|
Luciano
da Silva Alvarenga
Nas
entrelinhas da economia taubateense,
1798-1817
Por
dentro dos fogos, 1798 e 1808.
Se a virada do dezoito para o dezenove
acentua a densidade demográfica
de Taubaté, poderemos ver
que, no interregno entre 1798 e
1808, aumenta o envolvimento dos
fogos com as atividades voltadas
para a produção de
alimentos e criação
de porcos.
A convivência de setores econômicos
voltados para mercados diferentes,
local/regional e estrangeiro, parece
ter tido, ao longo do Brasil colonial
e imperial, espaços que não
necessariamente excluíam
a existência um do outro.
Estudos recentes têm demonstrado
como era possível essa coexistência.
Os dados de Rangel para Taubaté
em 1798 indicam essa coexistência
com boa participação
dos produtores de alimentos. (Tab.2).
2. Produção
agrícola comercializada.
Taubaté, 1798
|
Produção |
fogos |
Quantidade
vendida (1) |
Valor
réis |
Participação
% |
| Açúcar
|
11 |
491 |
796.893
|
10.9 |
Aguardente
|
51 |
1211 |
965.167
|
13.2 |
| Rapadura
|
20 |
------- |
232.880
|
3.2 |
| Café
|
4
|
68
|
108.800
|
1.5 |
| Algodão |
74 |
472 |
379.488
|
5.2 |
| Fumo |
194 |
4173
|
2.687.412
|
36.8 |
| Alimentos
|
174
|
-------
|
1.049.106
|
14.4 |
| Vacuns
|
21
|
107
|
321.535 |
4.4 |
Cavalares
|
9
|
66
|
479.028 |
6.6 |
| Porcos
|
20
|
147
|
282.975
|
3.9 |
| Total
|
558 |
--------
|
7.303.284
|
100.0 |
Fonte:
Listas Nominativas, Taubaté,
1798, AESP, apud., Rangel, op.cit,
p. 112.
(1) Unidades de medida: açúcar,
café, fumo, e algodão
em arrobas, o aguardente em barris.
Se
considerarmos que, em 1798, os fogos
envolvidos com a produção
de alimentos, seja para autoconsumo
ou para venda, somavam a quantia
de 515 fogos de um total de 836,
teremos, que os fogos produtores
de alimentos correspondem a 61,6%
dos domicílios envolvidos
com atividades agrícolas.
Estamos falando, então, que
a maior parte dos fogos estão
envolvidos em atividades voltadas
para a produção de
alimentos.
Em 1808, os fogos envolvidos com
a produção de alimentos
mantém sua proporção
na participação total
dos fogos, isto é, correspondem
a 61,9% do total de fogos envolvidos
com as atividades agrícolas.
Entretanto, o número de fogos
produtores de alimentos diminui
de 515 para 319 domicílios
entre os anos 1798 e 1808. Vejamos
o que terá acontecido.
Os dados da tabela 2 explicitam
a participação nas
vendas da localidade dos produtos
voltados para o abastecimento e
indicam por sua vez a possibilidade
existente de que aqueles que envolvidos
com o cultivo de alimentos pudessem
vendê-los no mercado.
Além dos 457 fogos que comercializavam
sua produção, em 1798,
existiam, segundo Rangel, "...outros
400 (fogos) que derivavam sua principal
fonte de rendimentos, também
da agricultura sem, contudo, possuírem
renda monetária (Tab.3),
pois nada haviam vendido (autoconsumo),
segundo as declarações
constantes nas Listas Nominativas".
Esses produtores envolviam 28.8%
do total dos fogos. Desses 400 fogos,
34 ou 8,5% do total possuíam
escravos numa média de 3.7
escravos por fogo (tab.3).
Tabela. 3.
Destribuição de escravos
e fogos na atividade de autoconsumo.
ano
|
nº
fogos |
%
no total de fogos |
Escr. |
%
escr. |
fogos
s/ escr. |
fogos c/ escr. |
%
fogos c/ escr. |
médias |
1798 |
400 |
28.8 |
127 |
9.6 |
366 |
34 |
8.5 |
3.7 |
1803 |
328 |
23.3 |
221 |
14.0 |
276 |
52 |
15.9 |
4.3 |
1808 |
253 |
17.3 |
159 |
9.8 |
214 |
39 |
15.4 |
4.1 |
1812
|
503 |
30.5
|
329
|
19.8 |
437 |
66
|
13.1
|
5.0 |
1817 |
844 |
48.1 |
375 |
21.2 |
744 |
100 |
11.8 |
3.8 |
1822 |
782 |
47.0 |
351 |
19.7 |
696 |
86 |
11.0 |
4.1 |
1825 |
880 |
50.5 |
337
|
16.6 |
795 |
85 |
9.7 |
4.0 |
1830 |
1081 |
55.0 |
473 |
20.2 |
952 |
129 |
11.9 |
3.7 |
1835 |
494 |
30.8
|
132 |
6.0 |
448 |
46 |
9.3 |
2.9 |
Fonte: Listas Nominativas, Taubaté,
AESP, apud. Rangel, op.cit, pp.
393, 394, 395, 396, 397, 398, 399,
400, 401.
A
tabela 3 evidencia a existência
de 400 fogos envolvidos com atividades
agrícolas (alimentos), que,
segundo Rangel são voltadas
para autoconsumo, mas que, pela
sua quantidade e por seu peso no
total dos domicílios (47,8%
do total) não pode ser desconsiderada.
Em primeiro liugar, havia espaço
físico e econômico
à reprodução
de boa parcela dos produtores. Espaço
que permitia, inclusive, que, em
1798, parte deles adquirisse mão-de-obra
escrava (tab.3). Por outro lado,
a presença de cativos numa
parcela dos fogos (subsistência)
impossibilita pensá-los,
como afirma Rangel, apenas como
produtores de auto-consumo, mesmo
considerando que nada tenha sido
constatado como vendido.
Rangel engloba numa atividade (autoconsumo)
produtores que, de alguma maneira,
tem a seus serviços mão-de-obra
que, em geral, é obtida por
meio de compra. Independente de
ser o escravo, nesse momento, de
aquisição "barata",
possuía ele um preço.
Para uma população
em sua maioria pobre, é razoável
pensar que a compra do elemento
servil deva ter passado, anteriormente,
pela capacidade ou possibilidade
que teve essa população
de ocupar um espaço no comércio
local. Isso significa dizer, que
produziam para seu auto-sustento
mas, possivelmente, também
para o comércio.
Conforme podemos depreender das
tabelas 3 e 4 os fogos inseridos
na agricultura comercial de alimentos
em 1798, somam a quantia de 36 cativos,
quando, é muito maior o número
de escravos, 127, nos fogos voltados
para o auto-consumo que, segundo
Rangel, não produzem renda
monetária. De que maneira
domicílios envolvidos com
atividades agrícolas e não
participantes do mercado de venda
(tab.3) chegaram a possuir o número
de escravos em questão, superando
o total de escravos dos domicílios
produtores de alimentos para à
venda? É bom lembrar que,
em 1798, quase 25% dos escravos
inseridos nas atividades agrícolas
estavam nos fogos que produziam
alimentos (tab.3 e 4).
tabela.
4.
Distribuição de escravos
e fogos na agricultura comercial
de alimentos.
ano
|
nº
fogos |
%
no total de fogos |
Escr. |
%
escr. |
fogos
s/ escr. |
fogos c/ escr. |
%
fogos c/ escr. |
médias |
1798 |
115 |
8.3 |
36 |
2.7 |
106 |
9 |
7.8 |
4.0 |
1803 |
70 |
5.0 |
57 |
3.6 |
57
|
13 |
18.6 |
4.4 |
1808 |
66 |
4.5 |
63 |
3.9 |
52 |
14 |
21.2 |
4.5 |
1812
|
51 |
3.1 |
37 |
2.2 |
43 |
8 |
15.7 |
4.6 |
1817 |
50 |
2.9 |
23 |
1.3 |
44 |
6 |
12.0 |
3.8 |
1822 |
56 |
3.4 |
39 |
2.2 |
52 |
4 |
7.1 |
9.8 |
1825 |
13 |
0.7 |
19 |
0.9 |
8 |
5 |
38.5 |
3.8 |
1830 |
13 |
0.7 |
16 |
0.7 |
11 |
2 |
15.4 |
0.0 |
1835 |
39 |
2.4 |
37 |
1.7 |
24 |
15 |
38.5
|
2.5 |
Fonte: Listas Nominativas, Taubaté,
AESP, apud. Rangel, op.cit, pp.
393, 394, 395, 396, 397, 398, 399,
400, 401.
A
analise mais detida dos domicílios,
no período entre 1798 e 1808,
e os números de posse de
escravos dessas unidades ajudará
a entender o envolvimento dos pequenos
produtores com o mercado de venda
e entender de que forma os não
possuidores de "renda monetária"
eventualmente vinculavam-se ao mercado.
Percebe-se pela tabela 3, sobre
a produção de alimentos
para autoconsumo, uma queda, entre
1798 e 1808, no número de
fogos envolvidos na produção
de auto-consumo, de 400 para 253,
respectivamente. Isso pode significar
o aumento da participação
desses fogos nas atividades comerciais,
explicando, por sua vez, os índices
de venda da agricultura comercial
de alimentos em 1805, o maior do
período (tab.5).
5. Evolução
das vendas reais da agropecuária
(1)
base: 1798=100
| Ano
|
Exportação
(2) |
Mercado
interno (3) |
Total |
Agricultura
|
Pecuária
|
Alimentos |
1798 |
100.0
|
100.0 |
100.0
|
100.0 |
100.0
|
100.0
|
1801
|
227.3
|
90.7
|
161.3
|
164.5
|
143.1
|
58.2 |
1803
|
161.8
|
64.5
|
113.8
|
116.6 |
104.2
|
42.6 |
1805
|
297.6
|
105.6
|
201.2
|
203.6 |
195.0
|
68.3 |
1808
|
243.5
|
120.5
|
184.2
|
172.2
|
242.8 |
38.5 |
1810
|
241.4
|
149.9
|
200.2
|
161.6
|
371.0
|
43.0 |
1812
|
149.3
|
172.7
|
177.2
|
115.5
|
407.7
|
58.2 |
1815 |
162.1
|
253.6 |
236.6 |
123.5 |
648.7 |
54.9 |
1817 |
65.5
|
224.2 |
170.9 |
63.2 |
575.0 |
37.8 |
1820 |
212.7 |
277.9 |
273.9 |
163.5 |
678.0 |
49.5 |
1822 |
178.8 |
212.7 |
217.6 |
132.3 |
530.3 |
31.9 |
1825 |
495.5 |
165.0 |
311.9 |
320.3
|
358.5
|
33.9 |
1828 |
837.4 |
159.6
|
424.6
|
506.4
|
359.6
|
21.5 |
1830 |
861.8 |
104.4
|
378.6
|
492.2
|
243.7
|
7.9 |
1835 |
1412.6 |
95.7 |
534.6
|
845.5
|
133.4
|
45.2 |
Fonte: Listas Nominativas, Taubaté,
AESP, apud. Rangel, op. cit., p,
117.
(1) Deflacionou-se o valor nominal
da produção pelo correspondente
Indice de Preços de Theil.
(2) Açúcar, café,
fumo e algodão.
(3) Alimentos (farinha, milho, arroz
e feijão), animais (vacuns,
cavalares e porcos), aguardente
e rapadura.
Por
outro lado, observa-se, entre os
anos 1798 e 1808, a diminuição
dos fogos sem escravos, de 366 para
214, nas atividades de auto-consumo
(tab.3). No entanto, o fato não
é acompanhado de um incremento
dos fogos com escravos dentro dessa
atividade. Mas, ao contrário
do que se esperava, também
não há aumento do
número de fogos voltados
para a produção de
alimentos no mercado (tab.4), que,
aliás, diminuiu de 115 e
66, entre os anos de 1798 e 1808.
Contrastando com os índices
de venda de 1805.
O que terá acontecido, então?
De que maneira, os fogos que não
tinham renda monetária passaram
a tê-la, posto que deixaram
de ser classificados como agricultores
de autoconsumo? O que explica os
índices de 1805 considerando
a queda dos envolvidos com o auto-consumo,
bem como, a queda do número
de fogos produtores de alimentos?
Ao se observar a tabela 5, nos anos
entre 1798 e 1805, nota-se um movimento
de dinamização do
mercado interno. O índice
de venda da pecuária varia
de 100.0, em 1798, para 195.0, em
1805. O índice de venda dos
alimentos varia, no mesmo período,
de 100.0 para 68.3. Tendo em vista
o caráter da pecuária
taubateana, acredito, que a partir
dos primeiros anos do século
XIX, ha um intenso envolvimento
de pequenos produtores de alimentos
na criação de porcos.
Tabela 6 - Evolução
das vendas de porcos por domicílio,
Taubaté.
| ano
|
até
20
Nº - Q |
20
- 50
N Q |
+
50
Nº Q |
Total
Nº Q |
1798
|
19
- 117 |
1
- 30 |
-
- |
20
- 147 |
1801
|
92
- 405 |
1
- 37 |
1
- 100 |
94
- 542 |
1803
|
89
- 335 |
1
30 |
- - |
90
- 365 |
1805
|
165
- 569 |
4
- 120 |
- - |
169
- 689 |
1808
|
160
- 628 |
258
- 2 |
170
- 1 |
69
- 1056 |
1810
|
132
- 502 |
9
- 339 |
4
- 767 |
145
- 1608 |
1812
|
219
- 778 |
12
- 435 |
8
- 732 |
239
- 1945 |
1815
|
243
- 1149 |
12
- 466 |
14 - 1386 |
269
- 3001 |
1817
|
157-
881 |
17
- 702 |
9
- 1025 |
183
- 2608 |
1820
|
177
- 903 |
22
- 842 |
11
- 1205 |
210
- 2795 |
1822
|
162
- 762 |
16
- 640 |
11
- 1050 |
189
- 1682 |
1825
|
24
- 231 |
22
- 816 |
3
- 280 |
49
- 1347 |
1828
|
88
- 504 |
15
- 549 |
4
- 300 |
107
- 1483 |
1830
|
46
- 390 |
13
- 531 |
3
- 350 |
62
- 1271 |
|
1835
|
84
- 564 |
-
- |
1
- 100 |
85
- 66 |
Fonte:
Listas Nominativas, Taubaté,
AESP, apud, Rangel, op. cit., 139.
Isso
se deve ao fato de que à
maioria esmagadora dos criadores
de porcos (tab.6) possuí
até 20 animais, tendência
em todo o período de bons
negócios da pecuária
suína. Em 1798, 95% do total
de criadores de suinos tinham até
20 animais. Em 1808, os criadores
de até 20 animais ainda são
a grande maioria com 94,6% do total
de criadores. Aumento no período
de 742% (tab.6). Certamente o comércio
de porcos estava bastante promissor.
A razão que explica o envolvimento
de pequenos produtores e de parcos
recursos com a criação
de porcos, está em boa medida,
por serem esses animais mais baratos
e de pequeno porte o que facilita
a sua criação. Outro
elemento pouco mencionado pela literatura,
e que contribuí na criação
desses animais é o fato de
que os porcos comem qualquer coisa,
ao contrário de cavalares
e vacuns.
A diminuição do número
de fogos voltados para o auto-consumo,
sem o correspondente aumento do
número de fogos na agricultura
comercial de alimentos, pode estar
ligada a sua participação
na criação de suínos.
Tal situação se observa,
ao considerar que os fogos, envolvidos
na criação desses
animais, (até 20 cabeças)
sobem de 19 em 1798, para 165 em
1805. Isso aponta para o fato de
que, ao contrário, do que
pressupôs Rangel, esses, sem
"renda monetária",
não estão assim tão
destituídos como se pode
pensar à primeira vista.
A evolução da pecuária
suína não corresponde,
por seu turno, na diminuição
da produção de alimentos
como bem se observa na tabela 5.
Mas coexiste com ela, posto que
é praticada, em boa parte,
pelos mesmos produtores. Nesse sentido,
deve-se dizer, que a diminuição
nos índices de venda dos
alimentos entre 1805 e 1808, possivelmente
está ligada a um rearranjo
da produção e o estabelecimento
de novos mecanismos comerciais causados
pela incorporação
de um novo produto, o porco. A recuperação
das vendas alimentícias,
nos anos posteriores, atesta a minha
assertiva.
Transformações
no mercado e o rearranjo dos produtores,
1808-1817.
O período posterior, 1808
a 1817, é marcado pela forte
dinâmica do mercado interno
(tab.5), bem como, pela queda contínua
das vendas dos produtos voltados
para exportação é
o caso do açúcar,
aguaredente e do algodão.
O valor de produção
dos exportáveis (tab.4),
baixa de 243.5 para 65.5, nos anos
acima mencionados, respectivamente.
O comportamento nas vendas da pecuária
mantém-se em ritmo crescente
no período (tab.5), marcando
agora uma diferença com o
período anterior. Os fogos,
criadores de até 20 cabeças
de porcos, vão variar ao
número de 160 em 1808, somando
243 em 1815, e voltando em 1817,
aos patamares de 1808, com a soma
de 157 criadores. Por outro lado,
os fogos, criadores de 20 a 50 cabeças,
que chegaram em 1808 em número,
máximo, de 7, atingiram em
1817 a soma de 17.
O aumento do número de fogos,
criadores de 20 a 50 cabeças
de porcos, deve estar relacionado
aos bons ventos que sopram esta
atividade nesse momento. É
curioso observar, entretanto, a
evolução dos fogos
relacionados às atividades
de auto-consumo, alimentos e pecuária
nesses anos.
O período é marcado
por uma explosão de fogos
|