| Renato
Leite Marcondes
II
- A Propriedade escrava
A
matrícula de escravos de
Taubaté permitiu-nos estabelecer
a distribuição da
posse cativa para o início
da década de 1870. Nesse
momento registraram-se 4.168 escravos
pertencentes a 660 escravistas,
donde resulta o número médio
de 6,3 cativos. Este valor revelou-se
maior do que a média de 5,1
calculada por Armênio de Souza
Rangel para 1835. Os possuidores
de plantéis unitários
representavam um terço do
total de escravistas, mas mantinham
apenas 5,3% dos escravos. Se aceitarmos
a definição de pequenos
e médios escravistas como
detentores de menos de vinte escravos,
os 613 indivíduos nesta condição
representariam 92,9% do total de
proprietários de cativos.
A massa escrava possuída
por eles chegaria a 2.289 cativos
(54,9% do conjunto da escravaria).
Já os trinta e sete grandes
escravistas detinham 45,1% dos escravos
(Cf. tabela 2).
| Tabela
2 - Estrutura
da posse de cativos, segundo
faixas de tamanho dos Plantéis
(Taubaté, 1872) |
| Faixas
de tamanho |
Proprietários |
% |
Escravos |
% |
1 cativo |
221 |
33,5 |
221 |
5,3 |
2
a 4 |
248 |
37,6 |
691 |
16,6 |
5 a 9 |
84 |
12,7 |
569 |
13,6 |
10
a 19 |
60 |
9,1 |
808 |
19,4 |
20
a 39 |
29 |
4,4 |
771 |
18,5 |
40
ou mais |
18 |
2,7 |
1.107 |
26,6 |
Total |
660 |
100,0 |
4.167 |
100,0 |
Obs:
(a) Havia mais um escravo para o
qual não identificamos o
proprietário.
Para
1872 calculamos o índice
de Gini de 0,637, muito superior
ao de 0,479 computado para 1835
por Armênio Rangel. Zélia
Maria Cardoso de Mello efetuou o
cálculo do Gini para o município
de São Paulo com base em
inventários; o índice
passou de 0,671 entre os anos de
1845 e 1850 para 0,880 no período
de 1872 a 1880. Renato Leite Marcondes
observou um crescimento da desigualdade
da posse escrava ao longo do século
XIX para uma amostra de escravistas
de Lorena, isto com base em listas
nominativas de habitantes para o
início do século e
em inventários efetuados
entre 1830 e 1879. Entretanto, o
aumento da concentração
da propriedade não inviabilizou
a atividade econômica dos
indivíduos que possuíam
recursos ordinários; de toda
sorte, a situação
imperante em Taubaté reafirma
a tendência de concentração
da propriedade escrava na província
de São Paulo.
O contingente cativo taubateano
matriculado compunha-se de 2.453
indivíduos do sexo masculino
e 1.682 mulheres. O número
de escravos casados chegou a 707
e o de viúvos atingiu 66
indivíduos (23,4% e 2,2%
do total de pessoas com mais de
14 anos de idade, respectivamente).
Os cônjuges que eram escravos
de senhores diferentes somavam 66
(9,3% dos casados). Os cônjuges
e os pais ou mães solteiros
ou viúvos conforme a regulamentação
da lei do ventre livre totalizaram
849 cativos, representando 28,1%
dos cativos com idade superior a
14 anos; se adicionarmos os viúvos
não acompanhados de filhos
o peso relativo chega a 29,3%.
A razão de sexo ou de masculinidade
atingiu 145,8 (número de
pessoas do sexo masculino para cada
cem do feminino). Apesar da ausência
do tráfico africano internacional
(suprimido em 1850) naquele momento
(1872), o predomínio masculino
resultava, em parte, deste fluxo
passado. Por outro lado, o início
do movimento migratório de
escravos de outras províncias
para Taubaté também
parece ajudar a explicar este resultado.
Trinta e oito cativos presentes
na matrícula de Taubaté
haviam sido matriculados em outras
províncias, especialmente
Paraíba, Alagoas, Pernambuco
e Bahia; deste total, a participação
do sexo feminino correspondeu a
tão-somente nove pessoas
(23,7%). Como sabido, nas aquisições
de cativos dava-se preferência
aos do sexo masculino; de outra
parte, a ocorrência da alforria
recaía preponderantemente
sobre as pessoas do sexo feminino.
Dos cativos casados apenas 325 eram
mulheres enquanto os homens somavam
382 (707 casados no total); tal
diferença deve-se à
existência de um maior número
de cativos casados com mulheres
livres do que de escravas com homens
livres. A menor razão de
sexo ocorreu para os plantéis
unitários (91,3); o valor
de tal indicador cresce significativamente
à medida que aumenta o tamanho
dos plantéis, atingindo 177,0
para os grandes escravistas (Cf.
tabela 3).
| Tabela
3 - Razão
de sexo e faixas etárias
da população
escrava, segundo faixas de
tamanho dos plantéis
(Taubaté, 1872)
|
| |
Faixas
de tamanho dos plantéis
|
|
|
1 |
2
a 4 |
5
a 9 |
10
a 19 |
20
a 39 |
40
ou mais |
Total |
Razão do sexo |
91,3 |
120,5 |
138,4 |
140,3 |
165,0 |
177,0 |
145,8 |
| |
Faixas
etárias |
5,0%
|
18,2%
|
17,2% |
22,4% |
17,9%
|
19,3% |
100,0% |
0 a 14 anos |
5,9%
|
16,6%
|
12,7% |
19,2% |
19,2%
|
26,4% |
100,0% |
15
a 49 anos |
5,9%
|
16,6% |
12,7% |
19,2% |
19,2% |
26,4% |
100,0% |
50
ou mais |
3,6%
|
14,4%
|
11,5%
|
13,6% |
18,7%
|
38,2% |
100,0% |
Os
escravos com idades de 15 a 49 anos
perfaziam 60,1% do total de cativos
e as pessoas com 50 ou mais anos
13,4%. Os mais idosos encontravam-se
preponderantemente nas grandes escravarias.
Apesar da falta de informações
para a sua totalidade em razão
da referida perda de algumas folhas
do documento, a presença
de crianças de 0 a 14 anos
de idade mostrou-se elevada, representando
26,5% dos escravos. Em Minas Gerais,
Paiva & Libby verificaram uma
participação ainda
maior das crianças no conjunto
dos cativos: 32,6%; este resultado,
aliado a outros, permitiu aos autores
afirmarem a importância do
crescimento vegetativo do contingente
cativo. Ao que nos parece, fatores
de ordem econômica e demográfica,
que se condicionam mutuamente, explicam
os resultados observados para Minas
Gerais: propriedades cativas mais
modestas desenvolvendo atividades
econômicas destinadas ao mercado
interno, aliadas a uma composição
dos plantéis mais equilibrada
entre os sexos.
Infelizmente, os registros de matrícula
não trazem informações
sobre as ocupações
desenvolvidas pelos escravistas.
Quando cruzamos a matrícula
com os informes do Almanaque de
1873 para a Província de
São Paulo verificamos a presença
de 44 fazendeiros de café
e algodão, os quais detinham
1.096 dos cativos arrolados nos
registros de matrícula (26,3%).
O número médio de
cativos destes agricultores chegou
a 24,9, valor este que supera largamente
o da totalidade dos escravistas.
Os vinte e um negociantes, capitalistas
e lojistas mantinham 168 cativos,
ou seja uma média de 8 escravos
por proprietário. Os cafeicultores
e produtores de algodão mantinham
uma padrão de posse cativa
superior ao dos mercadores em geral.
O maior proprietário de cativos
matriculados foi o Tenente Coronel
Francisco Alves Monteiro, falecido
em 1874 com um patrimônio
de mais de mil contos de réis
e 124 escravos, igual ao número
registrado na matrícula.
Ele atuava como cafeicultor e usurário.
Seu filho, o Barão de Tremembé
(1830-1911), detinha 54 cativos.
O Barão, depois Visconde,
das Palmeiras (1805-1888) possuía
o segundo maior plantel, com 92
elementos. Manoel Gomes Vieira,
com 86 cativos, era proprietário
da terceira maior escravaria.
Em 1884, a Coletoria de Rendas publicou
no jornal O Paulista a relação
nominal de escravistas de Taubaté
que pagaram o imposto provincial
sobre escravos. Ainda que tal fonte
possa não ser tão
confiável como os registros
de matrícula, ela permite
o estabelecimento de algumas considerações
sobre a estrutura de posse de cativos
nesse ano. Infelizmente, não
temos a relação completa
dos escravistas, pois não
localizamos dois números
do jornal em que se publicou parte
do relato.
Só 110 senhores pagaram o
imposto de 5$000 réis, compreendendo
apenas 161 cativos; para tais senhores
o número médio de
escravos possuídos chegava,
tão-somente, a 1,5. Os escravos
de lavoura distribuíam-se
por 762 escravistas, mas só
temos o informe concernente a 612
deles, pois, como avançado,
não nos foi dado encontrar
dois números do jornal. O
número de cativos destes
612 proprietários totalizou
3.283 pessoas. A posse média
atingia, portanto, 5,4 escravos.
Se computarmos esta média
para os 150 proprietários
cujas informações
nos faltam, chegamos a uma estimativa
de 4.093 para o conjunto de cativos
ocupados com a lavoura. Quando adicionamos
os 161 cativos que não se
encontravam na lide agrícola
atingimos o total de 4.254 cativos
para o município de Taubaté.
Assim, o contingente escravo da
localidade alterou-se pouco entre
1872 e 1884, provavelmente o tráfico
entre as províncias tenha
aumentado nesse intervalo temporal.
Ademais, no período ora contemplado,
o total de escravistas cresceu e
o número médio de
cativos reduziu-se.
A distribuição dos
3.444 (3.283 + 161) cativos para
os quais conhecemos os proprietários
permite-nos a observar a concentração
da posse de escravos. Quase a metade
dos escravistas mantinha apenas
um elemento em seu plantel, mas
possuía somente 9,4% dos
escravos. Por outro lado, embora
os grandes escravistas representassem
apenas 2,0% dos senhores, detinham
27,6% da escravaria. O índice
de Gini concernente a 1884 mostra-se
superior ao de 1872: 0,657 vis-à-vis
0,637. Este resultado, conquanto
embasado em dados passíveis
de reparos, não contraria
a tendência de crescimento
da desigualdade da distribuição
da propriedade escrava em Taubaté
a partir da década de 1830.
A representatividade dos segmentos
médios viu-se reduzida definindo-se
dois grupos principais: o dos proprietários
de 1 a 4 cativos e o dos escravistas
possuidores de plantéis com
vinte ou mais elementos. Este processo,
como consignado no estudo de Zélia
Cardoso de Mello, também
ocorreu na cidade de São
Paulo.
| Tabela
4 - Estrutura
da posse de cativos, segundo
faixas de tamanho dos Plantéis
(Taubaté, 1884) |
| Faixas
de tamanho |
Proprietários |
% |
Escravos |
% |
1 cativo |
323
|
46,6
|
323
|
9,4 |
2
a 4 |
233
|
33,6
|
612
|
17,8 |
5 a 9 |
64
|
9,2
|
424
|
12,3 |
10
a 19 |
39
|
5,6
|
580
|
16,8 |
20
a 39 |
21
|
3,0
|
555
|
16,1 |
40
ou mais |
14
|
2,0
|
950
|
27,6 |
Total |
694
|
100,0
|
3.444
|
100,0 |
Obs:
Não consideramos, por falta
de informação, 150
escravistas que possuíam
escravos de lavoura.
Os
maiores detentores de cativos
¾ com vinte ou mais elementos
em seus plantéis ¾
eram em número reduzido
(5,0%) e possuíam uma escravaria
elevada (43,7%) em 1884. Entretanto,
observamos cerca de quatro quintos
dos escravistas mantendo no máximo
quatro elementos nos seus plantéis;
entre eles verificamos, ademais,
um expressivo número de
pessoas residentes no núcleo
urbano de Taubaté (negociantes,
profissionais liberais, artesãos,
jornaleiros etc.) e de pequenos
agricultores, muitas vezes não
vinculados à cultura da
rubiácea.
|