Estudos
Patrimônio cultural: revitalização e utilização
  
   


 

PATRIMÔNIO CULTURAL: REVITALIZAÇÃO E UTILIZAÇÃO

Por Fábio José Garcia dos Reis

PATRIMÔNIO E IDENTIDADE

A preservação do patrimônio tem entre suas funções o papel de realizar "a continuidade cultural", ser o elo entre o passado e o presente e nos permite conhecer a tradição, a cultura, e até mesmo quem somos, de onde viemos. Desperta o sentimento de identidade. Margarita Barreto defende a "recriação de espaços revitalizados", como um dos fatores que podem "desencadear o processo de identificação do cidadão com sua história e cultura (Barreto, 2000. p.44).

No século XX a sensação da fragmentação da identidade, da perda das referências culturais, despertou no homem o desejo de "retorno a algo perdido", ou seja, a necessidade de buscar manifestações culturais que pertencem a seu passado vivo, a comportamentos que deixaram de ser comuns, pois o frenesi contemporâneo exige atitudes da sociedade globalizada.

Pertencer a uma identidade cultural significa descobrir-se, ser diferente dos comportamentos globais. Por isso, patrimônios culturais intangíveis como as formas de manifestações lingüísticas, de relacionamento, de trabalho com a terra e a tipificidade da culinária, o cultivo e o preparo do vinho, os passos das danças tornaram-se patrimônios da cultura e demonstram a riqueza da relação entre identidade e diversidade da cultura brasileira.

O Centro Unisal, o Instituto de Estudos Valeparaibanos, os historiadores, arquitetos, os jornalistas, os antropólogos, os arquitetos e os jornalistas, entre outros, demonstram-se preocupados com o uso do patrimônio, com a descaracterização de casarões, fazendas e outras construções de caráter histórico e com a banalização de rituais, danças e comportamentos, por sua exposição e uso indevido. Podemos citar como exemplo a apropriação pelos agentes de turismo dos bens culturais, que podem se tornar espetáculos, shows e renderem-se ao apelo capitalista, deixando de serem elementos de uma tradição, de uma cultura ou monumentos que representam determinado momento histórico, para se tornarem exclusivamente atrativos turísticos, perdendo a referência com a comunidade e com história. Concordo com Barreto quando afirma que a revitalização do patrimônio tem contribuído para a: "recuperação de identidades locais ameaçadas em todas as partes do mundo pelo avanço de uma única cultura hegemônica, que se impôs nas últimas décadas na música, no vestuário, na alimentação, nas formas de lazer e de consumo" (Barreto.2000, p.44).

A dinâmica dos tempos nos revela que as culturas não se congelam, adaptam-se. As trocas culturais são comuns. Por outro lado, as comunidades que se organizam para revelar seu patrimônio, que assumem sua identidade e que recuperam formas tradicionais de culinária, danças e festas estão tendo oportunidade de revelar para a sociedade globalizada suas diferenças, peculiaridades e modos de comportamento. Está, justamente, no ser diferente que reside a geração de renda, emprego e visualização de que a tradição cultural deve ser encarada como identidade da comunidade, fazendo com que as pessoas não necessitem ser como todos são. Não tenho dúvida de que a cultura globalizada, de que o comportamento tipicamente consumista e capitalista geram impactos, interferem nos comportamentos tradicionais, transforma bens culturais em produtos de consumo. Por isso, a revitalização e os estudos sobre as formas de uso e interação com o patrimônio devem ter profissionais capazes de pensar nestas questões, de apontarem alternativas. As pesquisas e debates devem ser multidisciplinares e terem como referência a comunidade e seu patrimônio. Barreto escreve sobre os equívocos da revitalização; defende, porém, estudos que proporcionem a manutenção da identidade. A recuperação da memória fortalece a cidadania e a valorização do patrimônio. Barreto afirma que:

"Embora todos os problemas antes mencionados sobre a transformação da história e do patrimônio em bem de consumo e o fato real de que há uma ressignificação nesse processo, acredita-se que é sempre uma melhor opção do que o esquecimento da história, do que a marginalização de bairros ou do que a derrubada de prédios por causa da especulação imobiliária" (Barreto. 2000, p.51).

PATRIMÔNIO E COMUNIDADE

Ao pensarmos na revitalização do patrimônio, temos que necessariamente discutir, os mecanismos de tombamento, os recursos financeiros e humanos disponíveis e as alternativas de uso. Acima de tudo, o processo de revitalização tem que ser benéfico para a sociedade, ao transformar o lugar em um espaço agradável para os cidadãos e para os turistas. Deve, ainda, respeitar as características culturais da população e da arquitetura das construções, não podendo distorcer o seu significado artístico.

O uso adequado do patrimônio tem que exercer duas funções: garantir o respeito à cultura, inclusive no que se refere aos estilos artísticos e garantir o significado histórico e a comunidade, que não pode ser excluída do processo de decisão sobre o uso do patrimônio ou mesmo dos benefícios econômicos advindos da atividade turística. O desenvolvimento tem de representar a inserção social, pois entendo que a participação é essencial para que os impactos não degradem o lugar e os confrontos entre comunidade e turistas não se estabeleçam; além disso, o lugar deve gerar empregos para a comunidade, oportunidade de comercialização do artesanato e de prestação de serviços. Paralelamente, as escolas necessitam fortalecer os estudos sobre a história e cultura local.

Ulpiano Meneses discute de forma consistente a questão do uso da cultura. Coloca como temas para reflexão problemas como a cenarização das cidades, o fetichismo da cultura, o consumo do bem cultural, o desenraizamento dos turistas, ou seja, põe em debate o tipo de turismo que praticamos. Em sua análise, as alternativas para o desenvolvimento do lugar através do turismo não são analisadas. Entendo que são questões sérias que devem compor a pauta das discussão sobre os empreendimentos turísticos. Mas temos que levar em consideração experiências mundiais: a revitalização do patrimônio tem contribuído para o desenvolvimento dos lugares; manifestações culturais estão se fortalecendo e as comunidades percebem que a riqueza da identidade representa um impulso à continuidade da herança cultural e a geração de emprego e renda.

PATRIMÔNIO E FORMAS DE USO

Num momento em que redescobrimos o valor do patrimônio, como elemento de identidade cultural, torna-se comum a discussão sobre as formas de seu uso. Percebemos lentamente o interesse do governo federal e até mesmo dos gestores estaduais pelo patrimônio. Países europeus como Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, França, República Tcheca e outros perceberam que investir na restauração e preservação dos bens culturais, trouxe o benefício da dinamização do turismo, ao mesmo tempo que fortaleceu a identidade nacional. Conseqüentemente, empresários e sociedade organizada se beneficiaram com o aumento da riqueza interna, pois o turismo gerou negócios e empregos. Os patrimônios possuem a estrutura necessária para receber os turistas, que encontram sinalização adequada, folhetos, guias e uma série de serviços para a visitação do bem cultural.

Américo Pelegrini apresenta vários exemplos de patrimônios usados para fins culturais e que viabilizam a manutenção de heranças culturais, assim como, o consumo da própria cultura (PELLEGRINI FILHO, 1993. págs. 112 a 116) A argumentação de Margarita Barreto sobre o uso do patrimônio são interessantes, ao indicar que um centro histórico ou bairro revitalizado pode se transformar em "site museums", entendidos como "museu de sítio" ou, ainda, "museu no local", onde os espaços podem ser preparados para representar uma época: construções, vestuário, culinária e costumes devem "espelhar" uma época, fazendo com que os visitantes conheçam a história e a cultura (BARRETO, 2000. p 58 e 59). É, inclusive, uma forma da população local conhecer-se e discutir sua identidade.

Os site museums, permitem a sustentabilidade econômica do lugar, pois atraí turistas e investimentos, por outro lado, há perigo de tornar estes lugares cenários sem vínculos com a comunidade, servindo de bens de consumo ou lugares em que o setor privado se beneficia com os lucros e a comunidade transforma-se, unicamente, em uma referência da cultura, não participando do processo das decisões sobre o planejamento turístico do lugar. O sucesso destas experiências deve representar o desenvolvimento que mantenha a herança cultural, que insira a comunidade e que amplie os investimento, os empregos e a renda do lugar. É fundamental que o empreendimento seja precedido de pesquisas, de um sério trabalho de restauradores, historiadores, arquitetos, antropólogos e outros profissionais capazes de contribuir com a reconstrução de época.

Portando, o fortalecimento da identidade cultural, passa necessariamente pela questão do patrimônio, como elemento que fortalece o sentimento de pertencimento a uma comunidade, cultura ou tradição, que permite realizar o elo entre passado e presente. Tornar um casarão ou fazenda do século XIX um museu representa o fortalecimento da identidade cultural, da geração de conhecimento, e de formação para os cidadãos e fundamentalmente para o desenvolvimento sustentável.

Temos que discutir sistematicamente a revitalização dos lugares de turismo, ampliando os espaços de manifestação cultural e de lazer, criar mecanismos de preservação do patrimônio, para que nossas identidades culturais se fortaleçam, ou mesmo, para que possamos compreender nossa diversidade, tornando o patrimônio uma referência da história e tradição. É necessário ampliar o senso de cidadania e viabilizar o seu uso de forma adequada para que possa ser um fator de conhecimento, formação, interação e geração de renda e emprego.





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