Francisco
Sodero Toledo
A
comunicação, via terrestre,
entre o litoral e o interior do centro-sul
brasileiro, passando pelo Vale do Paraíba,
apresentava grandes dificuldades para
os viajantes. Era necessário
vencer, por duas vezes, os grandes obstáculos
naturais. Primeiro, os contrafortes
da Serra do Mar, e, depois, os contrafortes
da Serra da Mantiqueira, verdadeiras
muralhas que exigiam tempo e grande
esforços para serem transpostas.
Os que partiam do Rio de Janeiro para
chegar às minas gerais no início
do século XVIII levavam, como
conta Antonil, "menos de trinta
dias, marchando de sol a sol... porém
raras vêzes sucede poderem seguir
esta marcha, por ser o caminho mais
áspero que os dos paulistas.
(Antonil, 1955, 217-218)
Os caminhos apresentavam verdadeiros
obstáculos. Em Paraty as dificuldades
em transportar mercadorias "serra
acima" eram tantas, como está
registrado no diário da viagem
do futuro Conde de Assumar, Dom Pedro
de Almeida Portugal, escrito em 1717,
que a serra " por ser tão
aspera não podem subir cavallos
carregados". As mercadorias eram
conduzidas pelas próprias pessoas
ou por escravos contratados para tal
fim. (in Reis, 1971,26) Na planície
atravessada pelo Rio Paraíba,
a partir de Lorena até a serra
da Mantiqueira, "pelas cinco serras
muito altas, que parecem morros, que
o ouro tem no caminho, para que não
cheguem lá os mineiros, gastam-se
três dias até o jantar.
Daqui começam a passar o ribeiro,
que chamam Passa Vinte, porque vinte
vezes se passa; e se sobe as serras
sobreditas; para passar as quais se
descarregam as cavalgaduras, pelos grandes
riscos dos despenhadeiros, que se encontram:
e assim gastam dois dias em passar com
grande dificuldade estas serras;"
(Antonil, 1955, 213-214)
Somente a ambição pelas
riquezas auríferas podem dar
explicação pelo intenso
povoamento da região das minas
gerais a partir de suas descobertas
na última década do século
XVII. Sobre a corrida para o ouro Antonil,
astuto observador desse tempo, escreveu
que: " A sede insaciável
do ouro estimulou a tantos deixarem
suas terras, e a meterem-se por caminhos
tão ásperos, como são
os das minas..." ( Antonil, 1955,
185)
Ao vencer as asperezas dos caminhos
os bandeirantes, aventureiros e pessoas
das mais diversas origens e procedências
fizeram com que aumentasse a importância
da região do Vale do Paraíba
no contexto colonial brasileiro. Tudo
se prendia a circulação
de pessoas e de mercadorias para as
áreas mineradoras. Primeiro como
via de penetração, depois,
como passagem obrigatória de
ligação. A vida sócio-econômica
refletia diretamente as condições
criadas pelas relações
com o litoral e as minas. O Caminho
do ouro dava o sentido a essa organização.
Era o único autorizado a transportar
qualquer mercadoria para a região
mineira e o ouro proveniente dela para
o Rio de Janeiro, via Paraty. Caminhos
que apesar de penosos, apesar de longos,
eram caminhos cheios de vida, cheios
de movimento. Eram percorridos incessantemente
por levas de forasteiros que iam se
instalar-se nas minas, bem como por
barulhentas tropas que transportavam
diferentes mercadorias, por mercadores
que levavam às minas gerais tudo
aquilo que suas populações
necessitavam.
Estudar as dificuldades de comunicação
na História Regional, via caminho
do ouro, no período colonial,
requer a busca do saber em várias
fontes acompanhada, como se pretende
expor neste relato, do sabor de experimentar
as suas asperezas.
I
- DAS TRILHAS INDÍGENAS AO CAMINHO
DO OURO
O
Caminho Velho
Garganta
de Paraty
O
denominado "Caminho Velho"
foi o primeiro caminho utilizado para
ligar o litoral fluminense ao interior
do país, passando pela região
do Vale do Paraiba. Foi aberto na segunda
metade do século XVI, pelos colonizadores
portugueses, aproveitando a velha "trilha
dos Guaianás", percorrida
pelos índios em suas movimentações
pela área. O objetivo dos europeus
era encontrar metais preciosos, aprisionar
índios e combater os franceses
e seus aliados.
O primitivo caminho iniciava-se na margem
esquerda do rio Parati-guaçu.
Dali subia até encontrar o primeiro
contraforte da serra do Mar, onde existia
um vale que os índios chamavam
de Toca da Onça. Continuando
a subida, ia a trilha até uma
grande pedra redonda, onde hoje existe
a Capela de Nossa Senhora da Penha.
Contornando o pedregulho, o caminho
continuava por outro vale, matas virgens,
até chegar ao alto da cordilheira.
Ao transpor a serra, pela garganta de
Paraty, passava por um pouso denominado
Facão, que deu origem à
atual cidade de Cunha. A partir de então
começava a descida em direção
ao vale.
A primeira penetração
dos homens brancos que se tem notícia
ocorreu em 14 de outubro de 1597. Foi
a expedição chefiada por
Martim Corrêa de Sá. Esta
entrada era composta por cerca de 700
portugueses e dois mil índios.
Ela partiu da cidade do Rio de Janeiro
para dar combate aos Tamoios que haviam
se aliado aos franceses na luta contra
os portugueses, e para tentar localizar
as minas de Sabaráboçu.
Os participantes passaram por Paraty,
galgaram a serra do Mar e atingiram
o Facão, chegando a Taubaté.
De lá partiram, passando pela
garganta do Piracuama e Capivari, dobrando
a Mantiqueira em direção
à região aurífera.
Por este tempo, paratienses e vicentinos,
por mútuo interesse, começaram
a modificar, aos poucos, o seu traçado
primitivo. As distâncias foram
diminuídas, o leito melhorado,
facilitando o seu trajeto.
Em 1650 o trajeto sofreu alteração.
Nesse ano Domingos Velho Cabral, morador
de Guaratinguetá, declara ter
aberto caminho desta Vila para o mar,
estabelecendo ligação
do Facão diretamente com Guaratinguetá,
diminuindo a distância a ser percorrida
entre as duas localidades. A partir
de então, passam a existir duas
ramificações ligando o
litoral ao vale, aproveitando a trilha
dos Guaianás:
a mais antiga, cruzava o rio Paraitinga
dirigindo-se para Taubaté, retrocedendo
depois para Pindamonhangaba, Guaratinguetá,
Guaypacaré, para atingir a garganta
do Embaú;
- a mais nova passava pelo território
que pertenceu à Freguesia do
Facão, vencia a serra da Quebra-Cangalha
e atingia Guaratinguetá, de onde
se dirigia para Guaypacaré e
a garganta do Embaú.

Garganta
do Embaú ao amanhecer
Estes
roteiros foram utilizados durante a
última década do século
XVII pelas expedições
que partiam em busca do ouro. O governador
do Rio de Janeiro, Artur de Sá,
o percorreu em 1699. O relato nos é
fornecido por Antonil ao descrever o
"Roteiro do caminho velho da cidade
do Rio de Janeiro para as Minas Gerais
do Cataguas, e do Rio das Velhas":
"Em
menos de trinta dias, marchando de sol
a sol, podem chegar os que partem da
cidade do Rio e Janeiro às Minas
Gerais; porém raras vezes sucede
poderem seguir esta marcha, por ser
o caminho mais áspero que o dos
paulistas. E por relação
de quem andou por ele em companhia do
Governados Artur de Sá, é
o seguinte. Partindo aos 23 de Agosto
da cidade do Rio de Janeiro foram a
Parati, de Parati a Taubaté,
de Taubaté a Pindamonhangaba,
de Pindamonhangaba a Guaratinguetá,
de Guaratinguetá às roças
de Garcia Rodrigues, destas roças
ao Ribeirão. E do Ribeirão
com oito dias mais de sol a sol chegaram
ao Rio das Velhas aos 29 de Novembro:
havendo parado no caminho oito dias
em Parati, dezoito em Taubaté,
dois em Guaratinguetá, dois nas
roças de Garcia Rodrigues, e
vinte e seis no Ribeirão. Que
por todos são cinqüenta
e seis dias. E tirando estes de noventa
e nove, que contam desde 23 de Agosto
até 29 de Novembro, vieram a
gastar neste caminho não mais
que quarenta e três dias."
(Antonil, 1955, 217-218)
O
Caminho Velho desempenhou importante
função histórica
pois facilitou o devassamento, o povoamento
e a colonização de importante
área geográfica. Além
disso, criou as condições
para a descoberta do ouro no final do
século XVII. Ao encerrar os dois
primeiros séculos da colonização
portuguesa a região por onde
passava contava com:
três Vilas: Taubaté (1645),
Guaratinguetá (1651), Paraty
(1667);
dois Patrimônios Religiosos: Pindamonhangaba
e Tremembé;
três bairros rurais: Facão,
Boa Vista e Campo Alegre, todos localizados
na Serra do Mar.
O Caminho do Ouro
Com a descoberta do ouro em Minas Gerais,
na última década do século
XVII, a velha trilha dos Guaianás,
até então chamada de Caminho
da Serra, no trecho Paraty-Cunha, ou
Caminho Velho, passou a ser conhecida
como Caminho do Ouro, Trilha do Ouro
e, por fim, Estrada Real. A velha trilha
transformou-se em estrada oficial, única
via por onde a Coroa portuguesa autorizava
o transporte das riquezas extraídas.
Todo o transporte de ouro e de metais
preciosos das "minas gerais"
passou a ser feito por este caminho
até Paraty, e, por via marítima,
daquele porto fluminense à cidade
do Rio de Janeiro, de onde seguia para
o exterior.
Com a intensificação da
corrida ao ouro (1693-1711), aumentou
a preocupação com a sua
melhoria e manutenção.
O caminho sofreu novas modificações
e obras que melhoraram o seu traçado,
como o aterro de vários atoleiros
e a construção de rústicas
pontes sobre os cursos d'água.
Nova tecnologia passou a ser empregada,
utilizando-se piso de pedra. É
o caminho de pedra que se impõe
para servir tanto à economia
do ouro, durante o século XVIII,
como à economia do café,
no século XIX. Em toda a área
eram realizadas contínuas obras
de melhorias e manutenção
da estrada pavimentada por pedras retiradas
dos rios e lapidadas em cantaria rudimentar
contra a erosão pluvial. A preocupação
com os caminhos de pedra pode ser aquilatada
pelo desembarque, em 1714, do engenheiro
militar Brigadeiro João Massé,
considerado o melhor profissional no
ofício mandado por Portugal,
responsável por várias
fortificações no litoral
brasileiro. As perfeitas condições
de uso do caminho, principalmente nas
áreas serranas, era preocupação
permanente, dado o fato de que ela condicionava
o transporte das riquezas auríferas,
o comércio entre diferentes vilas
e freguesias a que servia, além
de ser o acesso a todos os produtos
manufaturados que entravam pelo litoral
fluminense.
Durante o século XVIII sua história
esteve sempre ligada à circulação
e ao controle das riquezas minerais
provenientes das Minas Gerais. No início,
entre os anos
de 1695 a 1703, todo o ouro era manipulado
na Vila de Taubaté, para depois
ser encaminhado ao Reino, via Paraty.
A partir de 1704 o ouro passou a ser
cunhado diretamente em Paraty, aumentando
a importância desta Vila do litoral
e do caminho que levava às minas.
O seu itinerário era difícil
de ser percorrido. Inicialmente, seguia-se
pela vereda que ligava a baía
da Guanabara ao porto de Sepetiba, onde
se tomavam as embarcações
que se dirigiam para a Vila de N. Sa.
dos Remédios de Parati. Durante
a viagem marítima as riquezas
minerais transportadas ficavam sujeitas
à carga dos "quintos reais",
ao assalto dos navios piratas que rondavam
a mencionada rota e as dificuldades
naturais desta travessia. A partir de
Paraty, na viagem por terra, os transeuntes
tinham que vencer, por duas vezes, os
grandes obstáculos naturais.
Primeiro, os contrafortes da Serra do
Mar, e, depois, os contrafortes da Serra
da Mantiqueira, verdadeiras muralhas
que exigiam tempo e grandes esforços
para serem transpostas. Os que partiam
do Rio de Janeiro para chegar às
minas gerais levavam, no início
deste século "menos de trinta
dias, marchando de sol a sol".
Como escreve Antonil, "porém
raras vêzes sucede poderem seguir
esta marcha, por ser o caminho mais
áspero que o dos paulistas".
Segundo o mesmo Antonil, o Governador
Artur de Sá, fez o seguinte itinerário,
em 1699, do Rio de Janeiro para Minas
Gerais:
"Partindo
aos 23 de agôsto da cidade do
Rio de Janeiro foram a Parati. De Parati
a Taubaté. De Taubaté
a Pindamonhangaba. De Pindamonhangaba
a Guaratinguetá. De Guaratinguetá
às roças de Garcia Rodrigues.
Destas roças ao Ribeirão.
E do Ribeirão, com oito dias
mais de sol a sol, chegaram ao rio das
Velhas aos 29 de novembro, havendo parado
no caminho oito dias em Parati, dezoito
em Taubaté, dous em Guaratinguetá,
dous na roças de Garcia Rodrigues
e vinte e seis no Ribeirão, que
por todos são cinqüenta
e seis dias. E, tirando êstes
de noventa e nove, que se contam desde
23 de agôsto até 29 de
novembro, vieram a gastar neste caminho
não mais que quarenta e três
dias." (Antonil, 1955, 217-218
)
As dificuldades em transportar as mercadorias
"serra acima" proporcionaram
o aparecimento de muitas atividades
e negócios. No Diário
da viagem do futuro Conde de Assumar,
Dom Pedro de Almeida Portugal, escrito
em 1717, está registrado que:
" ...fomos jantar a villa de
Paraty em caza do Capitão Lourenço
Carvalho que nos regalou magnificamente.
Elle... he muy rico, e poderozo; porque
se acha com trezentos negros, que lhe
adquirem grande cabedal com a condução
das cargas, em que continuadamente andão
serra asssima, q. Vay a sair a Villa
de Guaratimgueta; que por ser tão
aspera não podem subir cavallos
carregados, e lhes he preciso aos viadantes
valerse desse meyo para poder seguir
a sua viagem, para as Minas"
( In Reis, 1971, 26)
Santos,
Márcio. Estradas Reais - Introdução
ao estudo dos caminhos do ouro e do
diamante no Brasil. Belo Horizonte,
2001. Edit. Estrada Real. P. 20
A
situação favorável
mudou com a construção
de um novo caminho que ligava diretamente
a cidade do Rio de Janeiro à
região aurífera. Ele foi
construído por Garcia Paes Leme,
entre os anos de 1698 a 1711. Apresentava
vantagem, se comparado ao trecho de
Paraty, pois reduzia a menos da terça
parte o tempo do trajeto, tinha menos
rios, muito menos serrarias para transpor
e deixavam de existir os perigos e os
incômodos do trecho da viagem
por mar. Além de que, para as
autoridades coloniais, significava um
meio de se povoar os sertões
e de assegurar que o ouro procedido
dos quintos não corresse o risco
de passar por mar e ser tomado de assalto
por piratas, além de permitir
receber socorro caso a sede da colônia
viesse a ser invadida por estrangeiros.
Desde então, o ouro passou a
ser transportado diretamente das "minas
gerais" para o Rio de Janeiro pelo
Caminho Novo de Garcia Paes, atravessando
território fluminense e mineiro.
No ano de 1710 o governo português
determinou o fechamento da casa de fundição
de Paraty. Mesmo assim, o velho caminho
do ouro continuou a ser usado, em função
da infra-estrutura que havia formado,
para transportar o ouro proveniente
das minas do centro-oeste do país
e, para facilitar a comunicação
do interior com o litoral. Assim aconteceu
em 1710, quando os paulistas desceram
a serra em direção ao
litoral fluminense para guarnecerem
a região contra a possível
invasão das forças de
Duclerc, que havia aparecido com seus
navios na baía da Guanabara.
Neste mesmo ano os comerciantes do Rio
de Janeiro receberam autorização
para levar roupas e alimentos para Minas
Gerais pelo Caminho Velho devido ao
"lastimozo estado" e pela
"falta de mantimentos que se todo
se tem acabado" ao longo do Caminho
Novo. Se obrigavam, no entanto, "a
virem com o ouro pelo caminho novo a
registrar à casa do registro
de Parahiba..." ( D. I., vol LII,
200-202).
Em 1715, no entanto, os paratienses
suplicaram ao Rei e conseguiram a franquia
do Caminho Velho. Ou seja, o ouro das
Minas Gerais, quintado em Ouro Preto,
podia então ser transportado
por este caminho. Esta franquia durou
até o ano de 1733, quando foi
restabelecida a proibição
anteriormente vigente de acesso de Paraty
às minas. ( DI., vol.XLIV, 187/188)
Frei Agostinho de Santa Maria, em obra
editada em Lisboa, em 1723, fornece
informações sobre a continuidade
da importância do Caminho. Ao
escrever sobre a Vila de Paraty, diz
que:
"... dista do Rio quarenta legoas,
ao presente pequena povoação,
mas virá a ser muyto populosa
pelo muyto trato, & commercio, que
nela ha: porque he o porto de mar, aonde
acode a gente de todas aquellas Villas
do Certão, como são a
de Guaratingità, a de Pendá,
Munhangába, Thaubathé,
& Jacarehy. Todas estas Villas da
serra asima descem ao porto daquella
Villa a buscar o necessário,
como he o sal, o azeyte, & vinho,
& tudo o mais. Aqui descem varios
moradores das Minas do ouro com elle
a fazer negocio& por aqui sobem
muytos dos que vão do Rio de
Janeàro para as mesmas Minas"
Para se evitar os perigos do mar e dos
piratas, bem como os extravios do ouro
surgiu a preocupação das
autoridades portuguesas em obter uma
estrada que ligasse a Capitania de São
Paulo diretamente à do Rio de
Janeiro, por terra, pelo Vale do Paraíba.
Nascia, assim, um outro caminho, o "Caminho
Novo da Piedade", para ligar, por
via terestre, a Vila de Lorena à
cidade do Rio de Janeiro.
Ao final do século XVIII, com
o declínio da mineração
e a conclusão das obras no Caminho
Novo da Piedade, diminuiu o trânsito
de pessoas e a circulação
de riquezas e de mercadorias pelo Caminho
Velho. Com isto, tal caminho perdeu
sua importância, e a Vila de Paraty,
sem o movimento comercial e portuário,
entrou em processo de estagnação
econômica.
II - RESGATANDO O PASSADO,PROJETANDO
O FUTURO
O Caminho do Ouro foi o primeiro a ser
oficializado como Estrada Real pela
Coroa Portuguesa.
Estrada Real é a denominação
dada a um conjunto de estradas públicas,
de propriedade da Coroa Portuguesa e
depois do governo Imperial brasileiro
que ligavam os portos fluminenses à
região de exploração
do ouro e diamantes em Minas Gerais,
Mato Grosso e Goiás. Foram, a
partir do final do século XVII,
vias oficiais de acesso às regiões
mineradoras, e, no século XVIII,
as vias autorizadas a transportar os
metais preciosos das áreas de
mineração da colônia.
Os principais caminhos oficiais do ouro,
considerados como Estrada Real, que
durante o período de mineração
cortavam a região valeparaibana,
foram:
- o Caminho Velho ou Caminho do Ouro,
que ligava a cidade de Paraty à
região mineradora de Vila Rica
e Diamantina, passando pela área
paulista do Vale do Paraíba;
- o Caminho Novo de Garcia Rodrigues
Paes, que se estendia da cidade do Rio
de Janeiro à região mineradora,
passando por Vila Rica e de lá
até o Arraial do Tijuco, atual
Diamantina;
- O Caminho Novo da Piedade, que ligava
a Capitania de São Paulo a do
Rio de Janeiro, por via terrestre, passando
pela Fazenda Santa Cruz dos padres jesuítas.
Em
virtude da imprecisão histórica,
deixou-se de considerar uma outra importante
via colonial: o Caminho da Bahia. O
mais longo e melhor deles, como registra
Antonil. Ele ligava Salvador, sede do
Vice-Reino, às fazendas do rio
São Francisco, do rio das Velhas
e às áreas de mineração
em Minas Gerais. Nas primeiras décadas
do século XVIII, dentre as três
vias de acesso à região
mineira, o Caminho da Bahia liderou
com folga a concorrência com o
Caminho Velho e o Caminho Novo de Garcia
Paes. Teve importância decisiva
no abastecimento da Capitania de Minas
Gerais e na circulação
de bens e riquezas na época.
No entanto, temendo os descaminhos do
ouro, as autoridades portuguesas proibiram
a passagem do metal por esta via. O
que, evidentemente, apesar da ineficácia
das medidas coercitivas metropolitanas,
tirou-lhe o caráter de Estrada
Real.
As estradas reais começaram a
surgir no final do século XVII,
com os primeiros achados do ouro. Foram
ampliadas e dinamizados durante o século
XVIII devido à intensificação
da circulação de riquezas
no Brasil colônia. No século
seguinte, contribuíram para o
escoamento de produtos agrícolas,
especialmente do café, da região
do Vale do Paraíba.
Ao longo do período colonial
constituíram as únicas
vias autorizadas de acesso à
região da exploração
das reservas de ouro e de diamantes.
Eram caminhos oficiais. O nome Estrada
Real passou a designar, assim, aquelas
vias que, pela sua antigüidade,
importância e natureza oficial
eram propriedade da coroa metropolitana.
O interesse real, base da política
metropolitana para as regiões
mineradoras da colônia, era ter
as rotas de comunicação
rigorosamente controladas e fiscalizadas
para garantir a cobrança de impostos
e evitar os descaminhos das riquezas
auríferas. A circulação
de ouro e diamantes, das pessoas e de
tantas outras mercadorias eram obrigatoriamente
feitas por elas, constituindo crime
de lesa majestade a abertura de outros
caminhos.
Ao longo deles foram instalados os antigos
registros, construíram-se rancho
de tropas, vendas, oficinas; ergueram-se
capelas; fundaram-se povoados e vilas,
estimulados pela presença dos
viajantes e das riquezas que eram transportadas
pelos animais e escravos.
As vias reunidas sob a denominação
de Estrada Real tornaram-se o tronco
viário principal do centro-sul
do Brasil. A sua utilização
resultou na apropriação
do interior brasileiro e da sua integração
com a faixa litorânea. Além
de estimular o comércio e a economia
regional, formaram, com o passar dos
anos, o eixo histórico cultural
da nossa História e a força
centrípeta que foi capaz de alicerçar
os sentimentos de nacionalidade. Elas
foram, portanto, fundamentais na história
do povoamento e da colonização
de vastas regiões do território
brasileiro. Por meio delas se configurou
a base física e os fundamentos
da sociedade brasileira. Hoje, como
afirma o escritor Márcio Santos:
"os Caminhos que no passado constituíam
a chamada Estrada Real foram modificados
e degradados ao longo de três
séculos de urbanização
e um século de industrialização.
Longos trechos foram cobertos por rodovias
modernas ou por largas estradas ainda
não pavimentadas, mas que dão
passagem a ônibus e caminhões.
Outros trechos se perderam, desaparecendo
em meios a pastagens e matas secundárias.
Outros, ainda, se converteram em vias
urbanas das periferias das grandes cidades
que cresceram ao longo ou nas imediações
dos antigos caminhos." ( M.S, Estradas
Reais, 2001)
Estes caminhos começam a ser
redescobertos e revitalizados sob um
novo olhar, estendido sob o seu potencial
turístico, resgatando a História,
mapeando os primitivos trajetos, revelando
o rico patrimônio cultural e ambiental
destas antigas vias de circulação.
Um esforço conjunto do Instituto
Estrada Real, de Minas Gerais e do UNISAL,
em território paulista, contando
com o apoio de diversas outras instituições.
Um trabalho integrado, otimizando recursos,
buscando contribuir e oferecer modelos
alternativos na busca do desenvolvimento
regional sustentável.
A experiência com as aspereza
do Caminho do Ouro: a expedição
Cunha Paraty.
Após
as pesquisas bibliográficas e
documental, valendo-se de inúmeras
fontes disponíveis para o estudo
dos caminhos que compões a Estrada
Real foi organizada uma expedição
para conhecer e avaliar pela própria
experiência o Caminho do Ouro.
Partimos no dia 22 de abril de 2005
da cidade de Cunha, com uma equipe*
de 16 pessoas, com o objetivo explorar,
pesquisar e estudar o "Caminho
do Ouro" e seu entorno, em seu
trecho inicial e ainda intacto, de Paraty
a alto da serra, nas imediações
da Pedra da Macela, no município
de Cunha.
O grupo reuniu-se partiu de carro em
frente da matriz de Nossa Senhora da
Conceição de Cunha, às
7 horas. Da imediações
da Pedra da Macela, às 7,30 partimos
a pé em direção
ao Caminho do Ouro percorrendo uma outra
antiga trilha, provavelmente, utilizada,
como indica os vestígios encontrados
e documentados, de passagem para os
descaminho do ouro. Ao sair dessa primeira
trilha, subiu-se um morro e chegamos
ao cume, a uma altitude de 1182m. De
lá iniciou-se a descida. Para
a surpresa e emoção dos
participantes foram aparecendo os primeiros
sinais do antigo Caminho do Ouro, todo
de pedra, construído no ano de
1714. Uma estrada larga, atingindo de
5 a 6 m. de largura, toda calcada,com
pedras irregulares, tendo o seu leito
central rebaixado para facilitar o escoamento
das águas. Para protegê-la
da erosão foram construídos
muros de arrimo de ambos os lados, principalmente
para o lado dos precipícios.
De trecho em trecho, próximo
as curvas do caminho existem os "ladrões"
de água, todos calçados,
fazendo com que o excedente das chuvas
fossem desviados para locais determinados,
fora do leito normal. Para passar pelo
leito do rio, ainda no meio da serra,
existe uma ponte construída de
pedra, um verdadeiro monumento escondido
no meio da floresta.
Por volta das 15 horas, tendo perdido
a antiga trilha do Caminho do Ouro,
continuamos a descer por uma outra trilha,
em piores condições que
a primeira, chegando a Pedra Branca,
próximo a Paraty, às 17,30
horas. Estávamos a uma altitude
de 470m, ou seja, a 712 m. do ponto
de partida, no alto da serra.
Pode-se ao final da expedição
sentir e avaliar pela própria
experiência toda a dimensão
da "aspereza" do Caminho do
Ouro.
Referências:
Fontes
bibliográficas:
- ABREU, Capistrano de. Caminhos Antigos
e Povoamento do Brasil. 2a. ed., Rio
de Janeiro: Livraria Briguet, 1960.
- ANDREONI, João Antônio.
Cultura e Opulência do Brasil.
Salvador: Livraria Progresso Editora,
1955.
- BARROS, Armando Martins de . A História
como curso, povoamento como percurso,
os caminhos como discurso: Notas de
Paraty e seu Patrimônio. Paraty:
texto inédito apresentado no
Seminário: Paraty - Planejamento
e Patrimônio Mundial, em 01/12/2001.
- GURGEL, Heitor; AMARAL, Edelweiss.
Paraty, Caminho do Ouro. Rio de Janeiro:Livraria
São José, 1973.
-PASIN, José Luis. Vale do Paraíba
- Estrada Real, Caminhos e Roteiros.
Aparecida: Editôra Santuário,
2004.
- REIS, Paulo Pereira dos. Caminhos
de Penetração da Capitania
de São Paulo. In Anais do Museu
Paulista, São Paulo: USP, tomo
XXXI, 1982, p. 267-318.
SANTOS, Márcio. Estradas Reais:
Introdução ao Estudo dos
Caminhos do Ouro e dos Diamantes no
Brasil. Belo Horizonte: Estrada Real,
2001.
- SODERO TOLEDO, F. Outros Caminhos.
Vale do Paraíba, do regional
ao internacional, do global ao local.
São Paulo: Ed. Salesiana, 2001.
Fontes Webibiográficas
Http://www.valedoparaíba.com/artigos
Http:// www.cidadeshistoricas.art.br/paraty
www.valedoparaiba.com/terragente
www,cidadeshistóricas.art.br/paraty
www.caminhodoouro.com.br
Membros da expedição
Cunha-Paraty:
- Francisco Sodero Toledo : pesquisador
da Estrada Real(UNISAL) e organizador
- Rafael Dayni Spiridigliozzi : estudioso
e guia
- Julio Moreno : coordenador do núcleo
de pesquisa Estrada Real do UNISAL
- Henrique A. Prudente : membro do NP.ER.
do UNISAL
- Fernando Sodero Toledo : estudioso
- Carlos E. Mack : engenheiro de segurança
- Antônio Carlos França
: engenheiro, desenhista
- Paulo Armando Panunzio : estudioso
- Renato Saad Panunzio : estudioso
- Eriton Fortunato de Aquino : cinegrafista
da TV Canção Nova
- Ricardo de Oliveira Sá : cinegrafista
da TV Canção Nova
- Amanda Monteiro : secretária
de turismo de Cunha
- Francisco Laterza : estudioso
- Luciano dos Santos Teixeira: estudioso
- José Maria da Silva Leite :
guia
- Jair Alonso de Oliveira . participante.