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O
inglês Anthony Knivet era
membro da expedição
de Thomas Cavendish (ou Candish),
em sua segunda viagem de circunavegação
para o Mar do Sul, no ano de 1591.
Ao passar pelo Brasil, adoeceu e,
por ser considerado desenganado,
foi abandonado na praia de São
Sebastião, onde, por milagre,
sobreviveu e acabou sendo capturado
e feito escravo por Matim Correia
de Sá, com quem veio a participar
de diversas expedições.
Numa delas, passou por Paraty e
subiu pela trilha dos goianas, futuro
Caminho do Ouro. Em 1625, seu relato
foi publicado na Inglaterra por
Samuel Purchas sendo este o primeiro
texto conhecido em que Paraty (que
ele chama de Paratec) é mencionado.
Cita também o lugar como
sendo habitado pelos goianas e bom
para se comprar peles de diversos
animais selvagens e âmbar.
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"...
foram os guaianases provocados pela
tribo dos tamoios. Aqueles mantinham
tráfico e amizade com os
portugueses, sendo justamente os
mais encarniçados inimigos
que os lusos tinham em toda a América
estes tamoios. Os guaianases tendo
perdido grande número de
homens numa batalha, e incapazes
por si só de enfrentar o
inimigo de novo, pediram mais uma
vez socorro aos portugueses. O meu
amo, governador da cidade, despachou
seu filho Martim de Sá com
setecentos portugueses e dois mil
índios. Os guaianases haviam
assegurado que o máximo que
se levaria para chegar aos tamoios
seria um mês.
Assim, no dia 14 de outubro de 1597,
partimos por mar com seis canoas,
da distância de umas trinta
milhas do Rio de Janeiro para um
porto chamado Parati. No primeiro
dia de viagem desabou uma grande
tempestade, e julgamos parecer todos
afogados, mas quis Deus salvar-nos
a vida, embora com perda total de
tudo que tínhamos. As canoas
viraram de borco com o temporal;
agarrando-nos ao fundo delas fomos
arrastados à praia com grande
risco da própria existência.
Do lugar onde fomos lançados
à costa, ao Rio de Janeiro
em busca de canoas; ao terceiro
dia fomos a um sítio da Ilha
Grande chamado Ipuá, onde
moravam dois ou três portugueses.
Aí havia grande quantidade
de batatas e bananas para se comer.
Nesse sítio permanecemos
cinco dias à espera de quinhentos
índios que deviam vir de
uma ilha chamada Jaquarapipo. Quando
estes nativos chegaram, partimos
em canoas para o deserto porto de
Parati. Prosseguindo viagem durante
a noite atravessamos uma grande
baia, onde uma baleia revirou uma
das canoas; não obstante,
apanhamos os homens que haviam caído
ao mar e continuamos para o mencionado
porto. No dia seguinte o capitão
ordenou que todas as canoas fosses
retiradas da água, recobertas
por completo com galhos, resolvendo
que se partisse imediatamente por
terra.
Na noite em que chegamos a Parati.
veio-nos um selvagem de nome Aleixo,
de uma aldeia chamada Juqueriqueré;
tal aldeia fica à beira-mar,
bem em frente à ilha de São
Sebastião. Este índio
trouxera oitenta arqueiros consigo.
oferecendo-se com toda a sua gente
para acompanhar o nosso capitão.
No dia seguinte continuamos a viagem,
através de serras: à
noite o capitão vendo Aleixo.
o bugre, deitado no chão.
tirou a rede que eu tinha para deitar-me
e deu-a ao canibal. tendo eu sido
forçado a deitar-me na terra.
Queixei-me a alguns portugueses
da maldade que me fizera o capitão;
responderam-me que seu pai me mandara
nesta viagem unicamente no intuito
de fazer-me desaparecer: respondi
que seria feita a vontade de Deus.
Depois de termos viajado durante
três dias, arribamos ao sopé
de enorme montanha, chamada pelos
índios Paranapiacaba, que
quer dizer em nossa língua
"Mar à vista";
Esta montanha é tão
alta que levamos três dias
de escalada e três de descida.
Dois dias depois da descida encontramos
um belo campo. semelhante a um prado
de relva crecido com grande quantidade
de pinheiros: aí acampamos
durante a noite num vale, onde matamos
cerca de seiscentas cobras. Foi
providencia divina que somente um
índio chamado Jerónimo
fosse picado. e ninguém mais:
este índio inchou todo. o
sangue jorroulhe dos olhos e das
unhas e assim morreu.
Depois disto voltamos a percorrer
serras durante cerca de quarenta
dias, chegando afinal a um grande
rio chamado Paraibuna. que se atravessou
numa peça feita de bambus
ligados com cipós. peça
que os portugueses chamam jangada.
Levamos quatro dias a passar sobre
este rio. tão grande era
e tão rápida a sua
corrente." |
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Fonte
do Relato: KNIVET, Anthony. Varia
Fortuna e Estranhos Fados de Anthony
Knivet. São Paulo, Editora
Brasiliense, 1947, pp. 61 a 65 |