SALA DE COMUNICAÇÃO
CHICOTE: O JORNAL QUE MUDOU UMA CIDADE
  
   


Judas Tadeu de Campos
IEV - UNITAU - PUC-SP

O Carnaval que se realiza em São Luís do Paraitinga, é um dos mais movimentados do Vale do Paraíba. O que mais caracteriza essa festividade, que começou em 1980, são os blocos, que representam, em suas coreografias, os mitos, a arte, os desejos, enfim, a cultura do lugar. Mas, mesmo nessa cidade, poucas pessoas sabem que essa forma de celebração de seu arquétipo começou com algumas matérias publicadas pelo jornal Chicote, que circulou dois anos antes.
O jornal Chicote surgiu em maio de 1978, fundado por um grupo de rapazes que estavam preocupados com a situação de marasmo da política em São Luís do Paraitinga, onde há muitos anos dominavam os caciques populistas, sucessores dos antigos coronéis. Outra preocupação desses jovens, boa parte estudantes da Universidade de Taubaté (UNITAU), era a política nacional, onde o autoritarismo do regime então gloriosamente reinante incentivava o clientelismo, que pontifica na política daquela pequena cidade até os tempos atuais.
Os estudantes se inspiraram nos órgãos da chamada imprensa alternativa, em especial no semanário Pasquim, ícone dessa forma de jornalismo, que na época vivia seu apogeu. Esse "hebdomadário", como se autodenominava o jornal, era publicado no Rio de Janeiro pela Editora CODECRI, sigla que significava Comissão de Defesa dos Crioulos.
O Chicote não tinha editor. Era feito pelo coletivo de seus próprios redatores: Benito Euclides de Moura Campos, José Alfredo Pereira Rodrigues, Judas Tadeu de Campos, Marco Antônio Rio Branco, Nilson Lopes Soares, Sérgio Moradei de Gouvêa e Sebastião Nascimento Santos Júnior. Embora fosse mensal, a pauta e o fechamento eram motivos de reuniões semanais, feitas geralmente na casa de algum de seus redatores, onde, durante horas, discutiam os acontecimentos que marcavam a vida de São Luís do Paraitinga, procurando sintonizá-los com o contexto da política brasileira e com os temas mais importantes do noticiário internacional.
Como boa parte de seus integrantes residia na Rua Monsenhor Ignacio Gioia, no centro da cidade, expediente constava como endereço do jornal o nome dessa rua, acompanhado de um oportuno "s. n.º" (sem número), já que, na época, no País se viviam tempos de repressão política e à imprensa.
O nome do jornal foi tirado de um semanário chamado O Chicote, que circulou em 1934, em São Luís do Paraitinga. Já naquela época, seus redatores, Alfredo Bento Pereira Júnior e Mário Joaquim Dias, diziam em editorial que a existência de um periódico na cidade era necessária para "preencher uma lacuna amplamente suscitada pela mocidade local, que se vê privada de expressar seus sentimentos pela falta de um órgão que os inspirasse" (p. 1).
Um dos redatores, Mário Joaquim Dias, era filho do jornalista Bernardo Joaquim Dias, que durante várias décadas, publicou o jornal Luisense, o mais importante órgão de imprensa da história da cidade (CAMPOS, 1997, p. 26). O outro editor, Alfredo Bento Pereira Júnior, era tio de José Alfredo Pereira Rodrigues, um dos redatores do Chicote.
Embora não fosse o objetivo imediato de seus redatores, o Chicote acabou tendo uma influência que foi muito além de ser apenas um crítico jocoso dos provincianos costumes políticos de São Luís do Paraitinga. Surpreendentemente, até para eles, o jornal acabou influenciando muitos dos acontecimentos e inovações que posteriormente ocorreram naquela cidade e tendo um impacto decisivo na vida de seus redatores.
Uma das principais inovações provocadas pelo Chicote foi a introdução de uma linguagem atualizada, em comparação com os jornais que, na época, circulavam no Vale do Paraíba. Usando objetividade nas informações, estilo simples e direto, evitando frases feitas e lugares-comuns, o jornal foi o primeiro na região a usar o estilo de texto conhecido como "linguagem jornalística", embora esta, há muitos anos, já fosse adotada pelos grandes jornais brasileiros (MARTINS, 1987, p. 2).
Para se ter uma idéia da linguagem rebuscada e pretensiosamente literária usada pelos jornais das grandes cidades valeparaibanas, transcrevo, "ipsis litteris", a abertura de uma matéria sobre São Luís do Paraitinga, publicada num periódico da época (conto o milagre mas não conto o santo):
"Protegido pela couraça granítica das serras do Mar, ao Sul e ao Norte, na direção leste e a oeste, pela do Quebra Cangalhas, o município de São Luiz do Paraitinga como que se refugia num vale encantador, onde reina a paz, o socego (sic), a tranqüilidade. Sentinela avançada de São Paulo, tem sabido, nos momentos decisivos de nossa história, resistir aos embates das marés montantes, cujos vagalhões vêm uivar nos rochedos que lhe marginam o contorno. E como o seu povo é amante da liberdade e da ordem, o civismo ali é intenso, vibrante, magestoso (sic). Recebendo como recebe, os influxos da capital, todo o município é uma forja de trabalho, uma oficina em constante movimento."
A imprensa de São Luís do Paraitinga, seguindo um costume comum na região, sempre teve um caráter francamente partidário, onde era muito difícil encontrar um relato objetivo. Normalmente os jornais eram órgãos de propaganda, criados para divulgar e defender um determinado cacique político. Uma das articulações fundamentais da linguagem dessa imprensa provinciana era a dicotomia "sociedade-povo". A classe dirigente era chamada de "sociedade", enquanto o restante da população era designado coletivamente como "povo" (CAMPOS, 1997, p. 28-29).
Nas inevitáveis "Notas Sociais", que apareciam em quase todos periódicos - sempre referentes às pessoas da "nossa melhor sociedade" - predominavam informações pasteurizadas como: "Está de volta ao nosso convívio, depois de merecida viagem de férias, o Digníssimo Doutor..." ou "na casa do feliz casal..., nasceu um lindo pimpolho, que na pia batismal receberá o bonito nome de...".
O Chicote provocou uma ruptura nessa tendência. Nenhum grupo da polarizada política luisense escapava da análise crítica do jornal, geralmente feita em tom jocoso, procurando mostrar como os políticos locais estavam defasados em relação ao próprio contexto nacional. Eles nunca haviam recebido alfinetadas como essas.
A nova linguagem, que desprezava o tom laudatório tão comum e apreciado, provocou reações inusitadas entre os próprios moradores da conservadora São Luís do Paraitinga. Alguns leitores interpelavam os redatores, reclamando da linha editorial, que não exaltava "as coisas boas do município". O jornal chegou a receber cartas em que leitores diziam que os detentores do poder local deveriam ter um tratamento mais respeitoso. Em uma dessas cartas um leitor lamentava que o jornal escrevesse apenas "o prefeito Fulano de Tal". E ensinava que o tratamento correto para essa autoridade, no jornal, deveria ser: "o senhor prefeito Fulano de Tal" ou "Sua Excelência, o prefeito Fulano de Tal"...
O jornal provocou outras rupturas. Este é o caso da valorização de certas pessoas que, embora pobres, eram muito importantes para a preservação dos costumes, da cultura ou do imaginário da localidade. Até então a elite urbana as considerava como tipos exóticos, primitivos e até desprezíveis. É o caso de João Eduardo, um velho violeiro, mestre da Folia do Divino e depositário de um riquíssimo acervo de músicas de religiosidade popular. E de Geraldo Tartaruga, um artista popular que fazia figuras de barro muito criativas, cujo talento não era reconhecido. A maioria dos habitantes, para decorar suas casas, preferiam comprar produtos de gosto duvidoso, que eram veiculados pelos meios de comunicação de massa. Ambos artistas residiam no local conhecido como Alto do Cruzeiro, onde até hoje predominam pessoas carentes, entre os moradores da cidade.
Os moradores desse bairro, ignorados por boa parte da classe dirigente e que os políticos só visitam durante as campanhas eleitorais, foram valorizados pelo jornal. É o caso de uma entrevista feita com Nhá Maria das Neves, a mais antiga moradora do Alto do Cruzeiro. Na edição de Natal os jornalistas expuseram as dificuldades dos moradores do lugar. A principal matéria e o assunto do editorial foi a história de uma mulher que vivia num casebre, com sete filhos e dependia, para sobreviver, do salário-mínimo que o marido ganhava como "camarada", como são conhecidos na região de influência da cultura caipira os trabalhadores diaristas.
O Chicote publicou reportagens sobre a situação dos moradores do município que na época se tornaram os primeiros trabalhadores bóia-frias do município. Eles trabalhavam nas plantações de eucaliptos ou na conservação da Via-Dutra. Outro assunto-tabu exposto pelo jornal foi uma matéria contando a história da perseguição que os protestantes sofreram no segundo quartel do século XX. Várias vezes grupos de católicos locais expulsaram, a poder de pedradas, os evangélicos que chegavam a cidade para pregar suas crenças.
O jornal também resgatou a memória de várias pessoas que já haviam falecido mas que foram muito importantes para a cultura popular do município. É o caso de Tia Teresa, uma ex-escrava, que fazia bonecas de pano para sobreviver e conhecia todos os segredos da dança do jongo e de outras coreografias trazidas pelos negros, no século XIX e que agora estão praticamente desaparecidas.
Mas a matéria que acabou provocando a maior repercussão foi um despretensioso perfil de uma figura que havia morrido em 1962. Tratava-se de Benedito de Souza Pinto, um oficial de justiça aposentado. Durante quase 50 anos ele preservou muitas das tradições seculares da cidade. Na Festa do Divino confeccionava os bonecões João Paulino e Maria Angu, promovia brincadeiras infantis como o "quebra-potes", onde um dos três recipientes sempre continha uma casa de marimbondos e, no Sábado da Aleluia realizava a "malhação do judas". Dito Pinto, como ele era conhecido na cidade, todo ano redigia o "testamento do judas", feito com trovas bem humoradas, lidas em praça pública e onde o "judas" legava cada um de seus defeitos para políticos e autoridades locais.
Em sua casa, Dito Pinto mantinha uma espécie de museu e uma biblioteca com obras de escritores da literatura brasileira e internacional. E as emprestava para quem as quisesse ler. Além de artista e promotor cultural, ele era um poeta. Fazia poesias permeadas por um humor impagável, onde aparecia sob o pseudônimo de "Juca Teles do Sertão das Cutias". Até então, Benedito de Souza Pinto só era lembrado na cidade como sendo um indivíduo "meio louco". O Chicote, porém, desde o primeiro número, o tratou com respeito e promoveu o resgate de seu nome enfatizando sua importância para a cultura luisense.
Foram alguns dos integrantes do Chicote que, anos mais tarde, fundaram o bloco carnavalesco "Juca Teles", que sempre abre o carnaval da cidade - uma clara homenagem ao trabalho realizado por Benedito de Souza Pinto. E tiveram uma grande influência em determinar um novo modelo de carnaval, inspirado no arquétipo local e diferente dos realizados em outras cidades da região. O jornal também acabou tendo influência na vida da maioria de seus componentes. Quatro de seus redatores se tornaram jornalistas profissionais. Alguns chegaram a trabalhar em órgãos da chamada grande imprensa paulistana, como repórteres e correspondentes.
Uma parte do dinheiro que permitia a impressão do Chicote vinha da veiculação de publicidade de profissionais liberais e do comércio local. No entanto, o principal anunciante do jornal era a estatal Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) que, apesar de estar sob a tutela de um governo ligado à política conservadora do município, acreditou na proposta dos jovens jornalistas e comprava pelo menos meia página de cada número, pagando o preço do mercado regional de publicidade, bem acima do que podiam pagar os comerciantes locais.
Graças a essa publicidade o jornal tinha uma situação financeira confortável. Porém, após o número de dezembro, seus integrantes resolveram interromper a circulação. Os motivos foram desentendimentos internos, provocados ora pelo estrelismo de alguns de seus componentes ora por falhas na distribuição das matérias no corpo da publicação. O mesmo comportamento diletante e voluntarioso que levou os rapazes a criar o jornal, acabou provocando o fim intempestivo desse periódico. Em São Luís do Paraitinga, nunca mais houve outro jornal como o Chicote.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS, J. T. A imprensa em uma cidade imperial paulista: do Império à Primeira República. Revista Acervo, Departamento de Comunicação Social, UNITAU, Taubaté, 1, 25-30, 1º sem. 1997.
LEITOR AMIGO. O Chicote, São Luís do Paraitinga, 28 de janeiro de 1934.
MARTINS, E. (Org.). Novo manual de normas de redação. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1987.


 


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