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Revolta
de 1842
Por Francisco Sodero Toledo
O
Movimento Liberal ocorrido no ano
de 1842 se inscreve no quadro das
rebeliões ocorridas no período regencial
e no início do 2º Reinado. É constituído
por uma série de revoltas sucessivas
caracterizadas pela: fraca organização,
falta de comunicação e articulação
dos rebeldes, inexistência de recursos
militares adequados e rápida e violenta
repressão do governo central.
O
movimento se estende por três meses,
durante os quais ocorrem deslocamento
de tropas, combates, tensão, medo,
perseguições, violências e, finalmente,
a acomodação.
Tem
início em Sorocaba, em 17-5, sob
o comando de Rafael Tobias de Aguiar,
contando com o apoio do Padre Diogo
Antônio Feijó, figura proeminente
da vida política do Império. Estende-se
por Itu, Porto Feliz, Piracicaba,
Tatuí, Capivari, São Roque, Atibaia,
Itapetininga e Campinas. O movimento
nesta região termina em 20 de junho
com a entrada de Caxias em Sorocaba
e o conseqüente domínio da situação
da região.
No
Vale do Paraíba Paulista tem início
em 1º de junho em Lorena, se estendendo
pela região, atingindo Silveiras,
Queluz e Areias. Termina a 12 de
junho com o “Combate das Trincheiras”.
O
último foco ocorreu em Minas Gerais.
Ali o movimento teve início em 10
de junho, sob o comando de José
Felício P. da Cunha, contando com
o apoio, entre outros, de Teófilo
Ottoni. Estende-se por importantes
cidades mineiras, terminando em
20 de agosto após a derrota definitiva
dos liberais no “Combate de Santa
Luzia”.
“Progresso
Liberal” & “Regresso Conservador”
O
motivo fundamental da eclosão do
Movimento Liberal de 1842 está ligado
ao resultado dos confrontos entre
duas tendências marcantes que atravessaram
os períodos do 1º Reinado (1822-1831)
e das Regências (1831-1840): a do
“Progresso Liberal” e a do “Regresso
Conservador”. Constituindo o pano
de fundo da evolução política brasileira
de então, ocorre o jogo de forças
de tendências liberais e conservadoras.
O
“Progresso Liberal” sofre as influências
do Iluminismo e do Liberalismo.
Assim, as idéias básicas defendidas
estão de acordo com o liberalismo
político da primeira metade do séc.
XIX, como, por exemplo, o federalismo,
a convicção de reduzir a ação do
Estado, a defesa das liberdades
individuais e da Monarquia Constitucional.
Defendiam, enfim, a descentralização
e a participação política.
O
“Regresso Conservador”, ligado ao
sistema oligárquico, pregava idéias
de acordo com a centralização do
Poder, concretizando convicções
do conservadorismo da época, como:
a Monarquia, a centralização administrativa
(Estado Unitário) e o fortalecimento
do Poder Executivo.
O
2º Reinado (1840-1889), teve início
com o “Golpe da Maioridade” (23-7-1840).
Organiza-se o ministério dominado
pelos “Maioristas”, todos ligados
ao Partido Liberal. O golpe decorreu
da ação da elite dominante, assinalando
a ascensão dos Liberais ao Poder,
acirrando as disputas políticas,
tornando-as por vezes sangrentas,
estimulando os rancores e interesses
políticos locais.
Este
novo estilo de fazer político, caracterizado
por violências e fraudes nas eleições,
evidencia-se nas eleições de 13
de outubro de 1840. O Ministério
da Maioridade, principalmente através
de seus integrantes liberais, exerce
pressão política em diversos centros
eleitorais do país. Tratou-se inicialmente
de substituir o pessoal que seria
encarregado de fiscalizar as eleições.
Foram nomeados novos presidentes
de Províncias, removidos Juízes
de Direito e chefes de polícia,
suspensos oficiais superiores da
Guarda Nacional. Suspenderam-se
juízes de paz que presidiam o pleito;
assaltavam-se as mesas eleitorais;
na qualificação dos eleitores aceitavam-se
até pessoas imaginárias. Não foi
sem razão que ficaram conhecidas
como “eleições do cacete”. Vencem
os liberais. Posteriormente, venceria
sempre o partido que estivesse no
Poder. A partir de 1840 uma série
de medidas marcam o que se denominou
de avanço do “Regresso Conservador”,
são elas:
-
A
aprovação da Lei da Interpretação
do Ato adicional, em 12 maio de
1840, suprindo a autonomia das Províncias,
preparando o avanço do centralismo;
-
A
destituição do 1º Ministério por
outro, de tendência conservadora,
em março de 1841;
-
A
criação do Conselho de Estado, em
23 de novembro de 1841. Órgão principal
na assessoria direta ao Imperador,
constituindo-se na garantia da camada
dominante no centro do Poder. O
conselho transforma-se num dos baluartes
do conservadorismo no Império.
-
A
aprovação da Lei que reformou o
Código do Processo Criminal, em
3-12-1841, o qual possuía uma clara
tendência liberal. Este código havia
conferido às autoridades locais
uma enorme soma de poderes; pois
os municípios recebem ampla autonomia
judiciária. O Juiz de Paz é eleito
pela população local, assumindo
funções policiais e judiciárias.
É eleito pelo voto censitário, praticamente
nomeado pelos proprietários, com
enormes poderes, podendo prender
qualquer um que julgasse suspeito,
condenar até 6 meses de prisão,
pagamento de multas etc. Sob suas
ordens estavam os inspetores de
quarteirão. Fechava-se o círculo,
pois uma elite controlava o poder
local, as atividades jurídicas,
policiais e também toda a vida administrativa
do município, já que a Câmara Municipal
era também por ela eleita. O poder
local é, portando, decidido nas
eleições. O partido que ganha elege
a maioria dos vereadores e o Juiz
de Paz. O partido vitorioso passa
a governar o Município, sem nenhuma
oposição dos derrotados.
Com
a lei de dezembro de 1841 o antigo
Código foi descaracterizado no seu
conteúdo liberal, pois toda autoridade
judiciária e policial passou a ser
submetida a uma rígida hierarquia,
dependendo do poder central, ou
seja, diretamente subordinada ao
Ministério da Justiça. A nomeação
dos delegados de polícia passa a
ser feita pelo Chefe de Polícia
da Província, que, por sua vez,
era pessoa de confiança do partido
vitorioso em escala nacional. Os
efeitos destas mudanças legais atingem
o Vale do Paraíba. Como afirma J.
G. Evangelista: “em Lorena os vereadores
e Juiz de Paz eram do Partido Liberal
e o delegado de polícia seria do
Partido Conservador, isto é, os
poderosos teriam que dividir o Poder
e seriam afrontados pelo partido
derrotado”. (2,2)
Por
último, o Ministério, alegando fraudes
ocorridas nas eleições, dissolve
a nova Assembléia dos Deputados.
A
partir destas medidas julgadas inaceitáveis
e sob protestos ao governo central,
os liberais organizam o Movimento
Liberal nas Províncias de São Paulo
e Minas Gerais.
O
Movimento Liberal no Vale do Paraíba
Paulista
“É para lá de Lorena que começa a encontrar os homens ricos. Devem todos
à cultura do café.”
Saint Hilaire (1822)
No
Vale do Paraíba, em área paulista,
o movimento não tardou a acontecer
devido à importância desta região
na época. Encontrava-se em franco
progresso em função: de sua localização
geográfica, situada entre a capital
do Império e da Província; do crescimento
econômico face à expansão da lavoura
cafeeira; da ocupação de nova frente
pioneira ao longo do “Caminho Novo
da Piedade”, concluído em 1780;
da expansão das atividades comerciais
ao longo do mesmo, ligando as três
principais Províncias: São Paulo,
Minas Gerais e Rio de Janeiro; da
atuação das sociedades secretas;
da importância do pessoal nela envolvido
e dos recursos de que dispunham.
O
aumento da produção de café e o
aumento populacional acontecem simultaneamente,
aumentando em importância a região,
em especial a área pioneira na produção
da rubiácea, que se estende de Lorena
a Bananal.
Os
dados do gráfico a seguir são, por
si só, esclarecedores:
Gráfico
I
| |
Ano
de
1836
|
Ano de
1854
|
|
1
– produção de café
produção
da região em arrobas
|
510 406 |
2 737 639
|
|
%
s/ produção total da Província
|
86,50
|
77,46
|
|
Posição
em relação às demais regiões
|
1ª
|
1ª
|
|
Produção
de Lorena a Bananal
|
201 268
|
1 065 694
|
|
%
s/ produção do V. P. paulista
|
39,40
|
38,90
|
|
2
– população total
da região
|
105 679
|
146 055
|
|
%
s/ população total da Província
|
45,65
|
38,00
|
|
Posição
em relação às demais regiões
|
1ª
|
1ª
|
|
Total
da região de Lorena a Bananal
|
25 352
|
30 219
|
|
%
s/ total do V. do Paraíba
paulista
|
23,90
|
20,60
|
(Dados
aproximados, com base em Sérgio
Milliet, 5, 40-41)
|