DOCUMENTOS
Viajantes
  
   



 
Conde de Assumar - 1717
  Viagem do Rio de Janeiro até Paraty e pela costa até uma
praia depois do Cairuçu
   
 
Conde de Assumar
   
 
Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, 4° Conde de Assomar, 1º Marques de Castelo Novo. 1" Marquês de Alorna - Vice-Rei da Índia, empreendeu esta viagem que seguiu até São Paulo e dai para as Minas, onda iniciou suas atividades no cargo de Governador e Capitão. General de São Paulo e Minas de Ouro que ocupou a partir de J 4 de setembro de 1717.
 
   
 
"Julho 24 - Sahio sua Exma. da cidade do Rio de Janeiro pelas duo, horas da tarde com muyto acompanhamento de officiais militares, e de outras pessoas particullares: a praça o salvou com des persas, digo, treze persas, e continuando as marchas chegou as sinto horas ao Engenho dos Padres da companhia adonde estava o Reytor, e outros Padres. e depois dos primeiros cumprimentos. conduziram à sua Ex." a vera fábrica do engenho. que não deixa de ser grandiosa pelos muitos negros. que ocupa: e por moer com agoa muy suave o trabalho visto tudo despediusse a comitiva. e os Padres tratarão à sua Ex:' com toda a grandeza, e aos seus domesticos tambem.
25 - Depois de ter ouvido missa partimos pelas sete horas da manhã. e machose the o meyo dia. em que por descansar hum pouco. e aliviarse do rigor do sol se recolheo sua Ex." a hum engenho pouco distante da estrada. cujo dono he João Affonso filho de Lisboa. que neste anuo lhe tinha vindo sua mulher por haver sahido no passado no Auto da fee. A forma que nos tinhão dado da mizeria deste homem condice com o que experimentamos: porque não foi capaz de offerecer nenhuma pouca de farinha de pão com bastante sendimento. ou para melhor dizer com bastante fome descansamos duas horas, partindo depois não com menor mortificação. não tanto por chover toda a tarde. como pelos muitos lamaceiros que havia no caminho. que eram tais que dificilmente se tiravão os cavallos delles. Já quasi de noute nos apareceo hum clerigo. e nos levou ache a sua casa. que era hum famoso emgenho. tratandonos com muito aseyo r grandeza. chama-se este Padre Francisco Dias Duarte. natural de Guimarais.
26 - Ouvimos missa. e partindo despois, chegamos pelo meyo dia :, huma fazenda dos Padres da Companhia do Rio de Janeiro. chamada Sana, Crux. Nella assiste hum superior com o seu companheiro, e tem debayxo de sun jurisdição athe trezentos e sinqüenta cazais de negros, a cujos filhos sustentão ache ter idade capas de poderem trabalhar. cada hum no officio que lhe fazem aprender, de sorte que asim para a fábrica da fazenda corno para tudo o mai, necessário. tem nestes negros quanto há de mister: entre elles vimos hum d, idade de cento e secenta annos. que todos os dias hia ao mato a trazer a carga dr lenha. A fazenda he grandiosa. pois tem nella os Padres nove mil cabeças de - gado mayor. muitas ovelhas e carneiros e não menos egoas, e cavalos em qur fazem concideravel lucro. Os Padres trataramnos bem parcamente porque; nao quizeram consentir que o cuzinheiro nosso entrasse na cozinha, e os seus, que eram negros não faziam outra coisa senão guizados de frades, e com esta morte ficaçem bem contra nossa vontade, nos detivemos athe o dia vinte e sete. por não ter chegado ao Porto as canoas de Lourenço Carvalho. nem as lanchas, que conduziam a fato e algumas couzas comestivas.
28 - Tivemos notícia de haver chegado ao Porto chamado da pesqueria hüa das duas lanchas, e Lourenço Carvalho genro de Francisco do Amaral com as suas canoas. Partimos logo com este avizo. e em hüa planície, que quazi avista do Porto emcontramos com Lourenço Carvalho, que com vinte e quatro negros armados e bem vestidos. e com duas trombetas estava esperando sua Ex.'. e depois dos cumprimentos embarcou-se o dito senhor na milhor canoa. e a sua família em outra touco inferior com salva de muitos tiros, despedendosse primeiro do superior da Fazenda, que tinha vindo acompanhar. Navegouse the primeiro do superior da Fazenda. que o tinha vindo acompanhar. Navegouse the quazi a noute. e dezembarcando em húa praia deserta demos cone hum choupana onde se mandaram logo asar galinhas, e vitelas, não faltando tudo o de mais. que se podia dezejar para agosto, por vir Lourenço Carvalho provido do necessario com abundancia. e athe trazia negros para cosinhar. Acabando de cear tornamos a embarcar e navegamos the as duas horas da manhã, que descansando em Na anciada hum pouco. tornamos a partir. e fomos jantar na Ilha Grande em húa villa deste mesmo nome,que terá athe singüenta casas todas terreas, e dous conventos; hum de frades capuchos, e outro carmelitas. Também havia nesta villa huma companhia de soldados para impedir aos moradores o comércio. que costumão fazer com os levantados e Piratas; depois de jantar tornamos a Embarcar, e as sinco horas aportamos em húa Praya. na qual estava morador hum compadre de Lourenço de Carvalho que nos tratou com a decência que permitia o dezerto.
30 - Pelas duas horas da manhã nos embarcamos. e navegamos atine o meyo dia por entre muitas ilhas. e a terra firme da outra parte (como o tinhamos feito nos dous dias antecedentes) porém com mais susto neste dia, pela grande quantidade de baleas que encontramos em húa Bahia. que fazião duas ilhas. sendo a Mayor gritaria dos Pilotos e remadores com o Medo de que encostando se alguma a Canoa, a virasse como algumas vezes tem sucedido. Sahimos com bom sucesso da Bahia. e fomos jantar a villa de Paraty em caza do Cappitão Lourenço Carvalho que nos regalou magnificamente. Ele he natural da Villa de Basto, e casado com hurra mulata filha de Francisco de Amaral: he muv rico e poderoso: porque se acha com trezentos negros. que lha adquirem grande cabedal com a condução das cargas, em que continuamente andão pela serra acima. que vay a sahir a Villa de Guaratinguetá. que par ser tão áspera não podem subir cavallos carregados, e Ihes he precizo aos viajantes valerse desse meyp para poder seguir a sua viagem, para as Minas.
31 - Nos detivemos na mesma vila, que poderá ter sinqüenta caias terreas. por não ter ainda chegado huma das lanchas. que conduzião o nosso fato.

 

Rugenda - Detalhe
Agosto 1 - Chegou a lancha que espe-rávamos. mas por vir muy tarde. não po-demos fazer viagem.
2 - Ainda nos detivemos a rogos de Lourenço Carvalho.
3 - Estivemos baldeando as arcas e fazendoas de duas arrobas para as cargas dos negros, apartando as que devião ficar para hir pela serra. das que havíamos de levar para a vila de Santos. o que não deixou de dar algum emfado.
4 - Nos embarcamos em huma canoa. e o fato em húa lancha, e despediuse a outra- porque não era necessária. Sua Ex.' embarcou em outra canoa com Lourenço Carvalho , e as honze horas da noite chegamos a húa fazenda sua, na qual tem húa pesqueria, que lhe rende cada anuo sinto para seis mil cruzados, e a feitoria hum Irmão seu. Aqui estivemos esperando quazi ache meya noute por hum batelam carregado com a Matatulagem, que nos tinha feito Lourenço Carvalho. quando nos chegou notícia de que tinha alagado. Ficamos com este avizo. como se pode considerar de quem não tinha outra corda de que valerse athe a villa de Santos para seu sustento, nem parte aonde o comprar: finalmente remediosse a cea com humas empadas. que fes o cozinheiro.
 

5 - Partimos logo depois de cear, e sua Ex." ficou para hir por terra cotiza de húa légua. por escuzar de passar húa paragem chamada Cayreju (Cairucu - MCR). que he hum tanto perigoza; porem nos a passamos com falecidade por estar bonanca o mar. e fomos anchorar a húa praya aonde tínhamos ordem de esperar por sua Ex.". Aqui comessamos já a experimentar a falta do batelão alagado; porque se quizemos comer foi precizo fazermonos ixscadores, e ainda tivemos a fortuna de tirar uni pouco de peixe. que comemos cozido core agoa.
tivemos a tortuna de tirar um pouco de peixe. que comemos cozido com agort sem azoe nem vinagre. porque o não havia. e se alguma coriza tivemos en. abundancia foi laranjas da China excelentes. assim na grandeza. como no gosto, limoens. Batatas, cearás, fruta da terra. que sem estar tudo isto cultivado por nã ser habitada aquella paragem, he sumamente bom. Armosse a barraca de Manoel da Costa para passarmos a noute servindo de colchois o capote. e as cazaquas de cobertores.
6 - Pelas quatro horas da tarde chegou sua Ex.' em Mia rede, bastante morteficado de aspereza do caminho. e João Ferreira. que por medo do cairesul (Cairuçu - MCR) ficou para vir por terra desesperado, e os pés feitos em pedaços. sua Ex.' mandou dar algumas patacas aos negros que o conduzirão. e a Lourenço Carvalho regalou com húa colcha excelente. a qual de sorte, que pode nos proveo de algumas galinhas e de hum pouco de Biscouto. Jantouse bastantemente. e partindo logo navegamos athe às honze horas da noite, e fomos descansar em hurra praya dezerta."
   
 
Fonte do relato: "Diário da Jornada. Que Fes o Exmo. Senhor Dom Pedro Desde o Rio de Janeiro Athé a Cidade De São Paulo, e Desta Athé as Minas Anno de 1717', anónimo. Revista do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, no 3. 1939. pp 296 a 299.

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