Estudos
A Imigração Italiana na Cidade de Guaratinguetá
(1880 - 1930)
  
   



Marco Antonio Giffoni Junior

A Vinda para o Brasil
 
Busca por Terra e Trabalho

Ao serem recolhidos na hospedaria, os imigrantes eram reunidos e era feita a chamada para que pudessem receber o auxílio provincial, que consistia numa ajuda de custo dada pelo Governo Provincial, destinada para cobrir suas primeiras necessidades até conseguirem trabalho. Com o passar do tempo e com o aumento do movimento, a hospedaria dos imigrantes viu-se obrigada a melhorar suas condições para melhor cumprir suas funções e, em 1887, ela passa a ser administrada pela Sociedade Promotora de Imigração.

Dois tipos de imigrantes se dirigiram para a Província da São Paulo, no final do século XIX: o espontâneo, que vinha por conta própria e o introduzido pelo Governo Geral ou Provincial ou por qualquer outro introdutor. De forma geral, o imigrante espontâneo destinava-se à ocupação das pequenas propriedades dos núcleos coloniais, enquanto que o segundo tipo mencionado ia, quase sempre, para a lavoura de cafeeira das grandes fazendas. (HUTTER, 1972, p. 91)

O imigrante espontâneo era considerado aqueles que vinham para a Província pagando, ele mesmo, a passagem de navio ou, ainda, os que eram introduzidos por conta de contrato com o Governo Geral embarcavam pagando um preço reduzido nas passagens. O governo brasileiro concedia diversos benefícios para o imigrante espontâneo como alojamento, transporte até o destino escolhido por eles, concessão de um lote de terras apropriadas para a cultura devidamente medido e com formas de pagamento facilitadas.
Os imigrantes italianos que se dirigiam para o interior paulista se espalhavam por toda a zona da lavoura cafeeira e vinham, em sua maioria, com famílias constituídas. Nas fazendas, os imigrantes, quando não já as encontravam, construíam suas casas rodeadas de pomares, paióis, chiqueiros e de pequenos pastos, constituindo assim, pequenos domínios encravados nos latifúndios e, atualmente, seus descendentes constituem boa parte das populações das então chamadas zonas da Mogiana e da Paulista onde se localizavam grande parte dessas fazendas de café.
Enquanto que a Argentina trabalhava ativamente a fim de formar na Europa uma opinião pública favorável por meio de uma hábil propaganda, o Brasil, por sua vez, estava voltado para seus problemas internos como a abolição da escravatura e a consolidação do regime republicano, e, por isso, quando passou a pensar em estimular a imigração encontrou o grande obstáculo de uma ignorância completa a seu respeito e uma série de preconceitos de toda ordem, provocados por elementos interessados em sustar o movimento imigratório para o Brasil que espalharam todo tipo de propaganda negativa sobre o país.
No caso brasileiro, o estado, não possuindo escritórios de propaganda ou qualquer organização própria de estímulo à imigração no estrangeiro, foi obrigado a entregar a procura do imigrante à sociedade de colonização e a empreendedores que, por sua vez, confiaram o aliciamento às próprias companhias de navegação que, com a certeza de receber pontualmente as somas correspondentes às suas despesas por parte do governo, introduziam o maior número de imigrantes possível, sem a mínima preocupação de seleciona-los.

A imigração também constituía uma grande fonte de renda para o estado. O Tesouro de São Paulo, por exemplo, tinha gasto em 1901 para a imigração gratuita cerca de 38.500 contos, enquanto naquele mesmo período recebia quase 300.000 contos em taxas sobre a exportação do café, contra 3.000 contos recebidos em 1888. Neste ano, o valor da exportação do café produzido em São Paulo alcançou 75.000 contos, enquanto em 1900 superou os 246.000, triplicando-o, portanto, em apenas onze anos. (CENNI, 1975, p. 175)

Talvez seja única, na história das migrações humanas, na época moderna, a transferência da Itália para outro país de mais de um milhão de homens, em menos de vinte anos. (CENNI, 1975, p. 176)

Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tinham recebido verdadeiros colonos, isso é, imigrantes que entravam imediatamente na posse da terra e passavam a ser pequenos proprietários rurais, gozando de favores especiais e vivendo sob um regime que nada tinha a ver com o latifundiário.

Em São Paulo, a imigração processou-se de maneira inteiramente diferente, pois não houve colonização, a princípio, mas simples importação de braços para substituir o braço escravo - "Formar braços para a lavoura" era o que se lia nos jornais daquele tempo e o que pediam a todo instante os deputados na Assembléia Estadual. Formou-se assim, inicialmente, em São Paulo, um proletariado rural ambulante que sendo simplesmente assalariado, mudava de patrão com facilidade. (CENNI, 1975, p. 181)

A abolição não significou o fim do latifúndio, que continuou a existir porque os grandes proprietários conseguiram forçar o governo a ceder-lhes subvenções, conversões, reversões e outros artifícios. O latifúndio encontrava grandes dificuldades em conseguir a fixação de trabalhadores, o que provocava vários e insistentes pedidos dos fazendeiros para que entrasse no Brasil um número de imigrantes muito superior às reais necessidades da lavoura, fazendo com que a oferta de mão-de-obra excedesse à procura, obrigando os trabalhadores a contentar-se com salários nem sempre razoáveis, podendo serem substituídos com facilidade.

Na realidade, a introdução da cultura do café não havia representado simplesmente uma mudança de gênero de vida, ao contrário, marcou o início de uma revolução social-econômica que deveria constituir a base para a futura industrialização de São Paulo. A esta evolução está estritamente ligado ao concurso do elemento italiano, que contribuiu decididamente com seu braço, não apenas a revelar as culturas abandonadas pelos escravos, mas a valorizar progressivamente a terra. (CENNI, 1975, p. 181)

Áreas até então incultas e cobertas de matas foram sendo ocupadas, devassadas e cultivadas, enquanto ocorria uma importantíssima transformação social, com a superação de antigos preconceitos e o progressivo abandono de complexos perniciosos deixados pela abolição. Foi o imigrante quem conseguiu romper essas barreiras formando uma nova mentalidade que deveria caracterizar a atual plasticidade da população paulista e aquele dinamismo que a torna adaptável a qualquer tipo de trabalho.
Muitos imigrantes, após determinado período nas fazendas, amealhando um pecúlio e familiarizando-se com a língua e os costumes brasileiros, tornaram-se pequenos proprietários ou artífices, dando início a um estágio preparatório para a futura formação de indústrias, que deveria tirar da lavoura os capitais necessários para a sua instalação.

O trabalhador italiano, uma vez dono das terras, não se limitava, como os fazendeiros, a produzir café mas sim introduzir a policultura. Tal iniciativa o colocava a salvo dos golpes sofridos na época da crise da lavoura cafeeira e isto se deve porque nos anos em que o café não era remunerativo, o pequeno proprietário estrangeiro obtinha lucro com os produtos de subsistência. (HUTTER, 1972, p. 100)

O imigrante não entrava em novas terras sozinho: seguia-o o comércio, criava a necessidade de crédito, tornava-se indispensável o povoamento e o desenvolvimento das capacidades construtivas de uma cidade. (CENNI, 1975, p. 183)

A geração proveniente do período da escravidão não poderia ter mudado sua maneira de ser, embora o velho fazendeiro acostumado a não reconhecer outro direito que não o seu, fosse cedendo lugar a uma nova classe dirigente que ia se formando e evoluindo nas cidades.



[ volta ]

Copyright © 2000 - 2002 - Valedoparaiba.com
Este texto pode ser reproduzido total ou parcialmente respeitando sua origem e o nome do autor.
© Copyright 1999 - 2007 - Criolla - Valedoparaiba.com - Todos os direitos reservados - Segurança e Privacidade
Nossa Terra, Nossa Gente I Albúm de Família I Artigos I Banco de Dados I Biblioteca Virtual I Coisas da Terra I Documentos I Enciclopédia
Estudos I Galeria de Autores I Jornais Antigos I Museu I Poesias I Resenhas I Sala de Comunicação I Serviços
Click Ensino I CENEC I Sócio Ambiente I Patrimônio Cultural I Terceira Idade I Cinema no Vale I Juntos no Vale I Balcão de Anúncios
Busca Cep I Cidades da Região I Fale Conosco I Festas Populares I Geografia do Vale I Horóscopo I Imagens do Vale I Institucional
Links Interessantes I Nosso Litoral I Notícias Regionais I Receitas do Vale I Serviços e Produtos