Adriana
Fuster(aluna do 5º semestre do
curso de História) e Profª
Ms. Rosângela Dias da Ressurreição
OBJETIVOS
Recuperar
as relações femininas
no contexto do Brasil colonial, percebendo
as solidariedades construídas
historicamente e tecidas no cotidiano
entre mulheres de diferentes espaços
sociais: mulheres brancas e suas escravas
negras, no âmbito doméstico,
na vila de Ubatuba, na primeira metade
do século XIX.
A reconstruir uma possível história
entre Mariana Moreira da Cruz, proprietária
de bens e escravos, e suas escravas
Dorotheia Maria, Gertrudes Bernarda
e Florência, pretendemos engendrar
o nível das relações
senhrora/escravas e seus desdobramentos
políticos-sociais. Queremos mostrar
que a história se rompe em vários
pontos, à medida que outros interesses
entram no cenário em jogo. Os
contatos sociais dos escravos domésticos,
enredadas nos laços pessoais
muito fortes e conturbados que ligavam
proprietárias às mulheres
escravas exerceram um papel de importância
vital no processo de aculturação
e de resistência.
METODOLOGIA
Recuperar
as relações femininas
no contexto do Brasil colonial, percebendo
as solidariedades construídas
historicamente e tecidas no cotidiano
entre mulheres de diferentes espaços
sociais: mulheres brancas e suas escravas
negras, no âmbito doméstico,
na vila de Ubatuba, na primeira metade
do século XIX.
A reconstruir uma possível história
entre Mariana Moreira da Cruz, proprietária
de bens e escravos, e suas escravas
Dorotheia Maria, Gertrudes Bernarda
e Florência, pretendemos engendrar
o nível das relações
senhrora/escravas e seus desdobramentos
políticos-sociais. Queremos mostrar
que a história se rompe em vários
pontos, à medida que outros interesses
entram no cenário em jogo. Os
contatos sociais dos escravos domésticos,
enredados nos laços pessoais
muito fortes e conturbados entre proprietárias
e escravas exerceram um papel de importância
vital no processo de aculturação
e de resistência.
RESULTADO
PARCIAL
Na
tarde de onze de novembro do ano de
mil oitocentos e vinte e quatro, na
casa de morada da enferma Mariana Moreira
da Cruz compareceu o tabelião
da vila de Ubatuba e na presença
de alguns parentes e conhecidos, registrou
sua última vontade.
Achando se enferma "em meu perfeito
Juízo e entendimento com justo
receio da morte ordeno meu testamenteiro",
e foram nomeadas três pessoas.
O primeiro seu sobrinho Custódio
Soares de Novais, "feitor"
da fazenda de Domingos Correia Brandão,
marido da testamenteira, falecido em
1811.Em seguida foi nomeado José
Lino de Farias, em terceiro lugar Agostinho
Antonio da Costa.
Custódio Soares de Novais, passado
as cerimônias do sepultamento
conforme o último desejo da final
"quero ser sepultada na Capelinha
de Nossa Senhora da Conceição,
no lugar onde foi sepultado meu marido,
quero ser carregada por uma rede, carregada
por dois pobres e amortalhada em meu
hábito que tenho, o que se dará
duas patacas a cada um que me carregar
e se dirá missas de corpo presente
pelos padres que se acharem na vila
no tempo de meu falecimento" procurou
o tabelião e requereu que queria
tomar posse do Testamento da tia falecida.
Neste, três escravas forras foram
beneficiadas "deixo meu sitio no
morro do Puruba a minhas escravas, que
foi Gertrudes Bernarda, Dorotheia Maria
e Florência [grifo nosso], e que
morem enquanto forem vivas [...] deixo
minha casas da vila a Gertrudes Bernarda,
a Dorotheia e a Florência".
Para certificarmos se à vontade
de dona Mariana Moreira da Cruz se cumpriu,
e em especial, a herança deixada
para as escravas, buscamos nos documentos
cartoriais e também paroquiais.
Estamos preocupadas em compreender porque
dona Mariana, senhora de terras e escravos,
beneficia os três escravos. Eni
Sâmara Mesquita ao analisar as
mulheres, o poder e a família
em São Paulo do século
XIX ressalta que mulheres viúvas
continuavam chefiando a própria
casa, cuidando da prole e dos negócios
deixados pelo marido.E verificou que
"[...]
os depoimentos em testamento tornam
ainda mais evidente que filhos ilegítimos
ou de criação, afilhados,
alguns agregados e mesmo escravos domésticos,
devido aos laços de dependência,
acompanhavam, por muito tempo, a vida
dos seus protetores".
A incorporação de escravas
nos testamentos de dona Mariana e nos
cruzamentos de alguns dados já
coletados, nos leva a inferir que havia
falta de descendente legítimo
do casal, proprietários de fazenda
e outros bens, e que as escravas Gertrudes,
Dorotheia e Florência eram filhas
do capitão Domingos Correia Brandão,
conforme este documento.
".
Aos dois dias do mês de julho
de mil setecentos e noventa e oito anos
nesta vila de Ubatuba na capela de Santa
Conceição [...] batizei
e pôs os óleos em Florência
filha de Luiza crioula e solteira [grifo
nosso] de pai incógnito escrava
do Capitão Domingos Correia Brandão
[...]" .
Luiza,
escrava do capitão domingos Correia
Brandão, conforme documentação
pesquisada, deu a luz a mais dois meninos,
cujo pai era o feitor, sobrinho e testamenteiro
Custódio Soares Novais, fato
que aparece no documento de casamento.
"Aos
quatro dias do mês de fevereiro
de mil oitocentos e vinte nesta matriz
de Ubatuba [...] precedendo o sacramento
da penitência se receberão
em matrimônio por palavras e presente
com seus consentimentos Antônio
José Soares filho natural de
Custodio Soares e Luiza [grifo nosso]
escrava de dona Mariana Moreira da Cruz
[...]".
O
outro filho do casal, Ignácio
Soares de Novais casa-se em mil oitocentos
e treze. Observa--se que todos os filhos
da escrava Luiza eram forros e foram
beneficiados com o testamento deixado
por dona Mariana.
A prática adotada na transmissão
do legado material evidencia os laços
de solidariedade existentes entre parentes.
Para Eni Mesquita (1989, p. 73.) entre
os parentes, os sobrinhos parecem ter
recebido atenção especial
protegidos pelos tios e beneficiado
nos legados.Assim, o feitor e sobrinho
Custódio foram instituídos
testamenteiros, visto que vivia junto
aos seus filhos na fazenda, em companhia
dos tios, capitão Domingos e
a tia Mariana Moreira da Cruz, e usufruía
os "serviços" prestados
pelos escravos conforme testamento:
"Ao meu sobrinho Custodio Soares
de Novaes e o agregado Ignácio
e Antonio - declaro que se inteirem
os legatários com as terras do
canto da prainha correndo para o sul,
e se sobejar se repartirão pelo
que meu testamenteiro vender hua sobra
a meu agregado Ignácio, e o resto
se dará ao meu afilhado [...]".
O
mesmo acontecia com os afilhados
["[...]
e o resto se dará ao meu afilhado
filho de minha sobrinha Anna Rose mulher
do alferes Antonio Henrique de França,
do Canto correndo para Antonio Barbosa,
ficará, para Olinda filha de
Gertrudes (escrava filha de Luiza) -
deixo as plantações de
meu sitio de Puruba, arvoredo, mandiocas...
para Mariana minha afilhada de Dorotheia
(escrava filha de Luiza)...] deixo a
minha afilhada Mariana, filha de Dorotheia
o meu escravo Dionizio filho da escrava
Benedita, que será só
para ela".[grifo nosso]
Destacamos
que a falta de herdeiros legítimos
levou dona Mariana distribuir seus bens
entre os vários afilhados, sobrinhos
e a alguns escravos, domésticos,
a testadora concedia liberdade , que
ficavam sob tutela do afilhado Custodia
"deixo meus escravos Vicente, Bento,
Miguel e João forros com a condição
de servirem a meu sobrinho Custório
Soares de Novaes hum anno que sem servirem
hum anno por captivos não lhe
passará carta". Vontade
que se cumpriu conforme registro de
carta de alforria e liberdade, datado
de 08 de agosto de 1827 "[...]
que dá e passa Custódio
Soares de Novaes testamenteiro de dona
Mariana Moreira da Cruz a Miguel Crioulo
escravo que foi da dita falecida [...]".Todos
os escravos foram beneficiados com a
liberdade no ano de 1827.
Voltando nossa atenção
as três escravas, partilhamos
da distinção realizada
por Eni Mesquita (1989, p. 79), há
dois tipos básicos de relações
com os donos da casa: de trabalho e
de caráter pessoal.As escravas
Dorotheia, Gertrudes e Florência
parecerem gozar de uma situação
privilegiada em relação
aos demais escravos . Ainda nos estudos
de Eni Mesquita "[...] em alguns
casos a situação de agregada
foi a de concubina do dono da casa [...]".(SAMARA,
1989, p. 80).
Os documentos evidenciam que por força
da convivência se estabeleceu
uma "relação intima"
entre dona Mariana e suas escravas filhas
da escrava Luiza, escrava que foi de
seu marido.Constatamos que o casal não
tinha filhos e por falecimento do conjugue
dona Mariana fez inventário "e
partilha com sua filha incógnita
dona Angélica Jacinta Correa".
O dito capitão tinha então
outros filhos e incluímos as
escravas Dotoheia, Gertrudes e Florência
filhas da escrava Luiza.Como aponta
Cristina Lopes (1998, p. 242) a participação
do ilegítimo não se assentava
apenas na possibilidade de ser herdeiro.
Em vários outros momentos, eram
englobados no cotidiano sociofamiliar.
Este é um ponto da pesquisa difícil
de avaliar, os registros são
fragmentados, incompletos e deixam margem
a dúvidas.a pesquisa está
na fase inicial o que permite lacunas.
Todavia, as escravas citadas foram beneficiadas
com terras " deixo meu sítio
no morro do Puruba...e que morem nele
enquanto forem vivas...deixo a Dorotheia
o meu escravo Christovam com condição
que servirá a dita enquanto ela
for viva, em morrendo a dita ficará
ele forro ... deixo as minhas casas
da villa à Gertrudes, a Dorotheia
e a Florência". Percebemos
que na estrutura familiar do Brasil
colonial havia uma certa tolerância
por parte das famílias.
Fontes
Primárias
Documentação Cartorial
- manuscritos do século XIX
Testamento
Inventário
Livros de Registros paroquiais: 1806-1850
Referências
Bibliográficas:
SAMARA, Eni Mesquita de. As mulheres,
o Poder e a Família - São
Paulo, século XIX. São
Paulo: Marco Zero, 1989.
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano
e poder em São Paulo no século
XIX. 2. ed. São Paulo: Brasiliense,
1995.
GROSSI, Yonne de Souza. Constança
do Serro Frio - escravos libertos nas
Minas Gerais do Século XIX. LPH
- REVISTA DE HSITÓRIA, V. 2,
N. 1. ANAIS DO VII - ANPUH REGIONAL,
1990.Pp.118-128.
RESSURREIÇÃO, Rosângela
Dias. Fazenda Santana - Em nome da Mãe
- vestígios de uma Administração
Feminina na Vila de São Sebastião
(1780 - 1850). Dissertação
apresentada na PUC-SP, 2000.
Carta de alforria, liberdade condicionada.
IN: RESSURREIÇÃO, Rosângela
Dias. São Sebastião -
transformações de um povo
caiçara. São Paulo: FFLCH/USP:
Humanitas, 2002.
LOPES, Eliane Cristina. O revelar do
pecado: os filhos ilegítimos
na São Paulo do século
XVIII. São Paulo: Annablume:
FPESP, 1998.
PAIVA, Eduardo França. Escravos
e Libertos nas Minas Gerais do Século
XVIII. Estratégias de resistência
através dos Testamentos. São
Paulo: Annablume. 1995.
SAMARA, Eni de Mesquita. As mulheres,
o Poder e a Família - São
Paulo: Século XIX. São
Paulo: Marco Zero, 1989.