122.577, exportou 30204 e importou 9486, obtendo "superávit", em seu movimento mercantil, de ordem de 20.718 cruzados. Enquanto que a Vila de Lorena, em cruzados, produziu 60170, exportou 6172 e importou 10579, movimento que apresenta "déficit" da ordem de 4397 cruzados.

A supremacia populacional e econômica da área de Areias é justificada pelo aumento da produção do café, que neste ano ascendera a 6725 arrobas, das quais se tinham exportado 4844.

Formara-se a área, com características sócio-econômicas bem delineadas em seu conjunto, tendo o cultivo do café acompanhado, e, depois, determinado sua evolução histórica.



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