RESUMO:
O presente trabalho busca refletir sobre
as relações entre literatura
e história em âmbito regional,
mediante a análise da obra de
Cassiano Ricardo. Analiso a relação
entre a experiência histórica
particular a sua infância e desdobramentos
em sua carreira literária. É
pertinente refletir sobre sua atuação,
pois suas reflexões foram importantes
para a ação ideológica
do Estado Novo (1937-1945).
A
trajetória particular de cada
indivíduo mescla-se as contradições,
as tensões de sua época.
O relacionamento de cada ser humano
com o mundo é indissociável
destas condições. Contudo
raros são aqueles que conseguem
expressa-lo, simultaneamente, com objetividade
e talento, tal qual poetas e prosadores.
Poesia e prosa são dois modos
de conhecer e expressar a riqueza da
experiência humana, vertentes
da literatura exercida com maestria
por poucos. E em qualquer seleção
dos escritores brasileiros que trafegaram
naturalmente entre as duas áreas,
o nome do joseense Cassiano Ricardo
é obrigatório.
Nascido no final do século XIX
Cassiano experimentou a transição
do Brasil agrário, escravocrata
e oligarca, para um país industrializado,
urbano e dominado por elites unificadas
no Estado nacional. A cidade de São
José dos Campos, na qual nasceu
em 1895, expressa exemplarmente este
percurso. Afinal, no ano da morte do
poeta e prosador, 1974, sua cidade natal
despontava como um dos principais pólos
do desenvolvimento industrial e tecnológico
brasileiro. Porém entre estes
extremos há um dinâmico
e rico processo histórico, em
que Cassiano Ricardo participou ativamente
como poeta, prosador e jornalista.
Na pequena São José dos
Campos do final do século XIX
e início do XX, Ricardo viveu
suas primeiras experiências intelectuais.
Filho do pequeno agricultor Francisco
Leite Machado e de Minervina Ricardo
Leite, Cassiano cursou o Grupo Escolar
Olímpio Catão e, fez o
ginásio em Jacareí, no
Colégio Nogueira da Gama. Ainda
em São José, Cassiano
e mais alguns amigos fundaram a revista
Íris, dedicada a análise
e divulgação de trabalhos
literários. Seu interesse precoce
por literatura, aos doze anos de idade,
está ligado as condições
intelectuais e sociais da produção
cultural do período. Em uma cidade
pequena, fundamentada na agricultura,
em particular o cultivo do café,
os únicos meios de estudo e divulgação
da literatura eram as reuniões
entre amigos e, a confecção
de revistas e jornais. Mais do que lucro
comercial, os jornais e revistas tinham
a função de criar o espaço
público propicio ao debate dos
grandes temas. Toda a cidade dotada
de uma camada intelectual e política,
tinha na imprensa o veículo de
expressão de idéias e
projetos políticos. A participação
em uma publicação inseria
o indivíduo no debate público,
dotando-o de respaldo social. A sobrevivência
de uma dada publicação
era o sinal de aprovação
das idéias defendidas pelo veículo
por pelo menos parcela da elite social
e política da localidade. Afinal
os pequenos jornais e revistas que proliferavam
nas cidades brasileiras no período,
somente poderiam sobreviver a partir
da colaboração financeira
da elite agrária, comercial e
política.
Temas polêmicos como a abolição
da escravatura e a troca da monarquia
pela República foram intensamente
debatidos em jornais e revistas. As
opiniões divergentes a respeito
destes temas na imprensa, por exemplo,
definiam a aglutinação
de grupos políticos por interesses
semelhantes, bem como a concorrência
e conflito com adversários de
perspectivas diferentes. A literatura
também era um meio de disputa
e conflito entre os indivíduos,
sendo entendida como um meio de interpretar
as características do país,
as relações amorosas e
sociais ou a melhor maneira de realizar
a arte. Exemplo maior da função
social e política da literatura,
além da cultural, foi a trajetória
de José de Alencar, escritor
e Ministro da Justiça, cujos
desafetos políticos eram invariavelmente
ceticos em relação a sua
obra. A revista Íris fundada
por Cassiano era o meio do jovem joseense
participar ativamente da opinião
pública. Sintonizado as tendências
literárias do período,
o escritor enveredou no estudo e composição
a partir de perspectiva parnasiana.
Antecipando a acuidade e objetividade
características de sua criatividade,
Cassiano já dedicava-se ao aprimoramento
e desenvolvimento do lirismo poético.
Mas a cidade de São José
do Campos se tornou pequena para o talento
e a ânsia de debate do jovem Cassiano
Ricardo. Em 1917 cursando a Faculdade
de Direito de São Paulo, lançou
a revista Panóplia, dedicada
a divulgação de produções
de cunho parnasiano. No mesmo ano lança
seu primeiro livro, a "Flauta de
Pã". Contudo os vínculos
com o parnasianismo já eram tênues.
Em 1922 participa da Semana de Arte
Moderna, articulando a fundação
da revista Novíssima. Apesar
de preconizar o rompimento com as formas
clássicas literárias,
o movimento modernista continha diversas
correntes ideológicas. Escritores
como Oswald Andrade e Mário de
Andrade eram simpatizantes da esquerda,
comprometidos com a valorização
da cultura brasileira de traços
antropofagicos desvinculada dos propósitos
conservadores das elites. Já
Cassiano Ricardo alinhou-se a um grupo
politicamente à direita, o movimento
Verde-amarelo, cujos participantes fundaram
o Grupo da Anta (1927), e defendiam
um nacionalismo conservador. Entre os
integrantes deste movimento estavam
Plínio Salgado, Raul Bopp, Menotti
del Picchia e Cândido Mota Filho.
Neste período de maior dedicação
ao modernismo, de 1922 a 1931, Cassiano
Ricardo produziu e editou as seguintes
obras: "Vamos Caçar Papagaios",
"Borrões de Verde Amarelo",
"Martim Cererê", e "Deixa
Estar Jacaré". Em 1922 inicia
suas atividades jornalísticas
fundando o jornal A Pátria com
André Carrazoni, no Rio Grande
do Sul. Após curta temporada
no sul retorna a São Paulo, passando
a colaborar no Correio Paulistano, do
qual foi redator até 1930.
A preocupação central
do trabalho de Cassiano Ricardo no período
passa a ser a brasilidade, investigando
os elementos capazes de apontar a constituição
e os traços marcantes do caráter
nacional. Defensor incansável
de suas idéias Ricardo imprimia
a sua produção a determinação
do argüidor incansável,
tornando-se debatedor fundamental do
quadro político e cultural brasileiro.
O talento desperto na revista Íris
passa a ser aplicado com freqüência
cada vez maior frente à opinião
pública. A busca da definição
das principais características
da formação nacional definiu
o desenvolvimento de sua prosa e poesia,
constituindo um estilo particular. Deste
modo durante os anos 20 e 30 seu vigor
crítico e polemico foi decisivo
tanto na elaboração de
sua obra literária, quanto na
ação jornalística.
Dois fatos fundamentais coroam a dedicação
de Cassiano Ricardo ao trabalho neste
período, a eleição
para a Academia Brasileira de Letras
em 1937 e a publicação
de "Marcha para Oeste" em
1940.
Provavelmente a experiência do
confronto entre duas realidades distintas
e próximas, da cidade pequena
vinculada a economia cafeeira e da capital
paulista em desenvolvimento, foi decisiva
para orientar seu trabalho na busca
da brasilidade. Dois brasis unidos numa
única realidade, cujos traços
comuns seriam a base de um desenvolvimento
singular. A inquietação
cultural e literária de Cassiano
Ricardo em torno deste objetivo vincula-se
ao caráter traumático
do povoamento do território que
constituiria o Brasil. Afinal as promessas
de modernização nacional
confrontavam-se com uma realidade contraditória.
O ideal da democracia republicana esbarrava
no domínio das oligarquias regionais,
a unidade nacional entrava em contradição
com a pluralidade regional, manifesta
no confronto litoral x sertão,
capital x interior, cuja expressão
maior foi Canudos. Outro problema fundamental
foi a herança da escravidão,
da reconciliação de indivíduos
divididos por diferenças étnicas,
culturais e financeiras. A este amalgama
contrapunha-se o exemplo das nações
européias, que apesar de dilaceradas
pela 1ª Guerra Mundial, estavam
consolidadas por elementos unificadores
como a língua, a história
e a cultura. Aliás a única
razão capaz de explicar a determinação
dos combatentes em sacrificar a vida
pela pátria. Portanto era necessário
delinear quais elementos do passado
permitiam entender a brasilidade unificadora
do próprio Brasil.
Sob esta perspectiva, a leitura da obra
de Euclides da Cunha, "Os Sertões",
forneceu os subsídios para a
orientação de suas investigações.
Isto pode ser confirmada na seguinte
afirmação:
"Outros gostarão dos heróis
rutilantes, ou dos heróis de
Carlyle. De mim, leio uma página
de Euclides da Cunha e só aí
descubro os meus heróis; mais
modestos, ignorados".1
A busca dos heróis anônimos
o estimulara a escrever "Marcha
para Oeste", ensaio literário
e sociológico de refinada elaboração,
obra maior de sua busca pelos elementos
constituintes da brasilidade. Além
do dialogo promovido com Euclides da
Cunha, em particular no confronto entre
o litoral e o sertão, esta obra
seleciona aspectos do debate público
sobre o desenvolvimento do país.
Entre os temas sociológicos e
históricos presentes em "Marcha
para Oeste", a discussão
racial, a unidade nacional comparada
a força das oligarquias regionais
e a expansão geográfica
através das bandeiras, tem destaque
significativo. A discussão sobre
a importância dos aspectos étnicos
e culturais pertinentes a portugueses,
brancos e índios para a formação
da nação, foram centrais
em importantes obras sobre o Brasil.
Por exemplo, na fundação
do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, sob patrocínio de
D. Pedro II, foi realizado um concurso
para determinar a singularidade do país,
norteando as pesquisas realizadas pelos
membros do instituto. O ensaio vencedor
foi o do historiador e diplomata brasileiro
Francisco Adolfo Varnhagen, "História
Geral do Brasil", o qual propunha
que o país somente poderia ser
compreendido através da soma
das características de três
raças: portuguesa, índia
e negra. A partir deste momento, as
principais interpretações
a respeito do Brasil até as primeiras
décadas do século XX,
buscavam no elemento étnico-cultural
a explicação da brasilidade,
seja lastimando a condição
de inferioridade imposta ao país
através desta união, seja
celebrando a democracia racial. Silvio
Romero, Nina Rodrigues, Alberto Torres
e Oliveira Viana são exemplos
de importantes pensadores brasileiros
que participaram ativamente deste debate.
Contudo o mais renomado estudo elaborado
sob esta perspectiva foi "Casa
Grande e Senzala" , de Gilberto
Freyre, cuja difusão colaborou
decisivamente para a fixação
do mito da democracia racial na década
de 1930. Enquanto Freyre preocupou-se
em descrever as relações
entre os negros e senhores da sociedade
escravocrata nordestina, pautada na
exploração da cana-de-açúcar,
Cassiano Ricardo preferiu concentrar-se
na mobilidade das bandeiras, que integrando
índios, brancos e negros, foi
crucial para a composição
territorial brasileira. Daí sua
preferencia pelo sertanejo, positivo,
expansivo, resultado das bandeiras paulistas
e sem as quais não existiria
o Brasil contemporâneo, contra
a urbanidade estática e arrogante
do litoral, incluindo a própria
sociedade açucareira de Freyre.
O amálgama da composição
étnica permitiu então
a organização, a expansão
pelo sertão e a fixação
rural, atribuída respectivamente
as contribuições particulares
do branco, do índio e do negro.
Isto explicaria a incrível expansão
territorial brasileira no período
colonial, num exemplo de integração
que deveria ser seguido pelas oligarquias
regionais, favorecendo a formação
de um verdadeiro Estado nacional. Aliás
as décadas de 20 e 30 expressam
em diversos setores da atividade humana
esta busca. Além do modernismo
de 1922, que buscou a expressão
da brasilidade nas artes e do qual Cassiano
Ricardo foi um dos principais atores,
há uma incrível efervescência
política voltada para a organização
de um Estado nacional mais forte, como
demonstra o confronto entre as oligarquias
regionais e o movimento tenentista.
"Marcha para Oeste" defini
as principais características
da brasilidade na perspectiva de Cassiano
Ricardo, portanto um Estado verdadeiramente
nacional deveria se fundamentar nesta
trajetória histórica.
Para solidificar e complementar a democracia
social e biológica, fundamentada
na expansão geográfica,
era necessário construir um Estado
que tornasse possível a unidade
nacional.
Contudo a luta de Cassiano em fixar
a bandeira como o elemento essencial
da expansão geográfica,
fundamentando a organização
do Estado nacional, revela o privilegiar
dos interesses paulistas. Afinal se
a busca do desenvolvimento de uma modernidade
pautada nos valores nacionais estimulou
o movimento modernista de 1922, o tenentismo,
a Coluna Prestes e a ascensão
Getúlio Vargas ao poder para
unificar as elites no Estado nacional,
não apagou os pontos de vista
regionais. E aí, "Marcha
para Oeste", revela o interesse
em defender São Paulo. Em 1932
São Paulo havia rebelado-se através
da Revolução Constitucionalista,
buscando recuperar o poder perdido com
o fim da política café-com-leite.
A ênfase do poeta e prosador em
situar os elementos fundantes da brasilidade
a partir das bandeiras paulistas, revela
o propósito de manter São
Paulo na liderança e controle
do Estado Nacional. Somente isto explica
a centralização das principais
características da brasilidade
na atuação das bandeiras
paulistas, atribuindo as elites paulistas
a missão histórica de
comandar a modernização
nacional, dando continuidade a trajetória
bandeirante e cafeeira.
Nada mais natural para um paulista do
interior, nascido em uma cidade cujos
traços históricos remetiam
ao ideal da locomotiva paulista. Resultado
da exploração do interior
pelos primeiros habitantes da província,
situada no principal polo cafeeiro do
século XIX, o Vale do Paraíba,
São José dos Campos resultava
dos esforços de expansão
e fixação realizados no
período colonial e imperial,
do mesmo movimento que levou a constituição
das bandeiras. A café era outro
símbolo de progresso social,
que marcou a história da então
pequena cidade do interior, afinal a
estrada de ferro só atingiu São
José dos Campos e região
em decorrência da necessidade
de escoamento da produção
cafeeira. Deste modo a concepção
das bases do desenvolvimento nacional
a partir de São Paulo, aparecia
como conseqüência de uma
trajetória histórica capaz
de sustentar o crescimento do país.
Afinal as bandeiras paulistas permitiram
o crescimento geográfico brasileiro,
o café era a base da economia
nacional e, também, gerou as
fortunas que então financiavam
o desenvolvimento industrial da capital
paulista desde a década de 1910.
A partir de 1940 os caminhos seguidos
por Cassiano Ricardo o conduziram a
cidade do Rio de Janeiro, na qual residiu
até sua morte, para dirigir o
jornal "A Manhã" até
o ano de 1947. Era portanto um homem
incorporado aos acontecimentos, participando
ativamente do debate político
e cultural. O olhar para o passado em
"Marcha para Oeste", ou a
eleição para a Academia
Brasileira de Letras não estagnaram
sua febril atividade. Diversas obras
foram elaboradas pelo poeta e prosador
no intuito de analisar as conseqüências
da Semana de 22, particularmente as
possibilidades de novas experiências
poéticas. Entre estas obras destacam-se
"22 e a Poesia de hoje", "Algumas
Reflexões sobre a Poética
de Vanguarda", "Poesia Praxis
22" , "Jeremias Sem-Chorar".
Despido de preconceitos formais, pautado
no experimentalismo que levou a sua
adesão ao modernismo, Cassiano
trafegou com desenvoltura pelas diversas
correntes poéticas emergentes
do caldo modernista, como o concretismo.
Neste sentido o poeta aplicou-se em
todas as atividades ligadas à
fluição estética.
Além de manter o gosto pela polêmica,
exercendo a crítica da produção
cultural até o ano de sua morte,
Cassiano Ricardo dedicou-se a produzir
através das novas técnicas
poéticas.
Essa dedicação intensa
e renovadora à poesia após
os anos 40, não conduziu o poeta
ao isolamento. Ao contrário,
sua dedicação resultou
do contanto com os modernos meios de
comunicação de massas,
propiciada primeiro no jornalismo e
depois, no acompanhamento do advento
do rádio na década de
1930 e da televisão na década
de 1950. Cassiano Ricardo experimentou
o aumento do acesso à informação,
aplicando-a à poesia no desenvolvimento
de novas técnicas de composição,
tornando a palavra um fim, ou seja,
ultrapassando a função
da palavra como invólucro da
mensagem.
Esta postura vinculada a vontade de
sempre inovar, de potencializar a poesia
como um modo de conhecimento, decepcionou-se
com a modernidade. De certo modo, o
horror e a desilusão experimentadas
pelos modernistas europeus durante a
1ª Guerra Mundial e depois nos
totalitarismos que provocaram a 2ª
Guerra Mundial, foram peculiares, também,
à trajetória de Cassiano
Ricardo. Afinal as promessas de autonomia
nacional através da modernização
industrial e social não estavam
sendo realizadas plenamente, especialmente
quanto as relações humanas.
O poeta desilude-se com a coisificação
do homem imposta pelas relações
modernas. O ser humano havia tornado-se
apenas uma parte da engrenagem social,
a máquina, a performance substituíram
a humanidade. Os valores dilaceram-se
colocando opções terríveis
de sobrevivência. Outro aspecto
da modernidade que o angustiava era
a possibilidade do confronto nuclear
entre os EUA e a URSS. Tragédia
universal resultante do próprio
desencantamento do mundo, a tecnologia
e seus efeitos substituíam mais
uma vez a coerência, o bom senso.
O poeta revela neste ciclo, que poderia
ser denominado de "diálogo
com o mundo" , uma poesia da existência,
nostalgia de uma promessa não
realizada. Uma esfera de valores considerados
essenciais à felicidade humana
no passado, mediada por certos padrões
culturais, havia desmoronado e, infelizmente,
restaram distorções, rupturas
negativas no plano social e pessoal.
O desencantamento de um mundo que perdeu
suas referencias históricas,
sociais e culturais pode ser remetida
a própria terra natal do poeta.
Afinal a cidade de São José
dos Campos transforma-se em um centro
industrial e tecnológico, a partir
do impacto social da modernidade que
angustiava Cassiano Ricardo. As relações
pessoais e a tradição
que caracterizavam a cidade na juventude
de Cassiano, são substituídas
rapidamente por um desenvolvimento acelerado,
trazendo os problemas existenciais e
sociais que o angustiaram. A impessoalidade
das relações, a violência
e o ritmo frenético demarcariam
o desenvolvimento de São José
dos Campos, a partir da segunda metade
do século XX. Daí o choque
do impacto da modernidade para Cassiano
Ricardo, cuja adesão ao modernismo
implica na reflexão sobre as
conseqüências da modernidade.
Resultam deste ciclo de diálogo
com o mundo obras como "Poemas
Murais", "Arranha-Céu
de Vidro", "O Sangue das Horas",
e os destacados poemas "Elegia",
"Musa Paradisíaca",
"Eu no Barco de Ulisses",
"João Torto e a Fábula".
Mas apesar das adversidades Cassiano
Ricardo considera a possibilidade de
um futuro melhor:
"Há em tudo, nas letras,
nas artes, nas ciências, um impulso
de agressividade indisfarçável.
Intricada problemática que é
tormento e deslumbramento - a um só
tempo - para todos nós. Francamente,
entre a pomba branca de São José
dos Campos de minha infância e
a bomba nuclear, o mundo de ontem teria
sido melhor que o dos nossos dias, no
planeta onde agora os ódios raciais
e ideológicos não nos
permitam o mínimo de sossego.
Mesmo com a conquista da Lua, o Mar
da Serenidade que lá existe não
nos deu a serenidade que necessitamos
para poder trabalhar e viver. Os homens
práticos é que viraram
lunáticos, não mais os
poetas e os loucos como se dizia quando
muito antes de Apolo, a lua tinha segredos
e até uma face oculta. Mas, vale
a pena tanta maravilha, quando aqui
em baixo a miopia e a fome ocupam três
quartas partes do globo? O problema
é muito grave, por que já
se tornou um dilema de sabor manequeista.
Isto é, o homem está de
novo num instante de decisão
entre o bem e o mal.
Mas, entre o Brasil de ontem e o de
ontem, o de hoje é que prefiro,
evidentemente, o que me vem da Semana
de Arte Moderna e que tem, sem dúvida,
uma palavra nova a dizer ao Universo.
Aqui está a elaboração
de um mundo novo, sem preconceito de
raças, de credo, cor, e de origem
social. O brasileiro será o homem
"síntese", aludindo
uma "raça cósmica".
"Raça cósmica que
coincide exatamente com a era cósmica
iniciada pela ciência e tecnologia.
E mesmo por que somos um dos poucos
países cósmicos do planeta.
Acredito que a máquina não
nos suprima as relações
líricas com a natureza."
O intenso experimentalismo, a constante
inovação marcaram o trabalho
de Cassiano Ricardo. Sua produção
é caracterizada exatamente pela
vontade de estar explorando todas as
possibilidades líricas ensejadas
no desenvolvimento de seu trabalho.
O sucesso de Cassiano Ricardo resultou
portanto da soma de sua persistência
e talento. Suas obras foram traduzidas
para o italiano, espanhol, inglês,
húngaro, holandês e servo-croata.
Além de jornalista, poeta, prosador
e pertencer a Academia Brasileira de
Letras, Cassiano Ricardo fez parte da
Academia Paulista de Letras e ao Conselho
Federal de Cultura. O valor de sua obra
para a literatura brasileira o elevou
a condição de imortal
antes de seu falecimento, que ocorreu
à 14 de janeiro de 1974, na cidade
do Rio de Janeiro.
BIBLIOGRAFIA
CORRÊA,
Nereu. Cassiano Ricardo: o prosador
e o poeta. São Paulo. Edição:
Comissão Estadual de Cultura.
1970.
JUNIOR,
Agê. São José dos
Campos e sua História. São
José dos Campos. Edição:
Prefeitura Municipal de São José
dos Campos. 1979.
LENHARO,
A. Sacralização da política.
Campinas: Papirus, 1989.
RICARDO,
Cassiano. Marcha para Oeste. S/D