Silvio
Luiz da Costa
Este
texto apresenta as reflexões
realizadas a partir da pesquisa sobre
a política de expansão
industrial de Taubaté na última
década do século XX, à
qual foi objeto de minha dissertação
de mestrado e recentemente publicada
.
O objeto deste estudo consiste em avaliar
a pertinência de uma política
pública municipal de geração
de emprego e renda através de
incentivos fiscais em um contexto de
capitalismo globalizado. A escolha por
realizar a pesquisa em Taubaté
na década de noventa teve como
foco explorar um tema atual e que permitisse
uma melhor compreensão da realidade
local.
O levantamento de dados contou com três
bases principais: As doações
de áreas realizadas pela Câmara
Municipal, as informações
do programa de expansão industrial
do GEIN (Grupo de expansão industrial
- prefeitura de Taubaté) e uma
entrevista junto às empresas
instaladas nos distritos industriais.
A sistematização destes
dados, bem como, o cruzamento das informações
possibilitou um quadro geral desta política
municipal, permitindo uma avaliação
crítica de suas conquistas e
limitações e apontar desafios
a serem enfrentados.
Os parâmetros teóricos
de análise partem da crítica
à concepção de
desenvolvimento econômico, à
qual aponta este como insuficiente para
garantir melhorias nas condições
de vida do conjunto da população
e na construção da paz.
Historicamente, o crescimento econômico
reproduz as assimetrias entre países
e classes sociais (ARRIGHY, 1997). Este
modelo predominou na sociedade capitalista
industrial e tem na fábrica o
centro da vida, fonte do bom emprego
e do progresso. Imagem esta rica no
imaginário popular que ainda
busca um emprego estável e duradouro
e acredita que as novas empresas serão
a parteira do desenvolvimento. A força
deste apelo popular transparece na Câmara
Municipal, com a aprovação
dos projetos de doação
de área apresentados pelo executivo.
Enfim, a proposta tem seus limites,
a fábrica já não
tem a mesma centralidade, os empregos
para a vida toda se foram e já
não mais se concentram nos condomínios
industriais.
Deste modo, vamos encontrar no trabalho
de SEN (2000), entre outros, a proposta
de um desenvolvimento para além
dos aspectos econômicos, um desenvolvimento
sustentável e abrangente capaz
de potencializar as capacidades humanas
e ampliar o exercício da liberdade.
Outro foco de análise consistiu
em buscar a intersecção
dos fatores locais com a conjuntura
macroeconômica. Por exemplo, a
liberalização da economia
na década de 90 estimula uma
presença de investimentos multinacionais,
sobretudo no setor de autopeças,
caracterizando várias instalações
industriais no intuito de atender as
demandas das montadoras da região.
Ao mesmo tempo, as montadoras da região
estão em processo de reorganização
da produção, no qual setores
do processo produtivo são terceirizados
e as montadoras buscam empresas fornecedoras
de peças nas suas proximidades,
diminuindo os custos com transporte,
estoques e mão-de-obra. Neste
contexto, verifica-se na segunda metade
da década de 90 a instalação
nos distritos industriais de várias
empresas, predominantemente do setor
de autopeças.
Assim, a garantia de mercado para a
colocação de seus produtos
aparece como fator determinante para
a instalação industrial,
muito mais que fatores como localização
geográfica, disponibilidade de
mão-de-obra e dos próprios
incentivos municipais. Afinal de contas,
estas condições são
encontradas em outras cidades do Vale
do Paraíba, que não registram
em contrapartida o mesmo volume de novas
empresas instaladas.
Ao lado destes fatores macroeconômicos,
observa-se na expansão industrial
paulista um movimento de interiorização,
no qual se busca condições
favoráveis de reprodução
do capital como incentivos estatais
e mão de obra barata, sem os
custos das regiões metropolitanas
com transportes, terrenos, serviços
e infraestrutura urbana (NEGRI, 1994,
p. 2). Ainda mais, o interior não
tem na mesma proporção
a tradição sindical da
classe trabalhadora, a pressão
das questões ambientais e a deterioração
das condições de vida.
A interiorização da indústria
foi incentivada por programas governamentais,
nos quais os governos federal e estadual
realizaram obras de infra-estrutura
melhorando os sistemas de transporte
e fornecimento de energia, principalmente
nas cidades médias do interior,
capacitando-as para receber os eventuais
investimentos industriais provenientes
da descentralização industrial
da metrópole paulista. Aos municípios
coube, nesse processo, oferecer políticas
de atração de indústrias
com isenção de tributos
municipais e doação de
terrenos.
Seguindo as reflexões de Arrighy
acerca do desenvolvimento econômico
mundial (1997), observa-se Taubaté
como uma zona intermediária entre
as regiões desenvolvidas e a
periferia, sendo duplamente vantajosa
para os investimentos industriais, pois
apresenta vantagem de custos em relação
à metrópole e vantagem
de receitas em relação
às regiões periféricas,
concentradoras de pobreza e miséria,
além da ausência de políticas
públicas. As condições
vantajosas para a reprodução
do capital são visíveis
no processo de expansão industrial
da cidade, pois além de não
possuir os problemas comuns à
metrópole, os investimentos industriais
são acolhidos em políticas
municipais que oferecem bons terrenos,
infra-estrutura, benefícios fiscais
e assistência para o desenvolvimento
dos projetos.
Desse modo, a política de expansão
industrial de Taubaté, na década
de 90, é uma continuidade no
processo de desconcentração
e interiorização da indústria,
no estado de São Paulo, e insere-se
nas tendências gerais das sociedades
contemporâneas quanto à
migração ou deslocamento
das empresas para cidades e regiões
que ofereçam determinadas condições
sociais para sua instalação,
ou seja, demanda garantida para os seus
produtos, mão de obra com saber
técnico acumulado, certa dinâmica
urbana e fatores básicos para
o seu funcionamento como, por exemplo,
vias públicas, transporte urbano,
abastecimento de água, luz, gás
natural, sistema bancário etc
(COSTA, 2005, p.22).
Portanto, a definição
dos novos investimentos requer determinadas
condições instaladas como
a presença de um Estado organizado,
uma região dotada de infra-estrutura
básica, sobretudo quanto a transportes
e meios de comunicação.
É neste contexto que encontramos
cidades com um conjunto de incentivos,
mas com loteamentos industriais vazios,
assim como determinadas regiões
do mundo não são atrativas
para os investimentos industriais.
Política de Incentivos fiscais
Procurando atender à demanda
por geração de empregos
o poder público oferece um conjunto
de benefícios para a atração
de novas empresas. Os incentivos estatais
para a instalação da atividade
industrial são constantes na
história da indústria,
tanto na Europa como no Vale do Paraíba.
Em Taubaté esta política
pública de expansão industrial
intensifica-se na década de noventa,
com a aprovação da lei
municipal nº 018 de 17 fevereiro
de 1992, que dispõe sobre política
de incentivo ao desenvolvimento econômico,
que objetiva "atrair novos investimentos
no setor industrial e de prestação
de serviços".
As condições oferecidas
para os novos investimentos industriais
consistem em isenção fiscal
por um período de cinco a quinze
anos, de acordo com o número
de empregos e investimentos previstos,
doação de área
nos distritos industriais, condições
de melhoria como obras de terraplanagem,
asfaltamento, abastecimento de água,
rede elétrica, telefonia, gasoduto,
além de apoio logístico,
sobretudo na fase de instalação.
A ampliação do parque
industrial visa o desenvolvimento econômico,
a geração de empregos
e o aumento da capacidade fiscal do
município.
A gestão municipal desta política
compete ao GEIN - Grupo de expansão
industrial. Formado por um grupo de
poucos funcionários, este órgão
trabalha em conjunto com o setor de
planejamento e sua função
principal consiste na divulgação
das potencialidades do município
para a atração de indústrias.
É responsável também
pelo contato com as empresas que pretendem
instalar-se no município, devendo
firmar os contratos e elaborar os processos
de doações de área
a serem encaminhados à Câmara
Municipal .
No trabalho de divulgação,
o GEIN apresenta informações
sobre a cidade e as condições
vantajosas desta localidade para a instalação
de empresas, como a localização
privilegiada, as facilidades de transporte,
as perspectivas de crescimento com a
participação no MERCOSUL
e com o crescimento da micro-região
na produção nacional de
automóveis. São detalhados
os benefícios oferecidos pelo
município de Taubaté:
"ampla e sólida infra-estrutura
para a instalação de novas
empresas ou eventuais transferências"
como doações de áreas,
conforme necessidade do projeto e futuras
expansões, suporte para o projeto
civil e suporte para limpeza da área
e pavimentação do arruamento
e pátios internos.
O 'desenvolvimento de infra-estrutura
para atendimento industrial' inclui
ainda abastecimento de água,
gás natural, rede elétrica
e de comunicação; cadastramento
e formação de mão
de obra; viabilização
de vias de acesso às áreas
industriais; instalação
de áreas industriais e a integração
com órgãos governamentais.
Entre os incentivos, há o fornecimento
de 'nformações interessantes
ao projeto e ao empresário',
além da isenção
dos impostos municipais (COSTA, 2005,
p. 89).
Entre as vantagens oferecidas pela cidade
e propagadas pelo GEIN está ainda
"a disponibilidade de uma mão-de-obra
qualificada, marcada pelo desemprego
e subemprego com uma baixa média
salarial" , evidenciando a lógica
capitalista predominante em um mundo
globalizado com o poder público
divulgando a disponibilidade de mão
de obra ávida por ser explorada.
A política de incentivos fiscais
visa o desenvolvimento econômico
da cidade e tem, entre seus principais
objetivos, a geração de
empregos e o aumento na receita fiscal
do município. O mecanismo utilizado
pelo poder público para alcançar
este desenvolvimento é a oferta
de incentivos fiscais e doações
de terrenos, tendo em vista a atração
de empresas.
Doações
de área e instalação
das empresas
O
processo de doação de
área é articulado pelo
GEIN, o qual a partir do contato com
os empresários recolhe a documentação
necessária para a formulação
do projeto de lei a ser enviado à
Câmara Municipal. Entre outros,
a documentação inclui
o projeto das instalações
industriais, com estudos sobre a viabilidade
do empreendimento, ramo de atividade,
declaração de atividade
não poluidora, cronograma de
execução da obra, investimentos
e empregos previstos. Após a
autorização legislativa
o projeto é encaminhado para
a sanção do prefeito.
O Decreto 6834/1992 regulamenta a Lei
018/92, estabelecendo um sistema de
pontos para a definição
do período de incentivos fiscais
e os prazos a serem cumpridos pelas
empresas. A partir de um conjunto de
fatores como número de operários,
faturamento, valor do investimento e
destinação final do produto,
a empresa acumula um conjunto de pontos
que definem o período em que
vigorará a isenção
de tributos municipais, variando este
de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos. Desta
forma, as micro e pequenas empresas
só se beneficiam de isenções
fiscais durante um período de
cinco anos, enquanto que as grandes
empresas com um maior número
de operários, investimento e
faturamento elevados, poderão
se beneficiar dos incentivos fiscais
por quinze anos. Após a sanção
do projeto pelo prefeito a empresa tem
um prazo de seis meses para o início
das obras, sendo que o desrespeito dos
prazos do cronograma apresentado pela
empresa ou outras cláusulas contratuais
provoca a retrocessão do imóvel
doado para o município. Após
dez anos de cumprimento do contrato
a empresa ficará com a posse
definitiva do imóvel (COSTA,
2005, p.87).
No período analisado, de 1993
a 2000, a Câmara Municipal aprovou
160 projetos de doações
de área, sendo que não
se registra um único caso em
que um projeto seja rejeitado. Esta
unanimidade não foi quebrada
até mesmo quando se tratava de
uma empresa poluente, produtora de tintas,
rejeitada em outras localidades, apesar
das contestações de munícipes.
Depois a empresa não foi conseguiu
apresentar o RIMA - Relatório
de Impacto Ambiental. Esse fato indica,
de um lado, o grau de aprovação
pública da política de
atração de empresas, e,
de outro, o forte apelo político-eleitoral
diante do desemprego em um imaginário
no qual a indústria é
fonte geradora de empregos estáveis
e bem remunerados. Nas eleições
municipais de 1996 e 2000, a política
de incentivos fiscais domina o debate
político entre candidatos ex-prefeitos
disputando com dados e números
a eficiência nesta política
pública, demonstrando muito mais
do que contradições, a
continuidade deste programa de expansão
industrial em sucessivos governos municipais.
Assim, para além da guerra em
torno do governo mais eficiente na atração
de empresas, os fatores determinantes
de novas instalações estão
na conjuntura econômica tanto
interna quanto externa.
Até o final da década
de 90 cerca de 16% das áreas
doadas entre 1992 - 2000, se constituíram
em uma empresa instalada no município,
enquanto que 54% desistiram e 30% estavam
em obras e ou em projeto. Uma visita
nestes distritos industriais agora em
2005 revela que esta porcentagem próxima
de 15 % de aproveitamento das doações
realizadas pelo Legislativo continua
prevalecendo. Portanto, há uma
distância entre a aprovação
do projeto na Câmara Municipal
e a efetividade de uma empresa em funcionamento.
Entre as dificuldades para a realização
do projeto de instalação
estão mudanças nas expectativas
dos empresários em relação
à demanda por seus produtos e
alterações na conjuntura
econômica.
Entre os cinco distritos industriais
para instalação de novas
empresas de Taubaté, (Una I,
Una II, Piracangaguá I, Piracangaguá
II, São Gonçalo e Parque
Aeroporto) a pesquisa concentrou a atenção
nos distritos industriais Una I e Piracangaguá
I, uma vez que nestes se concentra um
maior número de empresas instaladas,
entre 1993 e 2000. O distrito industrial
Una I foi criado nos anos 80 e está
localizado às margens da rodovia
Presidente Dutra no sentido São
Paulo - Rio de Janeiro, na saída
da cidade de Taubaté em direção
ao município de Pindamonhangaba.
Já o Piracangaguá I foi
criado em 1969, e estende-se do distrito
residencial Quiririm até às
margens da rodovia Presidente Dutra,
na saída de Taubaté para
São José dos Campos e
São Paulo.
Apesar de ambos os distritos localizarem-se
às margens da rodovia Presidente
Dutra, observa-se no Piracangaguá
I um melhor aproveitamento de sua área
total, com novas instalações,
não havendo obras abandonadas
e nem galpões industriais vazios.
Entre outros, a proximidade com as montadoras
constitui um fator decisivo, pois das
quatorze empresas instaladas neste distrito
até o ano 2000, dez eram do setor
automotivo. A importância da proximidade
com a montadora nos novos paradigmas
produtivos aparece no depoimento do
diretor de uma das empresas: "Instalar
em Taubaté foi uma exigência
da montadora a fim de abaixar os custos
com importação, garantir
uma maior exigência na qualidade
e uma assistência direta do fornecedor",
ou seja, as empresas buscam a redução
de custos, terceirizando setores do
processo produtivo e eliminando estoques,
com a implantação do sistema
just in time, no qual a empresa terceirizada
e fornecedora entrega as peças
no momento em que serão utilizadas
pela montadora (COSTA, 2005, p. 123).
Neste contexto, os incentivos municipais
dão consistência a esta
dinâmica local, sinalizando um
bom relacionamento entre a burocracia
pública e os interesses empresariais.
Conquistas
e limites da política de incentivos
fiscais
As cerca de 25 novas empresas instaladas
nos distritos industriais de Taubaté
nos anos noventa garantiram um aumento
na receita fiscal do município,
novos empregos, a expansão do
parque industrial com novas tecnologias
e maior dinamismo no setor de serviços.
O aumento na captação
dos investimentos, juntamente com uma
maior participação na
arrecadação de ICMS, revela
a expansão industrial no município
de Taubaté. A maioria destes
investimentos tem origem externa com
predominância para os da Espanha,
outros dos EUA e uma parcela menor é
nacional. Os investimentos concentram-se
nas empresas transnacionais ou em consórcios
de empresas unidas na composição
do capital e que buscam condições
vantajosas para reproduzi-lo em todos
os cantos do globo. De acordo com Arduíni
(1997), os objetivos destas corporações
definem-se em "produzir onde os
salários são baixos, pesquisar
onde as leis são generosas e
auferir lucros onde os impostos são
menores" (idem, 11).
Neste contexto, observa-se um contraste
entre a globalidade do capital e as
contingências históricas,
geográficas e culturais locais.
Mediando este contraste, aparece a figura
do Estado, com políticas de incentivos
fiscais para atrair empresas e, ao mesmo
tempo, garantir a ampliação
do mercado de trabalho. A força
das corporações internacionais
condiciona as políticas públicas
e provoca uma distorção
no papel do Estado, quando este destina
recursos públicos para fins privados
e limita os gastos no atendimento às
necessidades públicas. Esta distorção
é acentuada pela competição
entre municípios, estados e regiões
que buscam oferecer as melhores condições
para a atração das empresas.
No entanto, os incentivos fiscais não
estão entre os fatores determinantes
para a localização das
empresas (COSTA, 2005, p. 131).
Quanto aos empregos gerados no conjunto
estão aquém dos previstos,
havendo empresas que gerou mais do que
previu e vice-versa. Nas empresas de
tecnologia intensiva as máquinas
são operadas por poucos funcionários,
pois há um processo produtivo
automatizado, no qual o funcionário
acompanha o desenvolvimento do produto,
competindo-lhe apertar botões,
colocar peças para serem processadas
e, finalmente, apanhar o produto pronto.
"Este investimento em tecnologia
aumenta a produtividade do trabalho,
reduz os custos de produção
e garante à empresa maior competitividade
para seus produtos. Por outro lado,
serão necessários milhões
de dólares em investimento para
se gerar alguns empregos" (Idem,
p. 136). Além do mais, os empregos
gerados nas empresas com inovação
tecnológica exigem mão
de obra qualificada, nem sempre disponível
na região. Por exemplo, nas entrevistas
nas empresas apareceu a dificuldade
de se encontrar em Taubaté trabalhadores
qualificados para as funções
de supervisor de compras e engenheiro
de qualidade, os quais acabam vindos
de outras localidades. Esta é
uma situação espinhosa
para o debate interno, pois os empregos
de melhor remuneração
podem não serem preenchidos pela
mão de obra local.
De acordo com Raud (1999, p. 203), o
que se observa neste processo de terceirização
é uma "forte polarização
das rendas entre os empregos técnicos
e administrativos de alto nível,
por um lado, e os empregos não
especializados e mal pagos por outro".
Nos distritos industriais pesquisados
"esta polarização
pode ser observada no interior das próprias
empresas, entre os funcionários
especializados, tanto do setor produtivo
como administrativo, e os das empresas
terceirizadas prestadoras de serviços
de limpeza, segurança e alimentação;
e entre empresas de forte inovação
tecnológica, como a Cooper Cameron,
produtora de equipamentos para produção
de petróleo, e empresas de mão-de-obra
intensiva, como a Citab, que produz
artefatos de cerâmica, como pias
e vasos sanitários" (COSTA,
2005, p. 139). Neste sentido, verifica-se
um crescimento econômico gerador
de concentração de renda
ou, como revelam os dados do IBGE sobre
os indicadores sociais do Brasil, mudam
se as condições de pobreza,
mas não alteram as acentuadas
desigualdades sociais.
Um maior dinamismo no setor de serviços
e no mercado interno é outro
aspecto a salientar deste programa de
expansão industrial e contribui
na geração de empregos
indiretos. Cabe destacar, por exemplo,
a ampliação da rede hoteleira
com a instalação em Taubaté
do Hotel Baobá, especializado
no atendimento a executivos. Este dinamismo
segue para outros setores como assistência
jurídica e contábil, empresas
de segurança, alimentação,
limpeza e transportes, tanto de passageiros
quanto no abastecimento da matéria-prima
e distribuição dos produtos
manufaturados nas empresas.
Conquistas importantes, porém
limitadas, pois os empregos gerados
ficaram aquém das expectativas.
Além do mais, a concentração
de empresas do setor de autopeças,
reforçou uma economia especializada
no setor automotivo. Apesar de Taubaté
ter uma vocação para outros
setores, como comércio, lazer
turismo e agropecuária, foi priorizado
o campo da atração de
indústrias como caminho para
o desenvolvimento econômico do
município.
Desenvolvimento
industrial e crescimento econômico
Desde
a decadência da economia cafeeira,
ainda no final do século XIX
as promessas da modernização
via industrialização,
desenvolvimento tecnológico e
crescimento econômico estão
presentes na história de Taubaté.
Muitas foram as mudanças, há
um crescimento demográfico e
um processo de urbanização.
Ao lado da industrialização
a cidade vai construindo uma paisagem
moderna, com avenidas, canalização
e "sumiço" dos riachos,
viadutos e túneis, quadras de
esportes cobertas, além de muitas
rotatórias. Porém, no
decorrer destas transformações,
foram reproduzidas e reforçadas
as desigualdades sociais, pois as condições
de pobreza e miséria persistem,
os serviços públicos são
precários, e um conjunto de trabalhadores
continuam se apresentando como mão
de obra barata.
Estes são os contrastes de uma
região semiperiférica
no qual se verifica nos distritos industriais
as ilhas de excelência, com empresas
portadoras de modernos aparatos tecnológicos,
extremamente limpas, com um visual pós-moderno
e funcionários especializados,
e, por outro, em bairros próximos
dos distritos industriais, como o bairro
Cecap em relação ao Piracangaguá
I, observa-se conjuntos habitacionais,
cujos lotes são de tamanho mínimo,
casas apertadas e construídas
de bloco. O contraste entre a empresa
moderna e o bairro pobre complementa
o contraste verificado entre os trabalhadores
no interior das empresas ou entre empresas,
revelado na qualificação,
nas condições de trabalho
e, sobretudo no nível salarial
diferenciado (COSTA, 2005, p. 147).
Ao Estado, neste contexto, fica uma
função mediadora garantindo
incentivos para o capital sem a mesma
contrapartida na qualidade dos serviços
prestados à população.
Assim sendo, a análise do programa
de expansão industrial do município
de Taubaté suscita alguns questionamentos.
O parque industrial ampliado indica
as características do processo
de desenvolvimento, na medida em que
gera riquezas, aumenta a arredação
municipal e traz novos empregos. Porém,
será que em médio prazo
o crescimento econômico da cidade
vai contribuir para diminuir as condições
de pobreza? Terá o desenvolvimento
econômico, como contrapartida,
o desenvolvimento social? O aumento
na arrecadação municipal
vai trazer melhorias no serviço
público e beneficiar as camadas
mais carentes da população?
Ou, o crescimento econômico vai
contribuir para aumentar a concentração
de renda e as disparidades sociais?
(COSTA, 2005, p. 147).
Estas questões colocam em xeque
este modelo de desenvolvimento econômico
e suscita um debate no sentido de buscar
outras referências na construção
do desenvolvimento. Nesta direção
Amartya Sen (2000) sugere que o fim
do desenvolvimento é a expansão
das liberdades humanas, através
da "eliminação de
privações de liberdade
que limitam as escolhas e as oportunidades
das pessoas de exercer ponderadamente
as suas condições de agente"
(idem, 10). Desse modo, a avaliação
do progresso se dá a partir de
valores diferentes daqueles que balizam
as cifras econômicas. O programa
de expansão industrial de Taubaté
pode ter trazido crescimento econômico
e ser visto como um fator de desenvolvimento
social e de expansão das liberdades
reais, porém, a realização
destas possibilidades depende de um
conjunto de fatores, entre eles, a ação
do poder público no sentido de
garantir oportunidades sociais. Senão,
como lembra Sen, o crescimento econômico
pode não alterar as desigualdades
sociais.
Na busca por alternativas encontramos
(RAUD,1999) a descrição
de uma experiência de valorização
das condições locais no
estado de Santa Catarina. Entre outros
se busca uma participação
da sociedade civil organizada na definição
e implementação de uma
estratégia própria de
desenvolvimento, e de um poder público
que incentive esta participação,
criando mecanismos e espaços
para uma maior atuação
dos cidadãos na gestão
da coisa pública. O poder público,
por exemplo, com uma ação
descentralizadora incentiva as organizações
locais através de programas de
qualificação e linhas
de crédito voltadas para as vocações
locais. A esta participação
social são importantes fatores
como: a presença de uma imprensa
livre e apuradora dos fatos, a disponibilidade
de informações sobre as
políticas públicas e a
constituição de conselhos
e associações ligados
às políticas de desenvolvimento
local, pois "a constituição
de atores sociais fortes e autônomos
em relação ao Estado permite
a expressão de sua criatividade"
e a "livre escolha de cada um em
função do interesse comum"
(Idem, 234).
Um desenvolvimento endógeno e
descentralizado tem em vista a construção
de um pólo de desenvolvimento
regional, com uma boa articulação
entre as empresas, sociedade civil organizada
e poder público, buscando, sobretudo
o fortalecimento de um comércio
interno, parceria na superação
de barreiras e na abertura de novas
oportunidades. Em uma visão ampla,
transparente e participativa o interesse
da coletividade pode ganhar espaço
e o conjunto da sociedade ser contemplada
na partilha dos benefícios do
progresso. Deste modo, que o crescimento
econômico reflita em desenvolvimento
social e a melhoria nas condições
de vida seja sinal que a cidade é
uma construção humana,
independente da fisionomia a ela garantida
nos diferentes momentos históricos.
A proposta de um desenvolvimento endógeno
para Taubaté traz alguns desafios
como a diversificação
da economia, um debate em torno das
potencialidades locais e, sobretudo
um poder público que exerça
o papel de articulador da comunidade,
incentivando as diferentes formas de
participação social na
construção da cidade do
hoje e do amanhã.
Considerações
finais
A
política de incentivos fiscais
em Taubaté, nos anos 90, compõe
um movimento mais amplo da economia
mundial conhecido como globalização
da economia, o qual trouxe uma maior
interdependência entre as economias
nacionais, com a desregulamentação
e abertura dos mercados e o conseqüente
aumento do comércio e das trocas
de bens e de serviços. Com as
novas tecnologias da informação
e dos meios de transporte as empresas
transnacionais ganham autonomia para
a implantação de uma descentralização
do processo produtivo, instalando unidades
produtivas em diferentes lugares tendo
em vista a redução de
custos em fatores como, matéria-prima,
mão-de-obra e conquista de novos
mercados.
Neste contexto, os incentivos estatais
indicam as boas relações
da burocracia pública com as
intenções de investimento,
mas o fator determinante na definição
de novos investimentos ocorre em decorrência
de uma demanda garantida para os produtos
das novas empresas no mercado da região,
uma certeza de retorno aos investidores.
Situação esta presente
nas fornecedoras de autopeças
para as montadoras, fazendo com que
50% das empresas instaladas nos distritos
industriais sejam do setor automotivo,
reforçando ainda mais a especialização
da economia taubateana em torno deste
setor que responde por mais de 70% da
arrecadação municipal.
Porém, a política de incentivos
fiscais de Taubaté trouxe um
maior dinamismo para a economia interna
deste município, com novos investimentos,
aumento das receitas fiscais e geração
de novos postos de trabalho. Desse modo,
essa análise reconhece as realizações
deste programa de expansão industrial,
porém aponta que os incentivos
municipais não são fator
locacional determinante e que a atração
das empresas integra um movimento mais
amplo do capitalismo. Nesse sentido,
este estudo aponta as limitações
de uma política voltada para
o crescimento econômico e sugere
a busca de alternativas para a construção
de um desenvolvimento abrangente, menos
dependente de um único setor,
valorizando as micro e pequenas empresas,
que acolha as possibilidades do comércio,
do turismo, do artesanato e da vasta
área rural deste município.
Importa ressaltar que ao lado das oportunidades
oferecidos ao capital externo pode-se
valorizar empresas e saberes da tradição
local, também fontes importantes
na geração de emprego
e renda. Isto significa a construção
de uma proposta de desenvolvimento capaz
de articular o local com o global, pensando,
sobretudo na melhoria das condições
de vida desta e das futuras gerações.
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C. O mito do desenvolvimento econômico.
São Paulo: Paz e Terra, col.
Leitura, 1996.
NEGRI, Barjas. "A interiorização
da indústria paulista (1920-1980)".
In: A interiorização do
desenvolvimento econômico no Estado
de São Paulo, 1920 - 1980. Coleção
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São Paulo: Seade, p. 55 - 113,
1988.
_____ Concentração e desconcentração
industrial em São Paulo (1880
- 1990). Tese de doutoramento. Campinas:
UNICAMP, 1994.
RAUD, Cécile. Indústria,
território e meio ambiente no
Brasil. Perspectivas da industrialização
descentralizada a partir da análise
da experiência catarinense. Florianópolis:
Ed. da UFSC; Blumenau: Ed. da FURB,
1999.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade.
São Paulo: Companhia das Letras,
1999.
Documentos
consultados:
CÂMARA MUNICIPAL DE TAUBATÉ.
Lei Complementar 018/1992. Dispõe
sobre política de incentivo ao
desenvolvimento econômico.
______. Decreto nº 6834/1992; Decreto
nº 7039/1992; Lei Complementar
53/1994.
______. Doações de área
1982 - 2000.
GEIN - GRUPO DE EXPANSÃO INDUSTRIAL.
Taubaté: onde viver é
melhor. Folders de apresentação
do município.
______. Áreas doadas no período
1982 - 2000. Instaladas, declinadas,
retrocedidas, em projeto, em obras.
______. Desenvolvimento sócio-econômico
realizado pelo Grupo de Expansão
Industrial - GEIN no período
1983 - 2000, 29/12/2000.
PREFEITURA MUNICIPAL DE TAUBATÉ.
Programa de expansão industrial
de Taubaté. 3ª ed. Taubaté:
PMT, 1995