| Francisco
Sodero Toledo
A
coroação de N. S.
Aparecida, como soberana Rainha,
nos dizeres do Pe. Machado “
foi um imperativo, logo ao alvorecer
da República” (8) .
Vai mais além, quan-do reafirma
a preocupação do relacionamento
da Igreja com o Estado, procurando
demonstrar que mesmo definida a
separação entre ambos,
“Na prática a vivência
seria o pulsar de um só coração
e de uma só alma na unidade
nacional: ambas autoridades legitimamente
constituídas continuariam
a subsitir no mais perfeito respeito
em suas mútuas relações
em favor de um mesmo Povo, por sua
própria índole dotado
de auto-determinação
patriótica e arraigamento
cristão desde as suas origens.
A Padroeira do Império, pela
fidelidade de seus vassalos, continuaria
na República sempre Rainha.”(9)
O “imperativo” era decorrente
da nova situação da
Igreja no Brasil, com a queda do
regime monárquico. Com a
Proclamação da República,
estabeleceu-se pelo Decreto do
Governo Provisório, publicado
a 7 de janeiro de 1890, a separação
entre Igreja e Estado no Brasil.
Determinava também a liberdade
de culto, o direito de todas as
religiões à posse
de seus bens e a subvenção
financeira pelo Governo Provisório
ao clero ainda por um ano.
A Igreja Católica sequer
esboçou reação
imediata. Houve mesmo uma perplexidade,
nos setores políticos e intelectuais,
ao seu silêncio. O episcopado
brasileiro, na Pastoral Coletiva
publicada em 19 de março
de 1890, aceitou o fato, afirmando:
“A Igreja é indiferente
a todas as formas de governo”
No mesmo documento não poupou
críticas ao regime do padroado
vigente no período colonial
e do Império, pois: “era
uma proteção que abafava...
Entre nós, a opressão
exercida pelo Estado, em nome de
um pretenso padroado, foi uma das
principais causas do abatimento
de nossa Igreja, do seu atrofiamento
quase completo” (10)
A primeira constituição
republicana, a de 1891, ratificou
todas as medidas tomadas pelo Governo
Provisório no que se referia
à condição
da Igreja, particularmente em sua
relação com o Estado,
avançando nas medidas de
cunho secularizador: os membros
de Ordens Religiosas engajadas por
Votos Religiosos seriam privados
de direitos civis; somente os casamentos
civis seriam reconhecidos; os cemitérios
seriam entregues às administrações
municipais; a educação
seria laicizada, sendo abolida a
disciplina “religião”
dos currículos e suspensas
as subvenções às
Escolas Católicas.
A Igreja Católica caía
junto com a monarquia. Nesse tempo
possuía ao redor de 12 milhões
de fiéis, mas estava demasiadamente
debilitada, com bispos idosos, contando,
em 1889, com apenas 11 dioceses,
9 Seminários Maiores e 700
padres. Esta nova situação
fortaleceu a tendência a reformas
no seu interior, voltadas à
romanização. O catolicismo
brasileiro, a partir das últimas
décadas do século
XIX, passa a descartar a tradição
religiosa de quatro séculos,
afastandose das suas características
tradicionais e passa a sofrer as
influências dos padrões
ditados pelo catolicismo romano
expresso no Concílio Vaticano
I.
A Igreja Católica no Brasil,
ao final do século XIX defrontouse
com estas questões básicas:
a ruptura com o Estado e a ruptura
do clero com a grande massa de fiéis.
Ficara evidente a necessidade de
reestruturar a Igreja, tendo para
isso de combater a ignorância
religiosa do povo, que se dizia
católico, recebia os sacramentos,
mas não conhecia a doutrina
da Igreja. Neste contexto, os bispos
brasileiros tomaram a iniciativa
de solicitar às Congregações
religiosas o envio de seus membros
para o Brasil.
Os salesianos, que compunham o coral
que abrilhantou as solenidades da
coroação se instalaram
no Brasil em 1883 e se fixaram em
Lorena em 1890. Os redentoristas
chegaram em Aparecida para assumir
a direção do Santuário
em 28 de outubro de 1894.
O movimento de romanização
no Brasil (1870-1920) foi de cunho
marcadamente hierárquico,
pois são os prelados que
programaram a reforma e zelaram
por sua aplicação.
Sob a liderança de um grupo
de bispos empreendedores, chamado
por isto mesmo de reformadores.
Sob suas lideranças, tem-se
um movimento tipicamente eclesiástico,
com a preocupação
da reforma interna da Igreja no
Brasil com total afinidade com
Roma.
Com isto, como afirma Riolando Azzi:
“a tônica do catolicismo
brasileiro desloca-se do leigo para
o bispo, da religião familiar
para a religião do templo,
das rezas para a missa, do terço
para os sacramentos... Passa-se
de uma religião comprometida
com o debate político e social
da nação, para uma
religião voltada cada vez
mais para o espiritual e para um
distanciamento das realidades terrenas”.(11)
A Igreja se fortalece, buscando
“restaurar internamente sua
identidade e externamente seu poder”,
(12) avançando na substituição
do catolicismo popular pelo catolicismo
romano.
|