Rachel Duarte Abdala
Professora da Universidade de Taubaté
Este
trabalho foi desenvolvido no Departamento
de Ciências sociais e Letras da
UNITAU. Englobou a preparação
dos alunos acerca das peculiaridades
do registro fotográfico e das
discussões acerca do estatuto
da fotografia como forma de comunicação
por meio de uma linguagem pictórica:
a visita à Barganha, conduzida
pelo Prof. Carlos Roberto Rodrigues,
para o registro de olhares e montagem
de uma exposição das fotografias
produzidas pelos alunos com base nessas
orientações. Este trabalho
pretendeu compreender, não apenas
a forma pela qual a fonte fotográfica
se constituiu como um instrumento de
pesquisa no campo historiográfico,
mas também as possibilidades
de sua utilização como
forma de registro documental de práticas
e de comunicação de percepções
sobre a realidade e sobre os processos
históricos.
Pretende-se, neste texto, apresentar
a experiência realizada no âmbito
do curso de Letras e as reflexões
suscitadas.
A Barganha, feira realizada aos domingos,
nas proximidades do Mercado Municipal
de Taubaté, possibilita a percepção
polissêmica do olhar, devido à
diversidade de práticas culturais
que apresenta. Para trabalhar a fotografia
como produtora de olhares sobre a Barganha,
houve necessidade de uma reflexão
sobre essa manifestação
da cultura popular valeparaibana.
Obviamente, não há aqui
a pretensão de tratar o assunto
proposto em toda sua extensão.
Mesmo porque, apesar de recente, a preocupação
com esse tipo documental vem suscitando
a produção de interessantes
e profundos debates e reflexões,
nos quais este texto se fundamenta.
Além disso, novas problematizações
e discussões demonstram a consolidação
desse tipo documental como fonte, e
sua utilização em pesquisas
favorece e promove o aprimoramento teórico
acerca da temática.
A fotografia brasileira oferece um campo
imenso, quase inexplorado e bastante
promissor para os estudiosos interessados
na discussão de suas estéticas
e práticas expressivas ao longo
da história. Contudo, a reflexão
ainda exige, por parte dos especialistas
da área, um empenho para superar
as lacunas existentes.
Neste sentido, este texto visa integrar-se
como forma de contribuição
ao conjunto dos trabalhos que têm
procurado promover uma avaliação
crítica da importância
da fotografia como meio de expressão
e comunicação e como fonte
documental, acrescentando o seu emprego
como objeto de pesquisa.
Outro objetivo é orientar a reflexão
aqui exposta pela percepção
da fotografia como fonte documental
de grande interesse e auxílio
para os estudos no campo da História,
apresentando uma experiência pautada
nessas premissas.
O tema da cultura é amplamente
abordado - pode-se mesmo dizer que não
há nenhum ramo das ciências
do homem que o dispense. A Antropologia
Cultural, a Sociologia, a História,
a Geografia, a Lingüística,
a Crítica Literária, etc.
colocam-no como central em suas atividades
e pretensões. A fotografia também
apresenta essa característica
caleidoscópica. Desse modo, neste
trabalho, a associação
entre a fotografia e a cultura popular,
representada pela Barganha, configurou-se
como esforço teórico-metodológico.
Assim como a Barganha é revestida
pejorativamente pelo senso comum como
cultura popular, a fotografia é
percebida como mera reprodução
da realidade.
De acordo com Alfredo Bosi, em Dialética
da Colonização, é
inconcebível pensar a cultura
brasileira fora do processo de colonização
sofrido pelo país, processo do
qual a Barganha é uma resultante,
pois seus primórdios podem ser
localizados nesse período. A
prática da troca, escambo, deveu-se
à escassez de recursos na região
durante o início da colonização.
Hoje, como pode ser percebido na exposição
deste trabalho, há a manutenção
dessa tradição em dois
pontos específicos.
Constituiu-se, portanto, neste trabalho,
a dialética proposta por Bosi,
entre o olhar erudito, dos alunos e
professores, e o da manifestação
popular desenvolvida na feira. Considerando
que a função da Universidade
é formar profissionais aptos
a atuar na sociedade, faz-se premente
a promoção de reflexões
e de experiências como esta durante
o processo de formação,
fomentando o intercâmbio entre
a Cultura erudita, acadêmica,
e a popular.
Há que se considerar, ainda,
a visão de Cultura e de representação
de Roger Chartier, historiador comprometido
com a 3ª geração
do movimento dos Annales, promotor de
deslocamentos de se fazer e de se olhar
a História. A História
Cultural preconizada por Chartier não
propõe novos objetos para a História,
mas novas formas de olhar os objetos.
Alinhado com essa perspectiva, este
trabalho propôs lançar
um olhar sobre uma manifestação
cultural que, apesar de negligenciada
pelos estudos historiográficos
da região, apresenta inúmeras
possibilidades de estudos.
Pela perspectiva da longa duração,
a prática de trocas de objetos
desenvolvida na cidade de Taubaté
estabeleceu historicamente regularidades
e permanências. Mesmo com a inserção
de mercadorias modernas, movidas a pilha
e com componentes eletrônicos,
a lógica aparentemente caótica
se manteve. De acordo com Bosi, a cultura
popular é plural, mas não
caótica, pois apresenta uma lógica
de ordenação que lhe é
própria. Para Chartier, o aspecto
cultural é o articulador de todos
os outros, porque todos os homens partilham
de referenciais culturais comuns. Assim,
a representação é
também socialmente construída.
Com base nessa prática cultural
e nessa formulação, verifica-se
que na Barganha se articulam aspectos
sociais e econômicos - muitas
pessoas se deslocam até a Barganha
aos domingos meramente para conversar,
e a Barganha movimenta um mercado informal
muito significativo, no aspecto econômico.
De acordo com Chartier, as práticas
são enraizadas nos sujeitos.
No caso deste trabalho, há a
intersecção entre duas
práticas culturais: a das trocas
promovida na Barganha e a representação
dessas práticas por meio das
fotografias produzidas pelos alunos.
Chartier reabilita o sujeito, percebendo-o
atuante mesmo quando não tem
consciência total de seus atos.
O sujeito conforma e é conformado
pela prática, pois está
imerso no universo cultural, inventa
novas formas de utilizar o arsenal cultural
que lhe é dado, como forma de
comunicar sua interpretação
de mundo. Não só o "barganheiro",
mas também os alunos, autores
dos registros fotográficos, comunicam
suas percepções por meio
de representações culturais:
o rearranjo dos objetos culturais e
os olhares cristalizados pela fotografia,
respectivamente.
Outro conceito desenvolvido por Chartier
pertinente a essa reflexão é
o de materialidade, pois, de acordo
com o autor, só se pode trabalhar
uma idéia pela forma como ela
se materializou (manifestações,
representações). Assim,
só podemos analisar essas interpretações
e esses olhares pelos arranjos e pelas
fotografias produzidas.
Nas últimas décadas, realizaram-se
pesquisas que tratam particularmente
da imagem ou que fazem alusão
a ela, analisando as imagens apresentadas,
inserindo-as na reflexão, em
vez de utilizá-las com o intuito
de embelezar o trabalho ou de simplesmente
ilustrar algum aspecto descrito no texto.
A concepção e utilização
da imagem fotográfica como ilustração
que acompanha e torna mais agradável
a leitura dos textos e mais rica a composição
dos livros já foi definitivamente
superada, pelo menos para esses estudiosos
e outros preocupados com a questão.
Entretanto, há que se considerar
que a fotografia, embora tenha indiscutivelmente
esse caráter, é bem mais
complexa e fecunda do que essa simplista
justificativa de sua utilização.
Essa superação foi detectada
por pesquisadores como Miriam Moreira
Leite e Diana Vidal, que teceram considerações
a esse respeito, em seus trabalhos.
Miriam Moreira Leite observa, em seu
trabalho "Retratos de Família",
publicado em 1993, esse uso da fotografia,
tornando evidente a conscientização
de pesquisadores a respeito dessa verificação.
A
utilização mais freqüente
e antiga da fotografia, nos trabalhos
de ciências humanas, é
como ilustração do texto.
A fotografia seria a vitrine, através
da qual o leitor pode tomar um contato
imediato e simplificado com o texto
.
Diana
Vidal, além de chegar à
mesma constatação, avança,
afirmando que essa forma de utilização
já foi banida, ou seja, mesmo
que ainda seja freqüente, não
há mais como realizá-la
inocentemente, sem a consciência
de que esse emprego da imagem implica
ou pode suscitar o exame criterioso
e minucioso de pesquisadores. Segundo
ela, essa etapa do conhecimento, uma
vez ultrapassada, pode conduzir ao próximo
movimento de investigação
das informações contidas
nas imagens.
Banida
a interpretação das fontes
visuais como mera recolha de imagens,
como representação de
uma realidade conferida ao ontem, elas
se abrem a novas leituras. Ultrapassando
a horizontalidade das informações
que apresentam, oferecem-se a um estudo
das sociedades, permitindo-nos indagar-lhes
as formas como estas sociedades concebiam
seu cotidiano, ou o imaginário
coletivo informado e contraposto ao
imaginário individual (do autor).
É
importante ressaltar que, além
dessa recente perspectiva da fotografia
como fonte documental, abre-se também
a perspectiva de seu tratamento e estudo
como objeto de pesquisa.
Com a fascinante capacidade de articular
beleza e informação, sua
principal característica, a fotografia
constitui um desafio para o pesquisador.
Libertar-se da contemplação
estética imposta pela imagem
e superar a concepção
que a considera apenas como um fragmento
da realidade são, possivelmente,
dificuldades que tornam complexo o trabalho
com esse tipo documental ainda pouco
explorado pela historiografia, a qual
procura organizar uma metodologia para
o seu tratamento. Considerando esse
aspecto, constata-se a necessidade de
se indagar a fotografia em seu próprio
código, a linguagem imagética,
não verbal, limitada pelas opções
por determinados recursos técnicos
e estéticos de cada época.
O emprego da fotografia como fonte pode
ser percebido como um meio para refletir
acerca da forma como os agentes sociais
percebem a realidade de modos diversos
a partir dos ângulos ocupados
por eles na sociedade, além de
oferecer elementos para a compreensão
das representações. Segundo
Boris Kossoy, é um produto socialmente
construído pelo olhar acumulado
de diversos sujeitos (o contratante,
o fotógrafo, o fotografado e
a sociedade), e, portanto, assim deve
ser compreendida.
Para a compreensão e utilização
da fotografia como documento é
preciso considerar, não só
a imagem em si, mas também as
condições de sua produção
(técnicas e referências
ao fotógrafo) e os processos
de circulação, divulgação
e apropriação do registro
fotográfico.
A análise da representação
fotográfica pela perspectiva
histórica torna possível
vislumbrar as relações
entre propostas pedagógicas e
seus mecanismos de transformação
e de conformação de práticas
escolares. Assim, a investigação
dessa fonte documental pode contribuir
para a compreensão de questões
relativas à fotografia como campo
de conhecimento e relativas aos fatos
históricos, ou as evidências
destes, como neste caso que representa
as práticas culturais remanescentes,
enquadrados nas imagens.
Outra consideração pertinente
é a de que, além do deslumbramento
que toda imagem desperta, há
ainda o fato de que todos nós,
invariavelmente, já fomos submetidos
a alguma dessas situações,
ou a todas elas. Portanto, nosso olhar
está impregnado pelas referências
emocionais e culturais. Permitir ao
olhar abrir-se às múltiplas
possibilidades, sensibilizando-se por
singularidades dos vários momentos
históricos, constitui grande
desafio para o pesquisador e implica
redobrado esforço. Assim, o esforço
não se refere apenas a lidar
com uma fonte a qual ainda se encontra
imersa em processo de formação
teórico-metodológica para
o seu tratamento, como desavisadadamente
se poderia supor.
Conceber o registro fotográfico
como um discurso e como um tipo documental
implica um deslocamento em relação
à tradicional análise
das imagens, apresentadas como meras
ilustrações dos temas
pesquisados, como no caso dos trabalhos
sobre história. Nesse sentido,
trabalhar com a fonte iconográfica
tem-se constituído um desafio
para a história. Apesar de ser
recente, a preocupação
com esse tipo documental tem se consolidado
devido à percepção
de que a sua exploração
proporciona novo e amplo campo de análise.
Na pesquisa histórica, deve-se
estabelecer um diálogo com a
imagem. Compreendida como representação
de uma realidade, requer a articulação
com outras informações,
provenientes de outras fontes, na procura
da descontrução analítica
do enunciado visual.
A materialidade, as condicionantes técnicas,
o olhar do fotógrafo e o objeto
enfocado são os elementos internos
da fotografia. Os elementos externos
abrangem a contextualização
histórica, a utilização,
a apropriação e a representação
da imagem. Ambos os conjuntos devem
ser examinados, no intuito de compor
uma reflexão consistente e aprofundada.
Assim, a interpretação
das fontes deve ser apresentada em dois
níveis, o de apreciação
do documento como indício histórico
e o do objeto sujeito à crítica,
visando analisar a maneira pela qual
os discursos são constituídos,
bem como as apropriações
que os redefinem e rearticulam.
[...] de todas as estruturas de informação,
a fotografia seria a única a
ser exclusivamente constituída
por uma mensagem 'denotada' que esgotaria
totalmente seu ser; diante de uma fotografia,
o sentido de 'denotação'
ou de plenitude analógica, é
tão forte, que a descrição
de uma fotografia é, ao pé
da letra, impossível; pois que
descrever consiste precisamente em acrescentar
a mensagem denotada um relais ou uma
segunda mensagem, extraída de
um código que é a língua,
e que constitui, fatalmente, qualquer
que seja o cuidado que se tenha para
ser exato, uma conotação
em relação ao análogo
fotográfico: descrever, portanto,
não é somente ser inexato
ou incompleto; é mudar de estrutura,
é significar uma coisa diferente
daquilo que é mostrado.
Pela lógica deste trabalho, poderíamos
acrescentar, a essa afirmação
de Roland Barthes, que, apesar desses
problemas inevitáveis e da dificuldade
em descrever uma imagem, essa é
uma operação necessária
para sua interpretação
e exame. Boris Kossoy ressalta que uma
imagem sem as referências (data,
local, fotógrafo, fotografados)
perde grande parte de seu potencial.
Portanto, essas informações
são essenciais para uma pesquisa
que pretende usar fotografias como fonte
e/ou objeto.
Empregar a fotografia como fonte documental
para uma pesquisa não significa
excluir da análise as demais
fontes, pois, para a exploração
das informações contidas
na imagem é necessário
recorrer a essas fontes, mesmo porque
os trabalhos de investigação
geralmente congregam um grande número
de documentos de variados tipos, visando
compor o mais completo quadro para fundamentar
a interpretação proposta.
Além disso, a identificação
é também um exercício
realmente estimulante: rastrear localizações,
identificar rostos; reconhecendo assim
a substância documental das representações
fotográficas.
Miriam Moreira Leite afirma que, para
tornar visível o invisível,
ou seja, as informações
circunscritas à imagem, a documentação
fotográfica é submetida
a diversas instâncias e níveis
de interpretação e análise,
para despojar-se das deformações
através das quais é percebida.
Geralmente, há a tendência
de descrever mais pormenorizadamente
uma imagem, de acordo com sua "distância"
da época atual. É uma
relação de constatação
que se estabelece, e não de distanciamento
e estranhamento, como propõe
Foucault. Uma relação
que, ao pretender-se totalizante, objetivando
abarcar todo o figurativo, elimina,
paradoxalmente, as possibilidades de
interpretação e dirige
o olhar e a leitura. Análise,
aqui, significa descrição.
Este trabalho procurou verificar e demonstrar
o desenvolvimento teórico e metodológico
do assunto proposto. Assim, percorre
os níveis pelos quais passou
o tema no âmbito acadêmico
e suas superações. Já
descrito, o primeiro nível a
que nos referimos aqui seria o do uso
da imagem fotográfica como ilustração
dos textos; superado este, os pesquisadores
confrontaram-se com a dificuldade, ainda
hoje observada, do tratamento da fotografia
como fonte, e todas suas implicações
e, mais recentemente, empenham-se em
explorar a fotografia como objeto de
pesquisa.
A fotografia é, indubitavelmente,
uma forma de representação
da sociedade, da arquitetura e do espaço,
e, nesse caso, torna-se elemento fundamental
para compreender a relação
entre os projetos de novas edificações
escolares e os objetivos imprimidos
à sua representação
fotográfica . Assim, esse recurso
tem sido utilizado por administrações
públicas desde a descoberta desse
potencial característico da fotografia,
quase concomitantemente com sua invenção,
no século XIX.
Entendida como representação
de uma realidade, como recurso pedagógico
ou como fonte para pesquisa, a imagem,
neste caso a fotográfica, possibilita
a percepção de construções
históricas. Assim, a análise
da representação fotográfica
viabiliza a compreensão da relação
entre as propostas pedagógicas
e a formação de práticas
escolares.
A investigação das regularidades
enunciativas permite perceber a alteridade
entre campos de enunciação,
ou seja, entre conjuntos de fotografias.
Com base na problemática da produção
do registro, nos motivos que a influenciaram
e nas suas especificidades, há
que se investigar as condicionantes
históricas, estéticas
e intencionais que permearam a composição
das imagens que se pretendia conservar
e, ao mesmo tempo, como estas foram
apropriadas.
Se considerarmos que a fotografia é
freqüentemente utilizada como veículo
de divulgação e incorporação
de ideais e concepções,
teremos de considerar também
o consumo dessas imagens. Certeau indica
uma relação entre representação
e comportamento social que pode ser
transposta a essa temática, pois,
como nos mostra Kossoy, além
do olhar do fotógrafo que recorta
a imagem, também está
presente a forma pela qual as pessoas
se apresentavam, ao serem registradas.
Os estudantes experenciaram e observaram
a atitude dos comerciantes ao serem
fotografados.
As fotografias oferecem-nos recortes
da realidade de acordo com as formas
pelas quais as sociedades se permitiram
representar. A produção
do registro fotográfico, portanto,
obedece ao universo simbólico
de cada grupo social e cultural. Por
conseguinte, o universo escolar apresenta
seu próprio conjunto de padrões
de representações, conforme
é possível constatar a
partir de nossas lembranças de
experiências escolares e nossos
registros fotográficos dessas
experiências e a partir do exame
de imagens escolares presentes em arquivos,
livros, jornais, álbuns.
Na formulação de Jacques
Aumont , as imagens são feitas
para serem vistas, denotando uma intencionalidade
na sua produção e a existência
de um espectador presumido. Desse modo,
as fotografias produzidas pelos alunos
foram feitas com a intenção
de registrar aspectos significativos
desta manifestação cultural
taubateana e considerando o público
expectador.
As imagens fotográficas não
se esgotam em si mesmas, e nem poderiam,
uma vez que são o produto de
uma profusão de fatores; portanto,
significam o ponto de partida da investigação.
Considerando que elas nos revelam apenas
um fragmento selecionado da aparência
das coisas e dos fatos, não podemos
tomá-las como verdades únicas
e absolutas, como testemunhos do passado
que procuramos reconstituir e que jamais
será visto novamente da forma
como foi concebido, pois está
impregnado, agora, pelo olhar do historiador.
Ponderando com base no quadro aqui exposto,
é possível inferir que,
apesar das dificuldades inerentes ao
trabalho com a imagem, mais especificamente
com a imagem fotográfica, tanto
como fonte documental, quanto como objeto
de investigação, o campo
é pleno de possibilidades.
Desse modo, desnaturalizando um olhar
sobre a Barganha, como manifestação
cultural, como propõe Foucault,
é possível analisar a
produção de discursos.
Desnaturalizar o olhar, de acordo com
Foucault, é questionar e analisar
algo que nos parece óbvio, por
fazer parte de nosso cotidiano.
Talvez por esse motivo até o
momento não haja pesquisas sobre
essa rica manifestação
da cultura popular e remanescente da
história de Taubaté. Assim,
como Roland Barthes ("Meu interesse
pela fotografia adquiriu uma postura
mais cultural".), os alunos envolvidos
neste trabalho puderam analisar sua
própria compreensão do
mundo.
Finalizando o trabalho, foi organizada
uma exposição das fotografias
produzidas pelos alunos, colocando,
em circulação, assim,
novos objetos culturais, que possibilitarão,
por sua vez, novas apropriações
interpretativas e se manterão
como registro histórico desta
experiência.
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