Francisco de Vasconcellos
Foi
pela mão de Augusto Emilio Zaluar
que começou a circular em Petrópolis,
a partir de 2 de dezembro de 1857 o
jornal "O Parahyba", que lamentavelmente
encerrou suas atividades em fins de
1859.
Apesar de seu pouco tempo de existência,
foi um periódico arredio ao insulamento,
rebelde ao localismo ensimesmante, sobranceiro
às iniqüidades da politicalha,
ao chamamento das questiúnculas
paroquiais, ao disse que disse das comadres
e compadres pobres de espírito.
"O Parahyba" foi uma folha
desfronteirizada, mensageira de intensa
comunicação social na
província do Rio de Janeiro e
no vale do Paraíba, fosse ele
fluminense, mineiro ou paulista.
Ela cuidou de aproximar culturas, interesses,
provocando uma permanente troca de informações,
de experiências, de resultados.
E foi o arauto dos reclamos e das inquietações
dos povos rurais e urbanos de boa parte
do sudeste brasileiro.
Remigio de Sena Pereira, que foi um
de seus principais redatores, em matéria
publicada na edição de
21 de novembro de 1858, afirmou com
muita propriedade a verdadeira vocação
d' "O Parahyba". Disse ele:
"Já dissemos e repetimos
com a sanção de autoridades
que nos têm julgado, O Parahyba
não é um jornal de localidade,
um jornal bairrista, é sim um
jornal propriamente da província.
E ainda mais, na conexão natural
dos interesses que lhes são comuns
entrelaçará no desempenho
de sua idéia fundamental as três
irmãs limítrofes, Rio
de Janeiro, São Paulo e Minas,
sem que todavia decline, como órgão
da imprensa brasileira a sua parte nas
questões gerais".
Tal "O Parahyba" de tão
curta vida e de tão brilhante
trajetória.
x
x x
Em
seu apostolado na defesa das grandes
questões nacionais, provinciais,
valeparaibanas, quatro aspectos fundamentais
serão expostos aqui, deixando-se
outros de parte, para que a comunicação
não extrapole os limites regimentais
do tempo.
1º - colonização;
2º - agricultura;
3º - vias de comunicação
e transportes;
4º - acolhimento às reivindicações,
reclamos e contribuições
das comunidades integrantes do vale
do Paraíba.
Na verdade esses quatro pontos se reduziam
a três já que na ótica
de Augusto Emilio Zaluar e de seu grupo,
Colonização e Agricultura
estavam irremediavelmente atreladas
uma a outra. E a síntese de tudo
estava no quarto item.
O próprio Zaluar em artigo publicado
na edição de 17 de janeiro
de 1858 d' "O Parahyba", declarava
enfático:
"É impossível, já
o dissemos, tratar da colonização
sem falar na lavoura. Acham-se uma à
outra de tal forma vinculadas que do
seu complexo resulta o engrandecimento
comum e deste os mais vitais interesses
para o país".
Falando especificamente de certa classe
de lavradores, disse, com uma enorme
visão de futuro:
"Alguns lavradores desanimados
com a falta de braços não
acreditando ainda de todo nos resultados
da substituição dos braços
livres pelos escravos, curvam a cabeça
e pensam que a lavoura ferida de uma
paralisia geral, está próxima
de sua última hora de agonia
e que lhe não resta outra salvação
além do lento suicídio
do desespero.
Já que não temos população
agrícola suficiente para acudir
em muitos pontos às necessidades
palpitantes da nossa lavoura, por que
não ensaiamos o modo de executar
com as máquinas modernas os trabalhos
que por enquanto não podemos
levar avante sem lançarmos mão
destes recursos?
Responderão:
Não temos pessoas habilitadas
para lidar com esses instrumentos, que
são muitas vezes complicados
e outras de difícil emprego.
Enganai-vos. Lançai os olhos
sobre diversos aparelhos aratórios,
que a indústria de todas as nações
levou à exposição
universal de Paris; examinai atentamente
essa quantidade imensa de arados, enxadas,
semeadores, máquinas para cortar,
para debulhar, finalmente para todos
os processos empregados na agricultura;
estudai com alguma atenção
as explicações que correm
impressas do meio de os empregar, fazei-lhe
a aplicação e conseguireis
de certo um resultado mais útil
do que o de permanecerdes nesse monótono
indiferentismo".
Zaluar falava da mecanização
da agricultura, com os recursos da época,
num país de escravos, de doutores
empertigados e sobretudo de politiqueiros,
mais interessados na derrubada do adversário
que no progresso do Império.
Mas apesar dessas mazelas que tanto
nos atrasaram ao longo dos séculos,
é de se louvar o otimismo de
Zaluar e a sua sintonia na modernidade.
Num outro artigo publicado sob o título
"A Nossa Lavoura" na edição
de 31 de janeiro de 1858, Zaluar falava
de duas características brasileiras:
a dificuldade de se passar da teoria
à prática e a luta entre
os conceitos antigos e rotineiros e
os avanços do progresso. Uma
espécie de compromisso com o
atraso de certos segmentos sociais.
Porém, o mais importante dessa
matéria são os conceitos
emitidos por alguém não
revelado por Zaluar, os quais foram
caprichosamente transcritos e que apesar
de datarem de meados do século
XIX são de uma atualidade a toda
prova.
Aqui vão consignados os mais
significativos:
"Não se pode conceber na
imaginação coisa mais
grandiosa, mais rica, mais variada do
que estas florestas tropicais".
"No Brasil a obra da natureza é
de um luxo, de um esplendor incomparáveis".
"O cultivador brasileiro aproxima-se
desses santuários da natureza
com o machado em uma das mãos
e na outra o archote; em pouco tempo
as árvores se abatem, o verde
se desvanece, as grinaldas murchas se
despegam em chamuscados retalhos, as
harmonias dessas imensas harpas eólicas
formadas pela ondulação
dos ramos, pelo vôo dos insetos,
pelo canto das aves, pelo arrastar dos
répteis, pela queda das águas,
são substituídas pelos
estalidos do fogo que devora o espaço
levantando e iluminando espirais de
nuvens de fumo e cinza.
Dessa destruição irracional
resulta a perda de preciosas madeiras,
das resinas, das gomas, das tintas,
dos aromas que encerrava o bosque.
... Apenas o machado e o fogo terminaram
sua obra de destruição,
o agricultor brasileiro abre com a enxada
a superfície ainda quente para
depositar nela a semente. Não
há conhecimento ou lei agronômica
que aconselhe esta operação.
A própria plantação
do café, de todas a mais importante,
se faz ainda, na generalidade dos casos,
sem outra consideração
mais que a facilidade do trabalho material
da plantação de modo que
plantam as montanhas em toda a sua direção.
Isto dá-se apesar de ter-se demonstrado
que só a plantação
em faixas horizontais é proveitosa,
pois em lugares fundos o cafeeiro se
esteriliza em uma vegetação
viçosa porém inútil,
visto que no entanto não se tira
partido algum das folhas e nas alturas
é um arbusto raquítico
e de escassa produção".
Sob a epígrafe "Recapitulação"
apareceu em "O Parahyba" de
11 de fevereiro de 1858 matéria
ainda de Zaluar na qual ele divulgava
a intenção de sua folha
de ser o arauto das reivindicações
dos lavradores e a tribuna onde deveriam
ser discutidos os temas agrícolas
e trocadas informações
entre ruralistas. E, aceitando o alvitre
de Guilherme Benjamim Weinschenck, pensou
em patrocinar uma exposição
de instrumentos, utensílios e
produtos agrícolas brasileiros.
Disse ele:
"Sobre os meios de fazer progredir
e engrandecer a nossa lavoura que ainda
se acha quase em sua generalidade opressa
pela ignorância e rotina, apontaremos
com as conscienciosas reflexões
dos nosso próprios lavradores
os processos mais adequados para a libertar
de seu presente cativeiro e dar-lhe
um desenvolvimento mais vasto e de acordo
com a marcha progressiva do século
e as necessidades crescentes do país".
E mais adiante:
"Temos em nosso poder um projeto
de exposição geral de
objetos agrícolas com que nos
honrou o ilustrado senhor Guilherme
Benjamim Weinschenck, que julgamos um
grande incentivo para atualizar os lavradores
nos progressos da agricultura, que é
a maior fonte de riqueza pública
e ao qual daremos também a mais
breve publicidade".
A bem da verdade esse projeto de exposição
que empolgara o espírito da folha
de Zaluar, fora apresentado por G. B.
Weinschenck em 1º de janeiro de
1854 à Sociedade Auxiliadora
da Indústria Nacional. O parecer
dessa entidade publicado em seu jornal
do mês de março daquele
ano não agradou ao autor da idéia
e assim o assunto ficou engavetado a
espera de um melhor momento para sair
do papel.
Quatro anos depois, eis que "O
Parahyba" interessou-se pelo tema
e, num artigo intitulado "Exposição
de Objetos Agrícolas" firmado
por Zaluar na edição de
18 de fevereiro de 1858 do jornal em
exame, vinham estas apreciações
bastante judiciosas:
"Se a nossa indústria atrasadíssima,
se as nossas artes quase decaídas
não exigem ainda por falta de
concorrência que se ponha em prática
em seu auxílio este poderoso
meio de seu aperfeiçoamento,
não está no mesmo caso
a nossa agricultura, que exige imperiosamente
que corramos em seu socorro e não
poupemos esforços, estudos e
recursos para arranca-la do estacionarismo
em que jaz e chamá-la por meio
de um forte impulso à vida, atividade
e incentivo que lhe falecem.
Não achamos idéia mais
conveniente e eficaz para conseguir
este fim do que o plano apresentado
pelo senhor Guilherme Benjamim Weinschenck
e que hoje transcrevemos nesta folha,
que não só prova quanto
este digno e ilustrado cavalheiro tem
a peito os progressos da nossa lavoura,
mas ainda de quanta utilidade é
para um povo o estrangeiro dedicado,
que consagra ao seu país de adoção
os frutos de sua inteligência
e os resultados de seus infatigáveis
trabalhos".
No seu projeto Weinschenck não
só apontou as principais causas
que entravavam o desenvolvimento da
agricultura brasileira, como também
traçou o plano detalhado da pretendida
exposição.
Quanto ao primeiro item deu ele ênfase
aos seguintes pontos:
1º - enormes preços dos
transportes originados pela falta geral
de estradas próprias para carros;
2º - rareza de povoação
comparada com a extensão do país
e a grande falta de braços principalmente
para os trabalhos da agricultura;
3º - aplicação de
métodos, máquinas e utensílios
defeituosos para todos os misteres da
lavoura.
Quanto à exposição,
ofereceu Weinschenck a proposta que
segue:
1º - por circulares enviadas pelos
governos provinciais seriam convidados
os fazendeiros, os lavradores, os fabricantes
e negociantes a mandar amostras de seus
produtos, das máquinas e utensílios
fabricados ou para vender no país,
que tivessem relação com
a lavoura. O material seria então
encaminhado à exposição;
2º - cada um desses objetos seria
acompanhado de uma ficha com os seus
dados essenciais;
3º - as máquinas seriam
postas em funcionamento para que os
interessados se inteirassem de como
proceder com elas, aferindo sua capacidade
de trabalho;
4º - um edifício apropriado
e de baixo custo deveria ser construído
para abrigar a exposição;
5º - um júri faria a triagem
dos elementos dignos de serem expostos
e outro atribuiria prêmios aos
produtos que mais se destacassem;
6º - os meses de julho e agosto
seriam os mais apropriados para a exposição;
7º - o lugar mais recomendável
para o evento seria Petrópolis,
pela abundância de água,
o que poderia facilitar o uso da força
hidráulica, pela proximidade
da Corte e pela qualidade do transporte,
já que em 1854, ano do projeto,
a estrada de ferro Mauá estava
prestes a ser inaugurada e em 1858,
já se encontrava ela em pleno
funcionamento;
8º - finda a exposição
o edifício para ela construído
seria negociado com todos os seus pertences.
Apesar de todo esse esforço no
rumo da dinamização e
da modernização da lavoura
brasileira, não consta que o
evento acima detalhado tenha acontecido.
"O Parahyba" na sua edição
de 11 de fevereiro de 1858 abrigou em
suas colunas uma representação
pública à Sociedade Central
de Colonização no Rio
de Janeiro.
Estranhavam os manifestantes que num
país tão vasto e de população
tão rarefeita, alguém
pudesse recear a colonização
em larga escala.
A vida inativa e o espírito inerte
de alguns segmentos nacionais barravam
o progresso. Argumentando com a Califórnia
e a Austrália, que receberam
correntes massivas de imigrantes, ousaram
dizer os reclamantes:
"Infelizmente muitos não
querem apartar-se da idéia corrupta
de julgar ser um sacrifício distribuir
terras de cultura aos emigrantes.
A sociedade central teria portanto de
solver o problema, de demolir estas
idéias de confusão, de
espertar o amor da pátria, de
fazer ver finalmente que somente pela
emigração em grande escala
se consegue obter um reforço
interno ao país, bem como um
futuro independente e feliz.
O elemento germânico, a torrente
de milhares de alemães de todos
os sexos, idades e condições
para a América do Norte deu,
digo: somente ele o elemento germânico
deu à esta confederação
de estados um reforço gigantesco,
portanto necessita-se somente de muito
pouco trabalho para obter-se aqui uma
imitação".
O que se pretendia com esse discurso
era mais do que a substituição
do braço escravo pela mão
de obra livre, responsável, qualificada,
mas o preenchimento dos grandes vazios
humanos brasileiros por gente de outras
terras que viesse inclusive disposta
a investir e desenvolver o Império.
Mas para isso seriam necessárias
além da guerra à xenofobia,
uma política fundiária
séria e a naturalização
menos burocrática, mais abrangente
e mais rápida do colono.
Mas lamentavelmente não foi isso
que aconteceu e, quando já no
raiar da república veio a lei
de nacionalização, o Brasil
tinha perdido o bonde da história
e os males causados ao desenvolvimento
nacional já se haviam tornado
irreversíveis.
De resto, para não alongar mais
este tópico de colonização
mais agricultura, "O Parahyba",
tratou em suas múltiplas edições
no seu curto tempo de vida, de matérias
alusivas ao crédito territorial
e agrícola, aos bancos agrícolas,
ao guia e manual do agricultor, ao ensino
profissional de agricultura, ao ensino
agrícola em Petrópolis,
além de abrir espaço para
a correspondência vinda notadamente
do vale do Paraíba e para as
publicações oficiais da
Sociedade Central de Colonização
no Rio de Janeiro.
Quanto ao tema das vias de comunicação
e dos transportes, a folha de Zaluar
trabalhou mais diretamente no que tocava
ao vale do Paraíba e, como seria
natural vinculando esses quesitos ao
desenvolvimento das atividades rurais,
já que não se poderia
dissociar a produção das
suas vias de escoamento.
Em primeiro lugar é de se ressaltar
que "O Parahyba" foi contemporâneo
da construção da estrada
União e Industria, a rodovia
padrão e paradigma que estaria
ligando Petrópolis a Juiz de
Fora, com extensão para Ouro
Preto, então capital da província
de Minas Gerais.
A rodovia começou a ser construída
em 1856 e ficou pronta até Juiz
de Fora em 1861.
"O Parahyba" acompanhou o
ritmo das obras e, na edição
de 21 de março de 1858 abria
espaço na primeira página
para falar da inauguração
do trecho inicial da estrada, que ia
de Petrópolis a Pedro do Rio,
atual quarto distrito petropolitano.
Avultava nesse contexto a conjectura
feita pelo corpo redacional d' "O
Parahyba" e dos correspondentes
da folha ao longo do vale sulparaibano
fluminense, sobre a capilarização
viária que redundaria da própria
existência da estrada União
e Indústria.
Um dos exemplos mais eloqüentes
está na seção "Notícias
do Interior" publicada em 30 de
outubro de 1859, 2º página.
As notas vinham de Porto Velho do Cunha
( fronteiro ao Porto Novo ), este pertencente
ao município mineiro de São
José de Além Paraíba.
Vejamo-las:
"Alguns dos nossos bons fazendeiros
daqui nutrem o desejo de fazerem as
remessas de seu café pela estrada
União e Indústria, retirando
assim suas tropas de São Fidélis,
por onde têm até hoje remetido
as colheitas anteriores, muitas vezes
prejudicadas ali com o retardamento
do café, um, dois e já
houve exemplo de três meses.
... Pedem-nos, pois, para obter da redação
d' O Parahyba a publicação
da tabela que regula os fretes de Pedro
do Rio à Corte, para poderem
os nossos fazendeiros ajuizar do quanto
devem pagar por cada arroba, e dos dias
que hão de gastar daqui até
lá, afim de decidirem então
definitivamente a derrota de suas tropas
até a Posse e enquanto não
temos ali a estação, até
Pedro do Rio".
Na edição de 15 de novembro
daquele mesmo ano, desde Porto Velho
do Cunha, vinham estas observações:
"Já se vai sentindo a falta
da conclusão da estrada União
e Indústria que nos fica daqui
a 15 léguas (100Kms.) e que nos
convém mais do que qualquer outra
para a exportação dos
nossos gêneros agrícolas...".
E mais adiante:
"Era o interesse da Companhia União
e Indústria mandar melhorar a
estrada que da Aparecida (município
de Sapucaia) pela Serra Morena vai ter
às Águas Claras (município
de São José do Vale do
Rio Preto), pois só essa medida
faria determinar muitos donos de tropas
a mandar para aí suas viagens.
Nos conhecemos estas localidades e o
amigo redator sabe que só falo
levado pelo zelo do interesse público".
Sobre esse mesmo tema há um artigo
de Zaluar na edição de
sua folha de 10 de fevereiro de 1859
sob o título "O Ramal da
Aparecida".
Outra ligação que se cogitava
na altura era a da estrada União
e Indústria com o porto mineiro
do Chiador, fronteiro à Anta,
município de Sapucaia.
"O Parahyba" foi também
contemporâneo dos primeiros louros
colhidos pela Estrada de Ferro Mauá,
inaugurada em 30 de abril de 1854; da
construção da ferrovia
D. Pedro II, depois Central do Brasil
e de uma via importantíssima
que ligava Magé à Sapucaia
com prolongamento até Mar de
Espanha, verdadeira capital da província
cafeeira da zona da mata de Minas Gerais.
No trajeto destacava-se a formidável
ponte pênsil sobre o Paraíba,
um luxo para a época.
Da Encruzilhada, município de
Paraíba do Sul, partiu correspondência
para a redação d' "O
Parahyba" com data de 28 de janeiro
de 1858, publicada na edição
de 11 de fevereiro. Dizia o missivista
in verbis:
"Rogo-lhe o favor de por meio de
seu acreditado jornal fazer chegar ao
conhecimento do exmo. snr. Presidente
da província e lhe peça
com instância para que lance as
suas vistas a estrada que segue da Paraíba
do Sul em diretura a Iguaçu e
Corte, sobretudo na distância
de quatro léguas que vem a ser
da Encruzilhada de Santo Antonio (atual
Santo Antonio da Encruzilhada) perto
de Paraíba do Sul até
a fazenda do snr. Barão de Capivari.
A estrada que vai da Paraíba
do Sul ao Patí do Alferes, onde
se encontra com a do Comércio,
está também péssima.
Estou morando por estes lugares há
quinze anos e nunca ouvi dizer que o
governo provincial mandasse algum engenheiro
examinar o estado da referida estrada
ou fazer-lhe qualquer gênero de
reparo. Se ainda podem transitar por
ela passageiros e tropas é isso
devido à benevolência dos
fazendeiros que todos os anos a mandam
consertar".
Duas observações:
1º - o missivista estava falando
simplesmente de uma parte do Caminho
Novo ou estrada de terra, um marco histórico
no desenvolvimento fluminense e mineiro,
entregue ao abandono pela incúria
do poder público;
2º - como sempre e até hoje
é assim, eram os particulares
que estavam consertando a estrada, embora
o governo provincial arrecadasse impostos,
taxas e outros tributos oriundos da
voracidade fiscal que sempre nos atormentou.
A propósito vale aqui uma alusão
ao artigo de Remigio de Sena Pereura
publicado na edição de
5 de agosto de 1858, da folha em estudo,
sob o título "A Ponte do
Córrego Bonito". Dizia o
articulista:
"Neste caso se acham os fazendeiros
das freguesias de Cebolas, São
José do Rio Preto e Bemposta,
os quais abriram entre si uma subscrição
para a construção de uma
nova ponte sobre o rio Piabanha, defronte
da barra do Córrego Bonito, no
lugar denominado Santana, sobre cuja
obra acabamos de receber informações
mais positivas.
Organizaram para esse fim uma sociedade
da Ponte do Córrego Bonito, com
um capital dividido em ações,
das quais já se acham passadas
quase todas entre os mesmos fazendeiros.
A ponte será de madeira de dois
lances de cem palmos cada um e assente
sobre quatro pegões de alvenaria
aparelhada.
A direção e administração
da obra foi cometida desde já
ao snr. José Dias Alves, que
foi também nomeado presidente
efetivo da sociedade".
Eram os particulares tomando a si o
encargo do poder público, quase
sempre ausente, onde mais se fazia necessária
a sua atuação,
Sempre atento aos problemas viários
e aos avanços dos meios de transporte,
"O Parahyba" chamou a atenção
do governo provincial para a precariedade
da estrada que ligava São Fidelis
a Cantagalo, por onde circulavam cerca
de 350.000 arrobas de café por
ano; noticiou a licitação
para que se construísse a estrada
do Passa Vinte, que haveria de ligar
as bacias do Paraíba e do rio
Grande; cantou alviçaras à
ligação ferroviária
entre Cantagalo, Minas e São
Fidelis, à Companhia Macaé
e Campos, encarregada da ligação
fluvial e marítima entre o baixo
Paraíba no norte fluminense e
a capital do Império e à
Companhia União Campista e Fidelista,
organizada na cidade de Campos em 12
de agosto de 1855 com um capital de
350 contos de réis, para transportar
principalmente café pelo Paraíba
com extensão até o Rio
de Janeiro.
Resta agora abordar, ainda que rapidamente,
o tópico concernente ao acolhimento
às reivindicações
e contribuições das comunidades
integrantes do vale do Paraíba.
Elas vinham nos noticiários da
folha e principalmente numa seção
intitulada "Correspondência
particular d'O Parahyba".
Trata-se de um tópico síntese,
pois ele pode englobar todos os anteriores
e mais alguns que não puderam
ser arrolados aqui, para que se não
encompridasse demais esta comunicação.
Na edição de 15 de setembro
de 1859, apareceu, vinda de Cantagalo,
a grita a respeito dos abusos no enterramento
dos mortos. Dizia o missivista:
"Aqui é indiferente que
escravo ou empregado, pois que são
pobres, sejam enterrados no sagrado
ou no profano (tal é a idéia
que se forma do sagrado!). Morre um
escravo não se procura atestado
de médico (isso nem ainda que
o senhor seja dos mais ricos). Todos
se julgam desobrigados dessa tão
importante e policial medida, somente
em prática na Corte; verificado
por alguém que o infeliz tem
os olhos fechados e a boca aberta, e
porque o albardão do enfermeiro
não achou mais pulso, está
morto!
Dada desde logo ordem para o enterrar,
lá se vai na mesma hora envolver
em sua manta aquele volume e, cortado
o competente taquaruçú,
ata-se pelos pés e mãos
ao pau aquele capado e daí o
conduzem na mesma hora ao lugar onde
se enterram os escravos da fazenda".
Não é de hoje que há
um Brasil vitrine, o da Corte e um outro
real na rudeza de seus costumes.
Os clamores de alguns arraiais da zona
da mata mineira, tributários
da ribeira da Paraíba, sempre
tiveram guarida nas páginas d'
"O Parahyba". De diversos
lugares vinham cartas com reivindicações
e propostas, logo divulgadas pela folha
em estudo.
Na edição de 17 de fevereiro
de 1859 o então arraial do Espírito
Santo, hoje cidade de Guarará,
reclamava da Assembléia pelo
menos a sua elevação à
freguesia; a mesma reivindicação
partia dos arraiais de Santo Antonio
do Aventureiro e de Madre de Deus do
Angu (hoje Angostura), distrito onde
não havia pobres, onde todos
eram remediados ou ricos.
Do Porto Velho do Cunha vinha na edição
d' "O Parahyba" de 15 de novembro
de 1859 a notícia de que a barca
lançada ao Paraíba pelo
governo de Minas para dar passagem às
bestas carregadas, às boiadas,
carneiradas, porcadas, em demanda de
São Fidelis, havia sido recuperada,
depois de três anos em que estivera
enterrada no rio, com enorme volume
de areia a bloqueá-la.
Numa síntese disse certo correspondente
na seção "Cartas
do Interior", publicada em 18 de
novembro de 1858, a propósito
desse estupendo trabalho de comunicação
social levado a efeito pela folha de
Zaluar no vale do Paraíba:
"O Parahyba despertando a atenção
dos poderes do estado para o melhoramento
das vias de comunicação
e da instrução pública,
como meio de destruir os óbices
que dificultam a marcha do progresso
provincial, e como o remédio
salutar que deve trazer à agricultura
e à indústria, numa época
pouco remota os gozos e vantagens de
que há muito se acham esbulhadas
estas fontes primitivas de riqueza pública,
presta à nossa bela província
o mais relevante serviço, digno
da gratidão de seus habitantes,
que por sem dúvida concorrerão
com o seu auxílio e esforços
a tornar realizáveis as idéias
de tão valente lidador".
Era o reconhecimento dos contemporâneos
ao enorme esforço desenvolvido
pelo jornal de Augusto Emilio Zaluar
na aproximação dos povos
sulparaibanos.