SALA DE COMUNICAÇÃO
A História da imprensa em Resende
  
   


Resende ocupa um lugar de destaque na " História da Imprensa no Brasil" não só pela sua intensa e promissora produção jornalística, como também pela sua precocidade em relação ao interior do Estado do Rio de Janeiro, tendo entrado para o mundo da tipografia ainda enquanto era uma simples Vila, no início do século XIX.
Pioneira no plantio e difusão do café, Resende experimentou seus momentos áureos na primeira metade do século XIX. A atmosfera de euforia trouxe para Resende novos povoadores que, rapidamente, enriqueceram com o café, ao mesmo tempo em que crescia a cidade, dando sentido ao aparecimento de seus primeiros jornais. Por outro lado, a imprensa que era proibida até o final do século XVIII, assiste, com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, a condições favoráveis ao surgimento dos primeiros jornais que vão se colocar, na década de 1820, alguns a favor e outros contra o processo de Independência.
Os primeiros jornais de Resende iniciam sua publicação, envolvidos nas lutas que absorviam o país logo após a separação de Portugal ( 1822 ). Os debates políticos entre os favoráveis a um governo forte e os defensores de uma maior descentralização, faziam estremecer os quadros da sociedade brasileira. O GÊNIO BRASILEIRO ( 1831/33 ), primeiro jornal resendense, que teve como proprietário e redator o padre José Marques da Motta, natural de São João Del Rey, província de MG, surge como um pasquim liberal, de oposição veemente e acirrada à política autoritária do imperador D. Pedro I, fato flagrante na sua epígrafe que dizia: " Toda força é insuficiente contra a vontade de um povo que não quer ser escravo." O GÊNIO constitui um dos primeiros trinta jornais do Rio de Janeiro e o primeiro impresso no seu interior ( excetuando-se o ECHO, de Niterói, de 1829 ). Em todo o Vale do Paraíba, Resende é a primeira cidade a possuir um jornal.
AO GÊNIO BRASILEIRO junta-se o ECHO CONSTITUCIONAL ( 1837/1843 ). Em ambos encontramos entre outros temas, o envolvimento resendense na política nacional, como lutas pela abdicação de D. Pedro I, em 1831, e traços da política local, como o encaminhamento das reivindicações pela elevação da Vila à Cidade.
Entre 1843 e 1864 há um inexplicável hiato na imprensa resendense, já que nesta época o Vale do Paraíba vivia seu período de fausto no clima do reinado do café e da escravidão.Será o ASTRO REZENDENSE ( 1864/1873 ), que romperá este silêncio, dando início ao período mais fértil da imprensa local da época. À frente, João Baptista Brasiel, Dr.João Maia, Padre Felipe de Melo e Jácome de Campos. Ao ASTRO sucede o REZENDENSE ( 1874/1888 ), com Jácome de Campos e Francisco Nunes Fernandes e o ITATIAYA ( 1876 / 1890 ), com José Ribeiro dos Santos Alves. Ocorre uma verdadeira explosão de periódicos na cidade, registrando-se de 1864 até o final do século XIX, cerca de trinta e quatro jornais. Na virada do século XIX aparece a primeira fase do jornal A LYRA ( 1898/1908), órgão da corporação musical Santa Cecília, razão do nome do jornal, tendo como fundador Álvaro Silva. Este jornal que atravessou todo o século XX, tendo sua última edição no final do ano 2000.
Ainda no século XIX, em 1881 surge o TYMBURIBÁ, com uma longa duração, indo até 1936, totalizando 55 anos de publicação. Quando José Alfredo Sodré ( o "Tyl" ) suspende a publicação do TYMBURIBÁ em 1936, ficava claro, a nosso ver, o final da transição dos pasquins à nova imprensa do século XX. Nesta época a propaganda e a dependência em relação aos anunciantes aparecem, misturando-se com o uso da gravura e da caricatura, começando a ceder espaço às informações noticiosas. No século XX surgiram os mais variados tipos de jornais, desde os de farmácias como o JAPECANGA ( 1906/1908 ), o SALUS ( 1906/1908 ) e o ARAUTO MÉDICO ( 1927 ), passando por aqueles dedicados às mulheres como O BEIJO ( 1899/1900 ), a VIOLETA ( 1900/1908 ), a CHRYSALIDA ( 1915/1920 ), o MYOSITIS ( 1915 ), a PÉROLA ( 1909 ); jornais de mexericos e fofocas locais como A MATRACA ( 1899 ), A THESOURA (1917/1924 ), a MUTUCA ( 1915/1917 ), o MARIMBONDO ( 1914 ), a CHALEIRINHA ( 1909 ), o DISFARÇA E OLHA ( 1932 ); os jornais comerciais como o CAMPOS ELYSEOS ( 1888 ) e o COMMERCIO ( 1894 ); os humorísticos como o GALHOFEIRO ( 1899 ) e o FLIRT ( 1918 ); os caricaturais, como o GARATUJA ( 1889/1891 ); os esportivos como o STADIUM ( 1926 ) e o SPORT ( 1931 ); os jornais de distritos como o LUZEIRO ( 1914 ), de Porto Real, a VERDADE, de Engenheiro Passos e o CAMPO-BELENSE de Itatiaia. Além desses, são do começo do século XX: a TROMBETA ( 1902 ), O QUINTO DISTRITO ( 1900 ) e a VERDADE ( 1910 ); deve-se destacar a revista A GRANJA ( 1930/1931 ), de Franco Belga. Em 1936 surge o Município de Resende de Ary Santos, editado por Amadeu Guimarães e, posteriormente, por Pedro Braile Neto. Seguiram-se na década de 70: Folha de Resende ( 1974/75 ), de João Pançardes e João Carlos Besouchet; Jornal de Resende ( 1978/1992 ), de Anísio Maciel e Antonio da Cruz Martinho; Pé da Serra ( 1980/1983 ), de Gustavo Praça, André Telles, Celina Whately, Marcos Cotrim, Frederico de Carvalho, entre outros. Década de 80: Gazeta do Manejo ( 1984/1985 ), de Sandra Masseti e Nelson Praça; Revista ACIAR ( 1985/1990 ), tendo como redatores Luiz Geraldo de Paiva Whately, Altamiro Pimenta, Francisco Fortes Filho. Edgar Kuhlman, Joel Luis Pereira da Silva, Celina Whately, entre outros. Na década de 90 surgiram: Revista GERALE, de Osvaldo Ricci, Hebert Felipe Ribeiro, entre outros; Jornal Folha Regional ( 1991 ) de Ruy Camejo e Célia Borges; Revista PHOENIX ( 1992 ), de Marina Hochman, Ricardo Dragone, Celina Whately, César Silva, entre outros; Imprensa Livre ( 1993 ), de Anita Beviláqua; O PONTE VELHA ( 1996 ), de Gustavo Praça, Jornal BEIRA-RIO ( 1997 ), de Ana Lúcia Correa de Souza.
Este artigo foi escrito pelo historiador Alexandre Mendes da Rocha, falecido em 1986, e atualizado por Maria Celina Whately


A LIRA

É difícil a reconstituição da trajetória do jornal: parte do arquivo foi abocanhado por labaredas de um incêndio na década de 1960. O que restou do acidente, e da própria ação do tempo, não recompõe totalmente o quadro de épocas e fases deste que é o quarto mais antigo jornal do interior fluminense. Ainda assim, peças de tempos diferentes esboça traços da vida da LIRA, que nada mais são do que episódios da nossa história, da história de Resende.
O exemplar mais antigo que se tem em mãos, o número 1 do ano 2, de 13 de setembro de 1900, traz apenas 4 páginas de 18 x 14 centímetros, sendo as duas internas só de anúncios; um deles refere-se ao livro de versos " Bandolim", de Luiz Pistarini e outro do próprio jornal, onde figurava com destaque o nome de seu fundador, Álvaro Silva. A LIRA era impressa na gráfica do jornal mais importante do município na época. - O Tymburibá - e a oficina ficava na Ladeira do Mauriti ( hoje rua Luiz Barreto, descendo a partir da praça Oliveira Botelho ).
Na edição de 1º de março de 1903, sente-se que o jornal toma corpo. Abaixo do seu logotipo, a frase " Folha Literária e Noticiosa" mostra sua incursão no processo de informação de fatos, deixando de ser apenas um espaço reservado a intelectualidade e aos políticos da época, aspecto comum ao surgimento da imprensa no Brasil. Nesta fase, a Lira tinha 40 assinantes e surgem os primeiros assinantes: A alfaiataria Novo Figurino e a Barbearia Artur Carvalho. A edição de outubro de 1906 registra em editorial um pequeno intervalo na circulação do jornal.
A LIRA dedica-se claramente à mocidade no seu número de 2 de novembro de 1911. Esta fase que tem como redator Ademar Vieira caracteriza-se pela participação do poeta Luis Pistarini na confecção de quase todos os jornais. Os editoriais assinados por Lívio Peralta, pseudônimo que usava são evidências inequívocas de sua presença nas páginas de A LIRA. Em 1912 o jornal apresentava, embora desordenadamente, os três principais componentes dos jornais atuais: Crônicas, Notícias e Publicidade. Tomando toda a sua página 3, a edição de 1º de janeiro de 1912 traz uma propaganda da Alfaiataria Bruno anunciando " Com ruidozo sucesso o corte de ternos pelo systema americano."
Eram comuns da Lira as publicidades de remédios milagrosos, sempre recomendados por médicos afamados, como o Licor de Japecanga Composto, receitado pelo Doutor Francisco Chaves de Oliveira Botelho.
Até 1966 Ademar Vieira, esteve à frente da edição do jornal. A partir daí, José Amaral de Mattos e Mário Ferreira assumiram a direção geral, tendo como jornalista responsável Arísio Maciel. A LIRA muito pouco se transformou: Resumiam-se a publicações oficiais, alguns artigos de qualidade, e informações superficiais do dia-a-dia da cidade.

NOVOS RUMOS - Em 1978 foi feita a primeira tentativa de transformação efetiva do jornal. A proposta era de se fazer um jornal que fosse catalisador dos diversos segmentos representativos de nossa comunidade, bem como de suas manifestações culturais. Foi uma das fases de maior vitalidade de A LIRA. Frederico de Carvalho liderou um grupo harmônico - foi a primeira vez que o jornal teve uma equipe voltada totalmente para sua confecção - integrada, entre outros, por Celina Whately ( que mais tarde veio a ser a editora ),Marcos Cotrim de Barcellos, Ricardo Bruno, hoje Secretário de Comunicação do Estado do Rio de Janeiro, e os articulistas Odilon Farias, com pseudônimo de Moreninho da Silva, Leo Montenegro e Claudionor Rosa, que iniciava sua coluna Coisas Nossas que durou até o fechamento do jornal no final do ano 2000.
Noel de Carvalho havia adquirido o jornal e em maio de 1979 a chegada da máquina linotipo foi saudada como um grande avanço - a composição deixava de ser manual e a máquina podia rodar duas páginas de uma só vez !!! No aniversário da cidade, em setembro de 1979, A LIRA saiu com 32 páginas e 3 novos suplementos: A Tocha ( humorístico, com Ricardo Cruz e Claudionor Rosa), a Lira Mulher e o Suplemento Literário , sob a coordenação de Altamiro Pimenta ( este suplemento já aparecera nas páginas de A LIRA em 1950, sob a responsabilidade do Dr. Jandyr César Sampaio, então Promotor Público, hoje nome da Biblioteca Municipal ).
Em 1980 uma dissidência no jornal culminou com a saída da então editora Celina Whately e outros membros da equipe - André Telles, Rosiane Taucei, entre outros -, que, sob a liderança de Gustavo Praça, criaram um jornal alternativo - o Pé da Serra -, no final de 1980.
Esta fase foi seguida por outras de total indefinição. A primeira coordenada pelo jornalista Elia Raphael, com uma linguagem demasiadamente panfletária, razão de sua pequena aceitação junto ao público resendense. A outra, orientada por Nelson Praça que, embora bem intencionado, pouco pôde fazer falta de uma equipe de apoio.
Finalmente A LIRA se reestruturou e partiu para um linha editorial onde a informação imediata era o mais importante. O editor Chico Junior, ex-repórter dos principais jornais cariocas,encaminhou com sua experiência no setor, a linha do jornal para a notícia, o fato, o dia a dia da cidade, dentro dos conceitos básicos do jornalismo moderno, com, modificação visual das páginas, através de uma mudança radical na diagramação. Paralelamente, o departamento comercial, sob a direção de Eduardo Arbex, foi agilizado, melhorando a estrutura financeira do jornal. A maior transformação de A LIRA aconteceu em 1985, quando passou a ser impressa em "off-set", no tablóide.
Com a saída de Chico Júnior, assumiram a edição, sucessivamente, Luiz Ricardo Alves, Ricardo Bruno, Grice Faria e Márcia Siqueira. Para substituí-la assumiu Virginia Cales Arbex. Em seguida vieram os editores Barcimio Amaral ( experiente jornalista do Rio de Janeiro ), Flávio Collistet, Vera Cuiabano.Em 1991 A LIRA deixou de ser tablóide, voltando ao seu formato original. Virginia Arbex voltou a editar o jornal em 1996, assumindo depois Laís Amaral, que permaneceu até 2000.Quando fechou as portas A LIRA vinha sendo editada por Evaldo de Castro.


 


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