Ao
serem recolhidos na hospedaria,
os imigrantes eram reunidos
e era feita a chamada para
que pudessem receber o auxílio
provincial, que consistia
numa ajuda de custo dada
pelo Governo Provincial,
destinada para cobrir suas
primeiras necessidades até
conseguirem trabalho. Com
o passar do tempo e com
o aumento do movimento,
a hospedaria dos imigrantes
viu-se obrigada a melhorar
suas condições
para melhor cumprir suas
funções e,
em 1887, ela passa a ser
administrada pela Sociedade
Promotora de Imigração.
Dois
tipos de imigrantes se dirigiram
para a Província
da São Paulo, no
final do século XIX:
o espontâneo, que
vinha por conta própria
e o introduzido pelo Governo
Geral ou Provincial ou por
qualquer outro introdutor.
De forma geral, o imigrante
espontâneo destinava-se
à ocupação
das pequenas propriedades
dos núcleos coloniais,
enquanto que o segundo tipo
mencionado ia, quase sempre,
para a lavoura de cafeeira
das grandes fazendas. (HUTTER,
1972, p. 91)
O
imigrante espontâneo
era considerado aqueles
que vinham para a Província
pagando, ele mesmo, a passagem
de navio ou, ainda, os que
eram introduzidos por conta
de contrato com o Governo
Geral embarcavam pagando
um preço reduzido
nas passagens. O governo
brasileiro concedia diversos
benefícios para o
imigrante espontâneo
como alojamento, transporte
até o destino escolhido
por eles, concessão
de um lote de terras apropriadas
para a cultura devidamente
medido e com formas de pagamento
facilitadas.
Os imigrantes italianos
que se dirigiam para o interior
paulista se espalhavam por
toda a zona da lavoura cafeeira
e vinham, em sua maioria,
com famílias constituídas.
Nas fazendas, os imigrantes,
quando não já
as encontravam, construíam
suas casas rodeadas de pomares,
paióis, chiqueiros
e de pequenos pastos, constituindo
assim, pequenos domínios
encravados nos latifúndios
e, atualmente, seus descendentes
constituem boa parte das
populações
das então chamadas
zonas da Mogiana e da Paulista
onde se localizavam grande
parte dessas fazendas de
café.
Enquanto que a Argentina
trabalhava ativamente a
fim de formar na Europa
uma opinião pública
favorável por meio
de uma hábil propaganda,
o Brasil, por sua vez, estava
voltado para seus problemas
internos como a abolição
da escravatura e a consolidação
do regime republicano, e,
por isso, quando passou
a pensar em estimular a
imigração
encontrou o grande obstáculo
de uma ignorância
completa a seu respeito
e uma série de preconceitos
de toda ordem, provocados
por elementos interessados
em sustar o movimento imigratório
para o Brasil que espalharam
todo tipo de propaganda
negativa sobre o país.
No caso brasileiro, o estado,
não possuindo escritórios
de propaganda ou qualquer
organização
própria de estímulo
à imigração
no estrangeiro, foi obrigado
a entregar a procura do
imigrante à sociedade
de colonização
e a empreendedores que,
por sua vez, confiaram o
aliciamento às próprias
companhias de navegação
que, com a certeza de receber
pontualmente as somas correspondentes
às suas despesas
por parte do governo, introduziam
o maior número de
imigrantes possível,
sem a mínima preocupação
de seleciona-los.
A
imigração
também constituía
uma grande fonte de renda
para o estado. O Tesouro
de São Paulo, por
exemplo, tinha gasto em
1901 para a imigração
gratuita cerca de 38.500
contos, enquanto naquele
mesmo período recebia
quase 300.000 contos em
taxas sobre a exportação
do café, contra 3.000
contos recebidos em 1888.
Neste ano, o valor da exportação
do café produzido
em São Paulo alcançou
75.000 contos, enquanto
em 1900 superou os 246.000,
triplicando-o, portanto,
em apenas onze anos. (CENNI,
1975, p. 175)
Talvez seja única,
na história das migrações
humanas, na época
moderna, a transferência
da Itália para outro
país de mais de um
milhão de homens,
em menos de vinte anos.
(CENNI, 1975, p. 176)
Os
estados do Rio Grande do
Sul, Santa Catarina e Paraná
tinham recebido verdadeiros
colonos, isso é,
imigrantes que entravam
imediatamente na posse da
terra e passavam a ser pequenos
proprietários rurais,
gozando de favores especiais
e vivendo sob um regime
que nada tinha a ver com
o latifundiário.
Em
São Paulo, a imigração
processou-se de maneira
inteiramente diferente,
pois não houve colonização,
a princípio, mas
simples importação
de braços para substituir
o braço escravo -
"Formar braços
para a lavoura" era
o que se lia nos jornais
daquele tempo e o que pediam
a todo instante os deputados
na Assembléia Estadual.
Formou-se assim, inicialmente,
em São Paulo, um
proletariado rural ambulante
que sendo simplesmente assalariado,
mudava de patrão
com facilidade.
(CENNI, 1975, p. 181)
A
abolição não
significou o fim do latifúndio,
que continuou a existir
porque os grandes proprietários
conseguiram forçar
o governo a ceder-lhes subvenções,
conversões, reversões
e outros artifícios.
O latifúndio encontrava
grandes dificuldades em
conseguir a fixação
de trabalhadores, o que
provocava vários
e insistentes pedidos dos
fazendeiros para que entrasse
no Brasil um número
de imigrantes muito superior
às reais necessidades
da lavoura, fazendo com
que a oferta de mão-de-obra
excedesse à procura,
obrigando os trabalhadores
a contentar-se com salários
nem sempre razoáveis,
podendo serem substituídos
com facilidade.
Na
realidade, a introdução
da cultura do café
não havia representado
simplesmente uma mudança
de gênero de vida,
ao contrário, marcou
o início de uma revolução
social-econômica que
deveria constituir a base
para a futura industrialização
de São Paulo. A esta
evolução está
estritamente ligado ao concurso
do elemento italiano, que
contribuiu decididamente
com seu braço, não
apenas a revelar as culturas
abandonadas pelos escravos,
mas a valorizar progressivamente
a terra. (CENNI, 1975, p.
181)
Áreas
até então
incultas e cobertas de matas
foram sendo ocupadas, devassadas
e cultivadas, enquanto ocorria
uma importantíssima
transformação
social, com a superação
de antigos preconceitos
e o progressivo abandono
de complexos perniciosos
deixados pela abolição.
Foi o imigrante quem conseguiu
romper essas barreiras formando
uma nova mentalidade que
deveria caracterizar a atual
plasticidade da população
paulista e aquele dinamismo
que a torna adaptável
a qualquer tipo de trabalho.
Muitos imigrantes, após
determinado período
nas fazendas, amealhando
um pecúlio e familiarizando-se
com a língua e os
costumes brasileiros, tornaram-se
pequenos proprietários
ou artífices, dando
início a um estágio
preparatório para
a futura formação
de indústrias, que
deveria tirar da lavoura
os capitais necessários
para a sua instalação.
O
trabalhador italiano, uma
vez dono das terras, não
se limitava, como os fazendeiros,
a produzir café mas
sim introduzir a policultura.
Tal iniciativa o colocava
a salvo dos golpes sofridos
na época da crise
da lavoura cafeeira e isto
se deve porque nos anos
em que o café não
era remunerativo, o pequeno
proprietário estrangeiro
obtinha lucro com os produtos
de subsistência. (HUTTER,
1972, p. 100)
O imigrante não entrava
em novas terras sozinho:
seguia-o o comércio,
criava a necessidade de
crédito, tornava-se
indispensável o povoamento
e o desenvolvimento das
capacidades construtivas
de uma cidade. (CENNI, 1975,
p. 183)
A geração
proveniente do período
da escravidão não
poderia ter mudado sua maneira
de ser, embora o velho fazendeiro
acostumado a não
reconhecer outro direito
que não o seu, fosse
cedendo lugar a uma nova
classe dirigente que ia
se formando e evoluindo
nas cidades.