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Vindo
tomar posse do governo de São
Paulo, o novo Capitão General
Martim Lopes Lobo de Saldanha escreve
carta em 21 de junho de 1775, corta
ao Vice Rei Marques do Lavradio
narrando sua jornada do Rio a esta
cidade, passando por Paraty e pelo
Caminho da Serra do Facão. |
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"Meu Capitão. Meu Amo
e Meu Senhor:
Bem quisera eu ha mais tempo ter
hido aos pés de V. Exª.,
por este modo dar-lhe conta da minha
jornada. segurar-lhe o meu respeito,
no qual deve a V. Exª. contar
como o mais certo: porem enganou-me
a esperança, em que tenho
estado, de querer dar a V. Exª.
huma clara notícia de todos
os meus passos. Agora vou sem mais
demora protestar-lhe que estimo
primeiro que tudo e dezejo mais
que todos que V. Exª. se conserve
na mais vigorosa saude e que disponha
da minha. q.'é boa para tudo
quanto for do seu agrado.
Agora vou dar conta a V. Exª.
da minha jornada. ainda que com
temor porque sey lhe roubo o tempo.
Já V. Exª. sabe que
eu sahy no dia 28 de maio dessa
Capital. Ouvi missa na fazenda de
João Alves. dormi na do Coronel
Gregório de Moraes. No dia
29 vim a Sepetiba, embarquei na
canoa do Capitão Mór
de Paraty. fui à ilha das
Pescarias e dormi em Paracucá.
No dia 30 jantei na fazenda do Dr.
Suzano, dormi na Mangaratiba, no
sitio chamado das Cruzes. Em 31
vim à Ilha Grande e dormi
à Gipoya, na casa de Antônio
de Lara. No 1° de junho vim
a Paraty e todos estes dias gastei
pelo mão tempo e ventos contrários.
Daquela Villa escrevi a V. Exª.
pelo Capitão Thomaz Fernandez
Varaes e lhe pedia quisesse atender
ao Capitão Manoel Fernandes
da Gama, fazendo-o Mestre de Campo
do Terço da Ilha Grande,
e agora devo dizer-lhe que na verdade
he o mais capaz e o que melhor pode
sustentar o caráter daquelle
posto, por ser o mais abandonado,
e ficarei novamente obrigado a V.
Exª. se atender. Em Paraty
não achei nenhum que o pudesse
ser tão bem como o Sargento-Mayor
Salvador de Carvalho, o irmão
do Capitão-Mor daquela Villa,
o qual me acompanhou até
Guaratinguetá e pelos obzéquios
e intelligencia que achey nelle
desejava V. Exª. lhe mostrasse
quanto V. Exª. me onra.
No dia 2 de junho dormi ao pé
da serra, em caza do Souza, e no
dia 3 subi a serra, o mais do tempo
a pé pelo impraticavel caminho,
e vim dormir .o Aparição.
No dia 4 fomos ouvir missa ao Facão
e dormir na casa de José
Ali. No dia 5 ouvi missa na Parahytinga
e (fui) dormir à Rocha. ao
pé do morro. Nessa noute
e na manhã do dia 6 que vim
dormir em Guaratinguetá,
me acompanhou uma trovoada grande,
com muita chuva.
No dia 7 vim a Senhora Aparecida
e (fui) dormir na Villa de Pindamonhangaba.
No dia 8 jantei em Taubaté
e alli dormi. No dia 9 vim dormir
na Vila Nova de S. José,
que só he villa no nome.
porque os moradores. que são
Indios, se acham dispersos pelas
roças. No dia 10 passei por
Jacarehy e (fui) dormir na Aldeia
de Nossa Senhora da Escada. No dia
11 vim dormira Mogy. No dia 13 cheguei
a esta Capital. onde me recebeu
duas léguas antes o meu antecessor.
escoltado por humas companhias de
cavallaria de Auxiliares. e na entrada
da cidade achei a ordenança
de Auxiliares e companhias pagas.
que me receberam com três
descargas de mosquitaria e hûa
salva de artilharia.
No dia 14. depois de jantar. tomei
posse do meu governo na Sé.
na forma do estillo. e recebi do
Sr. Bispo as mayores distinçoens.
em que continua sem interpolação
de tempo.
Tenho dado conta a V Exª. da
minha viagem, em que passei os mayores,
J incômodos e indizível
trabalho, que dou por bem empregado
tanto por animar aquelles povos.
que na verdade estão reduzidos
à mayor mizéria e
última desconsolação.
como por evitar o mão passo
do Cubatão, que me tem embaraçado
o vir a esta Capital os officiais
que vierão na fragata, a
mayor parte da minha família
e a carga que ainda por lá
se acha.
Em Paraty me fizeram os officiais
de Auxiliares hum requerimento.
que me parece justíssimo
pelo que pelos meus olhos vi. Noto.
se-gundo o que entendo, ainda contra
o parecer daquella Villa. e he a
guarda do registro. que se acha
no sítio chamado a Bocca
do Inferno. além de padecerem
hum grande desarranjo os homens
q' ali estão- ainda q' queirão
com a mayor vigilância, não
podem evitar os descaminhos. por
ser penetravel a serra por muitas
partes. me persuado q' mudando-se
o dito registo para o sitio chamado
da Cachoeira, ante, de chegar à
Villa de Paraty. não poderá
haver descaminho nenhum. por sei
passagem que possão inteirar
que lhe não custe mais que
os mesmos direitos que' devem pagar.
V Ex. resolverá nisto o que
melhor lhe parecer e for servido.
que sempre há de ser o mais
acertado.
Estou da esperança de povoar
o sertão desta Capitania
e da de V Ex para que nos seja mais
fácil a comunicação
por Paraty. por terra.
Meu filho se poem aos pés
de V Exª. com aquella veneração
que deve. e eu protesto a V Exª.
que nada dezejo tanto como obedecer-lhe
e que V Exª. me conceda a onra
de distribuir-me as suas ordens.
Deus guarde a Vossa Excelência
muitos anos.
S. Paulo. 21 de junho de 1775.
Ilmo. e Exmo. Sr. Marquez de Lavradio
Martim Lopes Lobo de Saldanha". |
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Fontes
do Relato: - REIS, Paulo Pereira
dos, O Caminho novo da Piedade no
Nordeste da Capitania de São
Paulo, São Paulo, Imprensa
Oficial do Estado de São
Paulo, 1971, pp79 - 80
- Documentos Interessantes, Arquivo
do Estado de São Paulo -
Publicações, vol XLII,
pp. 3-4
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