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Renato
Leite Marcondes
III
- Considerações Finais
Contrariando
o fixado pela historiografia clássica,
as evidências empíricas
apresentadas ao longo deste artigo
patenteiam a relevância da
pequena e média propriedade
durante o auge da cafeicultura no
vale do Paraíba. Esta importância
restou patenteada pela análise
do conteúdo do documento
deixado pelo coletor de Angra dos
Reis (1868) e concernente a cafeicultores
fluminenses, paulistas e mineiros,
cuja grande maioria produzia menos
de dez mil arrobas da preciosa rubiácea.
De outro lado, ao considerarmos
a distribuição da
posse escrava para Taubaté
em 1872 e 1884 também comprovou-se
a significativa participação
dos pequenos e médios escravistas;
os quais representavam mais de nove
décimos dos proprietários
de escravos e possuíam mais
da metade do contigente cativo.
Ao que tudo indica, durante o século
XIX, com a expansão cafeeira,
cresceu a concentração
da propriedade, especialmente a
escrava. Neste processo pode ter
havido a exclusão de um grande
número de indivíduos
de apoucadas posses, mas, de outra
parte, é preciso reconhecer
que tal processo também permitiu
que muitas pessoas, igualmente não
tão abastadas como a elite
agrária e mercantil, continuassem
na localidade e auferissem benefícios
gerados pela economia cafeeira;
quando a região conheceu
seu auge e, por conseqüência,
o ponto máximo de desigualdade
na distribuição da
propriedade, estas pessoas ainda
mantinham uma importância
econômica muito expressiva.
Vê-se, pois, que aumento da
concentração ao longo
do desenvolvimento da cafeicultura
não inviabilizou a participação
dos pequenos e médios produtores
na economia cafeeira, sendo incorreto,
portanto, desconsiderá-los.
Em vista do reduzido número
de cafeicultores com mais de cem
cativos até mesmo os patamares
da plantation escravista precisam
ser qualificados. Há a necessidade
de superação da historiografia
clássica: negar certos aspectos
- como a reduzida importância
econômica e demográfica
da pequena e média propriedade
-, mas preservar outros. Até
nas áreas onde se esperaria
uma maior presença da grande
lavoura verificava-se a existência
de pessoas possuidoras de menores
recursos. A difusão da propriedade
alcançou, nas suas mais diversas
gradações, uma expressiva
parcela da população,
fortalecendo o mercado interno brasileiro.
Uma massa de proprietários
não tão abastados
possuía renda monetária
obtida mediante a agricultura de
exportação, de subsistência
ou até em ocupações
não agrícolas. Eles
exerciam seu poder de compra, mesmo
com relação à
mão-de-obra escrava. Este
resultado deve ser utilizado aliado
a outros alcançados pelos
trabalhos mais recentes, como, por
exemplo, a importância demo-econômica
dos não-proprietários
de escravos, a produção
de subsistência (distinta
do autoconsumo), a acumulação
mercantil endógena e o usufruto
da terra (compreendendo até
mesmo a brecha camponesa). O conjunto
destes trabalhos evidencia a necessidade
de uma nova síntese interpretativa
da economia escravista brasileira.
As obras de João Fragoso
& Manolo Florentino (1993) e
Iraci Costa (1995) sinalizam o início
desta discussão.
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