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O
Espiríto Liberal e a vitória
do conservadorismo
Por
Francisco Sodero Toledo
Do
ideal ao real
“Logo, logo!... pois assim o exige a salvação da Liberdade.”
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Convocação
do comando revolucionário – Lorena,
junho de 1842.
A
revolta liberal no Vale do Paraíba
começou em Lorena, a 1º de junho.
Sob as ordens do Padre Manuel Theotônio de Castro queima-se
um foguete no ar, como sinal previamente
combinado, e um grupo mais de quarenta
pessoas toma de assalto o quartel
da Guarda Nacional, operando-se
do armamento ali existente. No dia
seguinte, reúne-se a Câmara sob
o comando dos liberais revoltosos,
demitindo os conservadores de suas
funções públicas. A 3 de junho aclama-se
a Junta Provisória para o governo
do Distrito. A Presidência do Diretório
Revolucionário e o Comando Geral
das Forças Revolucionárias são assumidos
pelo Padre Manuel Theotônio de Castro.
Organiza-se
o movimento que se estende pela
área mais próxima: Embaú, Queluz
e Silveiras. As tropas são organizadas
em “Companhias” que chegam a contar
com cerca de 1000 homens disponíveis
para a luta. (2,78) Cresce o ânimo
dos liberais. O sonho da liberdade,
da pátria livre, de maior autonomia
às províncias e municípios e de
maior participação popular está
por se realizar.
Mas
a realidade era outra. Os revoltos
tinham dificuldades de comunicação
e estavam desarticulados do movimento
de outras regiões. Não havia munições
e nem preparo militar central encontravam-se
postadas em pontos estratégicos:
em Guaratinguetá (batalhão do Corpo
de Fuzileiros vindos por São Sebastião);
e, em Bananal (corpo de Permanentes
da Corte), impedindo que o movimento
se alastre pela região, além de
bloquear o contato com a Província
do Rio de Janeiro.
A
“Revolução” almejada estava fadada
ao insucesso.
De
Lorena a Silveiras
“Os liberais de Silveiras criaram um verdadeiro clima de guerra. Por toda
a diminuta Vila passavam homens
com seu poncho e suas armas, dirigindo-se
às reuniões, onde era servida muita
aguardente e se falava da ‘lei bárbara’
e na caçada que iam fazer aos ‘caras’,
apelido pejorativo dado aos conservadores.”
J. G. Evangelista
Se
a revolta dos liberais no Vale do
Paraíba Paulista começou em Lorena,
é em Silveiras que ocorrem os mais
importantes episódios do movimento.
Em
Silveiras, um dos líderes dos liberais
era o vigário Manuel Felix de Oliveira,
filho do Juiz de Paz Francisco Felix
de Castro. Família importante do
lugar, oriunda de Minas Gerais.
Os de Felix eram inimigos políticos
(como consta em processo de 1841)
de Manuel José da Silveira, um dos
esteios do Partido Conservador no
local, descendente de antigo povoadores
da região e dos fundadores do lugarejo.
A
ordem dos liberais era de que as
novas autoridades, especialmente
o subdelegado de polícia, o Capitão
Silveira, nomeado pelo chefe de
Polícia da Província e não pelo
Juiz de Paz, e seus auxiliares não
tomassem posse. E, se o fizessem,
fossem mortos. O subdelegado, mesmo
diante das ameaças, resolve tomar
posse do cargo.
Aliando
às rivalidades pré-existentes entre
famílias e grupos locais, aprofundadas
com o acirramento das lutas políticas,
torna-se muito tenso. O confronto
torna-se inevitável. Tem início
com o ataque à casa do Capitão Silveira.
De
Lorena é enviada uma tropa constituída
de 400 homens, sob o comando do
tenente Anacleto Ferreira Pinto,
do Capitão José Ventura de Abreu
(cunhado de Anacleto) e do Padre
Manuel Felix de Oliveira. Todos
liberais.
Às
onze horas do dia 2 de junho a tropa
dos revolucionários, após dominar
o povoado, cerca a casa do Capitão
Silveiras. Um sobrado, hoje Casa
Paroquial, onde se encontrava entrincheirado,
com mais de 60 homens, com pouca
munição. Na manhã do dia seguinte,
após breve tiroteio, os padres Antonio
José da Mota de Carvalho e Manuel
Felix de Oliveira entram no prédio
para parlamentar com os sitiados,
oferecendo garantia de vida a todos,
“desde que saíssem desarmados”.
O que foi aceito pelo subdelegado
por se encontrar com as munições
esgotadas, sem esperança de socorro,
procurando evitar expor ainda mais
a vida de seus companheiros. Pouco
depois do meio dia abriu-se a porta
do sobradinho e os homens começaram
a sair desarmados. O Capitão Silveira
foi o último. Já ferido, ao chegar
à porta foi alvejado por Antonio
Bueno da Cunha, Manoel Alves Sene
e Vicente Moreira da Costa e cai
morto! Sua cabeça foi arrebatada,
sua japona roubada e o corpo espedaçado.
Foi enterrado pelo próprio filho,
no campo da fazenda.
Os
revoltosos passam a dominar todo
o município.
Os
Combates
“Os rebeldes de Silveiras foram os únicos que ofereceram alguma resistência
e por isso pagaram caro a sua audácia.”
Luis Alves de Lima e Silva
(Em carta dirigida ao Barão de Monte Alegre, junho
de 1842)
Face
a evolução do conflito, o confronto
direto entre as tropas legais e
dos liberais não tardaria a acontecer.
No
final do Mês de junho (21 a 23),
ocorrem combates próximos à cidade
de Areias. Os Permanentes são contidos
e os revoltosos permanecem em uma
fazenda próxima à Vila: a Fazenda
São Domingos, entre Areias e Silveiras.
A 24 de junho o Major Pedro Paulo,
comandante dos Permanentes, ataca
se surpresa e os revoltosos foram
debandados. Inclusive o seu chefe,
“o Padre Manuel Theotônio que fugiu
numa besta, levando na garupa um
Companheiro”(2,79).
As
tropas revolucionárias concentram-se
a partir de então em Silveiras,
onde se dá o último e sangrento
combate. Em 12 de julho as tropas
dos liberais entrincheiraram-se
nas proximidades da Vila, em torno
dos morros. Tratava-se no local
o violento “combate das Trincheiras”.
De um lado, as tropas dos revoltosos
e, de outro, as tropas do Coronel
Manuel da Silva que já havia ocupado
e imposto a ordem em Lorena. Depois
de algumas horas de luta os legais
dominaram o sítio estratégico e
os rebeldes abandonaram as “trincheiras”.
Ao findar o combate existem 8 mortos
e 19 feridos dos aproximadamente
600 combatentes liberais que lá
se encontravam sob o comando do
tenente Anacleto.
Em
carta dirigida ao Barão de Monte
Alegre escreve:
“O grupo de rebeldes de Silveiras foi destroçado pelas forças legais comandadas
pelo Coronel Manuel Antônio da Silva...
Está a comunicação com Areias e
a Capital do Império inteiramente
desembaraçada e a Província livre
do último grupo rebelde que ainda
se conserva armado”.
Após
o combate seguiram-se cenas de saques,
perseguições e morte. A repressão
governamental é violenta. No dia
12 o Coronel Manuel Antônio concede
a seus soldados “um saque sem prazo”.
No dia seguinte, o batalhão de Fuzileiros
chega de Areias e novo saque se
realiza.
Em
1857, o fazendeiro Manoel Elpídio
de Queiroz, em viagem para o Rio
de Janeiro, ao passar pela Vila,
escreve: “...chegamos à desgraçada
Vila de Silveiras, pois deve o ser
desgraçada ao seu espírito liberal.
Em 1842 sofreu um saque de que até
hoje se recente a povoação... Nada
pode tornar Silveiras notável, senão
o espírito liberal que ahy reina”.
O
Espírito Liberal
A
revolta liberal iniciada em Lorena
estava fadada ao insucesso. E o
insucesso político raras vezes tem
sido objeto de análise dos historiadores
daí decorrem as dificuldades e a
necessidade do estudo deste acontecimento.
Procurando recuperar a caminhada,
programas fracassados, derrotas
e utopias. Pois nada garante que
o vencedor foi sempre o melhor.
Quem
eram os liberais? O que pretendiam?
Quais os limites e as contradições
entre a teoria e a prática política?
Quais os reais interesses em jogo?
A documentação até então utilizada
remete, inicialmente, para a composição
heterogênea do grupo dos membros
do clero; e pequenos proprietários
e trabalhadores em geral. Por detrás
do movimento, orientando e estimulando
a revolta, estava a “Sociedade dos
Patriarcas Invisíveis”.
A
“Sociedade dos Patriarcas Invisíveis”
era uma sociedade secreta fundada
por José Martiniano de Alencar,
possuindo sua rede central na cidade
do Rio de Janeiro. O seu objetivo
era, recorrendo ao expediente das
sociedades secretas “sustentar e
defender a Independência do Brasil
e a Constituição”. Ela organizava-se
nas Províncias a partir de 5 a 10
“cidadãos brasileiros” que formam
o Conselho Patriarcal, propagando-se
a partir de então pelas mesmas.
Em cada Vila as reuniões são realizadas
pelos “Círculos” eram isolados e
desconhecidos uns dos outros. O
que dificultou a articulação do
movimento. Nenhum membro do “conselho”
ou “Círculo” deveria ser reconhecido.
O segredo constituía uma das obrigações
de seus membros.
A
pesquisa realizada, até o momento,
permite concluir ter existido um
“círculo” organizado e ativo na
Vila de Lorena. As atas de reuniões
e demais documentos, se ainda existem,
encontram-se desaparecidos.
Entre
os considerados “cabeças da rebelião”,
no processo crime instaurado pelo
Poder Central, estão arrolados diversos
padres. Da região do Vale do Paraíba
Paulista são citados como réus os
padres: Manuel Theotônio de Castro,
de Lorena: Manuel Felix de Oliveira,
de Silveiras; Germano Feliz de Oliveira,
de Queluz; e, Francisco Ribeiro,
de bananal. Outros sacerdotes aparecem
com envolvimento menor. A presença
do clero revolucionário neste acontecimento
e nas revoltas políticas da primeira
metade do século XIX no país se
prende a sua participação desde
o período da Independência, influenciado
pelo pensamento iluminista. Progressivamente,
pare significativa do clero brasileiro,
sobretudo o clero urbano e letrado,
passou a exercer as suas atividades
no Brasil sob a influência do pensamento
liberal.
Esses
clérigos intelectuais-liberais,
muitos oriundos de família de elite,
não se tornaram, como no caso do
clero valeparaibana, grandes teóricos
das doutrinas liberais. Mas, assinalaram
alguns pontos dos quais percebiam
a necessidade de mudança, como:
a liberdade do indivíduo, os direitos
do homem. Sobretudo, procuraram
traduzi-lo na prática, participando
ativamente da conspiração e de movimento
revolucionários.
O
clero denominado “liberal”, tem
uma atitude avançada e contraditória.
Rompem com a tradição nitidamente
conservadora que perpassa toda a
história do pensamento brasileiro.
Contraditória em relação à própria
estrutura da Igreja Católica. Como
bem demonstra Riolando Azzi:
“Desvincularam-se, pela primeira vez, da tradicional posição de suporte
da ordem colonial mantida pela Igreja,
ruptura difícil, pois implicava
em atritos não apenas com o poder
político da Coroa, mas também, com
a doutrina e a prática da própria
hierarquia eclesiástica. (1,241)...
A participação numa política oposicionista
constituiu uma das características
mais significativas dos clérigos
neste período... Visando colocar-se
de forma mais expressiva na defesa
de interesses mais amplo de população
brasileira, afastando, assim, da
convivência com as elites dominantes,
embora, por sua vez, de maneira
ambígua”. (1,8)
A
partir de 1842, com a vitória dos
conservadores, afirma-se de forma
estável o poder central, com apoio
da oligarquia agrária cafeeira.
Nesses anos do início do 2º Reinado
tem início também o processo de
reforma da Igreja com a implantação
de um projeto eclesiástico marcadamente
ultramontino. Resultado: nem o projeto
político de cunho liberal, nem o
projeto eclesiástico elaborado de
uma Igreja de caráter mais nacional,
com maior autonomia de Roma, conseguem
se impor na sociedade.
O
clero liberal envolvido nas revoltas
de 1842 foi perseguido, preso e
processado. Colocado sob a vigilância
e o controle do poder central. A
igreja iniciava seu processo reacionário.
Em carta pastoral dirigida ao clero
de Lorena e região, em julho de
1848, Lourenço Justiniano Ferreira,
bispo de São Paulo, exorta aos párocos:
“para suas necessidades espirituais...” que deviam “dar exemplo de caridade,
moderação... lutando a fim de que
consigam a felicidade eterna.. conservando
sempre alheio as questões políticas...
Exortemos para que todas as suas
forças por meio de suas palavras,
exemplo, promovam a união de todos
os brasileiros fazendo com que sem
exceção que todo e qualquer ressentimento
que eles possa haver, com que farão
grande serviço a Deus e ao estado”.
Concluindo “Espero que todos os eclesiásticos cumprão estas minhas exortações”. (Livro Tombo de Lorena)
Caminha-se
para a idéia da unidade, da moderação,
da ordem, reforçando o caráter conservador
da sociedade que prevalece até os
dias atuais.
Á
frente do movimento encontram-se
membros da poderosa aristocracia
rural do Vale do Paraíba. Destacando-se
o Capitão Mor de Lorena, Manoel
Pereira de Castro, pai do padre
Theotônio, membro da Junta Provisória
revolucionária, o futuro Visconde
de Guarátinguetá, os Breves de Bananal
etc.
A
escassez de documentos e o breve
desenlace da revolta não permitem
um juízo mais seguro sobre os reais
interesses da participação destes
influentes personagens da história
regional. Por um lado, acredita-se
que lutavam contra as leis que formaram
o “retrocesso conservador”, contra
as oligarquias com o apoio da Sociedade
dos Patriarcas Invisíveis. Por outro
lado não se pode descartar a hipótese
de estarem voltados para luta pelo
Poder, para o exercício do mando
político local. Almejando, no fundo,
a maior fatia deste poder político
e ampla autonomia econômica.
Merece
especial atenção a presença de pequenos
proprietários e de trabalhadores
em geral, ou seja, elementos das
camadas populares no movimento.
O estudo desta participação torna-se
tarefa difícil principalmente por
se constituírem figurantes mudos
nos documentos. Raramente têm voz.
Somente aparecem, após a derrota,
nos processos crimes, como testemunhas
deste ou daquele fato. Como neste
trecho encontrado num dos processos
crimes pesquisados: perguntando
sobre o motivo da revolta, responde
um dos envolvidos: “iam ser todos
recrutados... os recrutados deixariam
suas famílias em desgraça e que,
portanto, se haviam de fazer guerra
em país estranho, então guerreavam
já aqui, pois morrer por morrer,
morreriam já aqui na Pátria”.
A
revolta de 1842 apresenta-se, sem
dúvida, para muitos destes homens,
como a possibilidade de conquistar
maior participação no cenário político
e de se livrar da sua secular submissão,
ampliando o estatuto do homem livre,
melhorando sua vida material. Viviam
até então às margens da sociedade,
eram os “excluídos”. Estavam longe
de ser cidadãos, a participação
política era, até então, privilégio
de uma elite de proprietários.
Os
estudos de Lucila Hermann (3) sobre
a região, no período, ajudam a comprovar
esta
hipótese. Segundo ela, o
comércio à beira das estradas no
Vale do Paraíba havia aberto a possibilidade
de ascensão econômica futura aos
sem-terra e pequenos sitiantes,
proporcionando maior diferenciação
social e econômica entre os indivíduos,
tendendo à formação de uma classe
média na região. Este fato, somando
à disputa cada vez mais renhida
pelo poder político local envolvendo
e dividindo a aristocracia agrária,
a penetração de novas idéias (liberais0
motivam os homens pertencentes às
camadas populares a ter uma participação
ativa no movimento de 1842.
A
Vitória dos Conservadores
“Os de Lorena e Silveiras são aqueles que mais elementos e predisposições
têm para a desordem e para a resistência;
convém demonstrar essas influências
perniciosas, repugnantes com o estado
social e com a civilização”.
J. T. Nabuco de Araújo
(Ministro da Justiça do Império, 4-1 – 1853)
Com
a derrota dos liberais, medidas
são tomadas para a volta à normalidade,
favorecendo os Conservadores.
Em
18-06-1842 os municípios de Lorena,
Guaratinguetá, Silveiras, Cunha,
Queluz, Areias e Bananal foram incorporados
à Província do Rio de Janeiro. Assim
permanecendo até 29 de agosto do
mesmo ano.
No
dia 9 de julho o Capitão José Vicente
de Azevedo, conservador, cunhado
e inimigo político do Padre Theotônio,
por este perseguido no início do
conflito, tende por isto que se
refugiar por 49 dias em Guaratinguetá,
retorna à Vila de Lorena. Assume
o cargo de Juiz Municipal e delegado
Suplente e o controle da situação
no município.
O
ano de 1842 assinala, a nível nacional,
o término do período revolucionário
de cunho liberal no país. As revoltas
liberais e as rebeliões populares
são contidas e controladas. As províncias
se organizam de modo a ficar em
sintonia com a política centralizadora
do Império. Vencem os conservadores
neste período crítico da afirmação
da nacionalidade. Vitória da elite
branca escravocrata, da oligarquia
agrária cafeeira. Vitória, enfim,
do conservadorismo.
A
partir de então, procura-se calar
as vozes e pensamentos discordantes,
como atesta a manifesta preocupação
do Ministro da Justiça com os liberais
que continuavam a dominar a vida
política em Lorena e Silveiras.
Caminha-se
para a “Consolidação Nacional”.
Procura-se apagar a idéia do conflito
político entre as idéias e programas
dos liberais e dos conservadores.
Os próprios liberais cuidam de preservar
as leis que combatiam, por “perceberem”
que elas são essenciais à defesa
da ordem. A idéia da ordem passa
a prevalecer. Nada mais será tão
parecido com um conservador do que
um liberal. A aristocracia agrária
cafeeira conservadora e seus aliados
(grandes comerciantes, banqueiros),
especialmente do Sudeste, se unem
para fazer valer seus interesses
econômicos e políticos, além de
garantir seus privilégios.
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