| Francisco
Sodero Toledo
A
paisagem valeparaibana é
caracterizada pela presença
do rio Paraíba do Sul
ladeado pelas serras que o circundam,
do Mar e da Mantiqueira, resultando
na formação do vale,
conhecido por Vale do Rio Paraíba
do Sul. (Sodero Toledo, 2001, 80-83)
O rio funcionou como um corredor,
facilitando a penetração
e fixação do homem.
Na suas próximidades foram
surgindo e evoluindo os principais
núcleos populacionais. Da
sua navegação nasceram
portos e surgiu um tipo humano característico,
morador de suas margens, vivendo
da pesca, o piraquara. As serras
emolduram a paisagem regional e
tornaram-se obstáculos a
serem transpostos pelos viajantes
que aqui passavam em direção
ao litoral e de para outras partes
do interior do país.
Nos primeiros séculos de
colonização foram
acrescentados à paisagem
natural duas novas e importantes
características: os caminhos
e as capelas. Símbolos marcantes
da presença e da conquista
portuguesa na região. Por
intermédio deles pode se
reviver a História do Vale
do Paraíba.
1
- OS CAMINHOS
Os caminhos preencheram a necessidade
histórica e serviram como
meio de locomoção
e comunicação entre
os diferentes pontos da região
e desta com os outras regiões
do interior e com o litoral. Permitiram
a penetração do homem
branco, o povoamento e a colonização
do território e a busca das
riquezas materiais. Foram instrumentos
da conquista portuguesa. Emprestaram
à região uma marca
histórica, a de se constituir
um "lugar de passagem".
Entre os caminhos utilizados destacaram
durante o período colonial
o Caminho Velho dos Paulistas ou
Estrada Geral que ligavam o Vale
do Paraíba `a Vila de São
Paulo e a Estrada Real: o Caminho
do Ouro.
Estrada
Real : o Caminho do Ouro
Com a descoberta do ouro em fins
do século XVII ocorreu o
aumento da produção
de metais preciosos e o desenvolvimento
da área de mineração.
Foi preciso transportar os metais
preciosos do interior do país
até o porto de embarque,
controlar o transporte e o trânsito
de pessoas e animais, fiscalizar
a circulação de metais,
garantir a cobrança dos impostos
por parte da Coroa. Para tanto foi
criada a Estrada Real.
A partir de então a velha
trilha dos Guaianás, até
então chamada de Caminho
da Serra, no trecho Paraty-Cunha,
ou Caminho Velho, passou a ser conhecida
como Caminho do Ouro, Trilha do
Ouro e, por fim, Estrada Real. A
estrada oficial, única via
por onde a Coroa portuguesa autorizava
o transporte das riquezas extraídas.
Todo o transporte de ouro e de metais
preciosos das "minas gerais"
passou a ser feito por este caminho
até Paraty, e, por via marítima,
daquele porto fluminense à
cidade do Rio de Janeiro, de onde
seguia para o exterior. Na região
do Vale do Paraíba, as Vilas
de Taubaté e Guaratinguetá
situadas em entrocamento de caminhos,
passam a compor este roteiro, inseridas
no contexto do movimento da economia
mineira. O Caminho do Ouro saia,
inicialmente, de Vila Rica, atravessa
a região das minas, passando
por Cachoeira, Congonhas do Campo,
São João Del-Rei,
Baependi, Pouso Alto, Rio Verde
até atingir a garganta do
Embaú. Ali começava
o penoso e áspero trecho
da descida da Serra da Mantiqueira,
passando vinte vezes pelo mesmo
rio que recebeu nome de Passa Vinte.
Chegava ao povoado do Embaú
de onde dirigia-se para o Porto
de Guaypacaré, atual cidade
de Lorena. Margeando o Rio Paraíba
chegava-se a cidade de Guaratinguetá.
De lá prosseguia até
Taubaté para chegar a "Casa
de Fundição"
e "Casa dos Quintos".
Seguia-se adiante subindo pela Serra
do Mar em direção
a Cunha. Do alto da serra atingia-se
Paraty de onde o ouro era então
enviado para a cidade do Rio de
Janeiro. Havia ainda a possibilidade
de chegar-se a Cunha seguindo a
vereda antiga que ligava Guaratinguetá
diretamente a Cunha, passando pela
Serra da Quebra Cangalha.

Estrada
Real : Caminho do Ouro - trecho
paulista do Facão, atual
município de Cunha
à Garganta do Embaú.
Durante
o século XVIII sua história
esteve sempre ligada à circulação
e ao controle das riquezas minerais
provenientes das Minas Gerais. No
início, entre os anos de
1695 a 1703, todo o ouro era manipulado
na Vila de Taubaté, para
depois ser encaminhado ao Reino,
via Paraty. A partir de 1704 até
o ano de 1710 o ouro passou a ser
cunhado diretamente naquele porto
fluminense.
Caminho do Ouro no contexto regional
O
Caminho do Ouro foi constituído
Estrada Real em 1702. Tornou-se
o caminho oficial, propriedade da
coroa metropolitana. Atendia assim
o interesse real, base da política
metropolitana para as regiões
mineradoras da colônia, o
de ter as rotas de comunicação
rigorosamente controladas e fiscalizadas
para garantir a cobrança
de impostos e evitar os descaminhos
das riquezas auríferas. Ele
serviu como meio de ligação
do interior com o litoral e acabou
por dar sentido e rítimo
a organização desta
extensa região. Primeiro
como via de penetração,
depois como passagem obrigatória
para diversos pontos do território
brasileiro. Ao vencer as asperezas
dos caminhos os bandeirantes, aventureiros
e pessoas das mais diversas origens
e procedências fizeram com
que aumentasse a importância
da região valeparaibana no
contexto colonial brasileiro. Tudo
se prendia a circulação
de riquezas, mercadorias, pessoas
para as áreas mineradoras.
Durante o século XVIII as
condições sociais
de existência refletia diretamente
as condições criadas
pelas relações entre
o litoral e as minas.
Ao longo dele foram instalados os
antigos registros, construíram-se
rancho de tropas, vendas, oficinas;
ergueram-se capelas; fundaram-se
povoados e vilas, estimulados pela
presença dos viajantes e
das riquezas que eram transportadas
pelos animais e escravos.
A Estrada Real: Caminho do Ouro,
este monumento de outrora, tornou-se
um dos troncos viário principal
do centro-sul do Brasil. A sua utilização
favoreceu a apropriação
do interior brasileiro e a sua integração
com a faixa litorânea. Além
de estimular o comércio e
a economia regional, tornou-se,
com os anos, o eixo histórico
cultural da nossa História
e a força centrípeta
que foi capaz de alicerçar
os sentimentos de nacionalidade.
"A percepção
de tal metamorfose, ou melhor, essa
tomada de consciência, isto
é, os colonos descobrindo-se
como "paulistas", "pernambucanos",
mineiros", etc, para afinal
identificarem-se como "brasileiros".
(Souza,1997,22) Implantou-se então,
o cerne de nossa identidade.
Pode-se considerá-lo como
a pedra fundamental na história
do povoamento e da colonização
do Vale doParaíba e de vastas
regiões do território
brasileiro. Por meio dele se configurou
a base física e os fundamentos
da sociedade regional.
O Caminho do Ouro foi importante
meio de comunicação
e fundamental na formação
de um novo contexto regional. Hoje,
com a sua redescoberta e reutilização,
passa a compor o cenário
do grande projeto turístico
Estrada Real, base sólida
para o desenvolvimento sustentável
regional, nesta parte do território
brasileiro.
Continuar
- Os Caminhos e a região
do Vale do Paraíba Paulista |