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Conde de Azmbuja - 1751
  Viagem de São Paulo até Paraty
   
 
Descrição da Jornada de D. Antônio Rolim de Mouro. Conde de Azambuja, primeiro Capitão General de Mato Grosso, que, antes de seguir para Cuiabá para tomar posse do seu governo, em 1751, foi de São Paulo a Paraty conferenciar com Gomes Freire de Androda. Conde de Bobadella e governador do Rio de Janeiro.

 
 

"Meu primo e meu Senhor,
Quanta terra e quanta água tenho passado, depois que vos escrevi! Rio, tão caudalosos. matos tão espessos. e campos tão distantes, que fazem admiração. principalmente a quem vem de uma terra tão apertada como o nosso reino. Desejara lembrar-me e saber ordenar tudo quanto passei e vi: o que não só vos servirá de divertimento pela novidade. mas também a mim em desafogo e alivio.
Havendo em S. Paulo acabado de escrever para a Frota, e tendo recebido carta de Gomes Freire de que era mui conveniente ao serviço de el Rei vermo-nos em Paraty. me pus a caminho no 1°. de abril: por estarem os meus oficiais d'ordens doentes, levei comigo o capitão em lugar deles. e três dragões para me servirem de escolta, duas bestas de carga com bem pouco provimento. para poderem acompanhar-me. dois criados e alguns pretos.
Este pequeno trem custou bastante para o por pronto. sendo me necessário comprar a maior parte dos cavalos. pelo os não haver naquela terra de aluguel.
Acompanhou-me também o ouvidor de S. Paulo, belo pra semelhantes funções. porque nem atura sol nem está em sua mão para madrugar. Saímos por fim da cidade já tarde por amor dele e para mais ajuda erramos o caminho: por cuja causa andamos de noite umas poucas de horas. por estrada que ainda de dia se passa com dificuldade. cheias de más pontes, de ribeiros e de atoleiros terríveis. Estas dificuldades me embaraçaram de chegar ao sitio, que assim chamam cá aos casaes (povoado?). onde me esperavam. e ficamos noutro retiro. em que não havia nada que comer para a gente, nem para os cavalos. No dia seguinte fui jantar á Mogi, marchando um grande pedaço através das vargens, mas inúteis pela opinião em que está a gente da América de que só em roças se pode semear ou plantar: a vila é pequena como todas as que vi na comarca de S. Paulo porque a maior parte dos moradores assistem nos seus sítios, onde lhes vai o tempo em cachimbar e embalançar-se na rede. em camisas e ceroulas, seu vestido ordinário, e mandando os seus carijós, adquiridos pelo sertão com grandes trabalhos, e não menos ofensas de Deus. Daqui fui dormir em uma fazenda dos padres do Carmo. e no outro dia a Jacarehy. que também falando mal é vila, parece-me terá meia dúzia de casas. tão pobre. que a cãmara me esperou de capote. Seis léguas antes de chegar a ela, todo o caminho e por morro mui alto. muito a pique. e de uma qualidade de barro como sabão. quando chove: o que aconteceu nesta ocasião. por cuja causa passamos com bastante risco de quebrar as pemas. escorregando a cada passo os cavalos: mas andam tão destros que parece impossível as partes por onde se seguram.
Eu não iria a pé por ela sem cair uma quantidade de vezes. Ao sair daquela vila, há um pedaço de caminho que parece rua de quinta. muito direito largo e cheio de boa sombra.
Depois se dá em campo de perdizes, em que com efeito vi levantar algumas sem me afastar da estrada.

 

Rugendas - Travessia do Rio Paraíba
Nessa noite, que foi a quarta, dormi bastante mal acomodado, em sitio que está dentro de um tampão de mato de quatro léguas de comprimento. Na seguinte fiquei na vila de Taubaté, a melhor que vi naquele caminho. bem assentada, com boas ruas, largas e compridas, alegres e seus moradores mais civilizados.
No dia sexto em Pindamonhangaba, vila quase igual à de Jacarehy: nela comi pão do mesmo trigo da terra, muito semelhante ao pão francês no gosto, no feitio e no amassado.
 
No dia seguinte cheguei a Guaratinguetá. havendo na noite antecedente ficado em sitio bom a vista dos mais: porém o caminho que a ela me conduziu era cheio de más pontes, atoleiros e caldeirões, que são umas covas que os cavalos fazem com a continuação do andar, as quaes, quando chove, enchem de áqua e lama. ficando entre cova e cova, como uma parede de barro duro, de sove que e necessário, que os cavalo vão por estes lugares muito sossegados, pondo os pés dentro das mesmas covas: porque se assim o não fazem. infalivelmente caem, com grande risco de quebrar as pernas do cavaleiro. Este tão bom caminho passei com tanto escuro, que nos não víamos uns aos outros.
A vila de Guaratinguetá em que fiquei naquele dia, por ser necessário adiante mandar avisar os sítios por onde havia de passar, é já mais rica do que as outras. por ser passagem para as Minas daqueles que vêm buscar a estrada de Paray, pela qual me asseguram andavam 1.300 cavaleiros conduzindo cargas.Aqui deixei o caminho da esquerda que vai a Serra da Mantiqueira. e dai ás Minas, e tomando a direita. fui dormir ao sitio da Piratinga, marchando todo dia morro a baixo, morro a cima tão altos e empinados. que quase todos os cavalos aguaram, até os que iam à mão. foi preciso sangrá-los: o que me causou a demora de três dias: ao que me sujeitei. por saber ai que Gomes Freire não podia sair do Rio de Janeiro no dia que tinha me avisado.Ocupei este tempo em andar pelo mato atirando aos papagaios, e aos tucanos, de que havia boa quantidade.
Daqui a Paraty gastei dois dias: no primeiro fui no sitio da Aparição, em que experimentei o mesmo frio que no reino: o segundo me levou toda a serra do Paraty, que na opinião comum. é a pior que se conhece. A estrada em partes é tão apertada, aberta em rochas, que era necessário levantar os pés até os por na garupa do cavalo: e nem com tudo isso escapei de dar muitas boas topadas: tanto a pique, que oito dias me ficaram doendo as cadeiras de me endireitar: o chão estava calçado ou alastrado de pedras soltas e desiguais, com muitos saltos e barrocas: e onde isto faltava era atoleiro grande e caldeirões muito fundos.Continuamente chove. e fazem em certo tempo frios tão extraordinários, que tem já morto alguns passageiros: porque. como nela não é capaz de se andar na noite. aqueles a quem o dia falta antes de a vencer, ficam expostos a estes perigos: pois não podem reparar o frio com o fogo, por estar sempre o mato, por molhado, incapaz disso.
Além disso, tem duas passagens de rios bastante más. Na vila me receberam como se fora o próprio general: a passagem que nela se faz para Minas. e a quantidade de aguardente de cana, que ali se fabrica, lhe dão alguma opulência.

 

Rugendas - Detalhe
Fica quase norte sul com a Ilha Grande. e distante dela dez léguas situada à borda de uma grande Baia, que ali forma o mar, com fundo capaz de ancorarem naos de guerra: tão abrigada por causa das muitas ilhas que a amparam da banda do mar, que em canoas de pá se vai por entre ela ate a Sepetiba, que são 20 léguas. e dali ao Rio de Janeiro. e é caminho sumamente freqüentado, pelas muitas cargas que por ali passam para as Minas.
 

0 tempo que Gomes Freire tardou por causa da frota me serviu de divertimento por passear por esta Baia em uma canoa, que, sem embargo de me segurarem ser a menor de três que se haviam tirado do mesmo pão, levava seis remos de voga na popa e acomodava de seis a sete pessoas: finalmente se não diferençava de um escaler de seis remos. Gomes Freire. quando chegou, me fez muita festa e agasalho: achei-lhe a mesma viveza, desembaraço e a mesma disposição em que sempre o achei. Todas as manhãs nos foi buscar a cama, onde conferíamos até ás 10 horas, íamos a missa, e dai para sua casa, onde jantei e ceei sempre com os seus oficiais, e as pessoas que haviam ido comigo: o que me não era possível na minha, tendo-me sendo preciso vir àquela jornada tão escoteiro, como já que serve a el-Rei e com grande desinteresse e limpeza de mãos: e se ele tiver alguma cousa em que a consciência o acuse, parece-me será mais depressa por puxar demasiado para a fazenda real, que por deixar perder cousa alguma dela. É ativo e prudente, e sofredor quando é necessário: finalmente tenho-o em conta de bom governador.
Ao amanhecer me punha em marchar assim, porque havia um próprio adiante por todas as vilas e sítios, com aviso do dia em que a eles chegava. pai.: terem milho pronto e capim para os cavalos: pois sem esta prevenção é preciso largá-los ao pasto, de onde se não podem tirar sem amanhecer, e ás vezes se espera por eles até muito tarde e outras não aparecem de todo: e este é o maior descômodo e embaraços que tem as jornadas por estas terras, e as dificulta, extraordinariamente fazendo-se com grande comitiva."
   
 
Fonte deste relato: TAUNAY Aftonso de L_ Estudos de Historia Paulista- Sio Paulo. Diário Oficial. Editores.l. Evite & Cia 1927, pp. 171 -21.

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