Estudos
CAMINHO DO OURO E CAPELAS COLONIAIS
  
   


Francisco Sodero Toledo

Os Caminhos e a região do Vale do Paraíba Paulista

O Vale e as Minas

Os efeitos da utilização do Caminho do Ouro como rota de comunicação entre o litoral e o interior da colônia e sua importância no contexto regional logo se fizeram sentir. A cidade de Paraty e o Vale do Paraíba foram favorecidos pela descoberta e corrida ao ouro. Os núcleos urbanos ganharam importância política-administrava e comercial. Foi o tempo de "euforia" que se estendeu desde o final do século XVII com as descobertas do ouro, até 1711, quando ocorreu a abertura definitiva do Caminho Novo de Garcia Paes.
De início, a Vila de Taubaté foi a mais beneficiada devido à sua posição geográfica privilegiada, pela importância política-administrativa no contexto histórico regional, por ter se constituído em centro de irradiação de povoamento e de expansão das bandeiras paulistas. As bandeiras provenientes do litoral ou da Vila de São Paulo, ao se dirigirem para o interior, tinham nesta Vila paragem quase que obrigatória, tornando-a centro de bandeirantismo. Em reconhecimento à gente taubateana, a Coroa Portuguesa instalou n Vila de Taubaté a Casa dos Quintos em 1695 e a Casa de Fundição, em 1697.
Em 1704 com a transferência da Casa dos Quintos, a Vila de Taubaté perdeu para a Vila de Paraty a posição de destaque no controle e fiscalização das riquezas auríferas
Neste período, quando o ouro escoava por Paraty, "que se tornou o porto mais rico, o mais importante, conhecido mesmo como o porto do ouro." (Fernandes, 2004, 85) A Vila de Paraty, importante até então pela sua posição geográfica, pelo seu porto e por estar situada no início da Estrada Real, ampliou suas funções comerciais, tanto na ligação com as localidades do Vale do Paraíba, como as novos centros urbanos que vão se originando ao longo do caminho, em território mineiro. Mais do que isto, passou a ter um papel significativo no contexto da História regional, do Brasil e do Império português. Ela se transformou, segundo A. Barros, no "pioneiro inconteste no processo de mundialização", assumindo papel de destaque no novo modelo internacional originado no século XV com o processo de expansão marítima e comercial européia. Passou a realizar a integração da economia do centro-sul brasileiro, cortado pela Estrada Real, com os cinco continentes da terra, via monopólio do comércio colonial exercido pela metrópole portuguesa.

Vale do Paraíba: região de passagem

Com o desenvolvimento da importância da área mineradora nas primeiras décadas do século XVIII o Vale do Paraíba acabou transformando-se em área subsidiária da região aurífera, com o meio rural produzindo para seu abastecimento, e os núcleos urbanos oferecendo mão-de-obra e serviços, atendendo os que para lá se dirigiam e servindo de elo de ligação com os fornecedores extra-regionais, como no relacionamento com o Sul e Nordeste do país.
As Estradas Reais que realizavam a ligação com as Minas Gerais passaram a ser utilizadas por número cada vez maior de pessoas. Como afirmou a historiadora Mafalda Zamella, "...apesar de penosos, apesar de longos, eram caminhos cheios de vida, cheios de movimento, percorridos incessantemente por levas de forasteiros que iam instalar-se nas minas, bem como por barulhentas tropas de mercadores que levar às Minas Gerais tudo aquilo que suas populações reclamavam". (Zemella, 1990, 56)
Ao longo do Caminho do Ouro foram-se desenvolvendo plantações, produzindo-se produtos de subsistência para abastecer os viajantes e suas tropas, como também para enviar para os centros populacionais mineiros, onde os preços dos produtos compensavam em muito os mercadores.
A região valeparaibana transformou-se, desde então, em via de passagem entre o interior de Minas Gerais e o litoral e na maior área abastecedora das Minas Gerais. Por ela saiam ou passavam os mais variados produtos: muares vindo do Sul, cereais, vacas, vara de porcos, tecidos, marmelada, carnes defumadas, algodão e lã. Como afirma Nice L. Müller: "Tudo aí se prende à circulação para as áreas mineradoras, primeiro, como via de penetração, depois, como passagem obrigatória de ligação: a vida econômica refletia, diretamente, as condições criadas pelas relações com as Minas".

Caminhos: povoados e vilas

A região do Vale do Paraíba, apesar de perder, gradativamente, o papel de área abastecedora das Minas, pela abertura do Caminho Novo de Garcia Paes, pelo crescente desenvolvimento das atividades rurais e urbanas da própria área de mineração e pela concorrência do Rio de Janeiro e da área fluminense, os centros urbanos apresentaram desenvolvimento, mesmo que modesto, definindo uma malha urbana que se mantém até os tempos atuais.
As Vilas de Taubaté e de Guaratinguetá mantêm a sua influência sobre a região valeparaibana. Em 1751, em sua viagem da cidade de São Paulo para o porto de Paraty, D. Antônio Rolim de Moura, o Conde de Azambuja, escreveu que Taubaté era "a melhor que vi no caminho, bem assentada, com boas ruas, largas e compridas, alegres e seus moradores mais civilizados... A Vila de Guaratinguetá em que fiquei naquele dia,...é já mais rica que as outras." (In Pasin, 2004,116-117) Os demais núcleos urbanos foram se desenvolvendo, ampliando-se a malha urbana com o aparecimento de novos povoados. Pindamonhangaba, influenciada pelo crescimento regional conquista sua emancipação em 1705.
Logo após a Vila de Guaratinguetá, no local em que se realizava a travessia do Rio Paraíba, conhecido como Porto de Guaypacaré, por doação dos moradores locais, foi criado o Patrimônio religioso em 1705, tendo sido construída capela dedicada a N. S. da Piedade. O crescimento do local foi relativamente rápido, o que a levou a se tornar freguesia em 1718. Em 1788 a Freguesia de N. S. da Piedade alcançava autonomia, sendo elevada à Vila, com o nome Lorena, por ordem do governador da Capitania Bernardo José de Lorena, que impôs seu sobrenome à vila nascente.
Após Lorena, nasceu no limite da navegabilidade do rio Paraíba o povoado da Bocaina. Em 1780 alguns devotos de S. Bom Jesús erigiram capela que em 1784 foi dotado de Patrimônio Religioso sendo benta em 6 de agosto de 1786, com o nome de São Bom Jesús da Cana Verde.
Mais adiante do caminho, antes de se atravessar a Mantiqueira, teve origem outro núcleo no ano de 1781, com a construção da capela de N. S. da Conceição do Embaú. Nascia o Patrimônio Religioso do Embaú.
Na Serra da Bocaina, por onde passava a Estrada Real, Cunha ganhou posição especial. Ao longo do caminho existiam três pequenos povoados: Campo Alegre, Facão e Boa Vista. Quando as autoridades eclesiásticas resolveram criar paróquia na zona, o povoado do Facão foi o preferido. Entre 1736 e 1749 foi criada a freguesia de N. S. da Conceição do Facão, que, em 1785, passaria à Vila, com a denominação de N. S. da Conceição de Cunha.
O único núcleo originado no período que não se prendia, diretamente, às vias de circulação é o de Aparecida. Surgiu às margens do rio Paraíba, em torno da devoção da imagem de N. S. Aparecida, logo considerada milagrosa, que atraia devotos e foi colocada em capela própria no ano de 1745. Em torno da capela foi se desenvolvendo o povoado que hoje é a cidade de Aparecida.
Ao final do século XVIII, conforme tabela abaixo, na região por onde passava a Estrada Real, O Caminho do Ouro, existia uma capela religiosa, dois bairros rurais, três patrimônios religiosos e seis vilas, a metade seiscentista e as demais setecentistas
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a 1690
1690 - 1780
Capela   Aparecida (1745)
  Campo Alegre
Facão
Boa Vista
Campo Alegre
Boa Vista
Bairro Rural Tremembé
2 - Pindamonhangaba
Tremembé
Embaú (1781)
Cachoeira Paulista (1784)
Freguesia    
Vilas Taubaté
Guaratinguetá
Paraty
Taubaté - 1645
Guaratinguetá - 1651
Paraty - 1667
Pindamonhangaba - 1705
Cunha - 1785
Lorena - 1788

 

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