Estudos
A Imigração Italiana na Cidade de Guaratinguetá
(1880 - 1930)
  
   



Marco Antonio Giffoni Junior

O Imigrante Italiano em Guaratinguetá
 
O Elemento Imigrante e a Cidade

Essa diferença de mentalidade pode ser explicada pelo fato de que o fazendeiro do Vale do Paraíba é apenas fazendeiro, o que não é de se admirar, pois quando do auge do café, o seu capital foi todo empregado na compra de terras e escravos e, quando da abolição da escravatura, não possuía recursos para empregar em outras atividades remuneradoras. Ao passo que o fazendeiro do Oeste, mais hábil e modesto, cultivando terras novas, conseguiu desviar capitais para a formação de bancos e sociedades anônimas, passando a ter um novo interesse: alargar o mercado interno e, para isso a extinção da escravatura e a entrada dos imigrantes são fatores decisivos. (FARIA e outros, 1973, p. 73)

Em Guaratinguetá, no entanto, observa-se uma mentalidade mais próxima da existente na região do Oeste Paulista. A necessidade das alterações dos quadros econômicos, além da influência da família Rodrigues Alves, de grande expressão no cenário político e favorável a introdução de imigrantes e, bem como a evolução do processo de urbanização do município, foram fatores que fizeram com que a comunidade aceitasse o imigrante estrangeiro, tornando-o parte integrante e atuante do contexto social da cidade.
Com a introdução do imigrante e a abolição da escravatura, começou a se desenvolver em Guaratinguetá o trabalho remunerado. Os imigrantes contribuíram muito com o desenvolvimento do município, sua colaboração consistiu na introdução de novas técnicas de trabalho oriundas das próprias condições em que viviam em seus países de origem.
O número de imigrantes estrangeiros na cidade aumentou consideravelmente a partir de 1892, com o início das atividades da colônia do Piagui . Nessa ocasião, a cidade recebeu imigrantes das mais variadas etnias, que tiveram um papel de destaque na vida comunitária da cidade, exercendo sua influência tanto no meio urbano como no meio rural e, o imigrante italiano, nosso objeto de estudo, também participou deste processo.


Interior da Casa Rocco, fundada em 1892, pelos irmãos Rocco na rua Dr. Morais Filho. Este estabelecimento comercial existe até os dias atuais sob a direção de seus descendentes. Foto pertencente ao acervo do Museu Frei Galvão - Arquivo Memória de Guaratinguetá.
É praticamente impossível precisar quando teria vindo o primeiro imigrante italiano para Guaratinguetá, as fontes consultadas mostram que, antes de 1892, ano da fundação da Colônia do Piaguí, já havia a presença de italianos na cidade. Esses imigrantes, em sua maioria financiaram a viagem para o Brasil por conta própria, o que lhes concedeu maior independência. Desses imigrantes, destacamos alguns nomes como Augusto Lucchesi, que começou como mascate e depois tornou-se proprietário de loja; Thomas Rocco, que montou uma relojoaria e posteriormente uma loja de artigos finos que por sinal existe até os dias atuais sob a direção de seus descendentes. Além desses dois nomes, destacamos também os irmãos Barone (alfaiates), Pascoale Panunzio (sapateiro), Rafael Bisseglia (padaria) e Felix Cioffi (médico).

Monsenhor João Filippo em foto de 1906. Foto pertencente ao Museu Frei Galvão - Arquivo Memória de Guaratinguetá.
Outro imigrante italiano dessa fase, que teve grande projeção em Guaratinguetá foi o Monsenhor João Filippo, nascido na província de Cosenza, no sul da Itália em 1845 e falecido nesta cidade em 1928. Padre Filippo veio para Guaratinguetá em 1873, logo após a sua ordenação sacerdotal, exercendo por muitos anos o cargo de auxiliar do vigário da matriz da cidade e, posteriormente, como titular da mesma. Publicou diversos livros católicos e realizou diversas obras ligadas à filantropia como a construção dos Colégios Nossa Senhora do Carmo e de São José, do Orfanato Puríssimo Coração de Maria e do Asilo Santa Isabel, bem como as reformas das igrejas matriz, do Rosário e da Santa Casa. Devido a esses atos ligados à religião e à caridade, o nome desse padre imigrante ficou consagrado em Guaratinguetá.
A partir de 1892, com a fundação da Colônia do Piaguí, o número de imigrantes italianos na cidade aumentou consideravelmente. Vindos em sua maioria, de regiões localizadas no norte da Itália, esses imigrantes dedicaram-se à rizicultura e à agricultura de subsistência.
Dentre estes imigrantes que vieram para a colônia, destacaremos a trajetória de um deles, Paolo Biagio Cavalca, nascido em Mantova, região da Lombardia em 1840, tendo imigrado para o Brasil em 1878 juntamente com sua esposa e filhos, dirigindo-se à princípio para a Colônia de Porto Príncipe, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina onde, devido a uma série de dificuldades sofridas nesta região e recebendo a notícia da abertura de novas colônias na região Sudeste, transfere-se para lá, deslocando inicialmente para a Colônia de Porto Real, em Resende e depois, para Guaratinguetá, onde ocupa, em 1892, um lote na Colônia do Piaguí, tornando-se uma figura influente e defensora dos interesses deste núcleo colonial, tendo participação ativa nas decisões do mesmo. Foi um dos responsáveis pela petição reivindicando a construção de uma igreja católica na colônia, que foi logo construída, tornando-se uma das principais conquistas destes colonos para o seu núcleo colonial. Paolo Cavalca faleceu em 1911, deixando uma grande descendência, considerada a maior entre os imigrantes italianos em Guaratinguetá.


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