Estudos
A Imigração Italiana na Cidade de Guaratinguetá
(1880 - 1930)
  
   



Marco Antonio Giffoni Junior

Conclusão
 

Conforme pudemos verificar no decorrer do trabalho, a imigração italiana em Guaratinguetá possui muitas das características comuns à outras regiões do Brasil.
Os italianos chegaram aqui num momento em que a Itália passava por um processo de unificação que resultou numa grave crise econômica que gerou diversos transtornos na vida dos habitantes deste país, provocando um grande descontentamento por parte dos patrícios, que passaram a cogitar a transferência para outros locais onde pudessem ter condições de prosperarem e de levar uma vida melhor.
O Brasil, nesse mesmo período, enfrentava uma grave crise de mão-de-obra, que começara com a proibição do tráfico negreiro em 1850, agravando-se ainda mais com a assinatura da Lei Áurea em 1888 libertando os escravos, o que trouxe grandes prejuízos para os cafeicultores, que foram obrigados a procurar uma nova alternativa de substituição de mão-de-obra pois, não estavam dispostos, devido ao preconceito de raízes da época colonial, de transformar os agora ex-escravos em trabalhadores assalariados.
A solução encontrada para substituir os escravos nas lavouras foi a introdução dos imigrantes nas mesmas. A princípio optou-se pelo sistema de parceria, sendo o senador Vergueiro o primeiro a tomar tal iniciativa, mas que não deu certo devido a má-fé tanto dos cafeicultores quanto dos imigrantes. Com isso buscou-se então uma nova opção, que foi o trabalho assalariado e, assim, um grande número de imigrantes estrangeiros dirigiu-se para o Brasil, sendo o italiano detentor do maior contingente que emigrou para o país, chegando a representar a maior percentagem de toda a imigração nesse período.
Os imigrantes se dirigiram, em sua maioria, para as fazendas de café do Estado de São Paulo, enquanto um outro contingente se instalou nos centros urbanos onde desenvolveu diversas atividades.
No Vale do Paraíba, a transição de mão-de-obra escrava para a assalariada ocorreu de forma mais traumática do que em outras regiões do Estado, pois, a economia cafeeira nessa região estava totalmente baseada no braço escravo. Os fazendeiros valeparaibanos possuíam uma mentalidade diferente dos cafeicultores do Oeste de São Paulo, que consistia em manter todo o seu capital investido em terras e escravos e, por esse motivo, tentaram de toda forma colocar empecilhos para imigração.
Os europeus que emigravam para o Brasil, de um modo geral, vinham com o objetivo de tornarem-se proprietários de uma propriedade territorial e, o governo brasileiro, conscientizando-se de que a imigração, além de organizar a mão-de-obra, também era a responsável pela formação de elementos que contribuiriam para a formação da nacionalidade do país, se propõe a facilitar ao imigrante a aquisição de terras e, com essa finalidade são criados os núcleos coloniais que, no Estado de São Paulo, localizavam-se em diversas regiões, dentre elas o Vale do Paraíba.
Na região do Vale do Paraíba, as colônias de maior destaque foram as de Quiririm, em Taubaté; a de Boa Vista, em Jacareí; a de Canas, em Lorena e a de Piaguí, em Guaratinguetá.
A cidade de Guaratinguetá recebeu um grande número de imigrantes italianos que se instalaram tanto no meio rural, onde ocupou lotes na Colônia do Piaguí, quanto no meio urbano, onde desenvolveram as mais variadas atividades. Assim como os demais imigrantes que se deslocaram para outras regiões do país, o imigrante italiano veio para Guaratinguetá com o objetivo de prosperar, ou seja, encontrar um local para trabalhar, adquirir bens e constituir família.
O século XX foi marcado por diversos fatos importantes como o pioneirismo da imprensa regional e o desenvolvimento do setor educacional, com a instalação da Escola Complementar, o Ginásio Nogueira da Gama, a Escola de Comércio e a Escola de Farmácia. Surgem os clubes, o teatro e o mercado. Esse mesmo século presencia a decadência da produção cafeeira e o surgimento de novas alternativas que substituirão o café como a pecuária, a industrialização e o comércio. Na segunda metade deste mesmo século surgem a Escola de Especialistas da Aeronáutica, a Faculdade de Engenharia (UNESP) e o SENAC.
Atualmente, com uma população de 104.219 habitantes, segundo o censo do IBGE do ano de 2000, o município ocupa uma área de 751 km, a uma altitude de 530 metros acima do nível do mar (Estação Ferroviária), possuindo um clima quente e seco e situa-se a cerca de 176 km da cidade de São Paulo e a 237 km do Rio de Janeiro. É servido por estradas de rodagem como a rodovia Presidente Dutra (Nova Dutra) e por outras estradas que o interligam com as cidades vizinhas, o litoral do Rio de Janeiro e o estado de Minas Gerais, além de ser servida pela ferrovia (MRS Logística) e por um aeroporto de pequeno porte.


Vista aérea da cidade de Guaratinguetá (1985). Foto pertencente ao acervo do Museu Frei Galvão - Arquivo Memória de Guaratinguetá.
A economia da cidade está baseada no comércio, na industrialização e na agricultura. O setor turístico encontra-se ligado à religiosidade, com grande movimentação de turistas e romarias que se deslocam à cidade por causa de suas devoções à Frei Galvão e à Gruta Nossa Senhora de Lourdes, além de peregrinarem pelos outros templos religiosos do município que, assim como várias outras construções datadas da época colonial e do ciclo do café, reúnem uma diversidade cultural e artística. Na zona rural, esse potencial turístico concentra-se nas encostas da Serra da Mantiqueira e no caminho para o Mar e, na zona urbana, destacam-se a arquitetura e a cultura, ocorrendo uma fusão entre o passado e o presente, traços marcantes no município.
A fundação da Colônia do Piaguí, em 1892 e a chegada de um grande número de imigrantes italianos para Guaratinguetá, coincidiu com o período de transição entre a já decadente lavoura cafeeira e o desenvolvimento e consolidação de outras alternativas de substituição a essa economia, no caso a pecuária, a indústria e o comércio.
Os italianos participaram ativamente dessa fase, marcando-a profundamente com sua influência que se estende aos setores político, econômicos e sociais do município, de onde podemos supor que tal fato pode ter sido decorrente de uma maior facilidade de adaptação desses imigrantes na comunidade do que em outras cidades da região, ainda bastante ligadas à escravidão. Isso se deu em virtude de uma conscientização por parte das elites que dominavam a política local, encabeçadas pela família do ex-presidente Rodrigues Alves, que se conscientizaram de que os quadros econômicos precisariam ser mudados em virtude da abolição e da decadência do café e, com isso tornaram-se simpatizantes da questão da imigração, fazendo com que o município aceitasse com mais facilidade o imigrante. A esse fato soma-se o processo de urbanização pelo qual passava a cidade, gerando um contexto de onde o imigrante tornou-se parte integrante e atuante.
Esses imigrantes italianos, assim como seus conterrâneos que se instalaram no Oeste Paulista não se limitaram somente à monocultura pois, no setor rural desenvolveram outras atividades, dentre as quais a agricultura de subsistência, produzindo excedentes que eram comercializados na cidade, uma prática até então desconhecida no município. E no setor urbano, para onde se dirigiram muitos imigrantes que vieram para o Brasil com o objetivo de se tornarem comerciantes ou artífices, muitos instalaram casas comerciais, pequenas indústrias além de se dedicarem à execução de atividades artesanais, sem esquecer, entretanto, do aspecto cultural onde o também mostrou sua influência, modificando profundamente os hábitos e o modo de vida dessa comunidade, contribuindo desse modo decisivamente com o desenvolvimento da cidade de Guaratinguetá, cujos efeitos podem ser notados até os dias atuais.

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