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A
cidade de Taubaté-SP
fica no Vale do Paraíba,
distante 134 km de São
Paulo capital, situando-se
na margem da Rodovia Presidente
Dutra-estrada que liga Rio
a São Paulo.
As Figureiras de Taubaté
são assim denominadas
por serem mulheres, a maior
parte dos artesãos
. No entanto, atualmente,
há homens exercendo
o ofício. Estas mulheres
são exímias
na arte de esculpir em barro
cru obras que espelham o cotidiano
da vida do interior com seus
usos, tipos, costumes e temas
religiosos.
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Pavão.
Símbolo do folclore
de Taubaté
Frente Costa |
| Os
trabalhos de modelar pequenas
figuras iniciaram-se através
dos frades franciscanos do
Convento de Santa Clara, no
século XVII, que encomendavam
às mulheres, por ocasião
das festas natalinas, a confecção
de presépios com cenas
relativas ao nascimento de
Jesus: o Estábulo de
Belém, a Manjedoura,
São José, Nossa
Senhora, os Reis Magos, a
Estrela e os animais-burrico,
boi, vaca, carneiro ...
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Com
o tempo, com muita criatividade,
sensibilidade e humor, as
figureiras passaram a espelhar
em seus trabalhos outros temas.
Novos personagens surgiram
representados por pequenas
figuras sempre bem coloridas,
com dimensões entre
3 e 25 cm, retratando o cotidiano,
as profissões, as festas
religiosas, os animais e o
imaginário popular. |
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Assim
surgiram o Pavão (também
chamado de Galinho do céu),
a Chuva de Pavões,
o São Francisco com
os pássaros, Nossa
Senhora das Flores, Nossa
Senhora de Aparecida, e muitas
outras figuras. |
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As
figureiras modelam suas obras
usando barro que é
amassado delicadamente com
os dedos. Usam para dar acabamento
ferramentas improvisadas do
tipo: estiletes, facas, palitos,
hastes de bambu etc. Em algumas
figuras são aplicados
componentes, como arame e
outros materiais.
A maioria dos trabalhos são
esculturas de pequeno porte
e por esta razão não
necessitam ser levadas ao
forno para queimar, já
que se tratam de objetos decorativos,
que, pela sua natureza e utilização,
são pouco manuseados.Observamos
que o uso do barro cru não
traz maiores inconvenientes,
já que a relativa fragilidade
das peças não
é fator que mereça
preocupação.
Como se sabe, trabalhos com
argila somente se tornam duros
e pouco quebradiços
quando cozidos numa temperatura
superior a 500 ° C.
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As peças são
secas ao tempo, por cerca
de 24 horas. Em seguida, inicia-se
a decoração,
quando são pintadas,
nos mínimos detalhes,
com tintas comerciais do tipo,
acrilex, suvinil, pó
xadrez e similares.
Uma das características
do trabalho de todas as figureiras
são as cores vibrantes
das peças. Aplicam
muito um azul de tom forte,
amarelo, verde, branco, preto,
vermelho, prateado, dourado,
etc.
Os principais tipos e cenas
abordados pelas figureiras
são: O Pavão,
também chamado Galinho
do Céu, sob várias
formas e sua Chuva. A Galinha
d'Angola sozinha e na forma
de chuva, Arca de Noé,
os tipos regionais-lavadeiras,
passadeiras, jardineiros,
lenhadores, vendedores de
galinha, mulher alimentando
as galinhas com milho, mulher
socando o pilão, preta
velha, pescador, violeiro,
pedreiro, sanfoneiros, palhaço,
carro de boi; os animais-
bois, carneiros, raposas,
beija-flores, burrinho, galo,
galinha, pavão, onça,
joaninha e muitos outros;
as danças típicas-quadrilha,
bumba meu boi, da fita, grupos
de Moçambique, roda
de jongo, congadas, a folia
do divino e dos reis; os Santos-Nossa
Senhora das Flores, Nossa
Senhora da Aparecida, São
Francisco com os pássaros,
Sagrada Família e presépios
apresentados com variados
componentes e formas.
São modelados também
os personagens do Sítio
do Pica Pau Amarelo, de autoria
do escritor Monteiro Lobato,
que era taubateano- Emília,
Narizinho, Pedrinho, Dona
Benta, Visconde de Sabugosa,
Tia Anastácia e o Jeca-Tatu.
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Inicialmente,
eram feitas somente Chuvas
de Pássaros com pavõezinhos,
mas, atualmente, há
outras Chuvas, de Galinha
d'angola, de Bois, de Bumba,
de Pato, de Carneiro etc.
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O
Pavão, uma das primeiras
figuras criadas, que aliás
é o símbolo
do folclore de Taubaté,
inicialmente, tinha, como
cor predominante, o azul mas,
atualmente, é decorado
também com as cores-vermelho,
branco etc |
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Muitas
das figuras, como o Pavão,
a Galinha d'angola, as Chuvas,
os Presépios e outras,
são temas comuns modelados
por muitos dos artistas. Cada
obra, no entanto, tem características
próprias de criação
com sutis diferenças
entre umas e outras. Não
há entre os artesãos
nenhuma restrição,
pois ninguém se julga
dono, com exclusividade, de
uma imagem.
Em Taubaté os trabalhos
das figureiras são
encontrados, basicamente,
em dois lugares: na Casa do
Figureiro e nas proximidades,
na rua Imaculada Conceição,
no Alto de S ão João.
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A
Casa do Figureiro, uma espécie
de cooperativa, está
situada na rua dos Girassóis
60-Campos Elíseos-
Tel 0xx12 225 5154, CEP 12090-290.
Leva o nome de Maria da Conceição
Frutuoso Barbosa, falecida
em 1950, em homenagem à
religiosa que liderou a construção
da primitiva Capela da Imaculada
Conceição. |
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Lá
estão reunidos dezenas
de artesãos. Em out/01
eram aproximadamente 42: Alice,
Arlete, Benê, Décio,
Dri, Ismênia, Jana,
Jorginho, Josi, Mara, Nelson,Teça,
e muitas outras e outros.
No local, há um grande
salão onde são
expostas e comercializadas
as peças dos artistas.
Existe uma oficina que é
também aproveitada
para a realização
de cursos dirigidos para a
comunidade, ministrados pelo
SEBRAE, pela UNITAU-Universidade
de Taubaté, que ensina
inglês para que as figureiras
possam melhor atender aos
visitantes estrangeiros, e
pela SUTACO-Superintendência
do Trabalho Artesanal nas
Comunidades, órgão
do governo estadual que promove
e incentiva o artesanato paulistano.
Na
rua Imaculada residem as mais
antigas e conceituadas figureiras
da cidade. Destacam-se as
irmãs Maria Luiza Santos
Vieira, Cândida Santos
Vieira e Edith Santos Vieira,
esta última, já
falecida (1927-1998), que,
há cerca de 65 anos,
trabalham esculpindo figuras,
tendo aprendido a modelar
com o pai, a mãe e
tias. Elas residem, comercializam
suas peças e trabalham
numa simpática casa
situada na rua Imaculada n°
654. Num pequeno galpão,
nos fundos, produzem seus
trabalhos, juntamente com
outros componentes da família,
sobrinhos e afins que também
exercem o ofício: Eduardo,
Claudete, Thais, Silvia, Claudia,
Silvia Helena.
Recentemente, juntou-se, ao
grupo familiar, outro irmão.
Trata-se de José Domingos
que esculpi, principalmente,
figuras representativas do
cotidiano rural-lenhadores,
carro de boi, onça,
Jeca Tatu e outros tipos regionais.
É de autoria de Cândida,
a famosa figura do Pavão,
que é apresentada sob
várias formas: com
a cauda levantada, com a cauda
caída (pavoa), de relevo,
com penas arrepiadas, e pavão
recoberto, com penas de galinha,
bem como a Chuva de Pássaros.
A figura do Pavão foi
inspirada nos pavões
que existiam numa praça
da cidade e a chuva, ao observar
árvores com muitos
pássaros em seus galhos.
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Luiza
criou a Arca de Noé
e dezenas de profissionais-lavadeiras,
passadeiras, jardineiros,
lenhadores etc; danças-quadrilha,
da fita, moçambique,
o jongo, a folia do divino;
brinquedos-rodas pneu, gongorra
e outros.Edith criou fama
ao criar Nossa Senhora das
Flores, São Francisco
e fazer mini-presépios. |
Reside,
também na rua Imaculada
n° 298, a mais antiga
figureira Dona Idalina da
Costa Santos, nascida em 1914,
mãe de Ismênia
Aparecida dos Santos, atual
presidente da Casa do Figureiro
(out/01) e de Maria Alice
Santos de Oliveira, outra
filha também artista. |
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Outra
figureira residente na rua
Imaculada é Rita Huesca
Hidalgo (1942), que se assina
RHH, cuja casa é quase
vizinha à das três
irmãs acima referidas.Seu
filho Henrique Huesca Hidalgo
(1963), que se assina HHH
, também é artista,
bem como Ana Amélia
Huesca Hidalgo, outra filha. |
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Não
podem deixar de ser citadas,
outras famosas figureiras,
como Virginia Nogueira, conhecida
como Edwiges, já falecida,
que foi uma das primeiras
artistas a alcançar
fama nacional. Outros nomes
importantes são os
de Maria Eugênia Marcondes,
Anita da Silva Sampaio, Benedito
Gomes da Silva, Maria da Silva,
Anastácia Costa dos
Santos, Anastácia de
Oliveira, Sebastião
Oliveira conhecido como Padeiro
Oliveira, Bartholomeu Nogueira
(filho de Edwiges) e sua mulher
Maria Benedita Nogueira.
Os artesãos ligados
à Casa do Figureiro
e os da rua Imaculada possuem
uma convivência marcada
por grande amizade e camaradagem.
Quando algum recebe uma encomenda,
e não tem condições
de atender no prazo, repassa
parte ou tudo para um ou vários
companheiros. Certa ocasião,
um laboratório farmacêutico
encomendou cerca de 1500 figuras
de médicos, para presentear
participantes de um congresso,
tendo sido a encomenda dividida
entre vários artistas,
o que favoreceu o cumprimento
do prazo.
O barro usado na confecção
das peças é
obtido lá pelos lados
do Rio Itaim, que corre próximo
à cidade. Este mesmo
procedimento era adotado pela
Fábrica de Louça
Santa Cruz, durante muitos
anos uma das maiores indústrias
da cidade de Taubaté,
que chegou a ter 2200 empregados,
cujas atividades foram encerradas
em 1964.
O maior incentivador da arte
das Figureiras de Taubaté
foi o Professor Rossini Tavares
de Lima, falecido em 1987,
que dentre outras medidas
de incentivo e reconhecimento,
coordenou em 1964, no Parque
Água Branca em São
Paulo-SP, a primeira exposição
das Figureiras. Como singela
homenagem, as irmãs
Cândida e Luiza mantêm,
na parede da oficina, sua
foto emoldurada.
Anualmente, no dia 19 de agosto,
acontece na cidade de Taubaté
a Festa do Folclore do Bairro
da Imaculada, tradição
desse povo alegre, que remonta
há mais de 150 anos
. Na ocasião, apresentam-se
grupos folclóricos,
duplas sertanejas, quadrilhas,
espetáculos musicais
e outras manifestações
regionais, festivas e culturais. |
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A
princípio, eram confeccionados
presépios. Depois surgiu
o pavão, a chuva de
pavões, e outros temas
se foram seguindo. Hoje em
dia, existem muitas outras
criações. Alguns
artistas fazem o presépio
tradicional e nele colocam
chuvas. Por isso, existem
presépios com chuva
de vaquinhas, de patinhos,
de carneirinhos e por aí
vai. A sutileza e a ingenuidade
criativa não têm
limites. |
Muitas
vezes, surgem encomendas especiais,
feitas por colecionadores
do Brasil e do exterior. Certa
ocasião, pediram para
as três irmãs
uma Chuva d'Angola de maior
tamanho. Foi confeccionada
uma, com 121 galinhas, medindo
cerca de 1 metro de altura,
dimensão bem superior
às que normalmente
são feitas-25 cm de
altura com cerca de 20 galinhas. |
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Em
Taubaté, existem outros
artistas que trabalham com
o barro, fazendo peças
diferentes das tradicionais.Décio
de Carvalho Junior, filho
da figureira Teca, nascido
em 1969, é escultor.
Suas peças retratam
temas religiosos e regionais.
Faz também rostos e
bustos, tudo em terracota,
que é queimada no forno
existente na Casa do Figureiro,
sem esmaltação. |
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Esta
atividade artística,
existente desde o século
19, tem sido transmitida de
pais para filhos, através
das gerações,
permitindo que haja uma efetiva
preservação
desta original tradição
cultural, com raízes
bem brasileiras.
Deve ser observado que as
obras destes artistas preservam
verdadeiros tesouros de nossa
nacionalidade. É por
isto que vale a pena conhecer
e prestigiar os trabalhos
deste importante pólo
criativo da cultura popular
brasileira.
Pesquisa,Texto
e Fotos: Renato Wandeck
Referências Bibliograficas:
Revista Palavra. Nº 14,
junho 2000.
Casa Claudia-Artesãos
do Brasil. Ano 24 nº
464, 2000
Pavilhão da Criatividade:
Memorial da América
Latina:Brasil/Maureen Bisilliat,1999
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